O Último Cavalheiro

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A juventude ainda parecia pura, cheia de atitude e com sonhos no início dos anos 80, quando ele surgiu nos cinemas com o maior filme já feito sobre essa fase mais intensa da vida: Outsiders (Vidas Sem Rumo, 1983), clássico de Francis Ford Coppola. Patrick Swayze era Darrell, o irmão mais velho que cuidava de dois irmãos sem pais, Sodapop e Ponyboy numa família pobre do interior dos EUA dos anos 60. Uma família que junto dos amigos também sem oportunidades e chances na vida lutava no braço com os garotões ricos frios e sem escrúpulos.
Outsiders, inspirada no belíssimo livro de mesmo nome (*), explodia emoções e nos sentimentos mais verdadeiros. Sentimentos como o tocante afeto, cuidado e amor que Darrell-Swayze oferecia aos seus irmãos dos quais cuidava como pai e mãe, ralando num trampo infernal e ainda cuidando da casa. Sentimentos como aquelas amizades inquebrantáveis que uniam os irmãos e garotos pobres daquele filme tão real. Garotos interpretados com paixão visceral por jovens atores lançados ali por Coppola: talentos precoces como Matt Dillon, Ralph Macchio, Rob Lowe, C. Thomas Howell, Emilio Estevez e Tom Cruise. Que outro filme da história do cinema apresentou tantos jovens excepcionais no momento mais dourado de suas juventudes?
Patrick Swayze, o mais velho daquela turma (já com 30 anos), ainda brilharia em dois estrondosos sucessos românticos, Dirty Dancing (1987) e Ghost (1990), mas depois seu talento (era muito mais que um galã fortão) não teria chance para evoluir a outros patamares na sétima arte.
Mas Swayze seria sempre um ícone de uma época que guardava ainda um pouco de inocência, os anos 80. Depois viriam o desencanto da música grunge de Kurt Cobain, Nirvana e cia., os filmes que banalizaram a violência de Tarantino, Stone e outros tiros fatais nos romances campeões de bilheteria de Hollywood. Não havia mais lugar para o ultra-romantismo de amores “além da vida” como Ghost.
Uma pena que o banho de realidade, sangue e ceticismo massacraria cenas mega-açucaradas como Demi Moore e Swayze compartilhando aquela moeda mágica. Cenas de glicose excessiva apenas para os que já não acreditavam em romances à moda antiga. Para os que passaram a debochar de amores eternos. E pra piorar, o romantismo acabaria morto por ele mesmo já no século XXI quando uma apelação e farsa chamada música emo tornou, aí sim, o romance algo ridículo e insuportável.
Os machões e os que não creem em nada jamais vão entender o que a companheira de Swayze em Dirty Dancing, Jennifer Grey, disse sobre ele depois que o ator se foi, esta semana: “Patrick era um verdadeiro cowboy com um coração delicado”.
Um cowboy delicado? Talvez quem tenha visto um dos bons filmes posteriores de Swayze massacrados pela crítica, entenda isso, ao lembrarmos de Matador de Aluguel (Roadhouse), em que Swayze fazia um leão de chácara de um inferninho de rock onde brilhava um genial guitarrista cego de verdade, Jeff Healey, morto também recentemente. A delicadeza de Swayze no filme era sua paciência para treinar com refinamento artes marciais, seu apreço pelo lugar tranquilo onde morava – à beira de um lago; e o respeito, fidelidade e sensibilidade com que tratava seus amigos (como o veterano segurança, e grande ator, Sam Elliot) e a mulher que amava, a maravilhosa loura feita por Kelly Lynch
Finalmente, Swayze precisa ser lembrado também como um dos raríssimos casos em que Hollywood encarnou bem um surfista de alma. Falo de Caçadores de Emoção (Pointbreak, 1991). Filme subestimado pelos críticos e pelos próprios surfistas, Pointbreak é sim uma bela homenagem do cinema a alguns dos elementos mais puros, verdadeiros e belos do ato de pegar ondas. Mas isso é assunto para um post futuro, a homenagear o pequeno mas marcante legado de um dos últimos românticos do cinema. Ou não era um romântico o surfista que, perseguido pelo FBI, resolve entrar num mar gigantesco insurfável para não entregar a característica maior de um soul surfer de verdade (e não de propaganda de surfwear…), a liberdade? Sim, a cena final deste filme, do Swayze tão bem como surfista, é mais bela e fiel ao mundo das ondas que toneladas de videozinhos e dvd´s de surf acelerados, descerebrados e sem alma que são despejados pelas empresas de surfwear todos os meses. Talvez porque Swayze sempre tenha caçado as emoções mais verdadeiras.
Por isso ele lutou, com rara coragem, contra o câncer, até o fim de seus dias. Como um bravo que não se entrega à nada, Patrick Swayze surfou as morras da vida até o fim.

(*) O livro Outsiders (http://tinyurl.com/lmdun2), de Susan E. Hinton, mais bela obra juvenil que li na vida, é facilmente encontrado em qualquer bom sebo do Brasil. A obra, editada por aqui pela Brasiliense, está esgotada, mas tem em tudo quanto é canto. O filme de mesmo nome nunca foi lançado em DVD no Brasil, um verdadeiro crime. Só viu o filme quem foi jovem na época em que surgiu o videocassete…

(*) Abaixo, cenas do inesquecível Outsiders.

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O homem sem medo

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“O tempo não pára. E a gente ainda passa correndo demais”, esse era o lema de Cazuza. Consumir cada momento feito um louco. Sem freios, sem medo, embriagado pela vida. Com muita paixão: pela música, juventude, noite e, sobretudo, por si mesmo. Foi sim um grande egoísta, abusando do amor e proteção de seus pais. Mas foi preciso ser um egoísta e um ego inflado e inflamado demais por ter consciência de sua garra e genialidade, para escrever e cantar alguns dos mais belos, críticos e poderosos versos – verdadeiros hinos – do rock e de algo maior chamado música brasileira.
Foi esse poeta guerreiro um demolidor de preconceitos e talvez a voz mais corajosa no país naqueles pasmacentos anos 80, embrião da alienação e falta de atitude que formaria a triste nova juventude brasileira dos anos que viriam: a acomodada, consumista e cega “geração coca-cola”, como cantou e criticou outro poeta morto, Renato Russo.
Coca-cola para ele era só para misturar o rum, a vodka, algum outro álcool pesado, e ainda maconha, cocaína e a droga que pintasse. Ou para lavar o estômago e o coração do país podre em que vivia, da elite política e econômica que metia a mão nos bolsos dos brasileiros decentes e trabalhadores [mudou algo hoje?]. “Brasil, mostra tua cara, Quero ver quem paga pra gente ficar assim, Brasil, qual é o teu negócio? o nome do teu sócio?… Não me ofereceram nem um cigarro, fiquei na porta estacionando os carros, não me elegeram chefe de nada, o meu cartão de crédito é uma navalha…”, assim ele detonou na canção Brasil, que virou hino pela redemocratização e limpeza do país. Por que essa canção não entrou no filme, produzido pela Globo?… Algo a ver com “o nome do teu sócio”?
Pena que as drogas e a promiscuidade levaram cedo esse poeta fundamental. Imaginem o que poderia ter feito e cantado mais pela vida vivida com a paixão que ele nos ensinou.
A paixão de um exagerado consciente de que vivemos numa piscina cheia de ratos, cansados de correr na direção contrária, sem pódio de chegada ou beijo de namorada, mas com garra e, sobretudo, coragem. Porque, se você achar que eu tô derrotado, saiba que ainda estão rolando os dados, porque o tempo não pára…”.
A paixão de quem sabia que era preciso – nesses tempos negros em que nossos heróis já morreram faz tempo, de overdose – combater e denunciar nossos inimigos, os que estão no poder. Pena que hoje, 14 anos depois de sua morte, os heróis dos adolescentes sejam caras vazios que cantam sem dizer nada e estimulam os jovens a consumir aquela mesma coca-cola condenada por Renato e Cazuza. Pelo menos Cazuza não envelheceu para ver todos os belos ideais em que acreditava destruídos. Porque as ideologias de hoje, que nunca estiveram tão fortes, são as mesmas que ele teve peito para condenar – o poder, o dinheiro, a mentira e o consumo.
Porque Cazuza era homem.

Uma lágrima então porque ele era o cara.
Uma lágrima então, porque a vida segue a mesma:
Nas noites de frio é melhor nem nascer / Nas de calor, se escolhe: é matar ou morrer

E assim nos tornamos brasileiros… Transformam o país inteiro num puteiro
Pois assim se ganha mais dinheiro…
Assim segue o povo brasileiro, sem armas – educação, trabalho, dignidade. Sobrevivendo da caridade de quem o detesta.
(17/07/2004)