Lugano – O regresso do herói mais humano

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lugano volta 2A imagem, mesmo distante, da arquibancada do Pacaembu, é nítida e poderosa. Quando ele perfila ao lado dos outros jogadores, sua camisa (para ele e nós, manto sagrado) parece ter o dobro da largura dos outros companheiros. A razão é física, emocional e anímica. O peito é realmente enorme, para conter uma caixa torácica ampla e, sobretudo, um coração e alma do tamanho da história do São Paulo e de seu amor, dedicação e gratidão pelo clube que o projetou no futebol mundial.

A dimensão da camisa branca tricolor amplia-se ainda mais nos olhos e peito do torcedor nesse emocionante matar a saudade de um dos raros heróis com quem pudemos nos reencontrar.

Fui ao Pacaembu sozinho ontem porque o reencontro com um herói deve acontecer desta forma. Há que se estar concentrado, interiorizado, esperando como um ritual de fé, quando o vemos de novo e sentimos tanto. Há que se esperar focados em nossa gratidão por alguém que nos fez vibrar, sonhar e vencer tanto.

Há que se ensinar aos que não têm heróis, que nesse cotidiano, país e mundo com tantos vilões, heróis como Lugano são necessários, fundamentais.

Há que se gritar o seu nome com tudo o que está em nossos pulmões porque esse guerreiro ajudou e inspirou muitos tricolores, uma década atrás, a lutar, resistir, sobreviver e vencer.

Em uma fase dura de minha vida, com o coração e a alma abatidos, Lugano foi um dos poucos que me deu ânimo, com seu exemplo de dura trajetória inicial no São Paulo, sua volta por cima e glória construída com uma garra descomunal. Se minha inesquecível turma da Pós em Jornalismo de 2005 e 2006 no interior paulista me dava o afeto e alegria vitais em fins de semana antológicos, era ele quem me inspirava a lutar e também ser um cara melhor.

E que luta! Nos gramados, ele sempre vestiu seu coração e foi lutar, desvestindo-se de qualquer precaução, medo ou economia de ânimo em cada lance.

Em cada lance a que se entregou de corpo e alma porque vestiu de verdade uma camisa que sentiu como manto, prêmio e pele.

Reencontrar Lugano é como ser reanimado, acordado e levantado por um guerreiro e líder histórico.

É nos permitir um pouco de esperança, sonho e muita batalha de novo. E como precisamos disso, nós, torcedores tricolores tão maltratados, traídos e sofridos nos últimos tantos anos de derrotas e decepções, muitas delas vergonhosas.

Reencontrar Lugano nos torna todos escoceses invadidos recebendo o brado e chamado desse William Wallace da bola. Um Coração Valente, envelhecido, sim, mas ainda, tomara, um libertador e faísca para contagiar seus novos companheiros a entenderem o que é se entregar de verdade a essa camisa, e isso passa pelo sentimento de perceber esta camisa e o futebol como algo muito maior que um mero compromisso profissional.

O leão voltou a rugir de novo ontem, pena que para um público tão pequeno, meros 7 mil são-paulinos, mas presumível pelos fracassos anteriores recentes.

Os que foram esperar o ídolo, herói e homem ontem, porém, puderam sorrir como não sorriam há muito tempo; com um sorriso meio feliz demais, meio maníaco partindo das veias, coração, pulmão, coração, de todo lugar de nosso corpo e alma que fica arrepiado, eletrizado e energizado quando vemos o mais guerreiro dos heróis entre nós de novo.

Sonhemos um pouco, meus amigos tricolores. O time, muito menos o elenco, não parecem permitir isso, mas pelo menos podemos ver de novo um jogador e líder que é um grito das profundezas a cada disputa de bola e cobrança verbal, do juiz e companheiros, que protagoniza.

Obrigado por estar de novo pertinho lutando, gritando e sonhando por nós.

Obrigado, também, por esse ser humano transparente e valoroso que você é, que voltamos a perceber a cada palavra, frase, olhar e gesto que vemos a cada entrevista na TV.

Obrigado por seguir sendo um herói não só da bola, mas da vida, do caráter, dos seus bons valores inegociáveis, o que é tão raro no pobre e mesquinho universo humano do futebol brasileiro.

Obrigado por ser o Diós mais humano que lutou, e voltou a lutar, por nós.

Sim, por nós, porque o futebol não é mera distração ou entretenimento, e o São Paulo não é uma mera paixão. Ambos são elementos importantes em nossas vidas e até ajudaram a formar quem somos. E que dádiva e beleza é ter em nossa formação esse jogador-homem que vale como uma matéria vital dada em anos de escola, uma matéria viva, poderosa e eterna chamada Diego Lugano!

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Um pôr-do-sol infinito chamado Rogério Ceni

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 Ninguém se despede de um grande amor lentamente. Só o atleta que chega naquilo que os antigos chamavam de “o ocaso de uma carreira”.

Nenhum grande amor termina de forma tão dolorosa como a do grande ídolo que vai partindo, porque sente que o fim está chegando.
Sente a dor em cada músculo; em cada pé, joelho, ombro e braço que se machuca e não se recupera mais facilmente como antes. Agora a dor demora a partir e o ídolo, grande que é, apaixonado que é, não vai esperar a dor ceder. 
Porque a dor de não jogar será maior perto do fim. Rasgará a alma de quem está cruzando as últimas curvas.
E pesa ainda a responsabilidade de ser amado. O grande ídolo não quer se ausentar em seus últimos momentos, em seus últimos jogos, em seu últimos campeonatos.
Não quer magoar seu grande amor: o distintivo que bate no meio do peito dos que torcem por ele. Um distintivo que é, para o ídolo de verdade, a mesma coisa que o torcedor que o ama com respeito e gratidão.
Por isso é tão duro quando o grande ídolo escuta o burburinho sinistro de algumas críticas que vêm de onde ele menos esperava: daqueles que amava. Daqueles que o amavam.
Nada é mais belo que o amor. Mas nada dói mais que o amor que nos abandona, que não nos ama mais.
Nada é mais duro que jogar-viver machucado e falhar. Porque o ser humano perde o respeito ou desama com facilidade. Não importa a muitos que alguém está lá, no sacrifício, jogando-defendendo por eles. Importa que esse alguém falhou.
Não foi no jogo contra o Strongest, na Bolívia, que Rogério falhou pela primeira vez em um jogo decisivo. Houve outras falhas antes, raríssimas, mas houve. Não foi a primeira vez que ele foi criticado por quem antes só o venerava. O caso é que a crítica, quando perto do fim, costuma ser ainda mais dura, porque vem acompanhada de uma cobrança cruel: “Está na hora de se aposentar”.
Os críticos não ligaram se ele se machucara feio contra o Corinthians.
Os críticos não ligaram para a sua história, tão grandiosa que parece lenda.
Ele ligou. Ele sentiu o baque.
Pior: temeu encerrar a carreira de forma deprimente, eliminado em sua própria casa do campeonato que sempre foi sua paixão eterna como se fosse aquele mesmo garoto sedento de glórias que esperava uma chance para substituir outro grande goleiro, Zétti.
Ocorre que a vida dos grandes personagens costuma não se encerrar de forma melancólica. Ocorre que há algo lá em cima, para os que creem; ou algo que vem do coração energético do mundo, para os céticos, que não aceita que histórias maravilhosas como a deste homem do número 01 às costas acabe desta forma, de repente, como uma bomba que dá chabu ou uma paixão que não se torna amor.
Ocorre que as forças ocultas, mas presentes da humanidade, tecem a vida dos grandes como uma história fantástica, um conto de fadas, uma lenda.
Ocorre que mesmo quando o grande ídolo estava rodeado de um grupo então apático, derrotado, condenado, eis que a sua alma e poder contagiou seus companheiros, e o amor dos milhares que amavam de verdade o seu distintivo também fez a sua parte.
Ocorre que um atacante sem muitos recursos técnicos, mas com uma garra e valentia monumental, disputava cada bola como se sua vida dependesse dela. 
Ocorre que junto desse possuído corria um baixinho que enfrentou todas as privações e dores que significa ser uma criança pobre no Nordeste miserável.
Ocorre que o baixinho que venceu seu destino, Osvaldo, enfiou um passe de mágica para Aloísio.
Ocorre que o atacante sempre possuído como seu apelido, Boi Bandido, matou a bola no peito e preparou-se para marcar, mas foi derrubado. Pênalti.
Ocorre que ele, o homem que se despede lentamente de seu grande amor, começou a caminhar lentamente da sua meta, do seu lar, do seu amor, da sua fortaleza, até a muralha inimiga; a muralha que jamais teve medo de enfrentar porque um dia, revolucionário, decidiu que não apenas evitaria gols, mas os marcaria.
Ocorre que um estádio inteiro, em seu Morumbi, e outros estádios inteiros, no coração de todo são-paulino que não pôde ir ao jogo, cantaram, gritaram e bradaram o seu nome.
Ocorre que enquanto ele se ajeitava para cobrar o pênalti que só ele poderia cobrar, porque só ele teria a coragem de cobrar, o mundo inteiro de sãopaulinos ficou com os olhos cheios e subitamente sem voz ou respiração.
Ocorre que alguns de nós, sim, temíamos pela injustiça dele falhar e ser considerado o responsável por uma despedida que não seria apenas de nosso time, mas dele mesmo.
Ocorre que ele jamais duvidou.
Por isso ele caminhou de novo lentamente para a bola, talvez porque só lentamente que ele e nós poderíamos relembrar tudo o que ele já fez, todas as defesas, todos os gols, todos os títulos, todo o filme ou na verdade, série de filmes que ele viveu em sua carreira tão longa que parecia infinita, ainda parece.
Por isso ele de novo cerrou todos os músculos de sua face antes de, quase parado, bater na bola com a decisão, calma e querer do homem que deseja e precisa falar algo para sua amada pela última vez.
Por isso ele marcou de novo.
Porque um grande amor, como o grito dos radialistas, Rogériooooooooooooooooooooo!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
… não termina nunca.

Lucas – O menino que não se acovardou

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O caso deve ser único no futebol mundial, do jogador já vendido que em vez de se resguardar, passa a jogar com uma coragem e uma determinação maior. Do jovem que em vez de se poupar, sonhando já com a fortuna que fará na Europa, simplesmente não pensa no futuro e apenas se agarra com uma paixão extraordinária, rara, ao clube que o revelou, ao clube que aprendeu a amar. O que Lucas fez neste segundo semestre de 2012 é por isso tudo uma das mais belas histórias de amor de um atleta à camisa que defendia. E imaginem como ele deve ter enfrentado e ignorado a influência de muitas vozes ligadas ao seu staff profissional pessoal – sobretudo seu empresário, velha raposa do mundo da bola – para jogar desse jeito, com algo maior que a já imensa palavra coragem.
Sim, algo mais elevado que coragem foi o que entregou nos gramados esse menino que mesmo vendido passou a partir pra cima com ainda mais vontade pra cima de seus marcadores, e ainda não tirou o pé das divididas, e deu combate recuperando muitas bolas – início de contra-ataques mortais.
Algo mais elevado fez o menino que, diferente de muitas promessas só pra agradar a torcida, típicas das estrelas do futebol, realmente lutou com tudo e mais do que podia por um título. Mais do que podia porque o Lucas antes de ser negociado era já um talento enorme, mas não ainda esse guerreiro de filme medieval a enfrentar no peito, na canela e na raça a fúria e selvageria dos inimigos.
Esse algo que Lucas deixou no gramado do Morumbi e nas arenas sangrentas do Chile e Argentina sob a conivência de árbitros medíocres, foi aquele sentimento quase extinto no futebol, o velho amor à camisa. Não aquele amor da boca pra fora pra seduzir a arquibancada e a mídia, mas um legítimo, nobre e digno sentimento verdadeiro.
Um amor verdadeiro que ele não conseguiu esconder ao ficar um tempão pra deixar o gramado do CT da Barra Funda no seu último treino. Ele simplesmente não queria deixar o campo. Simplesmente não queria ir embora, como transpareceu em mais uma despedida, a sua última entrevista no CT. Ali, emocionado, ele revelava em sua face transparente, sincera, o quanto amava o seu São Paulo. Por isso, quando alguns de seus companheiros invadiram a entrevista, ele não conteve as lágrimas, mesmo em meio à imaturidade e deselegância dos colegas, que em vez de apenas lhe darem um abraço, deram-lhe um banho e alguns tapas na cabeça. Graças que pelo menos o comportamento juvenil (típico de jogadores de futebol brasileiros…) logo virou apenas abraços e um bonito choro coletivo.
Falando em coletivo, em grupo, até nisso o amor enorme e sincero de Lucas pelo São Paulo nesses últimos meses o mudou para melhor. Se antes ele abusava do individualismo e não levantava a cabeça – e por isso o criticamos bastante – a sensação de que sua despedida estava se aproximando o fez olhar mais para os companheiros e ganhar espírito de grupo dentro de campo (fora ele sempre teve esse espírito). Adicionando a isso a mão de Ney Franco em prol desse jogo coletivo (e bem jogando, valorizando a arte e a posse de bola), Lucas cresceu tanto que foi capaz de dar aquela maravilhosa assistência para Osvaldo fazer o gol do título da Sul-Americana.
Isso que é amor: um menino que vira homem e um jogador que escuta, aprende e evolui porque deseja o melhor para o seu clube, para o seu amor.
Um dos amores mais dignos e puros que o futebol e nosso São Paulo já viram. Um amor sem gestos e declarações ensaiadas. Um amor tão apaixonado em campo quanto racional, equilibrado, de um garoto que mesmo tomando mais pancadas que qualquer um de seus companheiros, jamais revidou um pontapé, jamais revidou uma agressão.
Fez isso tudo porque quem ama de verdade não deixa seu amor sozinho.
Obrigado por nos amar com tanta beleza e verdade.
Obrigado por nos reconduzir ao lugar mágico do qual tínhamos tanta saudade.
Obrigado por ajudar a transformar um grupo apático em uma equipe aguerrida e impregnada daquilo intraduzível chamado alma.
A alma de um legítimo fabuloso campeão e ser humano com que você contagiou nosso time até esse título que você nos prometeu e entregou, dentro de campo.
Fica agora um vazio perigoso.
Porque nossa maior arma foi embora e metade do nosso coração.
Que a outra metade, nosso capitão generoso (nobre atitude, repetindo Puyol, de homenagear um companheiro na hora de levantar a taça) semeie na equipe os maravilhosos sentimentos e ações que você nos ensinou nesses meses inesquecíveis.
Adeus, Lucas.
Adeus, Sãopaulino.
(PS – Menção especial ao irmão coragem de Lucas neste São Paulo: Osvaldo. Um jogador pouco badalado, mas que como Lucas nas horas mais difíceis e sangrentas, se agiganta, aparece, enfrenta a carnificina sem reclamar e ainda é capaz de fazer gols maravilhosos, quase impossíveis como aquele toque sutil por cobertura quase sem ângulo do gol que decretou nosso título e enterrou de vez o adversário mais sujo e violento que tivemos em nossa história).

20 anos do sonho da América

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Ainda hoje aquele pôster – amassado, rasgado e envelhecido pelo tempo – está pendurado no velho quarto de um garoto que virou quarentão mas não o esqueceu. Nele vemos um raro caso de guerreiro elegante. A camisa está manchada de terra, na verdade enobrecida da terra e do chão do qual ele não tinha medo. O chão no qual ele se atirava numa jogada típica, o carrinho que dava para recuperar a bola nas laterais do campo, lugares que ele sabia que resultariam em contra-ataques mortais. Este era o lado guerreiro, de quem dividia sem medo e enfrentava no peito os mais duros marcadores rivais, em qualquer pedaço do campo. Havia também a elegância, o porte altivo, corpo e mente ereta, de quem jogava o fino e com inteligência, com toques refinados, passes precisos e solidários, chutes tão violentos quanto precisos, e cabeçadas que eram tiros de canhão. Até hoje, 20 anos depois, Raí segue dependurado na parede da velha casa dos meus pais e não cai. Porque aquele São Paulo era derrubador, brigador, vencedor. Conquistador da primeira Libertadores tricolor. A até hoje talvez mais bela taça que conquistamos, por seu significado e dificuldade.
    Eram 105 mil são-paulinos no Morumbi lotado e duvido desse número, pois passei o jogo todo espremido em um dos últimos lances da arquibancada, o que fez muito jornalista falar em pelo menos 120 mil torcedores naquela noite. A mãe de todas as noites gloriosas do São Paulo de Raí, outros fantásticos jogadores e, claro, mestre Telê. Resgatando hoje a escalação, o esquadrão é monumental: O seguríssimo e heroico Zétti (e ainda um ser humano sensacional), o multihomem em campo, Cafu, o clássico e raçudo Antonio Carlos, a muralha Ronaldão e o vigoroso mas inconstante Ivan (não naquela final), típico caso de jogador que só brilhava e arrebentava sob o comando e orientação de mestre Telê. No meio-campo, o cão de guarda mas bom no primeiro ou segundo passe (diferente dos meros brucutus de hoje) e uma das almas do time, o sempre enlouquecidamente mais que raçudo, Pintado. Ao seu lado na proteção da zaga e início dos contra-ataques infernais tricolores, o clássico e nobre zagueiro central, deslocado por Telê, Adílson, quase um líbero, pois Telê era, sim, bom em tática também, como não acreditavam seus críticos. Um pouco mais à frente, capitão, líder e matador Raí comandando as ações ofensivas com o homem de papel, fluído, quase etéreo, mas ilusionista, rapidíssimo e inteligente nos toques rápidos, além de goleador, Palhinha. Já no ataque, mas volta e meia recuando um pouco para armarem tabelinhas sensacionais, o genial Müller, tão flecha quanto arco de boa parte dos gols tricolores. Junto dele, do outro lado, o veloz e não tão inteligente Elivélton, mas hábil e de chute forte. E se Müller, coisa rara, não estava bem, houve o amalucado mas habilidoso e supersônico Macedo no banco para entrar e sofrer o pênalti que nos daria a vitória necessária para levarmos o jogo aos pênaltis.
Pênalti que Raí encarou com a frieza de valente dos valentes, caixa, 1 a 0 igual ao placar da derrota na Argentina contra esse lutador Newell´s Old Boys comandando por um certo Marcelo Bielsa…
Veio então a decisão por pênaltis e aí brilhou não só o heroísmo e técnica de Zétti mas um dos diferenciais daquele São Paulo de outros tempos: o trabalho bem feito nos bastidores e preparação da equipe. Zétti sabia para onde pular porque seu treinador, e observador de todos os adversários do time naquela Libertadores, já tinha mapeado a cobrança dos jogadores do Newell´s. Falo de Valdir de  Moraes, ele mesmo, aquele que depois ainda formaria um certo Marcos no rival alviverde. E ainda havia na comissão técnica tricolor Moraci Santana e Turíbio de Barros, comandantes de toda a preparação física e fisiológica dos jogadores naquela Libertadores.
Falta ainda o Mestre Telê Santana. E o que eu posso dizer de um treinador que montou um time sensacional desse, como mostra a escalação? O que dizer de um treinador que baseou seu time em pegada, sim (Ronaldão e Pintado na chefia do jogo duro mas na bola), mas também nas maravilhosas tabelinhas entre Raí, Palhinha, Müller e Elivélton? O que dizer de um treinador que morava no CT do São Paulo e investigava todos os dias os gramados para quem nenhum buraco machucasse seus atletas ou prejudicasse o toque de bola conduzido por Raí e cia? O que dizer de um mestre sem frescuras e vaidades, que só se importava em treinar e treinar, bem diferente dos treinadores pop stars que infestariam o futebol brasileiro e mundial em pouco tempo? O que dizer de um perfeccionista e raro treinador formador de jogadores completos, que exigia a repetição dos fundamentos básicos do passe, cruzamento, tabela e chutes? O que dizer de um mestre amado para sempre, até hoje cantado com saudade no seu templo e imensa sala de aula do Morumbi?
Bonita ontem (antes da pelada de mau gosto contra o Atlético…), a homenagem aos homens e heróis que começaram duas décadas atrás o sonho de nos tornarmos o melhor time do mundo. Só não concordei com os jogadores de hoje estamparem em suas camisas os nomes dos nossos heróis.  
Nunca vi, por exemplo, o Maestro Raí maltratar a bola, não dar o sangue ou reclamar de uma marcação do árbitro… Nunca vi o maior jogador de nossa história nos deixar na mão.
Raí só nos deixava nas nuvens. No topo do mundo.

* Textinho do Maestro sobre a Libertadores de 1992 aqui

Ajoelhem-se!

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Foi simbólico. De joelho ele marcou nosso gol de empate. De joelhos, comemorou. Mas Rivaldo é tão grande que ele subverteu o sentido de estar de joelhos. Em vez de subjugado e dominado, como estavam todos os seus companheiros em mais uma medíocre atuação do São Paulo este ano (só mesmo o equilíbrio por baixo desse Brasileiro explica estarmos a 2 pontos dos líderes), ele mostrava que estava por cima, soberano.
Ainda tento entender sua comemoração e não me contento com a física, de que ele saiu ajoelhado do lance porque assim marcou o gol e não teve forças para se levantar. Creio mais na mágica do futebol, naquele inexplicável meio místico que ronda e protege os raros deuses do futebol brasileiro de hoje. Sim, deus, porque quem já foi o melhor do mundo e o maior jogador da conquista do Penta (sim, mais que Ronaldo) será sempre do Olimpo. Será sempre o único Rivaldo.
Colocado no banco por Adílson (acredito que queria poupá-lo mesmo, mas pecou nesta escolha porque sem ele o São Paulo vira um time comum), Rivaldo entrou e decidiu. Sim, tomamos o segundo gol com ele em campo, mas logo seus toques inteligentes e precisos começaram a machucar a até então tranquila defesa paranaense. E no finalzinho, sua colocação impecável de sempre, o fez estar onde os atacantes tricolores não tinham a inteligência para estar: pronto para marcar.
E lá foi então o velho Riva salvar o São Paulo.
E de joelhos ele comemorou. Talvez querendo mostrar que quem deve ajoelhar-se na verdade é o seu treinador e todo o elenco tricolor, com exceção de outro deus, Rogério. Sim, elenco do São Paulo, ajoelhem-se e agradeçam por terem o privilégio de ter um dos maiores jogadores da história do futebol ao seu lado.
Escutem o grande lance do Riva na narração da rádio Jovem Pan aqui
PS – Começo a desconfiar que Lucas não consegue aproveitar as lições práticas (toque rápido, passes certos, colocação, calma para decidir a melhor jogada etc) e os conselhos do gênio. Não dá pra admitir a afobação daquela isolada que nosso menino aprendiz deu na última chance do jogo. Toca a bola, garoto! Pensa mais, aprende com o Riva.