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Livros para viver melhor / Por Zé Augusto de Aguiar

A MAGIA NAS MARGENS

“Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo… porque vivemos, de modo incorrigível, distraídos das coisas mais importantes”. (O espelho, de Guimarães Rosa, no livro Primeiras Estórias)

Quem consegue ver encantamento na vida tem alguns mestres a descobrir. O uruguaio Eduardo Galeano combateu a ditadura e a exploração dos povos latino-americanos. O Livro dos Abraços revela a presença do fantástico no cotidiano e em belas jornadas de pessoas humildes e artistas notáveis que resistiram contra as atrocidades. “Um senhor andava ao léu buscando os pedacinhos de seu sonho, despedaçado por culpa de alguém que o tinha atropelado: o senhor ia recolhendo os pedacinhos e os colava e com eles fazia um estandarte cheio de cores”. (Galeano)

Do Brasil, vital é a prosa de múltiplos detalhes da paisagem e dos homens feita por Guimarães Rosa. Ler Rosa é ler o Brasil mais fundo, do imenso sertão do centro-oeste e refletir com sua penetrante investigação da alma humana. Comece por Primeiras Estórias e seus instigantes contos A Terceira Margem do Rio e O espelho.

CANÇÕES DA VIDA

“Não é possível escrever bem sem estar sob forte emoção” (Lester Bangs)

O escritor inglês Nick Hornby reflete sobre as músicas que mais amou na vida no delicioso livro 31 Canções. Entre Beatles, Dylan e Led Zeppelin, aos mais novos, Teenage Fan Club e Ben Folds Five, entre outros, Nick mergulha em cada som que o apaixonou e não o deixou, porque “se você ama uma canção, ama-a o bastante para que ela o acompanhe nas diferentes fases de sua vida”.

Também belo é o canto de protesto do rapper Gabriel O Pensador, que virou poesia e crônicas no livro Diário Noturno. Os temas são a desigualdade social, amor, fé, luta e amizade. Brilha ainda sua outra paixão, o surf. “Como é bom estar sozinho nesse mar que Deus me deu /… onde eu desço das escadas que os homens inventaram /onde Deus me diz as horas, onde as horas param…” (Gabriel)

O SURF É INDESCRITÍVEL?

“Olhar a vida do ponto-de-vista do horizonte

Chegar na intimidade do mergulho das gaivotas

… Pegar tubo e enxergar as coisas com mais profundidade,

vendo o derramar do cristal líquido.

Manter as sobrancelhas salgadas

pra ver a vida com mais sal” (Pepê Cezar)

Do mundo azul vem a poesia do pernambucano-carioca, Pepê Cezar, o cara que exprime a vida ao descrever uma única onda. Discípulo do mestre Manoel de Barros, Pepê já tem dois livros, Puízia e Concepções de frases em ninhos de água.

Já no romance, o clássico Mar Morto, de Jorge Amado, é a mais bela história de amor contada sobre alguém que vive do mar, o pescador Guma e sua querida Lívia. Outro romance, Mundaka, revela um pouco da vida do publicitário e surfista Victor, seus amores, amizades do peito e dores no coração que o fizeram correr o mundo. A obra, um pouco autobiográfica, é do seu professor, Zé Augusto de Aguiar. O Zé também escreveu um livro de crônicas de amor, amizade e filosofias de vida ligadas ao mar e surfe em As Ondas da Vida.

RITOS DE APRENDIZADO

Alguns livros juvenis nos conquistam para sempre. Um deles é Vidas sem Rumo (Outsiders), de Susan E. Hinton, saga dos sonhos e amizades de adolescentes pobres nos EUA do início do anos 60 e seus conflitos com os garotos ricos e a opressão do sistema. Obra tão pungente que virou belo filme – de mesmo nome – de Francis Ford Coppola.

Outro livro envolvente é O Jovem Lennon, de Jordi Sierra i Fabra ,que descreve a adolescência do gênio que revolucionaria a música. Também bela jornada de aprendizado é Diários de Motocicleta, sobre a viagem pelas Américas de um jovem Che Guevara, escrito pelo próprio Che.

Quem se identifica com a vida selvagem, deve procurar a obra do aventureiro, jornalista e escritor, Jack London. O chamado da floresta traz a poderosa história do cachorro meio lobo, Buck, que, arrancado de um lar civilizado na Califórnia, é jogado no inóspito e cruel Alaska da corrida pelo ouro e dos cães puxadores de trenós.

No mesmo caminho, chocante e poderosa é a história real do jovem americano Christopher McCandless, que deixou a família e a vida normal em sociedade para atravessar o país em direção ao sonho de viver no meio da natureza selvagem do Alaska. O livro, de John Krakauer, chama-se Na Natureza Selvagem.

VIAJAR DE VERDADE

“Para quê viajar?… a viagem é um catalisador do destino. Obriga a que aconteçam coisas. Por exemplo, encontrar pessoas que de outra forma nunca teriam cruzado as nossas vidas”. Esse é um trechinho do livro Planisfério Pessoal, de um viajante à procura do mais importante: o contato humano. Trata-se do português Gonçalo Cadilhe, jornalista português, que nesse livro revela sua viagem de volta ao mundo.

O fotógrafo brasileiro, Sebastião Salgado eternizou os excluídos de 47 países no chocante livro Êxodos. “O que se vê é gente em fuga, populações em movimento, exilados, refugiados, emigrados, rejeitados. Milhões e milhões de criaturas a quem a palavra lar subitamente escapuliu, na súbita explosão de um obus, na surpresa avassaladora de um ciclone ou terremoto, na premência da fome, no anseio de ascensão social, na urgência de um abrigo ao genocídio e à intolerância”

A LUTA PELA CIDADANIA

Contra o medo, o egoísmo e a desigualdade das grandes cidades,o jornalista e educador paulistano, Gilberto Dimenstein, lançou um livro que é um milagre. O mistério das bolas de gude – Histórias de humanos quase invisíveis mostra como é possível construir um Brasil mais humano. O livro traz histórias reais como a do pianista João Carlos Martins, que perdeu a sensibilidade nas mãos e, depois de pensar em se matar, virou regente de menores na Febem. Ao oferecer uma chance de regeneração para as crianças infratoras através da música, João salvou a si mesmo. E essa é apenas uma das várias experiências de revolução social mostradas no livro.

O olhar profundo e solidário é encontrado também nas reportagens da jornalista Eliane Brum, que mostra a beleza e valor de pessoas comuns lutadoras de todo o Brasil. Seus textos, reunidos em dois livros (A vida que ninguém vê e O olho da rua), são ainda uma aula de como escrever com riqueza de imagens e vocabulário.

MITOS REAIS

A vida de grandes homens e mulheres contada por dois gênios. Ela é Carioca – Uma Enciclopédia de Ipanema, traz perfis de artistas, botecos, ruas, praias, galãs e musas que brilharam no Rio de Janeiro e no Brasil do século XX. Os textos envolventes são de Ruy Castro, que ainda nos brinda com belas frases de seus perfilados. Tom Jobim, Leila Diniz, Vinicius, Fernando Gabeira, Cazuza, Ziraldo, Paulo Francis e outra centena de feras estão lá, incluindo até um cachorro boêmio, o Barbado, que vivia na rua e batia ponto num boteco.

Lá fora, verdadeira aula de escrever com estilo e imagens que iluminam é A vida como performance, do crítico inglês, Kenneth Tynan, mestre de frases definitivas, como essa sobre uma deusa do cinema: “O que um homem vê bêbado nas outras mulheres, vê sóbrio em Greta Garbo”. Faz o mesmo com um gênio do jazz: “Miles Davis é como uma garrafa térmica, que sugere a presença do calor sem irradiá-lo”.

CAMPEÕES

Livros sobre esporte? Estrela solitária, um brasileiro chamado Garrincha, de Ruy Castro, nos faz rir e chorar com a história do gênio das pernas tortas, o maior driblador da história do futebol. Barbosa, um gol faz cinquenta anos, de Roberto Muylaert conta o drama do goleiro que foi perseguido a vida toda pela grande tragédia nacional, a derrota para o Uruguai na final da Copa de 1950, em pleno Maracanã. Já Conquistando o Inimigo, de John Carlin, traz um pouco da história de Nelson Mandela e o jogo de rugby que ele utilizou para unir os brancos e negros na África do Sul. O livro originou o filme Invictus. Quem quiser conhecer outros heróis do esporte, procure por Heróis do Esporte, Heróis da Vida, do professor Zé.

POESIA, A PALAVRA PORRADA

Por último, a grande lutadora das palavras. Aquela que exprime demais com pouco. “Nada de brilhaturas. Nada de elegantes passes de esgrimista. Não é uma dança. Um poema é um soco na alma do leitor”, assim definiu o gaúcho Mário Quintana. Porque a poesia nos inquieta, perturba e ilumina. Porque “quem faz um poema abre a janela” (Quintana) e nós não devemos ser estúpidos de não olhar.

Em algum lugar já disseram que a poesia é inútil. Mentira. “Um pouco de imaginação e fantasia, por favor”, caros leitores, façam como pede o personagem Carlo, na bela série italiana de TV, A melhor juventude, ao rebater a desconfiança dos seus amigos que conheciam o lugar em ruínas onde ergueria sua nova casa. Carlo leva-os para fora da casa destroçada e aponta a exuberante paisagem verde da Toscana e faz seu pedido-lição final: “Um minuto de silêncio perante essa poesia”.

Preste atenção então na poesia do mundo. “Ser portátil é andar em curvas / e carregar um poema dentro do olho” (Pepê Cezar).

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