Quando uma banda resgata o bar, as pessoas e a vida que mais amamos

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foo fighters

Raros são os que conseguem fazer um estádio lotado com dezenas de milhares de pessoas parecer uma celebração no bar junto dos amigos do peito ou da companheira amada. Raras são as estrelas desprovidas de egos e vaidades colossais, ou da necessidade doentia de precisarem parecer que são os maiores artistas ou ícones do planeta. Raro demais é Dave Grohl e seu Foo Fighters, que incendiaram e talvez, sobretudo, deixaram-se incendiar pelo mais que entusiasmado e participante público que abraçou o Morumbi na noite de ontem (23/01).

O que faz Dave é simplesmente entrar em um estádio e transformá-lo no bar que um dia mais amamos (sim, os melhores bares de rock, os mais aconchegantes e verdadeiros, pelo menos aqui em São Paulo, desapareceram há anos). No bar em que abrimos o coração com os melhores amigos (um de cada vez) e refletimos sobre essa maravilha e brutalidade chamada vida. No bar em que erguemos os braços e gritamos brindando coisas sérias ou sacanagens divertidas junto de antigos amigos desaparecidos nas brumas do tempo ou distâncias. No bar em que um dia beijamos pela primeira vez a mulher de nossa vida.

Dave só faz é cantar e tocar com fúria e paixão sua guitarra jedi; jedi porque azul, cor iluminada e clara do bem e dos sonhos; cor pura e bela como o mar, o céu e o sabre do guerreiro pacífico da velha saga do cinema. E com que fúria-entrega e paixão ele faz isso! Com que amor pelo que faz e pelo seu público! Mesmo estando um pouco abaixo de vozes mais belas e guitarristas mais criativos da história do rock, sua garra entrega tornam o show do Foo Figthers apaixonante. Uma tempestade elétrica de altos decibéis, canções envolventes (algumas verdadeiras congregações sublimes como My Hero e Best of You) e, não um detalhe pequeno, muita simpatia e autenticidade, pois Dave Grohl não é poser nem faz do palco uma sucessão de passos e gestos ensaiados como alguns mestres desse quesito (Bono por exemplo).

Dave (admitamos, a banda, mesmo sendo de alto nível, é apenas um complemento dele) torna-se o cara por “apenas” ir lá na frente, dar o sangue e ao mesmo tempo brincar e conversar com a multidão como se estivesse naquele velho bar escuro de tijolinhos e velhos posters na parede. O papo é tão alegre, divertido e sacana quanto profundo. Inúmeros palavrões convocam a massa a cantar algo e depois um homem feito e, sim, estrela do rock (sem querer demonstrar isso, não precisa) de repente se emociona com uma multidão que simplesmente não quer parar de cantar o coro no hino Best of You. Já na lista das maiores apresentações ao vivo de uma canção na história do rock, a massa e Dave redefiniram ontem no Morumbi com essa música o significado da palavra catarse.

Dave é o cara também por tocar em um show de dimensões colossais (pela massa, não pela parafernália cênica, sem exageros) como se estivesse no bar em que começou a tocar, em algum buraco acolhedor da gelada e cinzenta Seattle do final dos anos 80. Toca com uma alegria cativante e dá espaço para seus companheiros terem seus momentos de brilho no show. Talvez porque, como acredita minha mulher – fascinada pelo jeito sangue bom do cara – o Foo Fighters não se parece com tantas bandas de anos de estrada em que os caras só se juntam nos shows e depois, por não se suportarem, cada um vai pro seu canto. Não, Dave e seus parceiros de banda parecem mesmo serem próximos, saírem juntos com suas famílias ou apenas se encontrarem no bar para tomarem uma cerveja gelada e curtirem ou desabafarem juntos.

Os brothers do Foo Fighters ainda apresentam algo que pouquíssimas bandas oferecem: uma série generosa de covers, talvez porque não se esquecem dos garotos fanáticos por alguma banda que um dia foram, do sentimento tão gostoso que é um dia, quando jovem, conseguir reproduzir um canto, riff ou melodia de algum deus dos vocais, guitarra, baixo ou bateria. Por isso ontem tivemos trechos de Tom Sawyer, do Rush; Detroit Rock City, do Kiss; um pouco de Black Sabbath e duas canções do Queen, uma delas a belíssima e sempre arrebatadora Under Pressure.

Enquanto Under Pressure tomava o Morumbi com os gritos-pedidos de give love, give love (dê amor), bacana ver e saber que ainda existem estrelas e bandas que caem na estrada com o mais belo, genuíno e nobre espírito não só do rock, mas da arte e vida também: o espírito de ir lá e fazer o seu melhor com uma entrega maravilhosa, e por isso arrebatadora. Uma entrega sem artifícios, sem discursos planejados ou efeitos especiais.

Especial é simplesmente tocar ou escutar canções poderosas e deixar-se levar pela paixão terapêutica e transcendental que é a música e esse rock and roll que tanto nos alivia e ainda nos dá uma energia incomparável para sobreviver ao massacre cotidiano e seguir sonhando com dias e vidas melhores.

Obrigado por nos lembrar do sonho e da raça que precisamos para colocá-los em prática, Dave, obrigados por lembrar-nos de darmos o nosso the best.

Obrigado por lembrar-nos que também podemos ser heróis, porque heróis, como você ensina em My Hero, são gente simples, gente como a gente.

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Dreams

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(Pessoas que são canções)

We’ll get higher and higher
Straight up we’ll climb

Era a mais livre das meninas. Queria voar. E voava. Mais louco ainda, queria viver disso. A ginástica olímpica era seu sonho de vida. Passeávamos na praia e de repente ela dava paradas de mão, fazia estrelas e detonava a ignição daquela louca manobra. Um salto mortal para trás. Um voo tão bacana e alegre que sempre desconfiei que foi um desses que fez meu melhor amigo se apaixonar por ela.
Paty via o mundo de ponta cabeça, ao contrário. Ela fazia muitas coisas ao contrário. Numa época meio certinha e careta, o início dos anos 90, ela era uma legítima roqueira que ia no quarto dos amigos escutar o bom e velho rock and roll, especialmente a banda de seu coração, Van Halen. E era também uma guardiã dos sentimentos mais belos do passado, as amizades verdadeiras que geralmente são mais criadas quando somos ainda tão jovens.
O tempo correu demais. Enquanto seu amigo aqui – que sempre desejou ser, mais que amigo, irmão – andou em círculos e algumas ladeiras vida afora, Paty seguiu voando alto direto para os seus sonhos. Como um avião de caça, ela foi lá pra cima feito essa canção que é a cara e alma dela. Dreams. Do seu Van Halen.
O comecinho da música já é ela: o teclado clássico e belo é igual à olhada profunda que ela dá na gente com seus olhos pequenos mas intensos; e, quando ao teclado junta-se a bateria, e depois a guitarra e o canto, é hora dela falar com a gente com a mesma alegria e garra de viver que ela teve ontem, hoje e sempre.
O único problema é o tempo e a distância. Paty é treinadora lá no Qatar e por isso não a via há 3 anos e meio, desde o Pan do Rio quando ela veio, do Japão onde vivia, ser árbitra de ginástica.
Ela não sabe como os anos sem poder conversar com ela, cara a cara, fizeram falta.
Faz falta demais aquela com quem dividi alguns dos anos e momentos mais bonitos e intensos da minha vida.

Aquela que um dia percebi irmã talvez naquele show dos Stones em que tomamos 7 horas de chuva seguidas nos Pacaembu mas nos emocionamos juntos com a garra imortal de Mick Jagger, uma garra tão parecida com a dela.

Mas ontem a vi de novo, e no bar em que fomos, rolava, claro, rock. Scorpions, outra banda que participou um pouco de nossa história e juventude.
Ontem ela pôde me dar uma atenção de novo, pois, eu, egoísta, queria mais isso até do que saber do primeiro filho dela. Desculpa, irmã, mas era muito tempo sem te ver e sem contar com a sua força.
Mas saiba que de alguma forma me ajudou. Porque você, mesmo agora uma mãe, ainda possui aquele mesmo brilho, melodia e versos que só a sua banda conseguia mesclar com tanta perfeição. Por isso, de algum jeito aproveitei algumas coisas que me falou. Porque você segue sendo a Van Halen girl, por isso
we’ll get higher and higher, leave it all behind. (vamos chegar alto, alto, deixe isso pra trás…vou tentar…

we’ll get higher and higher, who knows what we’ll find? Vamos chegar alto, alto, quem sabe o que vamos encontrar?

Obrigado por me fazer olhar pra cima de novo.
E vê se não demora tanto a voltar.

A música que nos desperta

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Qual o som que você procura em sua vida? Qual o ritmo? Qual o estilo? Por que você precisa de música para viver? Por que a música nos ajuda a viver? Por que nos sentimos tão bem com quem compartilha os estilos que mais amamos? Por que canções são trilhas perfeitas para o amor e a amizade? Por que lembramos das pessoas que um dia amamos (algumas, seguimos amando, mesmo tanto tempo depois) e lembramos delas e de exatos momentos que as amamos embalados por uma canção em especial?
Por que a música une?
Porque há grandes artistas ou amadores com um coração enorme tentando expressar os sentimentos, mensagens e sonhos mais verdadeiros em notas, batidas e palavras tão belas quanto poderosas.
O filme “O Visitante” conta a história de Walter, um professor solitário e farsante, que dá sem a menor paixão o mesmo curso e aulas há 20 anos. Um homem incapaz de se comunicar de verdade depois de perder a esposa. A esposa artista que tocava magistralmente piano. O piano que ele tenta aprender, mesmo velho, cansado e descrente de tudo. A música que ele tenta expressar, para lembrar da alegria perdida. A música que é a única paixão que lhe restou. Por isso ele tenta, desesperadamente, aprender a tocar.
Não consegue, mas porque falta alguém certo para ensiná-lo, bem diferente dos professores de piano frios que lhe dão aulas.
A oportunidade de Walter será uma conferência que o obriga a deixar a cidade em que vive e leciona, Connecticut, para voltar à Nova York que não visita há anos. Então ele volta para lá, mas encontrará seu velho apartamento de Manhattan ocupado por imigrantes clandestinos. Após o choque inicial e a partida dos ilegais, Walter perceberá no imigrante sírio Tarek algo maior que um invasor. Logo descobrirá que Tarek é um genial tocador de tambor africano. Mais que isso, descobrirá a amizade sem preço de um homem que lhe ensinará, apenas por gratidão e pureza de espírito, como tocar um outro instrumento. E aprendendo a tocar o tambor, Walter voltará a tocar sua própria vida. Talvez uma outra vida.
O Visitante não é só uma história sobre o poder curativo da música. É também um drama sobre os imigrantes ilegais e como são tratados com frieza brutal pelas leis dos EUA. Leis ainda mais duras depois do 11 de setembro. Mas pelo menos os sonhos de Tarek e seu tambor mostram como a música e a amizade pura podem ainda salvar esse mundo tão intolerante.
Peguem esse filme (DVD) e vejam como a amizade e a arte podem superar diferenças culturais tão grandes através das iluminadas interpretações de Richard Jenkins (Walter), Haaz Sleiman (Tarek) e Hiam Abbas, que faz a valente mãe de Tarek, Mouna.
Jenkins é aquele raro ator que consegue expressar os sentimentos mais profundos com um simples inclinar da cabeça, com um rápido movimento com as mãos, com um leve abrir os olhos, quando seus olhos se abrem novamente para pessoas simples que entram de repente em sua vida. Haaz nos faz acreditar em cada sorriso, palavra e canção que toca. Nos faz acreditar até as veias no poder da música. E sua mãe, com uma força e amor sem pieguices monumental em seu desejo de ficar perto do filho, é outra atriz que faz desse filme algo tão real e inspirador.
Não contarei mais respeitando a sábia lição de um dos mais humanos críticos de cinema, o americano Roger Ebert. Vejam o filme para a descobrir a mais valiosa qualidade de uma obra de ficção séria: “mostrar as personagens mudando e como elas mudam”. E aprendam também com o grande crítico brasileiro do Estadão, Luiz Carlos Merten: “Adoro quando sou atropelado por esses pequenos filmes, que me desvendam novas janelas para a realidade.”
Mais que isso, O Visitante pode mudar um pouquinho nós mesmos. Quem sabe colocando mais música e amizade em nossas vidas. E quem sabe você entenderá um dos lemas desse filme: “Em um mundo com 6 bilhões de pessoas, basta uma para mudar a sua vida”.

PS – Está dando um defeito na barra de Cineminha desse blog. Sempre aparecem uns vídeos de rap. Pra sair disso, cliquem no botão atualizar (as setinhas verdes do seu navegador de internet) ou deem o enter no endereço do blog de novo. Só assim verão os vídeos que realment selecionei, que em geral tem a ver com o último post.

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Ele voltou


Inesquecível. Muito mais que uma imitação. Alma. Emoção. Calor. Técnica. Arte. Espetáculo. Comoção do público. Magia. Só mesmo muito amor por uma banda para existir algo chamado Diós salve la reina, uma das melhores bandas covers do Queen do planeta. E eles estiveram aqui em Sampa ontem à noite, surpreendendo a todos que estiveram no Via Funchal. Logo na entrada, damos aquela risada gostosa ao vermos a incrível semelhança do cantor Pablo Padín com Freddie Mercury. Logo as risadas são substituídas pela emoção de descobrir que o argentino tem voz (e isso não é mentira!) parecida com a do maior vocalista de todos os tempos, Freddie. Sim, ele não consegue alcançar aquelas esticadas de voz monumentais do mito, nem tem tantos recursos de variação, mas é sim o espírito da garganta do líder do astro que escutamos. É sim algo muito parecido com o Queen que ouvimos, sensação reforçada ao acrescentarmos os outros três fantásticos músicos da banda, especialmente o guitarrista Francisco Calgaro, que toca uma réplica da guitarra Red Special, do gênio das cordas Brian May; e destaco também o batera dessa banda cover, o cabeludo meio Maradona louro que simplesmente estraçalhou sua batera feito um coração se declarando com a maior beleza e sinceridade do planeta.

Algo mágico demais aconteceu ontem à noite, por isso tantos sorrisos de satisfação espontâneos ao longo da noite toda, por isso tanta gente fazendo solos imaginários de guitarra, de moleques a coroas, de crianças às deusas morenas da platéia (me perdoem as louras, mas quando as morenas têm charme…). Por isso tanta gente cantando junto e batendo palmas.
O set list de ontem? A primeira a emocionar foi Somebody to Love, e haja culhão do argentino para tentar fazer essa versão de um original em que Freddie chegava a lugares jamais alcançados na história do rock, e ele se saiu muito bem. Depois teve I want to break free, Who wants to live forever (tema do filme Highlander), Radio Ga Ga, Save Me, Crazy little thing called love, a balada maravilhosa pouco tocada hoje, Jealously, I want it all e, claro, em número espetacular, Love of My Life, etc etc. A última canção? Uma honestíssima versão da ópera rock, Bohemian Rhapsody.

No bis eles voltaram atendendo aos gritos da galera que gritava We will rock you. Eles voltaram com essa pedrada e adicionaram We are the champions com uma pegada monumental! Agradeceram emocionados, partiram, mas a galera não arredava o pé. E aí veio o milagre que só quem tem coragem de colocar o coração pra fora, que só quem tem tesão pela vida consegue realizar. O brotherzinho ao meu lado pede, pô, só faltou Don´t Stop Me Now… Aí ele e eu começamos a gritar o nome dessa canção supersônica do Queen e alguns outros acompanham. E os caras voltam para o segundo bis e atacam de… Don´t Stop Me Now!!!

Puta merda, mas que puta show! E pensar que boa parte da molecada de hoje nem conhece Queen e fica se embriagando, desculpem o linguajar, de tanta merda que as rádios enfiam goela abaixo deles!

Mas voltando aos argentinos do Diós salve la reina, só queria agradecer por ter trazido “Ele” de volta nessa inesquecível noite em que uma banda cover foi a emissária mais fiel possível dessa que a foi a segunda melhor banda da história do rock (e às vezes não me questiono se não seriam a primeira, tomando o posto dos Beatles, caso Freddie não morresse cedo…), esse fantástico Queen, dono de uma melodia, voz, guitarra e variações rítmicas que nenhuma outra banda da história do rock jamais igualou.

E, pelo menos um moleque ontem, o irmãozinho, foi pra sua casa com a certeza que o rock de verdade e inesquecível só pode estar no passado. Que venham em agosto o Scorpions, ainda mais com a formação original! E que venham mais pessoas com a gente pro próximo super show!

PS – O vídeo, acreditem, é do Diós salve a la reina.

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Que voz e guitarra é essa?!


A voz é deliciosa, entre o agudo passarinho feminino e o grave rouco leão. O dedilhar da guitarra é maravilhoso como uma conversa cheia de atenção e prestar atenção no outro enquanto passeiam por algum lugar mágico. Essa é Leslie Feist, uma super artista do Canadá da qual não consigo encontrar um CD aqui no Brasil. Um pecado, pois desde Alanis não conhecia uma voz de cantora tão bela e rica, e ela é ainda melhor, pois tira melodias e riffs belíssimos e cheios de ritmo da sua guitarra. Uma bela mulher, que canta como uma fada e hipnotiza com uma guitarra que nos envolve e leva pra passear, o que mais podemos esperar? Essa canção, Secret Heart, seguramente entraria para uma lista das mais deliciosas e saborosas canções de amor da história.