a vida é nua (ou rolê descalço)

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sk8_descalco

descalço

a alma

liberta-se

 

deslizo suave

os dedos agarram o shape

pressiono-o

acelero

viro

numa irresistível dança

subversiva

 

sem segurança?

o que mais pode

um homem de cabelos brancos

senão arriscar-se

a ser criança

de novo?,

a ser ele mesmo

de novo?

 

descalço

como se o skate

e os pés

riscassem

um chão macio.

vai, pedala,

a pele rasga de leve

mas esse corte não dói,

libera

a liberdade de brincar

de novo

 

um homem novo

só porque

desamarrou os cadarços

sacou o tênis

e enfrentou a dureza

com a mágica leveza

dessa nave espacial

tão terrena quanto líquida

chamada skate

 

vai, velho,

pedala

vai, moleque,

brinca

de beleza contra a rudeza

do asfalto e da vida

vai, criança,

dança na rua

de pele crua

e alma nua

e coração completamente vestido

com a roupa mais bonita:

um sorrisão rasgado que invade

o velho

que voltou a viver.

 

De volta ao lar

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itarare

Foi quase insuportável, um verdadeiro exílio. Um ano que pareceu uma eternidade.

Um ano sem elas. Sem os passeios mais belos, longos, azuis, tão leves que nos fazem flutuar, sonhar, surfar.

Um ano sem observar o horizonte e sua vastidão hipnótica do lugar mais belo, amplo e que mais acende e acalma os sentidos: sentado na prancha, lá no fundo, longe da terra barulhenta e agressiva, perto dos silêncios mais profundos.

Um ano sem pisar na areia com ela do lado, a namorada de tantos anos e décadas, a companheira de tantas experiências, a amante e amiga fiel que me fez superar as maiores tristezas e exaltar as alegrias mais puras e explosivas que não cabem no peito e só conseguem encontrar espaço na imensidão do mar. Minha prancha.

Um ano sem caminhar na areia mirando o horizonte procurando-as, querendo-as, sorrindo pela proximidade do encontro com as ondas.

Um ano sem receber a graça, benção e dádiva da água salgada benzendo o corpo, coração e alma.

Um ano sem abraçar minha menina de fibra azul e navegar com ela em direção ao fundo do mar e das alegrias e brincadeiras mais promissoras, livres e reais.

Um ano sem remar, levantar e me atirar sobre as ondas, namorando-as com força e delicadeza, arte e caos, beleza de minhas intenções e falta de jeito de minhas poucas habilidades mas sincero e enorme querer.

Um ano sem dançar de pés dados com as ondas e esse tablado infinito e poderoso chamado oceano.

Um ano de dores nas costas e, sobretudo, na alma por estar longe de ti.

Um ano sem correr as ondas fugindo, esquecendo e apagando todas as neuroses, agressões, excessos, cobranças e pressões da sobrevivência na megalópole.  

Um ano sem vibrar como um garoto que acabou de descobrir o que mais ama fazer na vida.

Um ano sem brincar no máximo que essa atividade vital pode significar.

Um ano sem expandir e congelar o tempo na maravilha e milagre que uma única onda pode oferecer.

Um ano sem sentir a alma completa. Sim, alma, porque o que uma simples session de surfe nos proporciona é algo tão belo, divertido, relaxante e inspirador que só pode envolver algo profundamente espiritual dentro da gente, e além da gente, pois a alma preenchida de mar e surfe transborda e espalha a famosa vibe e alto astral.

Obrigado, ondas do Itararé, obrigado por me devolverem ao surfe, ao mar.

A mim mesmo.

Surfista, de novo.

Totalmente vivo de novo.

*** Um obrigado especial à molecada de Santos, que me fez suportar estar junto ao mar sem poder surfar (as costas, as costas…) por surfarem muitas vezes comigo em aulas afetuosas e belas como o vento, o sal, a água, os azuis e as ondas.

E obrigado à minha guerreira amada por me dar forças, esperança e amor na dura vida da Babilônia selvagem longe do mar, de sua paz, terapia e magia.

 

Filhos do vento

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sk8_nunes_essa

Como é possível sobreviver à semana dura de trabalho, rotina e obrigações que virá sem uma dose de liberdade genuína?

Como é possível viver sem voar para se libertar, por breves mas expandidos instantes, das diversas amarras que a vida nos impõe – como horários, compromissos, trabalhos e paredes?

Como é possível voltar a entrar dentro de um estúpido carro de novo sem experimentar uma vital dose de movimento sem redomas? Sem nada nos envolvendo-prendendo como o chassi-prisão motorizado em que nos enfiamos, nós, os motoristas, de segunda a segunda? Como é possível a mente aguentar sem que o vento afague e purifique nossa face e corpo todo? Como podemos suportar a prisão veicular e dos ambientes fechados dia após dia? Duvido que sofás, televisões e aparelhos eletrônicos descansem nossas mentes como a terapia do mundo ao ar livre, do mundo lá de fora.

Lá onde podemos sentir ainda um pouquinho da natureza que a modernidade e falso progresso vão nos roubando.

Lá, na rua, na praia, na raia, no lago, no mato.

Lá onde podemos sentir um pouco do que o amigo Misael, mestre de idiomas e surfista das antigas exilado em São Paulo, me disse sentir falta outro dia, em pleno sábado em que precisamos perder a manhã em uma atividade de rotina. A falta “daquele ventinho no rosto”.

O vento que, se por enquanto não posso sentir no mar devido à coluna ainda em recuperação, posso sentir na maravilhosa ladeira perto de minha casa.

O vento que me faz lembrar que estou vivo enquanto me jogo ladeira abaixo e alma acima.

O vento amigo de fé que envolve meu corpo, coração e espírito enquanto voo lá pra baixo com asas de verdade chamadas rodinhas de meu skate longboard.

Asas de verdade porque elas não dependem de um motor, toneladas de ferros, volantes e outros aparatos. Só dependem de uma boa trilha lisa, bela e ampla como o céu.

O céu que sinto a cada descida, na verdade viagem.

O céu que sinto enquanto a velocidade aumenta.

O céu que sinto enquanto danço de um lado a outro da avenida como se aproveitasse térmicas lá dos altos perto das nuvens.

O céu, tão próximo mas tão distante de nosso olhar e sobrevivência semanal que não nos deixa muito tempo para olhar para ele.

O céu para o qual olho a cada final de drop, quando paro, pego meu brinquedo, meu amigo, meu instrumento musical, meu skate, e subo a ladeira da avenida paralela tranquila e verde.

O céu das asas que ganhei décadas atrás quando subi em uma prancha de surfe pela primeira vez.

O céu que, mesmo com parte da asa surfística partida, ainda consigo alcançar com o filho do surfe, o tão mais democrático e possível, para um surfista que, graças a Deus, ainda consegue descer uma ladeira sem exigir muito da coluna graças a esses amigos fiéis e maravilhosos chamados gravidade e vento.

O vento, o vento, o vento abençoado de cada sábado em minha catedral paulistana que é tão bela que em alguns momentos, a cada drop, me sinto lá atrás no oceano.

No mar duro e negro que vira líquido e azul enquanto rolamos livres como pedras, livres como canções, livres como um bom clássico do rock, like a rolling stone.

Convido então, quem quiser, a surfar comigo nos inícios de manhãs de sábado. 8 horas. Na avenida com nome de padre.

(Texto saudoso do louco filho louco das ladeiras, o grande Nunes, hoje vivendo na Austrália, que aparece nessa foto antiga lá de cima em inesquecíveis sessions do passado)

PS – Todos meus trabalhos atrasaram hoje porque precisava surfar estas linhas. E daí? Sinto-me mais leve. Porque surfei nesta tela com meus pensamentos e emoções.

Exílio de mar, saudade de viver

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Ando desesperado por janelas. Nos cafés e padarias, nas salas da escola, no escritório montado na casa dos velhos que dá para o quintal, na janela da sala do apê que dá para as árvores. As janelas são minha linha do horizonte aqui nesta cidade sem mar. Aqui nesta vida sem mar há mais de seis meses, graças ao problema na coluna e à incompetência de médicos, reumatologistas, fisiatras e fisioterapeutas (sim, passe i por todos e por diversos tratamentos).
As janelas são minhas viagens para os olhos tentarem enxergar e sentir mais longe. São a curta mas essencial liberdade aqui na cidade que substituiu o horizonte por paredes de concreto.
O concreto que machuca e até mata o espírito, pois as maiores belezas da vida são abstratas. Abstratas como o horizonte que visualizamos na praia: na verdade ele não existe fisicamente,  mas existe em nosso coração e mente que se alarga ao observá-lo.
Por isso a cidade sem mar machuca por nos aprisionar nesses limites duros, cinzas, concretos.
Além da morte do horizonte, a cidade matou também a terra. O solo natural que também foi entupido do concreto cimento ou asfalto. Matou até o tato de nossos pés, presos em sapatos e tênis, e impedidos de namorar nus o chão em que pisamos. Por isso a saudade é grande também do tapete mais belo e gostoso, a areia da praia.
A areia fria, a areia fofa, a areia molhada, a areia viva, as areias escaldantes. A areia que é o chão que gosta de contar histórias nas nossas pegadas. Essa areia que descansa o corpo e a alma e ainda é parte essencial dessa imensa tela de liberdade chamada praiamar.
Praia e mar. Para amar mais a vida.
A areia que é parte essencial do gostoso e sagrado ritual do surfista que chega na praia. É ali que chegamos depois de estacionarmos o carro que se livrou da cidade e da estrada. É dali que lançamos nosso olhar ávido por mar, ondas e viagens surfísticas paredes marinhas afora compartilhadas com aqueles que, mais que irmãos, são brothers. É ali, de pé olhando com a mesma fé inversa à do marinheiro buscando terra enquanto navega; ou sentado, alongando e rezando antes de termos a graça e permissão de entrar no grande templo oceânico; é ali que sonhamos em estar lá dentro.
Lá dentro, na casa mais bela, no lar mar; lá onde amar a vida alcança uma de suas intensidades máximas; lá onde o clichê do “aproveitar cada instante” torna-se tão real e possível. Basta uma session. Até menos: basta uma onda que estamos preenchidos como o fiel que recebe a graça das graças, como o morto que renasce, como o homem urbano massacrado, ferido, que tem todas as suas dores e problemas curados em uma única onda.
E há outros elementos poderosos, alimentos vitais, que também fazem falta demais. Há o vento e a brisa. Há a maresia, esse caso de amor entre o vento e o mar, essa sinfonia do vento a nos trazer os cheiro e sabor do mar. Há o sal, essa partícula tão benéfica quanto viva, mágica e sentimental pois é da mesma família do suor e das lágrimas. Há esse sal que penetra nossa pele e ossos lavando tudo junto das águas oceânicas.
Há a imensidão da cena praiana e marinha que nos faz sonhar apenas por estarmos ali e de olhos abertos.
E há, meu Deus, as ondas.
As ondas. Mas dessas já falei demais em muitos textos. Um breve resumo? As ondas são o produto final do poderoso ciclo praiano-marinho. São a síntese, a catarse, a explosão final de energias que vão se somando e amalgamando até surgir a maior brincadeira e viagem que a natureza um dia inventou para oferecer a nós, os homens e mulheres que se apaixonaram a  vida máxima que é andar sobre as águas amparados, impulsionados, abraçados por elas.
As águas. As ondas. As muitas vidas que podemos viver em uma única onda sem fim.
* Basta. No dia do trabalho estarei na antítese da labuta e cidade sem mar que nos consome. Nem que a coluna permita apenas alguns jacarés, estarei lá dentro. Pois jacarés também são frutos delas. Elas, as mais belas sereias. As ondas que são vidas e fazem de surfistas viajantes e senhores do tempo. Que outro ser consegue mudar as concepções e durações do tempo como o homem que sente que segundos surfados são horas, dias e até vidas?

** A foto que ilustra esse post é de Taghazout

Juntos na longa estrada

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    Brothers de surfe em geral não nos acompanham a vida toda. Às vezes o cara casa e some (nunca sabemos se ele larga o surfe pela pressão da mulher ou porque não teve mais força mesmo para prosseguir a árdua tarefa de madrugar num fim de semana depois de dormir tarde pela exigência, será?, da esposa). Em outras o cara muda de brothers, porque a amizade não é regada como se deve e ele conhece outros surfistas em sua rede de convivência. E tem também a nossa culpa de não tentar resgatar as velhas parcerias. Talvez porque os momentos de vida de cada um mudem muito, ou mesmo porque sabemos que aquelas antes deliciosas reflexões no outside de outrora já não tenham o mesmo sabor pra gente ou pro antigo brother. Bom, isso quando a gente ou o brother muda seu jeito de ser e viver.

Triste o brother que se foi, mas ficam as histórias, os perrengues, as sacaneadas de um só não atropelando o outro no último segundo (bom, às vezes o outro precisava mergulhar mesmo hehe), as risadas das vacas, e os incentivos – os Úh! Úh! gritados com uma emoção e verdade só possível nos brothers de muitos anos juntos.

Bacana demais, por outro lado, o brother que fica. Que permanece junto na viagem da onda mais longa chamada Vida. Não importa o momento e a rotina de cada um – se tá de namorada nova, se casou, descasou, se vai casar, se virou pai, se tá alegre ou deprê – o cara tá sempre junto. Pronto pra te zoar no pico e também incentivar e trocar aquela ideia profunda que só é possível na maior mesa de bar do planeta, o outside, lá onde sempre chamamos mais uma, onda.

Já são 15 anos surfando junto do irmão de surfe e vida, do raro cara que jamais desistiu de um bate-volta na hora, e que está sempre pronto pra outra. Esse textinho surge também pra tentar resgatar esse blogzinho que era meu espaço de reflexões e memórias pessoais. E surge com a força e brodagem em escala máxima porque o brother me salvou o bate –volta, domingo retrasado, e isso depois dele ter feito um bate-volta no dia anterior com outro surfista. Isso que é estar ali para o que der e vier. E surfar. Mas só podia esperar isso mesmo do brou que não vê problemas em nos acompanhar nos maiores trampos. Porque o cara sempre responde a mesma coisa quando inventamos a maior roubada aqui na Babilônia infernal: “Ae velho, preciso ir na PQP, fazer isso, aquilo e mais aquilo”. Ele sempre responde, “blza, vambora!” e ainda é o único cara que comete a insanidade de se oferecer para pegar os amigos no aeroporto de Guarulhos, tendo que enfrentar o caos chamado Marginal Tietê inteirinha.

Talvez seja o astral do cara, que topa qualquer coisa, e ainda ajuda a atrair as ondas, que quase sempre rolam de gala em nossas quedas. Tá aí a longa linha de ondas que vocês podem ver ao longe nesse videozinho logo abaixo, desta última session. Ondas pequenas mas perfeitas, bom, pelo menos pra gente. E mesmo quando o mar está insurfável, só a risada diabólica do cara lá dentro já faz valer a pena.

Valeu, brou! Ex-aluno (entramos no grande Zontes no mesmo ano!), eterno amigo, futuro padrinho (é, fica sabendo por aqui hehe), que o surfe siga vivo como essa brodagem, sempre.

PS – Os velhos brothers a gente não esquece, um dia a gente cai de novo juntos. Um dia quem sabe vocês assistem ao melhor filme de surfe de todos os tempos, Big Wednesday, e não terá como não armamos aquela trip revival.
PS 2 – Um grande salve aos brothers virtuais Maurio Borges e Gustavo Otto, caras que nunca vi na vida real, mas sempre me ensinaram um pouco sobre a longa estrada azul e sobre uma rara camaradagem que extrapola uma telinha de computador. E um salve ao brotherzinho que não pôde ir, mas também tá mesma estrada há mais de dez anos.

Big Sunday – Ondas iguais à vida

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As grandes ondas são parecidas com os relacionamentos ou a solidão humana em seu lado mais triste: a falta de companhia. Às vezes não conseguimos chegar até elas  sozinhos. Falta algo essencial em uma boa aventura marinha: os amigos.
Sábado o mar rugia anunciando o finalzinho do verão e a chegada do outono, o início da temporada de ondas grandes. O oceano chamava para uma daquelas sessions épicas, mas faltou braço e estímulo para varar a arrebentação distante numa maçaroca de ondas já arrebentadas uma atrás da outra. O jeito foi desistir, e com sorte, pegar uma boa e única parede na zona intermediária. Solitária onda que me deixou, porém, frustrado. Sempre ficamos quando não chegamos na porta de entrada da catedral marinha, o outside.
Só o longo passeio, de mãos dadas com a mulher amada, de frente para o mar e sob um pôr-do-sol suave e de belos tons do outono próximo, amenizou um pouco a falta de ondas. Mas o déficit de surfe sempre deixa nosso tanque de vida menos cheio.
De noite, a boa notícia chega pelo celular. Era a mensagem só possível em um amigo fiel, aquele que não precisa conversar antes de anunciar: “amanhã cedo estamos colando aí pra dar uma queda.”
Bem aventurados os que têm um brother assim. Não é preciso combinar nada, não é preciso marcar, ligar pra acertar as coisas. O brother de fé apenas anuncia que está a caminho. E eles sabem que surfar sozinho sempre deixa um vazio e muitas vezes, arruína uma session como a minha do sábado.
E pra melhorar ainda mais, o brother fiel não embaça: ele madruga e chega cedinho. Tava ainda na cama quando o telefone tocou, ele já tava na praia, só pegaria a prancha do outro brother ali num apê próximo.
Ainda com um copo de leite quente na mão escutei a buzina. O irmão, o velho parceiro chegou. Logo estamos passando parafina nas meninas. Logo estamos na praia.
Sim, a cena é furiosa. Netuno ruge firme. O liquidificado gigante do sabadão deu uma diminuída, o mar deu uma acertada, mas a arrebentação segue distante pacas. Sabemos que a remada vai ser insana, até pensamos que não conseguiremos chegar lá atrás, mas não sentimos isso. Porque brothers juntos, de alguma forma, por alguma ligação poderosa, sabem que conseguirão.
A entrada já é dura, a temperatura da água já é a fria da próxima estação. A paisagem toda branca, de um mar de ondas grandes estouradas, é uma dura barreira. A remada é uma odisseia para meu ombro esquerdo lesionado há meses e para a lombar direita também machucada há tempos.
O sal é remédio, a água é terapêutica, os amigos são os guias a me estimular. Eis então que o amigo tranquilo dispara lá na frente, parece ter descoberto uma brecha numa breve pausa da fúria marinha. Percebo a chance, dou um gás. A dificuldade para mergulhar debaixo das bombas estourando vai amainando. Pouco depois encontro a segurança do outside, a zona mágica antes das ondas quebrarem.
Ficamos lá, eu e o amigo tranquilo, quase zen, à espera das séries e do velho brother. Nem sinal dele. Deve estar na zona cega das ondas estourando na cabeça e forçando um recuo natural.
Alguns minutos depois o velho amigo desponta. Rema devagarzinho como se caminhasse num caminho santo com um cajado na mão. O ritmo vagaroso era exaustão e então eu e o brother sossegado demos aquela boa risada meio aliviada e meio sacana, “olha lá o Velho, tá mortinho, remando feito um velhinho”.
Logo éramos os três amigos juntos de novo. Juntos, felizes e orgulhosos de terem vencido a famosa remada-estrada sem fim de nossa praia local, famosa por sempre cobrar um preço caro para nos entregar o paraíso do outside.
Bom, o paraíso pode ter suspiros de inferno: a primeira série cavernosa se aproxima. Em vez de botarmos pra baixo, deixamos as morras passarem e damos risada do tamanho delas e de nossa falta de coragem.
As condições estão difíceis de entrar, perdemos outras séries mas não o bom humor, um sacaneando a remada sem sucesso do outro, encerrando a frase com “ainda bem que você não entrou, ia tomar uma vaca…”
Os amigos juntos logo espantam a apreensão e o receio. Nos dão confiança e a certeza de que olharão por nós.
Logo conseguimos pegar algumas bombas e ficamos mais tranquilos também ao descobrirmos que as ondas não estão desabando, mas sim quebrando aos poucos, permitindo nossos erros sem que nos engulam.
Logo estamos todos renovados e logo esquecemos o tempo. As horas passam e curtimos uma das mais longas sessões dos últimos tempos. E curtimos esse aumento dos laços de amizade que uma session inesquecível sempre produz.
Graças às morras desse fantástico Big Sunday.
Graças à vontade de surfar e viver, juntos, dos Brothers.

Sk8 Longboard – Porque a vida pode ser completa

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     Basta uma breve session, breve apenas na contagem dos minutos, que a nossa sanidade contra a loucura e pressão da metrópole está preservada. Mas madrugar é preciso. Para fugir do crowd de carros, no longboard em ladeira, acordar cedo (não tanto como no surfe, por exemplo) é fundamental. Só assim conseguimos uma descida limpa, sem carros querendo nos ultrapassar. 
     Só assim a avenida torna-se uma imensa e imaculada tela de asfalto pronta para receber as linhas de nossa pintura viva em ação. Cedinho é só chegar lá em cima e apertar o play mais vivo e real que existe, aquele disparado com os pés. 
     Logo é descer-voar. É dançar no balanço das curvas ou tornar-se um homem-bala em linhas retas supersônicas. É chegar lá embaixo leve, pássaro humano que fugiu das gaiolas da rotina urbana ou das drogas tecnológicas que fazem muitos passarem horas com a cabeça e olhos baixos, enfiados em celulares, notebooks, redes sociais virtuais, joguinhos e outros aparelhinhos viciantes. 
     Logo é subir morro acima até o pico de novo. Subir-sonhar tranquilão, mente esvaziada das impurezas e durezas da urbe opressiva. Subir com o brinquedo debaixo do braço, olhando pro céu, cumprimentando os cachorros das casas, os poucos caminhantes (em geral, pessoas mais vividas, experientes, sábias) e alguns seres vitais para nossa super tela de asfalto – muito melhor que a tv de plasma, lcd, super hd ou sei lá o quê estar sempre limpinha e lisa: os garis que varrem a sujeira da pista dos sonhos. 
     O que pode ser mais completo que poder descer e subir com tamanha simbiose entre a adrenalina da queda livre e a paz da ascensão de volta ao pico ou plataforma de lançamento? Sim, alguns carros nos lembram da insanidade da vida (?) moderna. Mas eles passam. Os longboarders ficam. 
     Subiremos de novo. 
     E desceremos de novo a nossa maravilhosa e paradoxal ladeira que é, no peito e na alma, uma elevação. 
     Amém.
     
     * Foto afanada do bacana site Skateweb

A canção do vento

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  Sábado ou domingo cedo. Enquanto subo a pé a avenida, armado com meu skate longboard, sinto mais uma vez a inesgotável fonte de sentimentos e significados que meu único mas poderoso brinquedo urbano me proporciona.
   Sinto a arma de brincar como meu violão ou guitarra, meu instrumento musical que carrego com as mãos até o pico, antes de descarregá-lo e tocá-lo com os pés. Mas não é qualquer violão, pois a eletricidade de uma queda de longboard é tão grande e intensa que me sinto como aquele mariacchi pistoleiro do filme de Robert Rodriguez, interpretado pelo Banderas.
    Sim, um mariacchi pistoleiro do bem, caminhando tranquilo, alma lavada, e pronto para mais um duelo ladeira abaixa. Só que esse duelo é na verdade parceria, pois o chão duro da descida é liso e, portanto, é onda perfeita. E voar ladeira abaixo é música e dança.
   Voo. Enquanto desço a suave e longa montanha de asfalto, ouço a canção do vento, componho minha própria música. Cada acorde, um movimento. Movimentos que são dança. Apeno desço e faço curvas abertas, amplas, o corpo brincando de estilo. Sim, às vezes é preciso virar mariacchi pistoleiro ao desafiar os carros que vem de trás. Em geral há respeito, mas sempre há uma besta de mal com a vida ou que ainda traz o velho e estúpido preconceito de que skate é coisa de vagabundo. Mais um infeliz vai ter que esperar, coloco a mão, “espera”, não mudo meu caminho, ele que espere alguns segundos (é pedir muito?) antes de eu terminar a descida e desaparecer entrando na avenida ao lado.
   Minha raiva contra a estupidez humana termina logo. Mais um idiota vai embora acelerando enquanto eu desço de meu violão mágico e caminho de novo, subindo a tranquila avenida paralela. Um último pensamento para o imbecil sobre rodas: Quem é mais rápido? Um motorista escondido dentro de uma máquina ou um homem voando em plena avenida que para a maioria é apenas uma via de passagem? Só sei que minha passagem é grátis. Não gasto gasolina. Não fico preso. E ainda bebo vento, adrenalina e liberdade.
    Subo tranquilo, há verde, passarinhos de todos os tipos e raros carros por onde subo. Há algumas pessoas que cumprimento, como o professor, o passeador de cães, os garis, o empregado de uma mansão que chega no casão e o cão explode de alegria ao vê-lo. Há os cães a quem dou bom dia. Tem um que tá sempre sentado com cara brava e triste, será que o dono passeia com ele? Há o cão malucão que faz a maior festa, esse eu sei que passeia, já o vi felizão andando com o dono.
   Sim, essa subida é longa e cansa, mas prefiro o esforço do que pedir carona na outra avenida que desço. Deve ser minha aversão à máquina e seus motoristas. Deve ser essa subidona a pé dura mas relaxante espiritualmente. Toda subida é uma ascensão. É preciso ter fé. Fé na brincadeira que devemos injetar em nossas vidas. Fé na liberdade de caminhar com os próprios pés.
   Fé na vida.
   Fé na canção do vento que anima os mariacchis do asfalto, os longboarders.

Fé de asfalto

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(O videozinho eu afanei da internet só pra mostrar o pico de que falo; não tenho ideia de quem são, os caras vão mais reto, sem manobras, mas a velocidade e o espírito estão lá.)
É fácil aliviar a mente, sentir a liberdade do vento, o vento mais valioso, aquele que produzimos com nosso próprio movimento. É fácil esquecermos da opressão da cidade cada vez mais agressiva, sobretudo nos motoristas em escalada de velocidade e estupidez brutais. É fácil, por incrível que pareça, encontramos silêncio e paz em plena São Paulo. Não deu pra ir à praia? Tá cansado da mesmice do seu clube ou crowd de nossos poucos parques? Tudo o que você precisa é de um skate longboard e uma boa descida sem muito tráfego.
Sabadão cedo caí lá de novo, numa avenida recapeada há poucos anos, tapetão maravilhoso, suave como nossas ondas do mar amadas. Tá, o tráfego existe, mesmo cedo é preciso ter sorte pra descer sem um carro querendo te ultrapassar e atrapalhando as longas e relaxantes curvas, relaxantemente rápidas mas à velocidades não tão perigosas como as ladeiras mais cabreiras.
Inacreditável, porém, o egoísmo dos motoristas em suas máquinas: não podem esperar alguns segundos um skatista; não conseguem ser gentis; não querem.
Tudo bem, eles passam, nos atrapalham, mas o coração do skatista é guerreiro, sempre há uma outra descida, ou é preciso mostramos quem manda: quem vem primeiro. Por isso começo a fazer as curvas sem me importar com a pressa do animal em pleno sábado. Só estendo um braço pra trás, “espera”. Eles que engulam seu individualismo desumano. Eles que matriculem-se num curso de pilotagem ou que descarreguem suas frustrações ou nariz em pé (“sai da minha frente, vagabundo, folgado”, devem pensar em sua grandeza só de imbecilidade…) em Interlagos.
Mas tudo bem, o barato do downhill tosco, o meu, sem muita radicalidade, é que um drop, a velocidade, o vento e algumas manobras gostosas nos fazem esquecer de tudo, até das bestas “racionais”.
E há outra parte tão valiosa e gostosa quanto o voo asfalto abaixo: a subida até a plataforma de lançamento. Sim, muitos perdem essa parte, preferem pegar carona com um carro subindo. Eu, como odeio coisas não-naturais como um motor e sua fumaça quando faço esporte, prefiro subir com meus pés.
Melhor ainda, subo pela tranquila e bela, toda arborizada, avenida paralela. Tranquila porque é fechada na parte de baixo para eles, os carros. E há mais beleza ainda na radical e acentuada inclinação desta via, verdadeira montanha. A subida é então uma escalada. Dura, exige pernas, fôlego, mas a ascensão, no meio do silencio e verde, é quase espiritual. Sinto-me caminhando numa grande catedral que é toda montanha. Catedral de nossa paz interior. Uma paz que renova e nos torna melhores ao nos abrir os olhos e coração para algo tão simples e rico quanto escalar e depois descer.
Quantos têm ou agarram essa oportunidade? Descer brincando e tecendo telas imaginárias no asfalto; e depois desacelerar com a subida que é quase uma reza e um profundo disparador de reflexões?
Algo simplório demais? Exatamente. A simplicidade esconde os mais belos e profundos atos como o skate downhill. E encontram-se até brothers de session, como o Dudu, parceiro desta sábadão, outro paulistano que parou por ali para descarregar toda a tensão da semana que passou. E em dois, um descendo em seguida do outro num breve intervalo, é mais fácil fazermos os carros nos esperar pois, por mais que a imbecilidade reine por trás de um volante, eles pensam melhor: atropelar dois caras de uma só vez é algo que faz até os idiotas pensarem um pouco.
Aquele abraço e desculpas por não atualizar o blog há tanto tempo, os trabalhos não permitiram, mas vou tentar encontrar um pouquinho.
Saudações especiais ao motorista de ônibus que desceu devagarinho atrás da gente, a maior demonstração de respeito e civilidade desta session.

O último suspiro do swell

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Uma última respirada, o fôlego que se vai, o fim. O nada. Graças que até nisso o mar é diferente. O finalzinho do swell, na última 6ª feira, pedia um bate-volta urgente. Pedia uma reorganização nos trabalhos. Fazer da 6ª o sábado e depois trabalhar em pleno sabadão. Na mosca, seu Netuno me brindou com pequenos mas belos presentes. Suspiros de ondas. Doces meninas a surgir, demorando um pouco, mas a surgir. Pequenas mas perfeitas. A perfeição presente no tesão e no coração de quem percebe e aproveita a dádiva de uma manhã de sol, surfe e vida. A vida mais colorida de quem madruga e vê as primeiras cores do dia na estrada. As cores, só enxergadas por quem percebe a grandeza dos pequenos momentos. Sim, todo surfista quer ondas maiores, telas mais amplas e desafiadoras, mas como renegar essas pequenas paredes se vivo longe da praia? Como não sentir sensações e emoções grandiosas em uma simples paredinha lisa se essas pequeninas são o Mundo perto da realidade áspera e cinza de São Paulo? Como não me sentir em casa se ali no pico os estranhos sempre me saúdam com um cumprimento sincero, bem diferente das caras fechadas e buzinas abertas da megalópole?
Como não sentar lá atrás e dar um tempo felizão e surpreso só de ver as três belas e habilidosas surfistas pegando boa onda atrás de boa onda? Um grupo de amigas que em vez de ir ao shopping vai ao mar; em vez de comprar, surfar, a cena é deliciosa. Não, caras moças que não surfam, não é uma crítica, apenas uma constatação da opção infinitamente mais bela que a praia oferece.
A praia. Só de vê-la, a mente já se acalma, se liberta, sonha, viaja longe. É estacionar, descer, pegar a menina prancha, ser recebido suavemente  pela menina areia, sublime massagista natural, e logo brincar junto das meninas mais brincalhonas e divertidas que conheço, meninas ondas.
Depois de momentos junto delas, as décadas no corpo parecem regredir e volto a ser menino.
Volto, toda vez que volto para elas.
Toda vez que regresso ao elixir de conto de fadas chamado surfe.
O elixir que é existir, de verdade.
Surfo, logo existo. Respiro. Resisto.
O último suspiro, no mar, é sempre uma maravilhosa promessa azul, de uma nova vida.

* Pintura de Colleen Gnos