A verdadeira bateria vem de dentro

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menina e violao-pola

As frases e os gestos são diários, quase onipresentes:

– Mãe, coloca meu iPad pra carregar?

– Filha, coloca meu iPhone pra carregar?

Pior é a histeria se a bateria está acabando ou, santo desastre batman nerd das trevas!, ela acabou. Parece que é o mundo que acaba junto. Talvez porque ele exista e aconteça cada vez mais, para os dependentes tecnológicos, dentro de uma telinha do que fora.

Implico com a palavra “carregar”, que é proferida como uma senha mágica pelos dependentes de todas as idades. Triste modernidade digital que empobreceu uma palavra outrora tão rica, bela, profunda. Lembro do poema de Drummond, “carrego comigo”*, sobre como ele leva dentro de si algo muito maior e vital que o embrulho que carrega pra lá e pra cá. Lembro do peso e fardo, tantas vezes, das batalhas e barreiras que nos obrigam, como Atlas, a carregar o mundo nas costas.

Lembro então de uma imagem narrada por uma mãe amiga, sobre a filha de 15 anos que chega do interior. A imagem de uma menina carregando um violão nas costas. Uma menina trazendo a música, mais que isso, vida real (e tantos sonhos!) nas costas. Isso que é carregar no melhor sentido da palavra! Portar, transportar, trazer! Trazer um presente, verdadeiro tesouro. Não há bateria mais bonita e valiosa para essa menina que a vontade de tocar, fazer música, talvez cantar também, até gritar, mas tudo ligado à magia das canções.

E quem sabe ela não crie e componha suas próprias canções, atitude mil anos luz à frente da passividade de apenas passar o dedo freneticamente em telinhas, pulando de site em site, mensagem em mensagem, foto em foto etc etc.

E poucas baterias são mais belas que as referências e inspirações que essa jovem roqueira revela carregar ao escrever seu autorretrato, na primeira redação que lhe pedi na vida: Mafalda, Cássia, Dandara, Chiquinha, Clarice.

E ela escreve com a mesma eletricidade e paixão de seu rock and roll mestre. Uma simples folha de papel de caderno vira partitura: “Olho para o lado e vejo uma pauta em branco pronta para as melodias serem marcadas. Observo para dentro e sinto guitarras e baterias na hora de serem tocadas pelas sete notas musicais…”, escreve, ou melhor, toca a menina nesta folha viva de sua redação-canção.

Ah, roqueira, e queria lhe dizer que esse texto foi rascunhado nas páginas da Rolling Stone com o Dave Grohl na capa, justo na edição com uma nota escolhendo como uma das melhores do ano uma banda brasileira que você descobriu lá no Rio Grande do Norte, Far From Alaska. Procurei no youtube (aí sim, pra isso os malditos aparelhinhos servem!), botei o play na canção com nome que mais cativou, Dino vs. Dino, e pluft!, quanta originalidade, delicadeza e fúria da vocalista! Bandaça!, e essa música me remeteu aos duelos dos bons e velhos faroestes, pela melodia e riffs do guitarrista, pelo clima da canção, pelo canto em inglês.

Far from Alaska, Longe do Alaska (nome tão certeiro quanto divertido), mais uma vez o rock and roll dispara e recarrega nossas energias para o grande show chamado vida ao vivo.

Continue carregando vida nas costas, moça e bote pra quebrar a lição de atitude que o punk rock lhe ensinou: do it yourself. Carregue-se de você mesma (sem deixar de beber em outras referências), faça você mesma!

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Boyhood – Sobre o tempo e os caminhos de todos nós

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bouhoodSe um filme pudesse ser traduzido em um álbum de fotografias, a captar a essência dos gestos e sentimentos das pessoas comuns, e dos instantes aparentemente banais mas decisivos de suas vidas -, este seria Boyhood, da infância à juventude, mais uma obra tão humana criada pelo sempre ousado e original diretor Richard Linklater. Depois de mostrar a evolução da relação (ao longo de anos e anos) de um par jovem, que se conhece em uma viagem de trem pela Europa (a excepcional trilogia Antes do amanhecer, Antes do anoitecer e Antes da meia-noite), o cineasta mais uma vez faz do tempo um personagem tão importante quanto os protagonistas desse filme-maratona, que acompanhou a história de uma família disfuncional por mais de uma década.

Captar a passagem do tempo, e como ele afeta a vida de gente como a gente. Contar as pequenas situações e histórias que acontecem com todos os que procuram viver, e tem consciência disso, e com os que apenas sobrevivem, aceitando o rolo compressor da rotina, obrigações e de muitas famílias. Mostrar os atos de coragem e resignação; as poucas vitórias e muitas quedas que vão se acumulando e podem nos oferecer a raridade de seguir um sonho ou esquecê-lo para sempre. Revelar aos poucos as pequenas e poderosas mudanças, tanto visuais como interiores que transformam nossas vidas. Tudo isso é alcançado, com rara delicadeza e emoção, contida mas intensa, em Boyhood, graças à genial ideia do diretor: filmar essa história um pouco a cada ano por 12 anos.

Richard filmou os mesmos atores por 12 anos mostrando as mudanças físicas das crianças – depois adolescentes e jovens; e do pai e mãe, casal separado, que envelhecem (belíssimas atuações de Ethan Hawke como o errante de emprego em emprego mas bom pai, e da mãe guerreira e professora feita por Patricia Arquette, que jamais encontra um bom companheiro, mas segue tentando, e no meio disso luta para criar seus filhos).

O projeto pra lá de arriscado (e se algum dos atores sofresse um acidente, abandonasse o filme ou morresse?) deu tanta sorte que contou até com o menino Ellar Coltrane, protagonista principal do filme, se tornando um adolescente e depois jovem com interpretação cada vez mais expressiva e cativante. Aliás, o hoje jovem ator Ellar encarnou com tanta verdade e naturalidade o filho mais novo do casal separado que parece encenar sua própria vida. Ou nossa própria vida, pois os problemas e dilemas, sorrisos e dores; escolhas, acertos e erros que acomete ele e sua família acontecem com todos nós.

Muitas vidas refletem-se no menino Mason (personagem de Ellar), apegado ao pai easy rider e alto astral mas ausente com seus empregos ou meros bicos em cidades distantes. No Mason que demora para se adaptar na nova escola e depois para se adequar às exigências de um sistema de ensino ultrapassado, que não valoriza seu talento e interesse pelas artes. No Mason que precisará de uma condução de um professor para não deixarem lhe tirar a paixão artística. No Mason que baterá cabeça com uma namorada bela mas egoísta e insegura que não o apoia muito em seus sonhos. No Mason que bate de frente com os péssimos padastros que sua mãe lhe oferece. No Mason que será confrontado, ao final da escola, com os caminhos que a sociedade quer lhe impor ou o que o seu coração artístico deseja.

Muitos vão se encontrar também na mãe que dá duro demais para arcar com todas as despesas de Mason e sua irmã. E no pai que nunca tem dinheiro para dar aos filhos, mas tem muito afeto e se importa com a educação dos meninos.

Será uma injustiça enorme o Oscar de melhor filme, direção e edição não ser dado a essa obra tão delicada e real quanto as nossas próprias. E isso Linklater e seu Boyhood conseguem sem apelar ao sentimentalismo e grandes dramas. Tudo no filme é uma pequena colcha caseira de pequenos gestos, fatos e mudanças. O resultado é arte e vida em estado puro, acontecendo com uma naturalidade e beleza que nos cativa desde as primeiras cenas. O resultado é o avesso da fantasia ou blockbuster apelativos típicos do cinema americano. O resultado é uma doce, dura e bela vida como ela é, e como ela pode ser, de acordo com a dimensão de nossas lutas e sonhos.

O resultado é, ao assistirmos Boyhood, tentarmos recordar os instantes e fatos aparentemente banais de nossas vidas que hoje percebemos terem sido decisivos para nos levar aonde estamos e ao que somos hoje:

“A vida é, de facto, “só isto” – este retrato de uma adolescência banal, marcado pela simplicidade das conversas encavacadas com a família ou dos primeiros beijos ou das primeiras bebedeiras, mas pode no entanto ser muito mais do que pode parecer. Basta parar e, mais do que olhar, ver. É a isso que Linklater nos desafia ao longo de quase três horas, rodadas em intervalos incrementais ao longo de doze anos: a ver cenas de uma vida familiar, banal. Porque é o tempo que dá ressonância às coisas, e o que agora nos parece descartável ou desinteressante pode, com o tempo, ganhar uma relevância completamente diferente. O verdadeiro tema de Boyhood é o tempo que passa, e como, ao passar, vai estratificando uma narrativa, uma personagem, uma identidade – as três horas do filme não só não são supérfluas como cristalizam a sua própria essência. Porque, ampliado para o écrã (tela) grande, visto com o recuo do tempo que passa, é o banal que faz de nós quem somos.

Linklater não está aqui para nos enfiar lições de moral pela goela abaixo nem para pintar as coisas de cores garridas: ninguém neste filme, a começar pelos pais divorciados (Arquette e o cúmplice Ethan Hawke), é santo, nunca ninguém disse que isto é fácil e a vida não vem com manual de instruções. É por isso que, chegados ao fim, temos a sensação de ter visto a vida como ela realmente é. E poucos – quase nenhum – filmes o mostraram com tanta e tão desarmante simplicidade.”

(Jorge Mourinha, jornal Público, Portugal)

Quando uma banda resgata o bar, as pessoas e a vida que mais amamos

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foo fighters

Raros são os que conseguem fazer um estádio lotado com dezenas de milhares de pessoas parecer uma celebração no bar junto dos amigos do peito ou da companheira amada. Raras são as estrelas desprovidas de egos e vaidades colossais, ou da necessidade doentia de precisarem parecer que são os maiores artistas ou ícones do planeta. Raro demais é Dave Grohl e seu Foo Fighters, que incendiaram e talvez, sobretudo, deixaram-se incendiar pelo mais que entusiasmado e participante público que abraçou o Morumbi na noite de ontem (23/01).

O que faz Dave é simplesmente entrar em um estádio e transformá-lo no bar que um dia mais amamos (sim, os melhores bares de rock, os mais aconchegantes e verdadeiros, pelo menos aqui em São Paulo, desapareceram há anos). No bar em que abrimos o coração com os melhores amigos (um de cada vez) e refletimos sobre essa maravilha e brutalidade chamada vida. No bar em que erguemos os braços e gritamos brindando coisas sérias ou sacanagens divertidas junto de antigos amigos desaparecidos nas brumas do tempo ou distâncias. No bar em que um dia beijamos pela primeira vez a mulher de nossa vida.

Dave só faz é cantar e tocar com fúria e paixão sua guitarra jedi; jedi porque azul, cor iluminada e clara do bem e dos sonhos; cor pura e bela como o mar, o céu e o sabre do guerreiro pacífico da velha saga do cinema. E com que fúria-entrega e paixão ele faz isso! Com que amor pelo que faz e pelo seu público! Mesmo estando um pouco abaixo de vozes mais belas e guitarristas mais criativos da história do rock, sua garra entrega tornam o show do Foo Figthers apaixonante. Uma tempestade elétrica de altos decibéis, canções envolventes (algumas verdadeiras congregações sublimes como My Hero e Best of You) e, não um detalhe pequeno, muita simpatia e autenticidade, pois Dave Grohl não é poser nem faz do palco uma sucessão de passos e gestos ensaiados como alguns mestres desse quesito (Bono por exemplo).

Dave (admitamos, a banda, mesmo sendo de alto nível, é apenas um complemento dele) torna-se o cara por “apenas” ir lá na frente, dar o sangue e ao mesmo tempo brincar e conversar com a multidão como se estivesse naquele velho bar escuro de tijolinhos e velhos posters na parede. O papo é tão alegre, divertido e sacana quanto profundo. Inúmeros palavrões convocam a massa a cantar algo e depois um homem feito e, sim, estrela do rock (sem querer demonstrar isso, não precisa) de repente se emociona com uma multidão que simplesmente não quer parar de cantar o coro no hino Best of You. Já na lista das maiores apresentações ao vivo de uma canção na história do rock, a massa e Dave redefiniram ontem no Morumbi com essa música o significado da palavra catarse.

Dave é o cara também por tocar em um show de dimensões colossais (pela massa, não pela parafernália cênica, sem exageros) como se estivesse no bar em que começou a tocar, em algum buraco acolhedor da gelada e cinzenta Seattle do final dos anos 80. Toca com uma alegria cativante e dá espaço para seus companheiros terem seus momentos de brilho no show. Talvez porque, como acredita minha mulher – fascinada pelo jeito sangue bom do cara – o Foo Fighters não se parece com tantas bandas de anos de estrada em que os caras só se juntam nos shows e depois, por não se suportarem, cada um vai pro seu canto. Não, Dave e seus parceiros de banda parecem mesmo serem próximos, saírem juntos com suas famílias ou apenas se encontrarem no bar para tomarem uma cerveja gelada e curtirem ou desabafarem juntos.

Os brothers do Foo Fighters ainda apresentam algo que pouquíssimas bandas oferecem: uma série generosa de covers, talvez porque não se esquecem dos garotos fanáticos por alguma banda que um dia foram, do sentimento tão gostoso que é um dia, quando jovem, conseguir reproduzir um canto, riff ou melodia de algum deus dos vocais, guitarra, baixo ou bateria. Por isso ontem tivemos trechos de Tom Sawyer, do Rush; Detroit Rock City, do Kiss; um pouco de Black Sabbath e duas canções do Queen, uma delas a belíssima e sempre arrebatadora Under Pressure.

Enquanto Under Pressure tomava o Morumbi com os gritos-pedidos de give love, give love (dê amor), bacana ver e saber que ainda existem estrelas e bandas que caem na estrada com o mais belo, genuíno e nobre espírito não só do rock, mas da arte e vida também: o espírito de ir lá e fazer o seu melhor com uma entrega maravilhosa, e por isso arrebatadora. Uma entrega sem artifícios, sem discursos planejados ou efeitos especiais.

Especial é simplesmente tocar ou escutar canções poderosas e deixar-se levar pela paixão terapêutica e transcendental que é a música e esse rock and roll que tanto nos alivia e ainda nos dá uma energia incomparável para sobreviver ao massacre cotidiano e seguir sonhando com dias e vidas melhores.

Obrigado por nos lembrar do sonho e da raça que precisamos para colocá-los em prática, Dave, obrigados por lembrar-nos de darmos o nosso the best.

Obrigado por lembrar-nos que também podemos ser heróis, porque heróis, como você ensina em My Hero, são gente simples, gente como a gente.

O profissional apaixonado

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Poucos minutos antes do fim do jogo, Muricy o homenageou sacando-o do jogo para ser aplaudido e honrado pela massa. Impossível a emoção não envolver um sãopaulino ao ver o abraço, tão simbólico, que Rogério dá em Kaká antes dele se despedir da camisa que o formou e aprender a amar. Impossível não ficar feliz pelo instante bonito mas tão triste por esse jogador que se entrega tanto deixar nosso time. Impossível não perceber também, na atitude de Rogério, de atravessar o campo e ir até Kaká, que o goleiro já começa a adiada mas marcada despedida. Impossível não perceber como o São Paulo perde sem Kaká.

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Sim, o ex-melhor do mundo e mito do Milan, não é mais o mesmo tecnicamente, mas segue sendo um super profissional, mais que abnegado, que contagia uma equipe com tanta correria, briga e suor. Lá de cima, da arquibancada, dava pra perceber o cabelo molhado e a camisa encharcada e suja de tanto Kaká se movimentar por todas as faixas do campo. Diferente da maioria de jogadores de linha no ocaso de suas carreiras, que se poupam ou dá migué mesmo, Kaká ainda corre e luta em campo como um menino. E esse exemplo fará falta demais em uma equipe que tem alguns caráteres opostos ao seu.

Fazia muito tempo que eu não ia ao Morumbi. Fui por um único motivo: me despedir do jogador que devolveu ao São Paulo o seu time. Explico: Antes dele chegar o que se via era apenas um apanhado de bons jogadores que não engrenava, por falta de compromisso, doação e/ou união. A situação mudou demais com a chegada de Kaká. Se para um Álvaro Pereira o empenho não mudaria nada (pois o uruguaio já nasceu e cresceu lutando), para algumas estrelas do clube, como Pato, Luís Fabiano e, sobretudo, Ganso, aquela imagem do consagradíssimo Kaká chegando cedinho para treinar, correndo feito louco nos treinos e ainda indo embora bem depois do encerramento da labuta cotidiana, foi decisiva.

Seria necessária muita falta de vergonha na cara para alguns seguirem se dedicando pouco, no limite mínimo, ao perceberem o suor e a entrega de Kaká em cada treinamento e partida. Por isso que Pato e Ganso cresceram. E havia ainda o exemplo tático: rara espécie em extinção no futebol brasileira, a inteligência para se deslocar e jogar de Kaká fez crescer a produção de jogadores próximos dele, como Souza, além de obrigar que, lá vem ele de novo, Ganso também se deslocasse mais.

Mais que Rogério, que é o líder incontestável há anos e anos, mas que por isso mesmo deve ter um desgaste óbvio com alguns jogadores, Kaká foi o grande aglutinador do São Paulo renascido de 2014. Sim, a equipe não ganhou nada, mas da luta contra o rebaixamento o clube subiu para o vice nacional e uma boa participação na sul-americana. E, mais que isso, o apanhado sem liga se tornou um time sólido, competitivo, forte de novo.

Pena que foi apenas um breve retorno. Não rendeu títulos? Sim, mas espero que a lição de humildade, garra e solidariedade de Kaká não seja esquecida.

Temo, porém, que sua saída e exemplo (“porra, é o Kaká, se ele tá se matando assim, eu não posso me esconder”…) voltem a acomodar alguns jogadores, como aquele camisa 10 que ontem voltou à sua habitual apatia e participação “intensa” de um, dois bons passes e só.

Obrigado, e que pena já ir embora, Kaká, sua camisa e alma transbordante de valentia serão, creio eu, insubstituíveis.

O amigo que o tempo não levou

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O tipo é raríssimo. Podem passar meses, até anos sem a gente encontrá-lo; e anos e anos desde que nossa amizade foi cultivada com vivências, viagens e conversas marcantes, mas o cara demonstra o mesmo sentimento ao nos ver tanto tempo e rumos distintos depois. Enquanto tantos reencontros são superficiais, marcados por sorrisos e palavras meia-boca, o cara olha fundo e diz: – Bom te ver, cara.

Bons amigos olham pra gente com saudade e memória. E falam como a melodia e letra de alguma canção fundamental que volta e meia reaparece de repente no rádio ou internet pra nos lembrar de algumas das partes mais bonitas e sinceras de nossas vidas. Quantos ainda reverenciam uma amizade como se estivessem erguendo, com honra e afeto, um brinde à uma amizade que poderia ter se perdido, como tantas outras, nas brumas do passado?

Depois de tanto tempo, mesmo em um papo rápido, conversamos sobre aquelas coisas essenciais que os amigos do peito costumavam compartilhar. Falamos sobre música, sobre canções. Ele pergunta o que eu tenho ouvido, falo que os velhos poetas Bruce (Springsteen) e Bob (Seger) e suas canções sobre gente comum que dá duro na vida mas não deixa de sentir, viver e amar profundamente.

Logo a coisa pega mais fundo e não lembro por qual gancho digo ao amigo que em minhas aulas de hoje (sim, ele foi meu aluno décadas atrás) boa parte dos alunos não se importa com as canções que dou em aula, diferente do que rolava antes. Preferem olhar seus celulares. Preferem seus mundos e novidades que devem ser muito mais atraentes que um velho professor e suas velhas canções.

O velho amigo de fé fica surpreso, decepcionado, por mim, e por ele, que é também um guardião da alma, beleza e reflexão dos grandes hinos da música, especialmente do rock.

Logo o papo se encerra, típico de breves encontros em festas de casamento como a em que estávamos. 5, 10 minutos até chegar alguém talvez com alguma amenidade. Não pude lhe dizer como ele é ainda um dos poucos a não ter esquecido aquele grande 2002 de aulas e afetos que na verdade eram a mesma coisa, e deveriam ser para todo professor que quer realmente ensinar e aprender.

Não pude lhe dizer que no dia seguinte do último e recente casamento, enquanto eu tomava meu café, lendo meu caderno de jornal preferido (um suplemento de literatura e cultura de um jornal do Rio onde você viveu o amigo alguns anos) diante da janela na padaria que me dá uma paz gostosa, tocou uma daquelas velhas canções que eu costumava dar em aula.

Pearl Jam, cara, com uma daquelas músicas completas, comecinho lento, terno como o amigo que tenta tirar o peso do nosso ombro pesado ou machucado pela vida. Pearl Jam, cara, de repente a melodia cresce, os instrumentos ganham força e o Eddie brada forte. Grita com a garra com que velhos amigos um dia cantaram alto, forte, juntos, celebrando ou exorcizando algum demônio, como se estivéssemos em algum final de balada em uma daquelas viagens mágicas.

Floripa, cara, nem lembro qual o verso ou refrão de canção que cantávamos, mas sei que expulsávamos os diabos juntos. Como dois amigos que se prezavam, como dois amigos dividindo a dádiva da estrada, da viagem, daquele tempo sem muitos compromissos e preocupações a não ser cantar sobre a vida para esquecer o pior dela e celebrar o melhor.

Cara, a canção que rolou na padoca é Black, e alguns versos me lembram das boas e velhas zoeiras daquela turma especial. Poderiam ser apenas versos nostálgicos, mas com as suas palavras lá no casório parecem afetos vivos e um estímulo para, quando chegarem novos dias negros, eu simplesmente sair pra dar um rolê a pé ou de skate transformando o canto do Eddie em uma lembrança que pode ser presente:

I take a walk outside
I’m surrounded by some kids at play
I can feel their laughter

Foi bom ter ver, também, cara.
Puta abraço, irmão.

O raro ator que nos educou como um mestre

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A maioria dos atores e atrizes apenas nos entretém. Sim, muitos nos emocionam e alguns interpretam personagens com tanta verdade e sensibilidade que até nos fazem refletir sobre a realidade e os mais nobres ou nefastos valores. São raros, porém, aqueles que mergulham em sua arte com tanta força que acabam parecendo gente real, nos dando aulas inesquecíveis de vida, nos inspirando a viver melhor e até a sermos pessoas melhores. Robin Willians foi um desses raros atores a tornar-se um mestre não só das telas mas da vida fora da sala escura mágica.

Meu primeiro contato com suas aulas muito maiores que “apenas cinema” vieram em Bom Dia, Vietnam. Como um DJ de rádio com comentários, sacadas e jeito de narrar divertidíssimos, em plena Saigon brutalizada pela matança entre americanos e vietnamitas, ele nos mostrou que mesmo em plena guerra sempre estúpida e violentíssima, alguns seres humanos são tão ricos que conseguem transmitir coisas belas e valiosas para atenuar a selvageria e aquele “o horror, o horror” que já discutia Joseph Conrad no clássico livro Coração das Trevas. Sim, coisas belas como a batalha do bom humor iluminado set lists mágicos desse DJ para fazer os soldados esquecerem um pouco o mal a cada situação e combate que viviam. E como foi grande Robin ao esconder a dor, ou transcendê-la, rindo enquanto seu coração sofria, apenas para fazer os soldados e civis viajarem e esquecerem do horror em poucos mais vitais momentos. Robin foi nesse filme aquela voz-ombro amigo a nos fazer sorrir um pouco, e acreditar um pouco que uma hora aquela brutalidade ia terminar.

Depois do DJ conheci o talvez mais vital professor já criado na história do cinema, o John Keating de Sociedade dos Poetas Mortos. Mais vital porque nenhum outro foi mais revolucionário que o professor que fez seus alunos rasgarem teorias de literatura castradoras do livre pensamento e imaginação. Nenhum outro mostrou tanto a importância do livre-arbítrio, do livre viver gozando a vida (carpe diem!!!).

Nenhum outro mostrou tanto como devemos abandonar nossos pré-conceitos, preconceitos e comodismo para poder interpretar, pensar e agir por nós mesmos. Quem pode esquecer a cena em que ele sobe em cima da mesa naquela escola tradicional e arcaica dos anos 50 simplesmente para fazer seus alunos perceberem o valor de tomar uma outra perspectiva da poesia e da vida?

Quem pode esquecer outra cena, em que ele faz os alunos, levados para fora da sala da aula, descobrirem seus próprios passos e caminhada?

Jamais esqueci e desde que comecei a dar aulas tentei passar, de alguma forma, um pouco das lições do mestre John Keating, um mestre tão real e valioso pra mim quanto os educadores, raros…, do “mundo real”.

John Keats-Robin foi um dos meus mestres reais (sim!) de vida, um eterno Capitão de verdade, muito melhor, mais líder e valioso que tantos falsos capitães dos esportes, líderes e professores-conteudistas que impedem seus companheiros, comandados e alunos de realmente aprender, evoluir e ensinar.

E como esquecer de outro personagem vital para nossa (falta de) humanidade, o psicólogo de Gênio Indomável, que mostrou ao jovem prodígio problemático vivido por Matt Damon que ele só se tornaria um homem decente se aprendesse a amar o outro e não apenas a si mesmo? Mais que isso, Robin nos mostrou, com seu psicólogo, que mesmo um homem arrasado e traumatizado como ele pela perda da esposa amada, ainda era capaz de servir como um guia para os jovens, tamanha era a sua fé e vontade de ajudar os outros. Lembro uma vez em que, em plena sala de aula, um aluno meu percebeu toda minha tristeza e dor e disse que meus olhos estavam negros e escuros como a tempestade que se adivinhava no céu. Graças a Deus, e talvez um pouco a Robin e seu psicólogo, que aprendi a esconder minhas dores, pois os alunos merecem ganhar apenas o alento, força e atenção afetuosa. Merecem ter e ver apenas doses vitais de luz, jamais as trevas, jamais o abismo.

Obrigado por tudo, mestre, mas jamais lhe direi adeus. Não direi porque suas lições são imortais como seu sorriso escondendo a dor e tentando sublimar a dor e vazio dos outros como seu outro personagem (mais que isso, mais que isso!) inesquecível, o médico de Patch Adams. O médico que inspirou tantos doutores da alegria do mundo real, no mundo todo. Doutores que foram tocados por seu personagem, pela maestria, beleza e coração de um ator e homem que semeou os mais nobres valores, sentimentos e ações em sua carreira do tamanho da vida dos homens extraordinários.

Carpe diem, Capitão, carpe diem!

 

a corrida eterna de assis

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assis

Até hoje, mais de 30 anos depois, a cena tão bela quanto dramática e emocionante me volta nítida. era o minuto final de um fla-flu eletrizante como eram os fla-flus dos tempos em que a maioria de nossos grandes jogadores e craques ainda desfilavam em nossos estádios. eram os tempos em que os campeonatos estaduais ainda tinham alto nível de competitividade e, acreditem, pobres jovens de hoje, dezenas e dezenas de milhares de pessoas iam em cada clássico. eram tempos ainda do maracanã lotado, do velho, mítico e enorme, colossal maracanã com sua geral do povão e aquela monumental marquise e arquibancada. eram tempos em que os estaduais muitas vezes eram tão valorizados como um campeonato brasileiro. eram os tempos em que o futebol ainda era arte no país do futebol arte. por isso tudo, quando o canhoto de fina estirpe assis arrancou pelo lado direito do campo, dezenas de milhares rubro-negros ficaram mudos, com medo daquele jogador que parecia crescer contra eles; e outras dezenas de milhares tricolores se levantaram hipnotizados, torcendo, sentindo, quase que sabendo… eram os tempos em que os títulos ainda eram decididos por grandes jogadores ou craques que se tornavam mitos ao realizarem jogadas maravilhosas que nunca acabaram no coração e memória de quem assistia aqueles jogos eternos.

aquela corrida de assis – que não era um jogador rápido, mas protegia a bola como poucos – jamais parou depois de receber aquele lançamento magistral de outro grande de sua época, delei. não parou nem depois dele invadir a área e na frente do grande raul, que cresceu pra cima dele protegendo sua meta e quase todos os ângulos. sim, assis quase parou, como fazem os grandes jogadores com culhões e calma para dar o último e mortal tiro, e com maestria deu um tapa na bola no único cantinho que raul não conseguiu esconder.

o golaço, gol de placa, gol histórico, gol monumental, um dos mais belos da história do estádio dos estádios, não encerrou a corrida de assis porque gols como esse a gente não para de rever como se quiséssemos resgatar e guardar uma das pequenas grandes belezas vitais de nossas vidas. sim, vital, porque o futebol arte é tão belo para quem cresceu louco pela bola e por seus ídolos e times como outras coisas importantes e fundamentais da vida.

para mim e tantos meninos que cresceram nos mágicos anos 80 de tantos craques, times fantásticos e daquela seleção cinematográfica e musical de mestre telê, o futebol arte é uma lembrança tão querida e valiosa como os melhores amigos, festas, brincadeiras e musas de nossa infância. de nossos anos dourados.

por isso o grande assis, que nos deixou agora, jamais parou de correr. um correr que deveria servir de aula para os alucinados jogadores brasileiros de hoje, porque o correr de assis era cadenciado, belo, elegante, um galope, quase um trote. um correr inteligente, do craque que sabia dosar o futebol de corpo e mente.

assis não precisaria ter feito mais nada na carreira do que essa corrida magistral, mas ele fez e ainda foi sempre um grande sujeito fora dos campos e ainda um parceiro mais que fiel do seu grande amigo dos gramados, o inseparável Washington que tantas glórias protagonizou junto dele.

mas vai lá, assis, corre, corre, continua a correr e dá um abraço lá em cima no velho amigo que o espera para mais uma jornada inesquecível do inesquecível casal 20 do futebol brasileiro. os gols, quantos gols!, voltarão a tomar conta do único campinho à altura do antigo, bom e velho maracanã de verdade: o céu.

assis e washington

(washington e assis)

 

Render-se, jamais!

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uruguai-inglaterra

O lance é a metáfora exata do jogador uruguaio e do espírito desta seleção. Ao sofrer uma pancada violenta na cabeça, Álvaro Pereira desmaia em campo e é retirado de maca. Como em uma luta de boxe o tempo e o médico da Celeste parecem contar 1, 2, 3, 4… até que, quando o médico já indicara a necessidade de substituição, Pereira, que acabara de recobrar a consciência pelas mãos e voz do companheiro Godín, se levanta e insamente corajoso gesticula e grita que não vai sair e volta para o jogo. No primeiro lance depois de seu quase nocaute, ele se joga num semi-carrinho, se atira no chão para salvar sua seleção de mais uma investida perigosa dos ingleses. Na sequência, segue jogando e lutando feito um leão ferido mas valente até o fim da partida épica.

Até Sir Winston Churchill ficaria arrepiado e recrutaria no ato esses bravos homens celestes para defender os aliados e sua ilha do bombardeio e ataque nazista na II Guerra Mundial. Porque talvez nenhuma outra seleção possua tão arraigado no peito esse sentimento e espírito conclamado pelo grande chefe de estado inglês na guerra das guerras: Never Surrender! Nunca se rendam!

Nunca antes do fim. O fim não existe para um uruguaio de camisa celeste enquanto sua seleção seguir tendo chances. Enquanto um jogo não terminar. Enquanto houver um fiapo de esperança. Por isso os desacreditados homens de Tabárez, tão criticados (tanto os jogadores como o treinador) como menosprezados (por muitos brasileiros que, talvez com medo, tiraram sarro da Celeste após a péssima estreia) fizeram mais um daqueles jogos da vida ontem e venceram os ingleses em uma das maiores partidas da história das Copas.

Por isso esse monstro guerreiro e super craque com momentos de gênio, Luisito Suarez, mesmo um mês depois de operado jogou como se estivesse no melhor da sua forma física. Porque um uruguaio, mesmo quando recém-operado e sem ritmo de jogo, se supera pelo ritmo incomparável de seu coração.

Um coração que parece bater mais forte e com mais gana em quem veste, mais que isso, defende, a camisa que é pele, sangue e alma.

Mais que coração, deve ser alma o que move um Suárez, um Pereira, um, meu Deus!, quanta entrega!, esse fantástico Arévalo Rios que cobre o campo todo com a mesma garra e eficiência!

Deve ser a alma que faz com que esse goleiro não tão grande e completo, Muslera (que partidaço!), cresça e pegue tanto quando o jogo é mais difícil e dramático.

Deve ser alma o que envolve todos os jogadores que lutaram e venceram ontem realmente representando sua camisa, país e povo.

E, sejamos justos, lembremos também de reverenciar o cérebro por trás da alma, esse brilhante ontem Oscar Tabárez. O velho maestro, tão criticado em seu próprio país em boa parte das eliminatórias para essa Copa e, especialmente, na derrota para a Costa Rica, mudou demais o espírito e jeito de jogar de sua seleção ao mudar cinco jogadores para a batalha de ontem. Cinco jogadores! Quem consegue fazer uma equipe melhorar com tantas alterações? Só mesmo o velho maestro. O maestro que, na beleza que só o futebol proporciona, vibrou, correu e se emocionou feito menino a cada gol de Suárez.

Ainda no aspecto cerebral, lembremos também da magistral assistência desse também enorme Cavani no primeiro gol, com o detalhe genial da ameaçada que ele dá antes de cruzar, o que acabou tirando um dos zagueiros ingleses da jogada. O grandíssimo Cavani que chamou a marcação dos ingleses todo o jogo, abrindo espaços para essa máquina mortífera chamada Suárez.

Os brasileiros que debocharam depois do primeiro jogo e os uruguaios mais pessimistas foram lembrados ontem, de novo, que a Celeste é esse eterno boxeador que mesmo sendo massacrado nas cordas e, pior, mesmo quando nocauteado e jogado na lona, enquanto o tempo não ser contado até 10, a batalha não está perdida.

Porque a alma uruguaia pode ser surrada, mas como um Rocky Balboa da bola e da vida, jamais jogará a toalha.

MEA CULPA: Cristiano não pode brilhar sozinho

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A pressa da internet resulta muitas vezes em posts que deveriam ser pensados melhor antes de publicados. Ontem fui infeliz ao utilizar um artigo no mínimo de mau gosto de um jornalista brasileiro para respaldar minha visão de que Cristiano Ronaldo foi mal ontem e rende bem menos na seleção que no Real Madrid.

Pensando melhor, até essa minha crença pessoal, de que CR7 não ajuda a seleção como por exemplo Figo fazia no passado, merece uma avaliação melhor. Me bastou lembrar que Cristiano simplesmente não tem os companheiros de talento muito maior que Figo tinha. Grandes jogadores como o meia Rui Costa, o zagueiro Ricardo Carvalho, o goleiro Ricardo (não era tão bom mas crescia demais em grandes competições como uma Euro e uma Copa), entre outros. Bastou pensar um pouco, e não ser atropelado pela velocidade da net e falta de responsabilidade (que tive ontem) para afirmar hoje: como CR7 vai brilhar com os jogadores medianos que atuam ao seu lado na seleção portuguesa? Difícil demais, pois Cristiano precisa ser lançado, precisa ser assistido, é uma flecha que precisa de um arco para render como pode.

Além dessa análise desmedida que fiz, porém, pior talvez foi o que um grande jornalista português me questionou: “por que partilhar aquele texto tão pesado do jornalista Mario Magalhães?” Realmente eu devia ter percebido o que quase me impediu de publicar o post: o tom vulgar e desrespeitoso dado ao Cristiano desde o título do texto, que citou CR7 como “nojento” por supostamente só pensar em si e ser individualista demais, entre outras falhas de caráter julgadas de forma irresponsável e até mentirosa pelo jornalista que linkei. Mentirosa porque parece que seus companheiros (e seus treinadores também) de Real e seleção adoram Cristiano, e acabo de lembrar como Felipão e Alex Fergurson tinham o gajo em ótima conta.

Talvez as críticas desmedidas que CR7 recebeu em toda a sua carreira nasçam mais pelo notório gosto dele pelas câmeras. Mas por que criticar isso se esse cara foi um menino pobre da ilha da Madeira, órfão de pai e com outros duros problemas familiares? Qual o problema dele se adorar, se achar bonito e gostar de mostrar isso? Sim, ele gosta de malhar e exibir seus músculos, mas por que não pode fazer isso se essa característica sempre foi muito importante para o seu próprio rendimento, dependente em boa parte de seu físico privilegiado? E por que não, pelo contrário, percebermos que essa característica é um exemplo positivo, já que CR7 sempre foi o jogador que mais se empenhou nos treinos, tanto nos clubes como na seleção? Por que esse exemplo de profissional vira apenas um exibicionista aos críticos?

Devemos parar de pegar no pé por suas caras e bocas e olharmos mais para o atleta e o homem, e aqui aparece uma faceta talvez desconhecida por muitos brasileiros: o homem Cristiano é muito melhor, mais relevante e digno que a maioria das super estrelas da bola. Além de ter sua própria instituição beneficente, Cristiano é um dos raros pop stars desse planeta que tem uma consciência política e social aguçada e me parece sempre defender as causas mais nobres. E quando a sua ilha de Madeira sofreu com a fúria da natureza, adivinhem quem ajudou demais a atenuar a destruição e ajudar na reconstrução?

Finalmente, peço desculpas aos meus queridos irmãos portugueses, que sempre me acolheram tão bem em seu país, por ter linkado texto tão ofensivo do jornalista Magalhães (mas lembrem que ressaltei, ao publicá-lo, que o texto era pesado com o CR7, se é que isso pode servir de atenuante, talvez não) justo no dia de uma estreia tão dolorosa na Copa. Se tem algo que dói e dá raiva são palavras ofensivas e injustas na hora da dor e da derrota.

O único que merecia palavras pesadas era o selvagem Pepe, um brasileiro que acabou com qualquer chance de Portugal contra a máquina alemã.

Sorte ao CR7 e à Portugal para quem sempre torci com fervor e emoção desde aquele maravilhoso e inesquecível gol de meu primeiro ídolo lusitano, o meia Carlos Manuel, que no finalzinho de um jogo contra a mesma Alemanha, classificou a seleção, se não me engano, para a Copa de 86. E compartilhei meu entusiasmo pela belíssima campanha dos portugas na Euro de 2004.

Que CR7 arrebente nos próximos dois jogos e cale a boca de todos os críticos. A minha já calou por essa simples confissão arrependida, de um jornalista que sou e também professor. E por isso também eu deveria ter pensado melhor antes de publicar o post de ontem (acabei apagando), porque mesmo longe da sala de aula preciso seguir dando exemplo para meus alunos de ontem e hoje. Julgamentos apressados e dar espaço para opiniões irresponsáveis de outros é imperdoável.

Los herderos de Obdulio

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“¿Cómo lo hacemos eso con personas tan buenas?”, lamentó Obdulio por sentir la tristeza del pueblo brasileño después del Maracanazzo. Y días y años más tarde, tal vez toda su vida, al grande Obdulio nunca le gustó celebrar la conquista uruguaya espectacular y épica. Un poco debido a los dirigentes del fútbol de su país, que no toleraba, y al dolor dejado en la gente entonces muy amable y cordial del Brasil de la época.

Hoy, décadas más tarde, la cosa es diferente. Claro que todavía hay mucha “gente buena” entre los brasileños de las masas, verdaderos guerreiros y supervivientes de condiciones de vida cada vez más difíciles en metrópolis como Río y San Pablo. Pero quien estuvo recientemente en Uruguay siente que hay un espíritu más amigo, dulce y cordial en los orientales, mucho más que en el ex-país del fútbol.

Los uruguayos son hoy, en afectos y amabilidad, lo que los brasileños fueron 60 años atrás. Así que sería demasiado bello ganaren la Copa del Mundo, para dar una alegría inmensa para estas personas tan diferentes de esse mundo cada vez más beligerante. Un pueblo unido y que vive en paz, sin el cada vez más alto grado de violencia, por ejemplo, que azota la sociedade brasileña de hoy.

Fuese Obdulio vivo y daría cuenta de que los hombres del entrenador Tabárez (mucho más que un técnico, un educador y maestro) no merecen perder esta Copa del Mundo debido al que representan, como muy pocas selecciones de este planeta.

¿Que otros jugadores de una selección crearan una Fundación de caridad para ayudar a los necesitados de su país, como lo hicieron los hombres de la Celeste? ¿ Y que otro país ha creado, de la selección y de su entrenador-educador, un proyecto que forma no sólo los jugadores pero también ciudadanos en toda las categorías de base de Uruguay? Tal vez sólo los alemanes tienen un proyecto similar para abarcar fútbol con educación y ciudadanía.

¿Nosotros, los brasileños? Mientras que la misma máfia prosiga em comando de CBF, nunca tendremos un proyecto que sembre la educación y los valores más nobles entre nuestros jóvenes.

Obdulio estaría orgulloso de percibir que sus compatriotas conservan el mejor de lo que el ser humano fue um día. Un ser humano más tranquilo, más cariñoso, con un ritmo de vida salpicado por rituales diarios pequeños y lentos. Quienes todavía no perdieron los elementos esenciales que desaparecieron em países frenéticos o adictos a las tecnologías virtuales como el Brasil de hoy: convivencia, intercambio de gestos y afecto real, cara a cara. Si anteriormente los brasileños pondrian las sillas en la vereda y celebraban a los vecinos, prácticamente eso ya no existe. Distinto de la gente de frente para el río de la Plata o para los campos y la vida, que todavía se reúne en frente de sus casas para compartir un mate y las impresiones y sentimientos de cada día.

El uruguayo supo conservar el néctar más bello y antiguo de las relaciones humanas. Los que llaman este país de “viejo” por mirar apenas los edifícios antiguos y grises no veen que “viejo” en Uruguay es en la verdad esa rara preservación de la vida antigua en lo que tenia de mejor: en su ritmo más lento y vivido, sentido de verdad.

Por eso Uruguay debería ganar esta Copa y experimentar la catarsis de una grande victoria de nuevo. Y qué hermosa será la victoria celebrada con una ausencia total de estrellato y soberbia de los jugadores uruguayos y su postura muy lejana de los pop stars de buena parte de las estrellas del fútbol mundial.

!Qué bueno sería ver Lugano bajar del avión con la Copa en una mano y en el otro el mate para compartir la conquista y su “uruguaidade” con su Pueblo!

Que bueno para el fútbol y para el mundo sería presenciar el logro de un país, un pueblo y una selección tan puros; guardianes de una inocencia olvidada que aprecia la coexistencia y el ser antes del tener posesiones y mucha plata.

Sí, en 1950 Obdulio sufrió con el silencio y la tristeza de Brasil. Pero el gran capitán puede no haberse dado cuenta que su corazón era mayor que el dolor de los brasileños.

Y Obdulio también no pudo prever, décadas después, que su espíritu, nobleza de valores, talento y fuerza hicieron su aparición en los hombres de Tabárez. En los hombres que llevan en sus pechos la misma grandeza, simplicidad y belleza humana del mito.

Ya es hora de otros mitos. En el mismo Uruguay. Sí, no tienes el paisito una arquitectura moderna, desgastada a través de los siglos (lo único visto por los turistas sin alma), pero esa es una de las sociedades más modernas, avanzadas y respetuosa de este planeta. El país que acepta los matrimonios homosexuales, que legalizaron el aborto y busca un nuevo medio de combate a las drogas. El país en el que su Presidente abdicó de vivir en un palacio para continuar en su sitio y donar el 90% de su salario a los necesitados, gran Mujica.

!Para un mundo mejor, ven y levanta la Copa, Lugano! Seguro que Obdulio, Mujica y la garra charrua habitan en su pecho y en esa camisa como el corazón inmenso late dentro de su pueblo.

La humanidad, para ser rescatada, necesita del triunfo de Uruguay.

Que en el 13 de julio la mística sea suplantada por la más bella realidad.

(PS – Perdón por mi pobre español al escribir)