Rio 2016 – A poderosa escola mundial do esporte

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rio2016_esporte“Temos coisas muito mais urgentes que precisam de investimento e cuidado, como a educação e a saúde, e a farra de dinheiro da Olimpíada desvia esse dinheiro.” Uma das principais críticas à escolha do Brasil e do Rio para sediar o maior evento do planeta é tanto verdade como um falso julgamento. Verdade porque esse país só será justo e digno para todos quando nossa abandonada escola pública for transformada e melhorada, e quando a saúde pública cuidar mais rápido, e com mais equipamentos e médicos, da população mais carente. Quanto à Olimpíada tirar verbas da educação e saúde, quem garante que os bilhões investidos nos Jogos teriam esse destino? E quem disse, e esse deveria ser o ponto central da discussão, que o esporte não é também muito importante?

O esporte é uma das ferramentas mais poderosas para que as pessoas tenham uma saúde melhor, hoje e no futuro, ou seja, na vida toda. O esporte que além de formar corpos e mentes mais fortes, previne de inúmeras doenças como a diabetes, problemas cardíacos, pulmonares, da obesidade, transtornos psicológicos etc. O esporte que é aliado fundamental de qualquer pessoa para chegar com uma boa saúde na maturidade e velhice.

O esporte é também uma infinita escola de valores, vital para formar crianças, jovens e futuros adultos mais respeitosos, solidários e menos egoístas; mais competitivos e lutadores; mais ativos e preparados para a vida numa modalidade, profissão e no relacionamento com as outras pessoas.

Que outra atividade humana ensina tanto a sonhar e batalhar por isso, a ganhar e perder, a cair e levantar, a não desistir e tentar de novo?

O esporte pode, ser sim, tão importante quanto a saúde e a educação para melhorarmos esse país, para darmos mais oportunidades a quem mais precisa: a molecada de origem humilde. Aliás, as iniciativas mais completas que dão um futuro e vida melhor a esses humildes vêm das instituições que fazem um trabalho integrado do esporte com a educação e um acompanhamento médico, nutricional, fisioterápico e psicológico. Vêm das ONGS, projetos sociais e algumas poucas escolas que fazem bem esse trabalho.

Por isso tudo, mesmo que os Jogos do Rio tenham custado uma fábula e tenham cometido sérios crimes – como os milhares de pessoas arrancadas de suas casas e enviadas para habitações precárias muito longe de onde viviam, para a construção de obras viárias e arenas esportivas – os Jogos serão também uma poderosa fonte de inspiração para milhares de brasileiros humildes sonharem e lutarem por uma vida melhor.

Ah, “mas esses humildes não têm dinheiro para comprar os caros ingressos das arenas milionárias e assim são excluídos da festa”. Sim, a esmagadora maioria não assistirá nada ao vivo, mas a simples cobertura televisiva maciça já planta sementes poderosas. Sementes como as maravilhosas histórias de brasileiros vencedores (de ouro, prata ou bronze, eis aí outro lado bacana da Olimpíada: não premia e valoriza só os campeões) contadas há meses quase todos os dias na TV e, dádiva grande, na TV aberta, que todos possuem.

E milhares de humildes, sim, já tiveram contato com os olímpicos em clínicas e visitas às suas escolas e comunidades nos últimos anos. E outros milhares estão trabalhando nas arenas olímpicas ou na organização dos Jogos. Ontem mesmo percebi que as meninas que entregam parte da premiação aos medalhistas olímpicos parecem ser de origem humilde e precisam ver a alegria delas por participarem de momentos tão belos e valiosos.

Os Jogos são uma inspiração poderosa também para as crianças e jovens de classes sociais com boas condições. Esperamos que esses assimilem as belas histórias dos inúmeros personagens marcantes que toda Olimpíada produz, reflitam, melhorem em algumas atitudes e pensamentos, se tornem pessoas melhores e passem essa tocha para a frente.

Falando em tocha, esqueçamos um pouco os muitos que a carregaram apenas para aparecer e lembremos da simbologia de transmissão do fogo e luz sagrada – da iluminação e consciência da humanidade, e fraternidade.

Lembremos dos gregos antigos, e de sua sabedoria de não separarem o corpo da mente. Lembremos que os grandes filósofos antigos valorizavam tanto o pensamento, a reflexão e o debate como a atividade física.

Lembremos que o esporte como o conhecemos hoje, em sua origem, na Grécia antiga, era um instrumento de aperfeiçoamento e evolução, e também de confraternização e paz durante os Jogos Olímpicos que paravam as guerras.

Lembremos do choro e alegria de Gustavo Kuerten ao entrar no Maracanã com a tocha olímpica criada pelos gregos milhares de anos atrás.

Lembremos da alegria e simplicidade com que Vanderlei a carregou e acendeu a pira.

Lembremos que tanto Guga como Vanderlei fizeram o Brasil vibrar com suas façanhas e depois tiveram a grandeza de devolver ao esporte e ao país os institutos sociais que criaram em  Floripa e Campinas.

Lembremos que se temos dirigentes esportivos nefastos como o presidente do COB e seus aliados políticos, temos um número bem maior de atletas, treinadores, ex-atletas e treinadores que são também seres humanos maravilhosos e batalham para deixar o nosso povo sonhar e vencer.

Lembremos que é nos Jogos Olímpicos que esses homens e mulheres maravilhosas, do Brasil e mundo todo, têm a chance de se tornarem mais conhecidos, tamanha a exposição da mídia nacional e mundial. E assim podem ser conhecidos pelas crianças e jovens de todo o planeta.

Lembremos que os Jogos Olímpicos são, muito mais que um espetáculo (visão dos céticos, de muitas empresas e dos que odeiam ou ignoram o valor e poder do esporte) uma incomparável escola por uma cidade, país e  mundo melhor. Claro, o doping e os interesses comerciais demais em algumas modalidades, mancham o esporte, mas há muito mais beleza e o melhor o ser humano nos Jogos que o seu lado mais nefasto e corrupto.

Celebremos então os Jogos e seus artistas, guerreiros e mestres incríveis.

E tenham certeza que aqui e ali milhares de meninos e meninas brasileiras estão sendo motivados e inspirados a superarem incontáveis carências e obstáculos para ter uma vida melhor através do esporte.

Muito do melhor da humanidade estará no Rio nas próximas duas semanas. É hora de aproveitar isso, assistir, inspirar-se e lutar com a mesma gana dos olímpicos. Um desses exemplos é a menina síria que fugiu da guerra e superou um naufrágio nadando para salvar a sua vida e a de dezenas pessoas. E ela está aqui no Rio com a equipe dos Refugiados.

Aproveitemos então a talvez mais poderosa criação humana, sempre turbinada em cada Olimpíada: as boas histórias. Elas nos emocionam, nos fazem refletir, nos espelham e nos ajudam a seguir em frente ou além.

Não privem suas crianças da outra educação vital para qualquer menina ou menino: a fantástica fábrica de sonhos e cidadãos do esporte.

 

Lugano – O regresso do herói mais humano

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lugano volta 2A imagem, mesmo distante, da arquibancada do Pacaembu, é nítida e poderosa. Quando ele perfila ao lado dos outros jogadores, sua camisa (para ele e nós, manto sagrado) parece ter o dobro da largura dos outros companheiros. A razão é física, emocional e anímica. O peito é realmente enorme, para conter uma caixa torácica ampla e, sobretudo, um coração e alma do tamanho da história do São Paulo e de seu amor, dedicação e gratidão pelo clube que o projetou no futebol mundial.

A dimensão da camisa branca tricolor amplia-se ainda mais nos olhos e peito do torcedor nesse emocionante matar a saudade de um dos raros heróis com quem pudemos nos reencontrar.

Fui ao Pacaembu sozinho ontem porque o reencontro com um herói deve acontecer desta forma. Há que se estar concentrado, interiorizado, esperando como um ritual de fé, quando o vemos de novo e sentimos tanto. Há que se esperar focados em nossa gratidão por alguém que nos fez vibrar, sonhar e vencer tanto.

Há que se ensinar aos que não têm heróis, que nesse cotidiano, país e mundo com tantos vilões, heróis como Lugano são necessários, fundamentais.

Há que se gritar o seu nome com tudo o que está em nossos pulmões porque esse guerreiro ajudou e inspirou muitos tricolores, uma década atrás, a lutar, resistir, sobreviver e vencer.

Em uma fase dura de minha vida, com o coração e a alma abatidos, Lugano foi um dos poucos que me deu ânimo, com seu exemplo de dura trajetória inicial no São Paulo, sua volta por cima e glória construída com uma garra descomunal. Se minha inesquecível turma da Pós em Jornalismo de 2005 e 2006 no interior paulista me dava o afeto e alegria vitais em fins de semana antológicos, era ele quem me inspirava a lutar e também ser um cara melhor.

E que luta! Nos gramados, ele sempre vestiu seu coração e foi lutar, desvestindo-se de qualquer precaução, medo ou economia de ânimo em cada lance.

Em cada lance a que se entregou de corpo e alma porque vestiu de verdade uma camisa que sentiu como manto, prêmio e pele.

Reencontrar Lugano é como ser reanimado, acordado e levantado por um guerreiro e líder histórico.

É nos permitir um pouco de esperança, sonho e muita batalha de novo. E como precisamos disso, nós, torcedores tricolores tão maltratados, traídos e sofridos nos últimos tantos anos de derrotas e decepções, muitas delas vergonhosas.

Reencontrar Lugano nos torna todos escoceses invadidos recebendo o brado e chamado desse William Wallace da bola. Um Coração Valente, envelhecido, sim, mas ainda, tomara, um libertador e faísca para contagiar seus novos companheiros a entenderem o que é se entregar de verdade a essa camisa, e isso passa pelo sentimento de perceber esta camisa e o futebol como algo muito maior que um mero compromisso profissional.

O leão voltou a rugir de novo ontem, pena que para um público tão pequeno, meros 7 mil são-paulinos, mas presumível pelos fracassos anteriores recentes.

Os que foram esperar o ídolo, herói e homem ontem, porém, puderam sorrir como não sorriam há muito tempo; com um sorriso meio feliz demais, meio maníaco partindo das veias, coração, pulmão, coração, de todo lugar de nosso corpo e alma que fica arrepiado, eletrizado e energizado quando vemos o mais guerreiro dos heróis entre nós de novo.

Sonhemos um pouco, meus amigos tricolores. O time, muito menos o elenco, não parecem permitir isso, mas pelo menos podemos ver de novo um jogador e líder que é um grito das profundezas a cada disputa de bola e cobrança verbal, do juiz e companheiros, que protagoniza.

Obrigado por estar de novo pertinho lutando, gritando e sonhando por nós.

Obrigado, também, por esse ser humano transparente e valoroso que você é, que voltamos a perceber a cada palavra, frase, olhar e gesto que vemos a cada entrevista na TV.

Obrigado por seguir sendo um herói não só da bola, mas da vida, do caráter, dos seus bons valores inegociáveis, o que é tão raro no pobre e mesquinho universo humano do futebol brasileiro.

Obrigado por ser o Diós mais humano que lutou, e voltou a lutar, por nós.

Sim, por nós, porque o futebol não é mera distração ou entretenimento, e o São Paulo não é uma mera paixão. Ambos são elementos importantes em nossas vidas e até ajudaram a formar quem somos. E que dádiva e beleza é ter em nossa formação esse jogador-homem que vale como uma matéria vital dada em anos de escola, uma matéria viva, poderosa e eterna chamada Diego Lugano!

lugano volta 1

Creed e Rocky. Nascidos para lutar. Juntos.

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creed2Homenagem é uma palavra tão bela quanto pouco praticada na avalanche da falta de tempo que sobra dos trabalhos ou estudos, e da ditadura do novo, que prevalece em nossa sociedade e mundo cada vez mais consumista e pautados pelas novidades. Graças, porém, que ainda resiste no cinema a arte de reverenciar o passado e aqueles que nos marcaram, emocionaram e/ou ensinaram. O filme Creed, Nascido para Lutar, não faz parte da série Rocky, mas é tão visceral e humano quanto os melhores, mais poéticos e realistas filmes da série, justamente o primeiro, Rocky, um Lutador, e o último, Rocky Balboa. Creed é obra do jovem cineasta negro Ryan Coogler, 30 anos, para homenagear a força que seu pai lhe deu para cursar cinema e a paixão de seu velho pela odisseia do lutador mais querido do cinema (não só…).

A história mostra a tentativa jovem Adonis Johnson de se tornar um boxeador para honrar o sobrenome do pai biológico que ele não conheceu, o lendário Apollo Creed, maior rival e depois amigo que Rocky Balboa teve. Anos de passagens por orfanatos e reformatórios moldam um garoto acostumado a brigar mas ele precisa de muito mais para vencer nos ringues. Precisa da mãe de coração (não a de sangue, também falecida), que o resgata do cárcere infantil, e também de um mestre para fazê-lo evoluir, técnica e mentalmente, com as luvas.

O mestre, obviamente, é Rocky Balboa, mas não será apenas Rocky o professor. O velho lutador simplório da Filadélfia – que perdeu quase tudo e vive de um modesto restaurante com o nome da amada ex-mulher, Adrian – precisará, mais que nunca, também aprender e se motivar com o jovem Adonis. Estabelece-se então mais uma bonita parceria do cinema que fala de boxe, com laços de família do coração que são criados por Rocky e o jovem que ainda precisa se provar para honrar o pai, o melhor pugilista da história no universo da série rockyana: Apollo Creed.

Emulando a força e beleza da ligação de pai e filha do treinador feito por Clint Eastwood com sua menina de ouro, mas sem as ironias e mau humor do treinador de Clint, Stallone- Rocky e o promissor Michael B. Jordan-Adonis vão construindo laços de afeto, respeito, confiança e amor que arrebatam quem assiste ao filme. Os laços são construídos aos poucos e daquela forma tão simples e humilde que compõe o cerne do pacato Rocky de sempre, um raro ex-astro e lenda eterna que manteve-se fiel ao seu caráter e jeito de ser de antes da fama.

A performance de Stallone-Rocky, que ao meu ver sempre foram a mesma pessoa, é tão cativante que o tão menosprezado (pela crítica) ator deve ganhar o Oscar de ator coadjuvante (já ganhou o Globo de Ouro). Stallone, que sempre fez Rocky com uma simbiose de brutalidade (no sentido de ser mais forte que hábil) no boxe e delicadeza de gestos e atitudes fora dele, faz com perfeição o mestre que extrai o melhor de seu pupilo não só na hora do pau das lutas. E está lá o mesmo chapeuzinho fora de moda, o andar balançando, a fala atrapalhada (pela paralisia facial de um lado que Stallone sempre teve). Essa fala e seus pensamentos, porém, que antes eram apenas ingenuidade e juventude, medo e vontade transformaram-se agora em música calma, quase uma oração.

A cada conversa com Adonis, o agora mestre Rocky – tão simples e realista como era seu falecido treinador, Mickey – oferece breves mas profundos sermões de vida real, batalhada, e não da religião. Palavras simples e impactantes. Pura sabedoria de quem saiu do nada, chegou ao topo e depois perdeu tudo – o título mundial, os entes queridos, o melhor amigo, o treinador quase pai – menos a integridade. Menos o saber o valor de cada luta e glória que enfrentou ou teve.

Sim, os críticos de má vontade ou os intelectuais céticos quanto ao valor ou poder do esporte debocharão das palavras de Rocky, chamarão de clichê ou autoajuda barata. Farão isso porque talvez não tenham sido meninos sonhadores ou românticos com ídolos a inspirá-los, jovens guerreiros e esperançosos ou adultos calejados por tantas batalhas perdidas, mas não todas. Para esses que ainda creem, que ainda se emocionam com o velho Rocky, o filme Creed envolve, toca, inspira e nos lembra do melhor e mais sincero de nós mesmos que um dia fomos. Um “melhor de nós” que um dia conhecemos na motivação profunda, mais que isso, inspiração, que as frases de Rocky e, claro, seus treinos malucos, rústicos, e a sua música contagiante nos davam. E ainda nos dão com esse maravilhoso Creed, um verdadeiro brinde de saudação e gratidão em homenagem a Rocky-Stallone oferecido por esse jovem diretor Ryan Coogler. E que lição linda Coogler nos dá, através de Adonis para um Rocky então muito machucado, reforçando o valor e laços de uma parceria de verdade: “Você luta, eu luto.” Que conselho vital e raro! nessa época em que o sistema estimula muito mais a luta, conduta e atitude pessoal, o cada um por si e quase ninguém por todos.

Não foi à toda que Stallone aceitou o convite para emprestar seu personagem ao filme. Imagino o que se passou em seu coração ao ler o roteiro de um filme feito em agradecimento a tudo o que ele sonhou, batalhou e venceu com Rocky. Talvez por isso sua atuação emula, segundo o maior crítico de cinema que conheço, Luiz Carlos Merten, do Estadão, simplesmente aquele que fez o Poderoso Chefão pós-enfarte. O velhinho, outro sábio e mestre, Merten, escreveu que “Marlon Brando encarna no garanhão italiano. Stallone está maravilhoso.”

Caramba: Brando? Não, meus amigos, ante a comparação de Merten, aposto que Stallone apenas diria que não representou nada, nem emulou o mito do cinema. Apenas deixou sua vida, que se confunde com a de Rocky, tomar as telas e nossos corações de lutadores.

Corações que volta e meia lembram de Rocky para não desanimar das pancadas e nocautes que a vida não cansa de dar.

Corações que, tocados por Creed, agora nos fazem lembrar dos mestres de nossas vidas, e que não vencemos sozinhos.

A vida não pode ser vencida com o embuste da mera autoajuda pessoal. Precisamos, demais, de quem nos treine, aprenda e lute com a gente.

Obrigado, Mestres.

Obrigado, Rocky-Stallone e Ryan Coogler.

 

Bra

Nasce um Gigante

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camisa galo

Só ao vivo conhecemos melhor a realidade e temos um panorama completo da verdade. Sempre soube da lealdade e poder da paixão dos atleticanos pelo Galo. A cada temporada, mesmo com sucessivos fiascos, desde 1971, nos campeonatos brasileiros, lá estava a massa lotando a arquibancada do Mineirão e cantando; na verdade, clamando. Clamando com o que só podia ser um amor misturado com uma fé incondicional de quem não ganhava nada além do certame mineiro e seguia cantando, empurrando seu time. E perdendo. Uma coisa é perceber isso pela TV e pelos relatos dos poucos atleticanos que conheci. A gente vê e sente um pouco, mas só podemos é, na real, imaginar o tamanho desse amor. Outra é ir lá em cima, na Serra das Alterosas, nas Minas Gerais, e adentrar no Mineirão antigo.

Estive lá há poucos anos, quando o Galo liderava folgado o Campeonato Brasileiro sob direção do treinador Celso Roth. Em pleno meio de semana frio, acho que de julho, dezenas de milhares de malucos vestidos de branco e preto andavam nos arredores do estádio. Lá dentro eram cerca de 40 mil e fui jogado no inferno, em plena torcida deles, por uma grande amiga alvinegra mas louca pra me mostrar o que era ser Atlético. Logo de cara percebi a intensidade da massa, incendiada pelo mascote mais doente e agressivo do futebol brasileiro, o Galo Doido, que realmente só pode ter um atleticano ultrafanático dentro da fantasia, de tão vibrante e ensandecido que era aquele bicho meio galo meio homem.

O jogo todo, contra meu pobre São Paulo no primeiro ano de uma série sinistra de vacas magras de anos que viriam, foi um passeio conduzido pelo velho craque Júnior (ex-ala esquerdo e um dos maestros de meu tricolor na conquista da Liberta 2005) e pelo megafone colossal dos gritos da massa que não parava um segundo. Foi a coisa mais próxima de uma torcida argentina – de cantar sem parar – que vi naqueles tempos. Hipnotizado e massacrado pela massa rival, achei que seria impossível alguém tirar aquele título brasileiro deles.

Mas vieram alguns meses e o velho tremor e fraquejar do Atlético na reta final explodiram e no final da temporada eles conseguiram perder até a vaga na Libertadores após uma humilhação imperdoável: tomar 6 a 1 do Cruzeiro naquele mesmo estádio em que eu vislumbrei um campeão.

Erro meu sobre ser campeão, mas percebi com clareza uma nação da qual desconhecia a força. A nação em forma um Galo doido, cantador e com um fanatismo e gritar sem parar.

O caso é que as derrotas e os vexames foram se sucedendo e todo ano eu checava a média de público e aqueles galos insanos seguiam tomando o Mineirão, com exceção dos anos de exílio no interior do estado quando o templo da bola de Belo Horizontes estava em reforma.

O caso é que quando o segundo estádio de Belo Horizonte, o Independência foi reformado e devolvido à cidade, a nação voltou a se concentrar em algo que podiam chamar de lar, mesmo que espremida. O caso é que nesse estádio acanhado debruçado sobre o gramado, a nação virou uma ameaça com decibéis e voltagem ainda mais ameaçadora aos rivais. E por isso (e, claro, pela qualidade do elenco montado pelo treinador Cuca, e comprado pelo presidente Kalil), o Atlético tornou-se imbatível no Independência e foi massacrando seus oponentes na 1ª fase da Liberta 2013 e nas oitavas de final.

Bom, depois vieram os inacreditáveis confrontos contra o Tijuana e o Newells, nas quartas e semifinal, em que a massa não conseguiu desnortear os adversários mas reencontrou-se com aquela fé gigantesca de sua história de derrotas e traumas. Uma fé que, mesmo à beira do abismo, fazia os milhares de galos doidos acreditarem mesmo quando o Tijuana teve um pênalti a favor no finzinho do jogo; mesmo quando o jogo contra o Newells ia acabando e o gol não saía para levar a batalha para a prorrogação. A novidade foi que a fé virou felicidade por classificações históricas que só poderiam ser obra daquele “sobrenatural de almeida” de que tanto falava e invocava Nelson Rodrigues.

Eis que veio a grande final da Liberta, a primeira da história do clube, e o mesmo roteiro muito mais que dramático se repetiu: derrota fora de casa por dois gols e a necessidade de empreender outra epopeia para renascer e vencer.

E o Galo repetiu contra o Olimpia paraguaio, tricampeão da América, história parecidíssima ao confronto com o Newell´s. E o Galo sofreu, muito. E o Galo esteve muito perto do fim, antes do paraguaio escorregar com o gol livre, sem goleiro, a sua frente. E o Galo teve fé, porque aquela imensa torcida, de volta a um Mineirão desfigurado, mas Mineirão, cantou numa sinfonia de 60 mil fiéis “Eu acredito!”.

E o Galo se tornou o maior clube da América porque o amor de sua torcida faz milagres, ou empurra seus artistas e guerreiros a façanhas tão belas quanto inexplicáveis. Porque, como um dia disse o lendário escritor e galo doente Roberto Drummond, “Se houver uma camisa branca e preta pendurada no varal durante uma tempestade, o atleticano torce contra o vento.”

E essa força e fé da nação atleticana, adicionada à confiança e grandeza que o clube e seus jogadores acabam de ganhar com esse título extraordinário, acabam de tornar o Galo um gigante do futebol sul-americano e, sim, mundial.

As máscaras verdadeiras

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filme-menina de ouro

Usar uma máscara não é apenas uma fuga do que somos e um fingimento do que não somos. É também a fantasia boa, ou a inspiração que nos leva além.

A poetisa Hilda Hilst defendia o valor de nos mascarar, de nos imaginar outros seres, cenas ou elementos da ficção ou mergulhar nessas cenas e vidas inventadas. Inspirados dessa forma temos uma iluminação e podemos nos ultrapassar, até evoluir.

Um livro, um personagem; um filme, uma cena; um poema, um verso; até uma novela etc. Quais são as inspirações que fizeram com que você ficasse tão tocado que imaginou-se parte delas ou motivado por elas? Quais as referências ficcionais que você vestiu como se fossem marcas suas e essas marcas te ajudaram a viver melhor, ou pelo menos sonhar em fazer ou alcançar algo parecido?

Já fui

um jovem pobre rebelde revoltado contra a desigualdade e opressão dos mais ricos, que fugia da realidade com os livros, mas depois lutava contra ela,

uma dupla de ladrões de bancos bom vivant que não feriam ninguém e roubavam pelo prazer de desfalcar os poderosos, além de se mostrarem para a inesquecível ali macgraw e ainda darem uma volta de cavalo ou de bicicleta com ela enquanto tocava aquela canção maravilhosa

um lutador de boxe a quem ninguém dava nada e contra tudo, chegou ao topo, mas sem esquecer de quem o ajudou a chegar lá,

um pai de vários filhos sem esposa se virando com muito coração e surfe na veia para cuidar de sua família,

um vendedor de sucos e sanduíches naturais de tiradas e vocabulário hilário, mas genuinamente praiano e hippie fora do tempo que vivia dentro de um trailer na praia

meninos, homens e velhos que pontuavam suas vidas através das alegrias e tristezas infinitas que o futebol pode proporcionar

um lutador mais do que decadente e todo arrebentado pela vida e pelos ringues que, contra tudo e todos e contra sua saúde em frangalhos, decide voltar ao ringue encarando até o risco de não sair mais dali, mas feliz porque aquele era o seu lugar, “porque pelo menos aqui dentro eu sei quem está batendo em mim”

um homem de clube de bairro falido (tanto ele como o clube) que fará tudo para salvar a agremiação (com esportes, música, atendimento social e celebração de amizades) da especulação imobiliária e gananciosos que desejam demolir tudo para fazer um supermercado no local (o “progresso” diriam os homens-máquinas frios de fazer dinheiro enquanto destroem histórias, pessoas e comunidades).

um professor de literatura desafiando a prisão de mentes e espíritos dos métodos dirigidos e interpretações impostas de muitos livros didáticos e motivando seus alunos a criarem livremente

uma cachorra que enfrenta a desgraça da seca e da fome no nordeste miserável apenas porque está junto daqueles que ama

o menino com a curiosidade do tamanho do mundo, que enxerga em cada coisinha daqueles campões gerais, o mundo

o mais apaixonado e solitário dos super-heróis que só não morre por ser impedido de regressar à amada porque recebeu a dádiva de surfar por toda a galáxia

o homem bom comum que não aguenta a pressão do sistema e dos homens maus e fica verde de raiva e, quando regressa ao estado de homem de novo, precisa pegar a estrada e procurar algo bom em outro lugar enquanto toca aquele mais belo e triste piano da história das séries de tv

dois homens comuns perdidos no tempo e sendo jogados no olho do furacão de acontecimentos marcantes da história da humanidade

um detetive bonachão, meio preguiçoso mas hábil decifrando casos e curtindo a vida no Havaí

um velho ex-jogador de futebol lembrando de velhas histórias dos anos mais românticos e belos do futebol com seus amigos de bar, mas que no final amaldiçoa uma história, e talvez o hábito de relembrar dizendo aquela tão dura, triste e real “que puta história triste!”

um moleque que ama até as tripas o rock and roll e faz dele a sua vida trabalhando para uma revista de rock e vivendo, muito, durante as reportagens

o melhor pai do mundo, que mente para o filho a todo momento e fantasia para que seu bambino não perceba o horror da guerra e dos que se dizem serem humanos

os burros e aparentemente malvados (não na essência) mas seres que acreditam no outro com uma ingenuidade tocante – o coiote, o tom e o frajola, pobres vítimas dos verdadeiros vilões, aquela ema insuportavelmente sorridente, aquele ratinho cínico perverso e aquele passarinho sádico

o marido que enfrenta a descida da mulher no inferno do álcool sem jamais pensar em deixá-la de verdade porque é exatamente igual aos versos daquela canção de arrebentar e porque quer proteger as filhas não da mãe, mas da doença dela

o moleque que não tem condições físicas de se tornar um corredor, mas que encara tudo pelo amor à mãe, o ser mais sagrado desse mundo, e vê o Ser maior enquanto corre com a alma para buscar um milagre e salvá-la

o filho ingrato que briga e desdenha do pai por não acreditar em suas histórias fantasiosas de pescador, mas um dia percebe toda a grandeza e verdade do pai

o menino que, diante do mar pela primeira vez, pede ajuda ao pai para olhar

o cachorro meio lobo que ama a liberdade de correr pela floresta e também o homem que cuidou dele e lhe deu a maior riqueza que podemos dar, o afeto

o cachorro que esperou por seu dono anos e anos mesmo depois dele não voltar mais do trabalho

o bicho papão que se derrete todo pelo carinho de uma doce e simpática pequenina

a menina que não aceita as maldades e injustiças do mundo e dos homens e questiona sem parar o que os adultos jamais conseguem responder

o jovem apaixonado por uma moça simples que um dia a deixa por suas ambições pessoais, mas que o destino mágico lhe coloca de novo no caminho, para que tente ser o pai e marido que sua ambição não deixou ser

o pai que mesmo sem condições mentais dá à filha o maior amor do mundo

cara que vê na rua aquela que sabe que é (e foi) a mulher de sua vida mas, em vez de falar com ela, deixa ela passar para que ele não estrague a vida dela, e de repente toca aquela canção que destroça tudo dos loucos de manchester

um velho rabugento intolerante que vai aprender o poder da amizade com amor com quem menos esperava, os imigrantes asiáticos que ele não tolerava e chamava, independente de onde tinham nascido, de “chinas”, e vai se sacrificar por eles na mais bela cena de altruísmo da história do cinema

um velho treinador solitário e afastado da filha que um dia encontra em uma lutadora de boxe a sua filha da vida

e muito mais, e dando uma rápida pensada nos personagens que lembrei, me impressiono como incorporei bastante algumas das características, pessoais e coletivas, de vários deles

e de todas elas, talvez o que mais bata fundo em mim é a do treinador que faz de tudo para ajudar sua pupila a alcançar o potencial que vê nela e ainda estabelece uma relação pura de mestre e discípula que se tornam o pai e filha, não de sangue mas que a vida lhes deu

talvez esteja falando um monte de besteiras e eu seja apenas o reflexo do que meus valentes pais professores, tão românticos, apaixonados e idealistas quanto lutadores me ensinaram e legaram

mas talvez eu seja também um pouquinho também as emoções, sentimentos e valores de cada ficção que citei aqui (e outras e outras mais)

E vocês, quem são os personagens e histórias que lhes cativaram tanto que se tornaram parte de seus corações e lhes ajudaram a ir mais longe?

E tem algum louco ou maluca aqui que chegou ao final desse texto e ainda vai tentar matar o nome de alguns desses muitos filmes e alguns livros, novelas e desenhos que citei?

Adeus, raio de sol de nossas manhãs

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Raras vezes conheci uma menina tão doce, delicada, linda, e com um sorriso tão belo, da cor dos seus cabelos dourados.  Era como se o sol penetrasse em plena sala de aula para nos aquecer e abraçar. Porque Camila aparecia pra gente sempre assim: mesmo quando ainda despertando e preguiçosa nas primeiras horas da manhã, sua presença, um breve olhar seu, era um abraço espontâneo e natural, sem receios, sem guardar sentimentos, sem se calar, como o sol que deveria nascer com a chama afetuosa do sorriso dela todas as manhãs.
Foram poucas manhãs junto dela como seu professor, ficou apenas um ano com a gente, e por isso sentimos tanto a sua ausência solar, nossa menina dourada, nossa menina pão de queijo, alimento afetuoso de todas as manhãs.
Nossa menina poeta, delicada no trato das palavras, jardineira de palavras-sentimentos, sempre plantando um pouco de amor e amizade nas linhas de suas folhas de caderno. Sim, ela demorava a entregar as redações e eu a cobrava, pois tinha saudade de seu jeito artesã de escrever, como se cultivasse flores.
Na verdade, era a própria uma flor, meio girassol – do sorriso; meio margarida – pela delicadeza, sensibilidade e simplicidade, por não ser do tipo que se guarda ou se esconde.
Camila, a também menina viajante que às vezes sumia num mundo só dela em plena aula, talvez sonhando, talvez pensando,  mas sempre tomando um susto engraçado quando a trazíamos de volta, e ela ficava sem jeito.
Sem jeito ficamos nós, porque agora falta em nosso jardim uma das flores mais belas, especiais e essenciais. Sim, há tempos que não a via, há tempos que não sabia dela, mas sei que os que ainda eram tocados por suas pétalas, aroma, alegria, doçura e sapequices perderam uma das luzes mais reconfortantes e vitais de seus jardins de amizade e amor.
Vai, querida, descansa em paz e, por favor, continue junto de seus amigos e amores, continue a bater suas asas por nós.
E pode deixar que sempre que conseguirmos perceber o sol nessa cidade tão cinza, vamos saber que é você, lá de cima, que sorri para nós.
Adeus, querida, e meu Deus, por favor, acolhe com carinho essa breve fada que passou por nós.
PS – Meus queridos ex-alunos e ex-alunas queridas. Nunca deixem de se ver, façam o que a Camila sempre queria: encontrem-se, amem-se, não deixem as novas vidas acabarem com as amizades maravilhosas que fizeram nos anos mais puros e belos da infância e adolescência.

Os 4 do Pacaembu

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Não vou citar seus nomes, nem mostrar seus rostos. Não merecem. Eles, os que perderam uma bela oportunidade de ignorarem seus direitos de consumidor em troca de algo maior: o direito à dignidade e respeito pela dor que tem a família de Kevin Spada e a memória de seu filho.

Eles só pensaram em si mesmos. Eles, que queriam ver o Corinthians porque compraram ingresso, mesmo se o Corinthians, algo monumentalmente maior que eles, não queria que eles vissem o jogo.

Estranha foi então a imagem deles com a camisa do clube vestindo o coração (junto do terno), porque a esmagadora maioria dos outros milhares de corinthianos não brigaram na justiça por “seus direitos”. Prefiro acreditar que esses milhares não tenham entrado na justiça por respeitarem Kevin ou, atitude menos nobre mas ainda correta se pensarmos no amor pelo clube, por não desejarem que o clube tenha uma pena ainda maior.

Portanto, não foi por amor ao Corinthians que vocês protagonizaram este episódio lamentável. Foi por algo que o jornalista Lucio de Castro tentou definir como mais um sinal do “fim dos tempos”. Mesmo dizendo que não é um pessimista, e que tem muita coisa boa também acontecendo por aí, Lucio tentou nomear o que viu nas atitudes dos 4 do Pacaembu:  um individualismo e egoísmo exacerbados. E, pior, Lucio comentou seu mal estar ao ver as cenas dos 4 falando ao telefone, repetidamente, durante o jogo, certamente porque os amigos comentavam “você tá na televisão”… E o veterano jornalista, que já viajou o mundo mostrando como o futebol se confunde com a vida (a série sobre a influência das ditaduras militares no futebol da América do Sul é obra dele) definiu com exatidão o que deve ter movido os 4: mais que a defesa de um direito pessoal como consumidores, eles defenderam seus desejos pessoais, o “eu quero, eu posso”.

Enquanto Lucio mostrava seu desconforto e mal estar moral e humano, a emissora que transmitiu o jogo mostrava em uma reportagem as vozes dos 4 durante o jogo de ontem, quais foram suas reações e gritos. Fez isso sem a menor crítica, como sempre. Mas pelo menos o telespectador que não é idiota pôde perceber a entonação de filme de quinta categoria daqueles gritos patéticos dos 4 (na verdade, falas em tom mais alto) de “aqui tem um bando de loucos, loucos por ti, Corinthians”.

Também estou com Lucio, acredito mesmo que tem muita gente boa e histórias bacanas por aí. Creio no futuro quando percebo o coração e ideais de muitos de meus jovens alunos e ex-alunos . Mas também sinto que a batalha por um mundo mais humano está perdida quando pessoas como esses 4 defendem, única e exclusivamente, os seus desejos pessoais, os seus egos e vaidades enormes ou “direitos”. Sim, vocês têm o direito de afundar, e conseguiram, essa humanidade em parte apodrecida…

Sim, vocês têm o direito de terem pago 217 reais em cada ingresso com desconto que adquiriram como sócios-torcedores.

Só não sei se têm a decência de sentirem-se mal por terem gasto em conjunto mais do que o salário mensal do pai e mãe do Kevin, dado que está na Folha de hoje.

Só não sei se tiveram a decência de lamentar a morte do menino.

Só sei que a decência de homenagearem o menino vocês não tiveram.

PS – Bela, obrigatória e dolorosa a reportagem do veterano Eduardo Ohata na Folha de hoje. O jornalista foi a Cochabamba descobrir quem era Kevin, quem são seus pais e o que fazem (são professores de história), quantos irmãos ele tinha (três, pequenos, de quem Kevin cuidava quando os pais estavam trabalhando), o que ele fazia (era um atleta de várias modalidades na escola, um líder escolar, membro da banda) com que ele sonhava. Parabéns à Folha por nos mostrar que Kevin não era apenas o que sabíamos dele: um adolescente boliviano assassinado por um associado da Gaviões da Fiel. Leia a reportagem aqui: Vazio

Assassinato não é fatalidade

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Meu primeiro contato com a violência das torcidas organizadas aconteceu quando ainda era um menino de 9 anos, e é a única lembrança nítida que tenho dos meus 9 anos. Era a final do Campeonato Paulista de 1978, São Paulo e Santos. Se não me engano meu time tinha vencido e forçado uma outra partida (o Santos seria campeão). Na velha Brasília de meu pai, estávamos empacados no trânsito de fim de jogo para ir embora. Não lembro qual o símbolo do São Paulo havia no carro, se um decalque (era assim que chamávamos os adesivos) ou alguém dentro com a camisa do clube. Só sei e lembro bem que um animal da Torcida Jovem santista, uma das mais temidas da época, acendeu um rojão há uns dois metros da janela do nosso carro e mirou para dentro. Podia ser o fim de algum de nós ou um ferimento gravíssimo mas por obra divina ou não sei se por desespero e amor à família de meu pai, meu velho conseguiu acelerar e o morteiro que nos atingiria em cheio passou raspando pelo carro, e não sei se atingiu alguém na rua.
Isso tem uns 35 anos, e hoje, tanto tempo depois me lembrou o sinalizador. Só que os fogos aumentaram seu poder dentro do estádio na mesma proporção da estupidez crescente das organizadas, ao adotarem um sinalizador de navio (???!!!). E, sim, a Gaviões da Fiel tem culpa porque o sinistro morteiro que matou o menino Kevin era também portado por outros membros da torcida.

Talvez o sinalizador tenha sido jogado na torcida boliviana por acidente, por alguém que não sabia manejá-lo, mas isso não configura a indecente alegação de “fatalidade” usada pelos dirigentes corinthianos e, que decepção, por Paulo André, um raro caso de boleiro com boa formação intelectual. 
Fatalidade, segundo o dicionário, é “destino inevitável”. Só que o destino do menino Kevin não era morrer num estádio de futebol, na primeira vez que saía de sua cidade, Cochabamba, para ir a Oruro. O que acabou com sua vida foi a estupidez de torcedores da Gaviões que carregam um morteiro desse quilate para dentro de um estádio. “Ah, mas não podemos culpar a torcida e o time pelo infeliz que disparou a arma (sim, aquilo dentro de um estádio só pode ser considerado uma arma)”. Podemos, sim, porque não era só o assassino que portava um sinalizador na Gaviões em Oruro. E o assassino só estava ali dentro porque a diretoria do Corinthians financia, como faz a maioria das diretorias dos grandes clubes brasileiros, a viagem e entrada de seus torcedores. Ou alguém é ingênuo ao ponto de acreditar que que aqueles torcedores viajaram com suas economias?

A indecente Conmebol, que há décadas permite a barbárie na Libertadores, não tem moral nenhuma para punir o Corinthians, mas fez o seu papel, finalmente, ao proibir a torcida nos próximos jogos do clube. Tirar mando de jogo ou dar multinhas não adiantaria nada. Pena que seu presidente não tenha a dignidade de aceitar a punição e ainda venha com a bravata, e falta de respeito, de falar em “fatalidade”.

Aos que já estão me xingando antes de ler todo o texto, e aos ignorantes das redes sociais que são contra a punição ao Corinthians apenas por serem corinthianos, afirmo que outros clubes deveriam ter sido punidos, e de forma mais rigorosa que apenas proibir a torcida no campo. São Paulo e Palmeiras, por exemplo, deveriam ter sido banidos da Copa de Juniores por anos depois da famosa batalha do Pacaembu anos e anos atrás. E os bandidos das organizadas desses clubes, e seus respectivos clubes de dirigentes coniventes, deveriam ter sido punidos severamente em inúmeros outros episódios violentos. Não foram.

Enquanto os clubes não forem punidos severamente os animais das organizadas seguirão praticando crimes dentro e fora dos estádios. E enquanto os marginais não forem fichados e proibidos de ir a um estádio pelo resto da vida, a violência prosseguirá.

Abaixo, reproduzo parte do brilhante texto do jornalista André Barcinski sobre a nojenta relação dos clubes com as facções de marginais disfarçadas de torcidas organizadas.

“…Vamos deixar uma coisa bem clara: não falo só do Corinthians, mas de TODOS os clubes brasileiros que têm relações promíscuas com as organizadas: eles precisam, de uma vez, cortar qualquer ligação com as torcidas.

Os torcedores de verdade – não os profissionais da arquibancada – deveriam exigir que seus clubes rompessem imediatamente com essas facções.

Além disso, os clubes tinham a obrigação moral de responder a algumas perguntas: eles dão ingressos para as organizadas? Dão dinheiro? Existem membros de organizadas trabalhando nos clubes? Quantos torcedores profissionais são sustentados pelo clube?

Sobre a punição ao Corinthians, achei justa. Infelizmente, nossos dirigentes têm os bolsos mais sensíveis que as consciências.

Espero que, além de presos os responsáveis pelo sinalizador, se apurem as responsabilidade de dirigentes e do próprio clube também, para que todos os clubes – TODOS – aprendam que apoiar organizadas pode ser bom negócio a curto prazo, mas tem seu preço no fim.

E enquanto alguns reclamam de não poder ver seu time no estádio e o Corinthians vergonhosamente tenta chantagear a Conmebol, ameaçando tirar o time da Libertadores, a família de Kevin Espada enterra o menino.”
 

PS – O silêncio da FIFA e CBF, sempre um mal exemplo de jogo sujo e cumplicidade com os mais fortes, a gente entende, mas onde está o governo brasileiro no episódio? A presidenta deveria se posicionar com firmeza, como fez Margaret Thatcher quando os clubes ingleses foram expulsos das ligas europeias após a tragédia de Heysel, cometida pelos torcedores do Liverpool. Thatcher, reagindo à articulação dos clubes que queriam recorrer da punição, ordenou que calassem a boca e acatassem a decisão imposta pela UEFA. Dilma deveria pressionar Mario Gobbi. Será que não faz isso pela paixão e interesses de Lula com o Corinthians? Só não me venham botar a culpa na presidenta, lembremos que Lula e Fernando Henrique também não coibiram a violência. Ela está pecando é por omissão.

PS 2 – Arrumaram um “di menor” para livrar a cara dos animais armados?
PS 3 – Sim, a polícia boliviana falhou ao permitir a entrada dos sinalziadores, e o clube boliviano foi justamente punido também, mas de forma menos severa, porque a culpa maior é de quem levou armas ao estádio. Sim, armas.

Messi e Neymar – As crianças da revolução

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     A melhor explicação para as inexplicáveis jogadas e gols espetaculares que Messi (se cuida, Pelé!) e Neymar (legítimo sucessor de Garrincha) fizeram 4ª feira veio de um velho artista da bola, o francês Eric Cantona, um dos maiores ídolos da história do Manchester United. Disse Cantona sobre Messi e suas palavras cabem direitinho em Neymar: “Messi tem um entusiasmo quase infantil pelo jogo. Os grandes jogadores são os que têm a espontaneidade da criança.”
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Requiém para o bar de nossas vidas

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Não é a alegria que é inspirada pelos bares. É o contrário. O bar certo – sem frescuras, sem pose, sem excessos na decoração e monetários – o bar dos nossos afetos é que produz a alegria. Porque o bar certo é um aconchego de cadeiras, mesas e o nosso canto, lanche e bebida preferida. E, claro, os amigos do peito que adoram o mesmo lugar. E o que fazemos quando baixamos no nosso bar e ele fechou?
Lembro que o amigo irmão já tinha me falado que ele ia fechar. Mas a gente não acredita, ou pensa que vai demorar. Como pode o nosso bar fechar? Como um lar pode ser cerrado? A dor piora porque há alguns anos passei a frequentá-lo muito pouco, talvez machucado porque a vida seguia sofrida enquanto as pessoas pareciam tão felizes ali. Talvez porque há muito tempo que de ponto de encontro de amigos o bar tinha virado um mero esquenta pré-balada para os cada vez mais novos frequentadores. Talvez porque eu não tinha uma grande alegria pra contar, e grande alegria só pode ser um coração completado com o amor, que enfim, reencontrei. Talvez porque fosse difícil até saborear uma das mágicas deste bar: a sensação de que o tempo não passava, e de que as amizades não morriam, continuavam firmes e eternas. Sim, o tempo passava, e muitos de nós continuavam na mesma, sem ainda conquistar alguns dos grandes sonhos que um dia sonhamos juntos neste bar. Por isso, a alegria de frequentar esse templo da amizade do peito foi se tornando nostalgia. E nostalgia, a saudade da época mais louca e dos sonhos jovens mais reais, não faz bem numa mesa de bar, numa sagrada mesa de bar dos melhores amigos.
Besteira, devia ter passado lá mais vezes. Devia ter erguido mais brindes. Devia ter dado mais risadas por ali. Devia ter aceitado os convites seguidos do rei deste bar, Fernando Baccari e sua côrte de loucos nobres, no coração e caráter, Salim, Gus, Kiko e Gutão. Côrte, não, pois essa turma mais se assemelhava aos mosqueteiros do romance de Alexandre Dumas, loucos e destemidos espadachins da vida, em busca de um pouco de aventura, encontrada até num simples, idiota mas doido jogo da moedinha… Encontrada nas conversas debiloides e alegres, ou nos breves mas marcantes interlúdios em que discutíamos a vida e nossos problemas. Momentos em que um simples olhar já bastava, um olhar de compreensão que surge com mais força na nossa taberna, na nossa casa no meio da rua. No estação de parada em que esperávamos o mais importante: os amigos que amamos.
Os amigos que não nos deixaram na mão nos momentos mais duros.
Os amigos com que celebramos as maiores conquistas de nosso Tricolor. O vazio aumenta, pois além de tudo, o bar ainda era um conhecido reduto Tricolor.
Os amigos com que celebramos de forma insana a conquista da Copa de 2002. Um deles, grande Nunes, que ainda era o maior devorador dos ótimos lanches, raros em um botecão, do lugar.
Os amigos que eu fiz quando comecei a aulas, e, irresponsável que eu era, os amigos a quem eu apresentei esse bar. Talvez eu tenha errado, mas aquele bar ajudou a forjar amizades eternas, e minha falha talvez tenha virado virtude.
Porque aquele tornou-se o bar da esperança, o bar das risadas, dos brindes cheios de sentido ou sacanagem, dos apertos de mãos firmes, das conversas cúmplices e, claro, das mais variadas cenas antológicas de bagunça e comemoração, de brigas e reencontros, de uivos para a lua e gritos, quantos gritos!, de gol ou amizade.
Por isso grito, com o peito apertado e a face molhada, toda a saudade e história do bar de nossas vidas, o inesquecível bar de Seu Leo, dos garçons Sousa, Bigode, daquele outro simpático pacas, desse pessoal que nos atendia falando o nosso nome.
Obrigado por tudo, meu grande amigo, meu irmão, Samaro!!!!!