Lugano – O regresso do herói mais humano

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lugano volta 2A imagem, mesmo distante, da arquibancada do Pacaembu, é nítida e poderosa. Quando ele perfila ao lado dos outros jogadores, sua camisa (para ele e nós, manto sagrado) parece ter o dobro da largura dos outros companheiros. A razão é física, emocional e anímica. O peito é realmente enorme, para conter uma caixa torácica ampla e, sobretudo, um coração e alma do tamanho da história do São Paulo e de seu amor, dedicação e gratidão pelo clube que o projetou no futebol mundial.

A dimensão da camisa branca tricolor amplia-se ainda mais nos olhos e peito do torcedor nesse emocionante matar a saudade de um dos raros heróis com quem pudemos nos reencontrar.

Fui ao Pacaembu sozinho ontem porque o reencontro com um herói deve acontecer desta forma. Há que se estar concentrado, interiorizado, esperando como um ritual de fé, quando o vemos de novo e sentimos tanto. Há que se esperar focados em nossa gratidão por alguém que nos fez vibrar, sonhar e vencer tanto.

Há que se ensinar aos que não têm heróis, que nesse cotidiano, país e mundo com tantos vilões, heróis como Lugano são necessários, fundamentais.

Há que se gritar o seu nome com tudo o que está em nossos pulmões porque esse guerreiro ajudou e inspirou muitos tricolores, uma década atrás, a lutar, resistir, sobreviver e vencer.

Em uma fase dura de minha vida, com o coração e a alma abatidos, Lugano foi um dos poucos que me deu ânimo, com seu exemplo de dura trajetória inicial no São Paulo, sua volta por cima e glória construída com uma garra descomunal. Se minha inesquecível turma da Pós em Jornalismo de 2005 e 2006 no interior paulista me dava o afeto e alegria vitais em fins de semana antológicos, era ele quem me inspirava a lutar e também ser um cara melhor.

E que luta! Nos gramados, ele sempre vestiu seu coração e foi lutar, desvestindo-se de qualquer precaução, medo ou economia de ânimo em cada lance.

Em cada lance a que se entregou de corpo e alma porque vestiu de verdade uma camisa que sentiu como manto, prêmio e pele.

Reencontrar Lugano é como ser reanimado, acordado e levantado por um guerreiro e líder histórico.

É nos permitir um pouco de esperança, sonho e muita batalha de novo. E como precisamos disso, nós, torcedores tricolores tão maltratados, traídos e sofridos nos últimos tantos anos de derrotas e decepções, muitas delas vergonhosas.

Reencontrar Lugano nos torna todos escoceses invadidos recebendo o brado e chamado desse William Wallace da bola. Um Coração Valente, envelhecido, sim, mas ainda, tomara, um libertador e faísca para contagiar seus novos companheiros a entenderem o que é se entregar de verdade a essa camisa, e isso passa pelo sentimento de perceber esta camisa e o futebol como algo muito maior que um mero compromisso profissional.

O leão voltou a rugir de novo ontem, pena que para um público tão pequeno, meros 7 mil são-paulinos, mas presumível pelos fracassos anteriores recentes.

Os que foram esperar o ídolo, herói e homem ontem, porém, puderam sorrir como não sorriam há muito tempo; com um sorriso meio feliz demais, meio maníaco partindo das veias, coração, pulmão, coração, de todo lugar de nosso corpo e alma que fica arrepiado, eletrizado e energizado quando vemos o mais guerreiro dos heróis entre nós de novo.

Sonhemos um pouco, meus amigos tricolores. O time, muito menos o elenco, não parecem permitir isso, mas pelo menos podemos ver de novo um jogador e líder que é um grito das profundezas a cada disputa de bola e cobrança verbal, do juiz e companheiros, que protagoniza.

Obrigado por estar de novo pertinho lutando, gritando e sonhando por nós.

Obrigado, também, por esse ser humano transparente e valoroso que você é, que voltamos a perceber a cada palavra, frase, olhar e gesto que vemos a cada entrevista na TV.

Obrigado por seguir sendo um herói não só da bola, mas da vida, do caráter, dos seus bons valores inegociáveis, o que é tão raro no pobre e mesquinho universo humano do futebol brasileiro.

Obrigado por ser o Diós mais humano que lutou, e voltou a lutar, por nós.

Sim, por nós, porque o futebol não é mera distração ou entretenimento, e o São Paulo não é uma mera paixão. Ambos são elementos importantes em nossas vidas e até ajudaram a formar quem somos. E que dádiva e beleza é ter em nossa formação esse jogador-homem que vale como uma matéria vital dada em anos de escola, uma matéria viva, poderosa e eterna chamada Diego Lugano!

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Creed e Rocky. Nascidos para lutar. Juntos.

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creed2Homenagem é uma palavra tão bela quanto pouco praticada na avalanche da falta de tempo que sobra dos trabalhos ou estudos, e da ditadura do novo, que prevalece em nossa sociedade e mundo cada vez mais consumista e pautados pelas novidades. Graças, porém, que ainda resiste no cinema a arte de reverenciar o passado e aqueles que nos marcaram, emocionaram e/ou ensinaram. O filme Creed, Nascido para Lutar, não faz parte da série Rocky, mas é tão visceral e humano quanto os melhores, mais poéticos e realistas filmes da série, justamente o primeiro, Rocky, um Lutador, e o último, Rocky Balboa. Creed é obra do jovem cineasta negro Ryan Coogler, 30 anos, para homenagear a força que seu pai lhe deu para cursar cinema e a paixão de seu velho pela odisseia do lutador mais querido do cinema (não só…).

A história mostra a tentativa jovem Adonis Johnson de se tornar um boxeador para honrar o sobrenome do pai biológico que ele não conheceu, o lendário Apollo Creed, maior rival e depois amigo que Rocky Balboa teve. Anos de passagens por orfanatos e reformatórios moldam um garoto acostumado a brigar mas ele precisa de muito mais para vencer nos ringues. Precisa da mãe de coração (não a de sangue, também falecida), que o resgata do cárcere infantil, e também de um mestre para fazê-lo evoluir, técnica e mentalmente, com as luvas.

O mestre, obviamente, é Rocky Balboa, mas não será apenas Rocky o professor. O velho lutador simplório da Filadélfia – que perdeu quase tudo e vive de um modesto restaurante com o nome da amada ex-mulher, Adrian – precisará, mais que nunca, também aprender e se motivar com o jovem Adonis. Estabelece-se então mais uma bonita parceria do cinema que fala de boxe, com laços de família do coração que são criados por Rocky e o jovem que ainda precisa se provar para honrar o pai, o melhor pugilista da história no universo da série rockyana: Apollo Creed.

Emulando a força e beleza da ligação de pai e filha do treinador feito por Clint Eastwood com sua menina de ouro, mas sem as ironias e mau humor do treinador de Clint, Stallone- Rocky e o promissor Michael B. Jordan-Adonis vão construindo laços de afeto, respeito, confiança e amor que arrebatam quem assiste ao filme. Os laços são construídos aos poucos e daquela forma tão simples e humilde que compõe o cerne do pacato Rocky de sempre, um raro ex-astro e lenda eterna que manteve-se fiel ao seu caráter e jeito de ser de antes da fama.

A performance de Stallone-Rocky, que ao meu ver sempre foram a mesma pessoa, é tão cativante que o tão menosprezado (pela crítica) ator deve ganhar o Oscar de ator coadjuvante (já ganhou o Globo de Ouro). Stallone, que sempre fez Rocky com uma simbiose de brutalidade (no sentido de ser mais forte que hábil) no boxe e delicadeza de gestos e atitudes fora dele, faz com perfeição o mestre que extrai o melhor de seu pupilo não só na hora do pau das lutas. E está lá o mesmo chapeuzinho fora de moda, o andar balançando, a fala atrapalhada (pela paralisia facial de um lado que Stallone sempre teve). Essa fala e seus pensamentos, porém, que antes eram apenas ingenuidade e juventude, medo e vontade transformaram-se agora em música calma, quase uma oração.

A cada conversa com Adonis, o agora mestre Rocky – tão simples e realista como era seu falecido treinador, Mickey – oferece breves mas profundos sermões de vida real, batalhada, e não da religião. Palavras simples e impactantes. Pura sabedoria de quem saiu do nada, chegou ao topo e depois perdeu tudo – o título mundial, os entes queridos, o melhor amigo, o treinador quase pai – menos a integridade. Menos o saber o valor de cada luta e glória que enfrentou ou teve.

Sim, os críticos de má vontade ou os intelectuais céticos quanto ao valor ou poder do esporte debocharão das palavras de Rocky, chamarão de clichê ou autoajuda barata. Farão isso porque talvez não tenham sido meninos sonhadores ou românticos com ídolos a inspirá-los, jovens guerreiros e esperançosos ou adultos calejados por tantas batalhas perdidas, mas não todas. Para esses que ainda creem, que ainda se emocionam com o velho Rocky, o filme Creed envolve, toca, inspira e nos lembra do melhor e mais sincero de nós mesmos que um dia fomos. Um “melhor de nós” que um dia conhecemos na motivação profunda, mais que isso, inspiração, que as frases de Rocky e, claro, seus treinos malucos, rústicos, e a sua música contagiante nos davam. E ainda nos dão com esse maravilhoso Creed, um verdadeiro brinde de saudação e gratidão em homenagem a Rocky-Stallone oferecido por esse jovem diretor Ryan Coogler. E que lição linda Coogler nos dá, através de Adonis para um Rocky então muito machucado, reforçando o valor e laços de uma parceria de verdade: “Você luta, eu luto.” Que conselho vital e raro! nessa época em que o sistema estimula muito mais a luta, conduta e atitude pessoal, o cada um por si e quase ninguém por todos.

Não foi à toda que Stallone aceitou o convite para emprestar seu personagem ao filme. Imagino o que se passou em seu coração ao ler o roteiro de um filme feito em agradecimento a tudo o que ele sonhou, batalhou e venceu com Rocky. Talvez por isso sua atuação emula, segundo o maior crítico de cinema que conheço, Luiz Carlos Merten, do Estadão, simplesmente aquele que fez o Poderoso Chefão pós-enfarte. O velhinho, outro sábio e mestre, Merten, escreveu que “Marlon Brando encarna no garanhão italiano. Stallone está maravilhoso.”

Caramba: Brando? Não, meus amigos, ante a comparação de Merten, aposto que Stallone apenas diria que não representou nada, nem emulou o mito do cinema. Apenas deixou sua vida, que se confunde com a de Rocky, tomar as telas e nossos corações de lutadores.

Corações que volta e meia lembram de Rocky para não desanimar das pancadas e nocautes que a vida não cansa de dar.

Corações que, tocados por Creed, agora nos fazem lembrar dos mestres de nossas vidas, e que não vencemos sozinhos.

A vida não pode ser vencida com o embuste da mera autoajuda pessoal. Precisamos, demais, de quem nos treine, aprenda e lute com a gente.

Obrigado, Mestres.

Obrigado, Rocky-Stallone e Ryan Coogler.

 

Bra

Amigos de sangue

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amandaComeço esse texto aqui da escola onde a conhecemos. Onde ela fazia aquela cara feia pra gente (quando estava brava, o bicho pegava, eita personalidade forte!) ou onde dava aquele sorriso de cantinho de lábios enquanto dava aquela olhadinha marota, uma marca das Carneiro Valillo! Escrevo pertinho da sala onde ela dava tanto carinho e atenção pra gente, usando os olhos como uma extensão do coração e também como atenção enorme que oferecia tanto para esse seu professor durante as aulas como para seus colegas.

Escrevo de onde a gente aprendeu a dar risada dos seus “defeitos” (ficava pior que boi bravo de rodeio quando era contrariada ou tomava uma bronca!) e ser tocado por suas qualidades.

Qualidades que essa menina especial formada no Uirapuru e no Horizontes-Uirapuru não deixou de nos oferecer nem quando ela encerrou seu ciclo na escola. Porque tá aí uma menina que não deixou de semear amor pra gente mesmo com o tão cruel correr dos anos, verdadeira amnésia para a maioria. Tá aí uma raríssima menina, logo mulher, que soube, como poucas, usar com beleza uma simples rede social virtual como esse FB. Soube usar com palavras tão belas que podíamos sentir, de verdade, o seu bem querer. Um afeto poderoso que foi uma das forças que fez esse seu então meio maluco professor suportar o que eu chamo de “os anos duros”.

Nos anos em que mais precisei e, por uma benção ou incrível sexto sentido dela, quando eu estava no dia mais bad trip possível eis que eu recebia uma mensagem dela Mensagem coisa nenhuma, ela escrevia verdadeiras cartas e minha caixa virtual me lembrava a saudosa sensação de abrir o envelope e ler palavras escritas com tinta e sangue.

Sangue Amanda sempre teve demais, conseguia fazer palavras tecladas penetrarem em nossas veias e limparem todos nosso medos, dores e vazios como se ela fizesse uma transfusão de abraços, amparo e afeto verdadeiro mesmo por trás de uma tela fria de um computador.

Nos dias mais sombrios suas mensagens surgiam bombando feito uma onda inesperada e suas palavras azuis nos empurravam, levantavam e nos davam coragem de voltar a surfar a vida de novo.

Imagino quantas outras tantas ondas a Amanda soprou para outras pessoas. Imagino quantas amizades com amor ela semeou com sua capacidade revolucionária de dar calor e sentido a essa frieza das relações virtuais.

Imagino quantas pessoas ela ajudou a encorajar, a bater forte dentro do peito, a dar aquele sorriso gostoso de quando recebemos palavras de verdade, escritas com amor, e não apenas como rápidas tecladas.

Imagino quantas veias e artérias ela ajudou a correr forte de novo, purificando o sangue de nossas esperanças e nossas qualidades. Incrível como a Amandinha sempre nos fazia lembrar do melhor de nós mesmos.

Por tudo que ela nos deu está na hora de retribuirmos agora com as nossas veias. Com o fluxo vital de nossa amizade-amor. Está na hora de bombarmos o sangue de nossa gratidão em suas veias que um dia nos aliviaram e confortaram tanto.

Está na hora de todo o Horizontes e Uirapuru que foram tocados por ela se transformarem em uma única e vital corrente. Um único coração.

Por você, querida. Obrigado por tudo e temos certeza que, guerreira e valente como sempre foi, sairá dessa. Vai pra cima, Amandinha! E pode deixar que injetaremos muito combustível em seu coração de boxeadora! Vai e mete porrada nisso que a gente estará com você! Sempre!

PS – Sabadão de manhã estarei lá e convoco meus queridos ex-alunos e ex-alunas que a conheceram a fazer o mesmo: doar nosso sangue por ela e para outras pessoas que também precisam. O local onde devemos doar é o Centro de Hematologia de São Paulo. Av. Brigadeiro Luis Antonio, 2533 – Horário: 2a a 6a das 8:00 às 17:00hs e Sábados das 8:00 as 15:00hs. Chegando lá é só falar o nome dela: Amanda Carneiro Vallilo. Ah, a Amandinha pode receber qualquer tipo sanguíneo.

11/4/2001 – 8/4/2015

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capitu3

A amiga mais fiel e presente que tive na vida. A amiga vital dos piores anos de minha vida, os dez anos sozinho, triste, cabeça baixa, ânimo no chão. O anjo que veio ao mundo justo no primeiro dos anos mais duros. O anjo que ficava horas comigo em um raro refúgio que tinha em São Paulo, a Praça. Mesmo quando eu ia pro banco da praça, ela ficava sentadinha na minha frente enquanto eu fazia exercícios. Exercícios que eu precisava sempre dar uma parada porque ela começava a botar sua patinha em mim e tentar me lamber. Quando eu sentava, mais pra baixo que a canção dos Beatles na voz de Eddie Vedder (You´ve got to hide your love away), ela entendia e ficava paradinha, sentada também, quietinha feito um totem, feito o anjo que era. Quietinha e sem a impaciência típica da maioria dos cachorros, pois se eu virasse a noite sentado ali ela iria permanecer ao meu lado, uma Hachi brasileira em forma de dálmata e fêmea.

Ao meu lado ela ficou também anos e anos deitada na poltrona em frente à televisão, a televisão a que assisti na esmagadora maioria de finais de semana desses dez anos.

capitu cabecinha

Nunca houve uma Capitu como ela, nem a doce e valente personagem de novela feita por Giovana Antonelli que lhe emprestou o nome, muito menos a musa dissimulada de Machado.

Já tive amigas incríveis humanas, daquelas de emocionar a gente com gestos, palavras e simples olhares de entendimento e acolhimento, mas o tempo é implacável na vida dos seres humanos. Os rumos diferentes afastam e as relações mais bonitas e profundas perdem-se nas brumas do tempo. Viraram passado e saudade infelizmente. Diferente foi minha parceira inseparável, companheira do peito, versão em quatro patas e de alma feminina dos brothers de peito que têm os surfistas.

Capitu sempre esteve lá, na verdade aqui dentro, em cada dia dos seus 14 anos quase justos.

A cachorra mais carinhosa que já tive, que podia também ficar horas paradinha recebendo um carinho, de pé, sentada ou deitada ao meu lado.

A cachorra que, infelizmente, foi a que levou a vida mais dura. A diabetes a pegou na metade da vida e logo levou sua visão. Uma meia engolida (a bichinha adorava pegar na boca tudo quanto é par) quase a matou nessa época mas, valente, venceu a grave infecção e a cirurgia e ficou boa. Antes disso uma pequena falha de movimento nas patas traseiras levaram embora também sua alegria e capacidade de correr ao meu lado. O pior veio há cerca de um ano e meio, quando a coluna a atacou. No começo a acupuntura a colocou de pé de novo, mas há cerca de um ano Capitu não conseguia mais levantar sozinha, as patas traseiras não respondiam mais.

A valentia e garra extraordinária a faziam andar devagarzinho depois de levantá-la mas havia ainda um tumor na mama e o que a incomodava demais a partir de então: ela, que sempre se lambia para ficar mais limpa feito gato, não teve remédio senão fazer suas necessidades deitada mesmo quando eu não conseguia acudir a tempo. Sim, a limpeza diária era extenuante mas aquela carinha feliz tranquila depois, já limpa e deitadinha, valiam todo o esforço diário do seu amigo. Mas aí o tumor cresceu demais nesse último mês, até que abriu esta semana e a doença se espalhou, levando o resto dos movimentos e a respiração.

Só quem já teve uma amiga ou amigo assim sabe o que é ter que se despedir da alma mais pura que conheceu na vida (sim, eles têm alma para a gente).

O vazio agora é enorme, agravado por Capitu ser a última de uma família que esteve comigo e com minha família nas últimas três décadas. Neta da lendária Duda, e filha de Babalu, foi-se a última das meninas que cuidaram de mim e estiveram sempre ao meu lado como minha mãe. Sim, a comparação não é descabida: só os cães talvez tenham um amor tão puro e incondicional como o da maioria das mães.

14 anos, puta merda, como ficar sem o amparo-coração-carinho-amor da minha melhor amiga?

O único consolo é saber que fiz tudo que podia e doei o tempo que tinha e não tinha para cuidar da menina de minha vida com o mesmo amor e cuidado que ela me transmitia.

Descanse em paz, querida, e agora pelos menos talvez você encontre lá em cima a fantástica avó que você não conheceu, a tão companheira e doce como você, a lendária Duda.

Cuida da baixinha, por favor, Duda.

Adeus, Capitu, obrigado por me mostrar e passar o seu amor do tamanho da vida.

Quem nos tira das cordas

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Amor é saber que depois do ringue cotidiano, alguém vai colocar ataduras em nossas feridas de tantas pancadas tomadas. E vai elogiar nosso único soco bem dado. O único golpe que encaixamos e ela percebeu, valorizou. E ela nos fará acreditar que este golpe é bom demais, que basta treiná-lo muito, e adicionar alguns outros, que vamos nos levantar.
Quem nos ama nos impele a lutar, mesmo todo estourado e só querendo um bom colchão-maca para deitar e esquecer.
Quem ama de verdade é igual ao treinador no canto do ringue que não deixa seu lutador desistir, e o ajuda-cuida-orienta a como sair daquele massacre.
O amor não pode, porém, estar presente na maioria de nossos combates do dia-a-dia. Mas lembrar de seu rosto e o quanto acredita na gente é a prece e força que precisamos para sair das cordas.
Não importa quantos nocautes sofremos. Importa é lembrar dela, levantar e contra-atacar feito um Rocky Balboa possuído que mesmo quase não enxergando ou ouvindo mais, ainda vê imagens embaçadas dela e escuta, como um fósforo riscado na escuridão silenciosa, a voz dela.
O amor dela. O nosso amor. A nossa família. A nossa vida, que será sempre, mais forte que qualquer adversário, mesmo esse peso pesado cruel e poderoso chamado sobrevivência.
Obrigado por me dar forças e por acreditar.
Bora encarar essa dor física e espaço profissional reduzido e lutar sem jamais desistir. Uma hora o jogo vira.
Eye of the tiger na mente e suor. POW!!!!!

Nem as chamas podem apagá-la

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Foram exatamente da cor desse entardecer os anos da nossa infância e adolescência. Foram também parecidos com a beleza simples afetuosa dessas velhas madeiras vindas de outros séculos. Anos dourados que tiveram a graça de acontecer nesse lugar mágico chamado Fazenda. Um lugar e tempo vivido tão belo que às vezes parece que foi apenas um sonho. Mas foram reais, tão quentes e intensos quanto delicados nos feriados, verões e invernos sem fim que passávamos ali. Sem fim porque cada dia na Fazenda era longo como nossas amizades e farras da mesma magnitude que as antigas picardias estudantis das comédias românticas dos anos 80. Simplesmente não queríamos ir embora, talvez pressentindo que um dia não voltaríamos mais e isso se transformaria em um pequeno vazio no fundo do peito jamais preenchido de novo.

Os dias começavam na madrugada em que ainda estávamos em ação, embalados por paixões juvenis, jogos de guerra em pleno breu (a famosa Bandeira que tentávamos roubar dos exércitos inimigos chefiados por generais loucos entocados como o fantasma incrível hulk da corneta, Lucas e uma certa Ana Lara, ainda uma menina mas insana como uma guerrilheira na selva que surgia de tudo quanto é lugar, até despencando de cima das árvores sobre nós), passeios às margens do lago em que contávamos histórias sinistras nas noites de lua cheia com o assustador copo do lado (o terror só aumentava porque sempre havia um amigo desgarrado pronto para surgir do nada, pulando e gritando sobre a gente, e chutando nosso coração pra boca), e outras peripécias.

Depois vinha o sono, farto em sonhos ou pesadelos divertidos. As meninas ficavam protegidas, mais ou menos, na casa grande junto do tio e da tia. Os homens, naquele templo de insanidades chamado República, entre rituais de poções mágicas embaladas por heavy metal que assustariam até o Ozzy e, claro, intermináveis papos para celebrarmos nossas musas ou para tentarmos entender a mente indecifrável delas que muitas vezes nos tornavam mais tontos e enfeitiçados que os garotos da canção do Leoni. Mas não éramos só nós, os meninos. A emoção e o medo explodiam em escalas estratosféricas pelos trotes maquiavélicos que recebíamos do filho mais velho do pedaço, Joseph Hitchcock Louis, junto de seu não menos assustador parceiro, Sebastian Monster Monteiro. O que esses caras sacaneavam a gente faz os trotes das faculdades parecerem brincadeiras do jardim da infância.

Depois de desabarmos em nossos beliches entre sonhos e pesadelos, vinha a manhã que já começava com o sempre espetacular leite de vaca e pão quentinho. Logo começávamos jornadas olímpicas de muito tênis e vôlei em quadra de areia, que acabavam com um bom mergulho na piscina. Haviam também aqueles que encaravam aquele selvagem e enorme cavalo Malhado, e caíam feio, claro! O almoço era chamado com o velho e grande sino e era a hora sagrada da não menos histórica e saborosa comida caseira de Dona Alzira, especialmente na sobremesa com doce de leite empelotado.

Pausa pro cochilo nas duas redes da sacada (esta com essa maravilhosa vista da foto) ou início dos xavecos homéricos dos mais atirados. Bom, os “mais devagar” como este que vos escreve tinha é que ir tirar uma soneca mesmo.

No meio tarde brigávamos pelas melhores canecas para tomarmos o incomparável leite tirado da vaca na hora, morno, no ponto, enchíamos as canecas orgulhosos como alemães na Oktoberfest. E essas poções diretas das tetas das malhadas repunham nossas forças gastas no esporte e rolês intermináveis pela fazenda.

Fim de tarde era hora de mais esporte ou das aventuras explorando o lago remando num bote amarelo pra lá de judiado. Bote que obviamente afundaria um dia no meio do lago, em pleno inverno e nos obrigou a nadar naquela água tão escura e cheia de lodo quanto o Lago Ness escocês…

O anoitecer nos pegava encarando o banho sempre surpreendente do chuveiro detonado da República: ou era geladão mesmo ou nos dava uns puta choques que os mais loucos até curtiam tomar, fanáticos roqueiros elétricos que todos eram (Graças a Deus eram os anos 80 ainda livres do axé, pagode, pagode universitário e funk carioca).

A noite começava com um lanche parrudo e mais tarde iniciávamos os trabalhos com várias opções: salão de jogos, brincadeiras de guerra ou contação de histórias lá fora, mímicas de filmes na casa grande e, claro, as epopeias dos romeus e suas julietas.

Hoje, mais de 30 anos depois, volta e meia a memória e a saudade me assaltam ao ver essas velhas fotos na parede. Lembro então de pessoas e momentos que não deveríamos esquecer. Lembro de uma grande turma de amigos que não queriam saber de balada ou de conhecer, rapidamente e sem profundidade, outras pessoas. Queríamos era viajar juntos, pra esse verdadeiro templo de uma adolescência que não existe mais, esse nome tão simples quanto mítico, a Fazenda.

Tomara que nossos filhos (sim, ainda vou ter) tenham a chance de experimentar um pouquinho dessa dádiva que é viajar com a turma da escola. Essa mágica que é fazer de nossos colegas, amigos. Amigos do peito. Amigos que queriam e estavam sempre juntos, na cidade. Ou nessa aconchegante, bela e simples casa da Fazenda que não existe mais. Sim, só há pouco descobri que o refúgio de nossos anos dourados foi consumido pelo fogo. Talvez ela se foi por nunca mais ter sido reduto de amigos e amigas que se queriam tanto, como nós nos queríamos.

Pena que além da cinzas daquele lugar, foram também embora as nossas velhas amizades.

Mas, se a vida separa e afasta, ela jamais vai nos tirar as lembranças – verdadeiros presentes e sementes que nos formariam nos anos seguintes – da Fazenda.

Tomara que cada um em seu cantinho, nova família (sim, éramos uma família) e vida ainda, de vez em quando, se lembre disso.

Que saudade, meus velhos amigos. Procurem então um dos nossos hinos daqueles anos loucos e escutem mais uma vez “Tãn nãn nãn nãn nãn!!! … Aiiiiiiiiiiiii, Aiiiiiiiiiiii, Iron Man!!!”

Não deixem o JT morrer

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Se eu pudesse sintetizar toda a minha vida, entre ideais, paixões, sonhos e pequenas realizações em uma única foto, esta seria a imagem. Uma imagem, captada pelo fotógrafo Reginaldo Manente, ligada a um fato. Um fato que só poderia ter sido descrito dessa forma – e foi – pelo jornal mais ousado e belo que conheci, o Jornal da Tarde. Ou simplesmente JT para os íntimos. Somente o JT soube expressar toda a dor genuína, profunda, dos brasileiros naquele 5 de julho de 1982 quando a mais bela seleção brasileira de futebol da história perdeu da Itália em uma partida tão maravilhosa quanto cruel. Estava ali nesse menino chorando também as lágrimas e, mais do que isso, o desamparo do sonho desfeito, dos meninos que eu era e dos homens feitos que também choraram feito meninos. Sonho desfeito, sim, porque eram tempos em que os brasileiros amavam de verdade seus ídolos e craques da bola. Porque seus heróis de camisa amarela e muito talento no pé – Leandro, Junior, Falcão, Sócrates, Cerezzo, Zico, Éder e cia eram também grandes seres humanos, quase todos eles dotados de um bom caráter inspirador e pensamentos articulados, inteligentes. E esses heróis ainda eram guiados por um mestre, Telê Santana.
O caso é que o JT parece que vai deixar de existir segundo boatos que vazam cada vez com mais força de dentro do Grupo Estado, que dirige o jornal.
Como pode desaparecer um jornal que foi uma ideia e um compromisso, lá nos anos 60 quando nasceu, com um jornalismo tão inteligente quanto bem escrito e combativo? Como pode desaparecer um jornal que foi o companheiro de quem sonhava com um Brasil melhor mostrando o melhor de nosso país? Como pode morrer um jornal que, diferente de tantos outros que baseiam suas páginas no pior do brasileiro, mostrou sempre o valor de nossa gente (e isso sem deixar de atacar e descobrir muitas de nossas mazelas?) Como pode ir embora o jornal que, mesmo sem ser um circo de horrores, foi o primeiro a perceber as mentiras e falta de caráter de um certo Paulo Maluf, estampado naquela histórica sequência de capas com o nariz crescendo a cada dia por conta das mentiras que dizia sobre a Paulipetro, companhia petrolífera que torrou bilhões perfurando o solo paulista sem achar uma única gota de petróleo? Como pode morrer um bastião de cultura que nos ensinava tanto com aquele fantástico suplemento de cultura, o Sábado?
Sim, o JT mudou muito ao longo das décadas, em especial a partir do final do século XX, quando tentaram transformá-lo num jornal mais popular e quase que exclusivamente paulistano. O suplemento de cultura, por exemplo, foi assassinado. Mas o JT sempre teve uma essência tão boa, tão rara, que mesmo essa tentativa dos donos de torna-lo popular e rasteiro não vingou, porque seus jornalistas, mesmos os mais novos, eram e são amantes do bom texto, da história valiosa, das analogias ricas, do jornalismo que não é o mero jornalismo noticioso da maioria dos outros jornais. Não, Ivy Faria, Felipe Machado, Julio Maria, Gilberto Amendola, Alessandro Lucchetti, Luiz Antonio Prosperi, entre outros inúmeros nomes, que passaram recentemente por lá ou ainda estão no jornal, nunca deixaram a bola e a qualidade cair. E olha que nem falei dos gênios e grandes homens e mulheres que brilharam no JT mais antigo.
O desejo dos donos do Estadão de fechar o JT será uma enorme mostra de incompetência da direção do grupo. Em um país com tantos jovens, por que não ampliam o espírito sempre jovem, belo e combativo do JT? E não confundam juventude com superficialidade e inexperiência, pois os jornalistas do JT, mesmo quando jovens, sempre souberam destacar , por exemplo, nas famosas entrevistas das 2as feiras, as personalidades mais importantes do país. Nesta última segunda, por exemplo, estava lá uma certa Fernanda Montenegro…
O Grupo Estado deveria é recuperar a essência do JT, voltar a valorizar mais a cultura, mergulhar mais fundo na cidade (não só São Paulo), valorizar mais o bom texto, mais trabalhado como na grande reportagem e nos belos “abres” das entrevistas (lead é coisa de medíocres, os bons jornalistas do JT fizeram sempre é grandes aberturas!). “Ah, os computadores, tablets e aplicativos de celular fazem o pessoal ler menos no papel”? Ora, por que os chefões do Estadão não investiram então no site do JT? Por que sempre deixaram o site do jornal abandonado, feio, incompleto e quase nada interativo e multimídia? Por que sempre só deram atenção ao cada vez mais chato e conservador Estadão?
Porque eles sempre quiseram matar o JT. Porque os mandatários do Estadão de hoje parecem não ter coragem nem criatividade nem ideais para recuperar o JT do passado.
Esta será uma das perdas irreparáveis para muitos brasileiros.
De mim e muitos hoje quarentões e cinquentões, vocês vão tirar parte da infância, parte enorme dos sonhos de futebol, esporte, cidadania e cultura que o JT nos ensinou. Parte de nossa indignação com políticos corruptos como Maluf que seguem soltos.
O JT, tanto quanto um inesquecível professor de escola, o Chico Moura, me ensinou a escrever. Mais que isso, me ensinou a pensar e também a prezar as belas e profundas palavras. Ajudou demais na minha formação. Ajudou a me formar como sonhador, lutador, cidadão, professor, jornalista e escritor.
Estão matando não um jornal, mas um ideal e uma escola de vida e brasilidade.
Que os grandes jornalistas e, mais que isso, grandes espíritos, cabeças e corações que escreveram e escrevem no JT consigam deter esse processo. Ou recriem, em outro lugar, com outro nome mas com a mesma essência, um dos mais importantes jornais que esse país já teve.
Que outro jornal brasileiro conseguiu traduzir em uma única capa uma vida toda como a capa do menino chorando em 1982? O quê da vida foi revelada naquela capa? A capacidade de sonhar, se apaixonar, amar, vibrar, celebrar, sofrer e perder com a fantástica seleção de 82. Aquela era uma época rara em que nossos jogadores representavam o melhor dos brasileiros naquele jeito de jogar que era uma música tão alegre quanto bela e contagiante; e naquele jeito de ser, pensar e falar profundo de quando um Sócrates, Zico ou Telê abria a boca. E essa capa também foi profética, porque a dor do menino, a dor de todos nós que vivemos aquela partida, prenunciava a tristeza e falta de alegria que as seleções do futuro nos trariam.
Tomara que em algum canto desse Brasil que tem hoje tantas pessoas notáveis e inspiradoras como os nosso craques da bola e da vida de 82, algum grande grupo de jornalistas, cidadãos e empresários que não pensem somente em lucros imediatos tenham a coragem de reinventar o JT. “Ah, mas o JT só cair em circulação, cada vez mais vende menos”, devem dizer os frios empresários que comandam o Grupo Estado. Mas claro, vocês desprezaram o JT por décadas, a culpa é de vocês, que foram obrigando o jornal a minguar e se esvaziar. Por que, por exemplo, não deram ao JT o mesmo cuidado e tempo que deram a essa brilhante rádio Estadão ESPN ou a rádio Eldorado, ambas do mesmo grupo de vocês? Por que não viabilizaram e pensaram em parcerias para o JT? Por que não modernizaram de fato, em vez de apenas enxugar, o jornal?
Porque vocês não tiveram cuidado com o jornal que foi a minha vida, e de tantos outros paulistanos e brasileiros. E, sim, aqui admito que o jornal sempre teve uma essência paulistana, mas até aqui a incompetência e desleixo de vocês é grave: como é que pode a cidade mais rica do país perder o seu jornal-símbolo? E não me venham falar que ficará o Estadão, pois o jornalão para mim é muito mais um órgão voltado a Brasília que para São Paulo. E isso, vocês podem ter certeza: quem assina o JT não assinará o Estadão. Sei que muitos jornalistas navegam entre os dois jornais (na verdade, me parece que o Estadão roubava os melhores nomes do JT), mas será fácil continuar lendo esses: irei numa padaria e procurarei a única parte do Estadão que tem um pouco, na verdade, um pouquinho só do espírito do JT: o Caderno 2. Em especial, da edição de sábado. Mas só queria saber onde é que vocês vão enfiar o brilhante pessoal do caderno de esportes, este sim o pedaço que ainda mantém a alma do JT dos anos 60.
Façam alguma coisa, leitores e jornalistas do JT, não deixem o nosso jornal (mais que isso)  morrer.

Os primeiros anos do resto de nossas vidas

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Uma das canções da vida. Ou melhor, que nos faz lembrar de pedaços essenciais mas soterrados, até interrompidos, dela. Música-tema de St. Elmo´s Fire (O Primeiro anos do resto de nossas vidas, com Demi Moore ainda menina e cia juvenil estrelada). Os instrumentos iniciais (violino?) são um passaporte para o passado. O tecladinho soa como velhas fotografias de rostos e corações que não devíamos ter esquecido, jamais. A bateriazinha de leve nos lembra de abraços, sorrisos, do jeito iluminado com que olhávamos os amigos e vice versa.
Por que a vida nos separou? “Ah, o tempo, os caminhos, as famílias…” que cada um criou ou ainda tenta criar. Ou a dureza dos que mudam demais e esquecem de como eram melhores, mais humanos, quando garotos e meninas.
A profundidade do piano e a o sax expandem a canção e nos levam de volta às fotografias de momentos inesquecíveis, da pureza de amigos e amigas que um dia foram nossos irmãos de sonhos, viajando juntos nos sonhos fundamentais dos 15 anos: as musas impossíveis, os pequenos grandes feitos, as pequenas  partidas de colégio que transformávamos em finais de Copa do Mundo (quem não lembra de uma grande vitória na quadra da escola onde um dia você sonhou, viveu, sorriu e sofreu, esquece algumas das maiores emoções da vida). As viagens com a turma, as festinhas, as piscinas, o mar, o lago, as águas que corriam mais puras e inocentes. As águas que corriam intensas e emocionantes como o sangue da juventude de atitude.
Volta o tecladinho, a dedilhar com suavidade o menino ou menina quem um dia fomos, jovens em tempos mais reais, onde festas era marcadas de boca em boca, em que conversas eram anunciadas com um toque na campainha de nossas casas ou um grito nos chamando.
Eram tempos em que o amigo, em vez de mandar mensagens via computador ou celular, surgia do nada (do tudo, de seus corações) batendo em nossa porta, sem avisar mas sendo bem recebido.
Eram tempos de papos intermináveis à beira da calçada de frente para ruas tranquilas, livres de tantos carros ou da gente nervosa, apressada e mal educada de hoje. Eram rolês de bike sem capacetes, com as orelhas mais livres para escutar o mundo imenso que sentíamos e imaginávamos quando moleques, e sem roupinhas especiais. Pedalávamos com a mesma roupa com que jogávamos bola ou taco na rua. Pedalávamos por ruas e tempos menos consumistas e neuróticos, mais calmos e humanos.
Eram tempos de ligações mais simples e profundas. Não lembro de falar ou ouvir a palavra “conexão” quando garoto, mas tenho certeza que os amigos eram muito mais conectados na era dos gritos na porta de casa e nos rolês a pé ou de bicicleta em pleno fim de semana (é, acho que tínhamos muito menos lições de casa no passado, talvez os professores e as direções de escolas soubessem ensinar o essencial em vez do massacre conteudista cada vez maior de hoje).
Tínhamos tempo livre de verdade. Éramos mais livres para sonhar e viver. Vivíamos na rua. E não me venham falar de que hoje há muita violência, mais carros etc. Sim, é verdade, mas ainda existem muitas ruas, praças e parques onde se pode crescer e viver sem medo. Pena que a paranoia dos pais ou o excesso de atividades em que enfiem seus filhos acabe com a adolescência hoje.
A adolescência e juventude que parece ter ficado no passado, como no maravilhoso filme St. Elmo´s Fire, em que os amigos, sonhavam, ajudavam-se e, sobretudo, ficavam juntos.
Eram outros tempos.
Eram outros humanos.
Mas graças que alguns resistentes ainda lembram de filmes e canções como essa, como a velha amiga dos anos incríveis que postou essa canção hoje cedo no Facebook.
E graças que ainda existem, nos corações de quem sabe encontrar a companhia e amor certo, romances como o desse filme que marcou os românticos dos anos 80.
Graças que, mesmo se a mágica dos 15 anos não volta, ainda é possível cultivar uma pessoa como cultivávamos os jardins incomparáveis dos amigos dos 15 anos.
Se os amigos desapareceram na cinza poeira do tempo, ou no poço sem fundo (sem volta?) dos que mudaram por questões de grana e status, cuide de sua parceira ou do seu companheiro com o mesmo cuidado, alegria e entusiasmo com que regavam os moleques e meninas dos anos mais mágicos da sua vida.
Quem sabe, fazendo isso, e exercendo a arte esquecida do romance no amor, você não lembrará do amor tão belo quanto: o amor que se irradiava dos amigos e amigas do peito que não apenas se curtiam, mas celebravam a vida juntos.
Texto dedicado aos que se sentem bem demais quando a esposa ou namorada encosta a cabeça nos nossos ombros no cinema vendo um filme que celebra o amor ou a parcela diminuta, mas combativa, da humanidade que ainda luta por um mundo melhor.
PS – Quem vai agitar uma festinha pelos bons tempos??? Ou quem é que vai começar a bater um fio, telefonar para os velhos amigos, em vez da frieza e fugacidade dos posts virtuais?
Nunca é tarde para resgatar a pessoa sensacional que você um dia foi.

Anjo

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    Babalu e Sansão, inseparáveis 
Já nasceu enorme e ainda agarrou as tetas de sua mãe, a louca e elétrica Babalu, com uma fome de Obelix querendo beber no caldeirão mágico. Nenhum outro cachorro que tivemos ganhou um nome tão rápido e óbvio: Sansão. E ele honrou o nome, cresceu e se tornou o maior cachorro que já tivemos.
Seu tamanho, porém, contrastou com o temperamento mais calmo e dócil de todos que fizeram a nossa história. Sinônimo transparente do que é ser bonzinho.
Atropelado quando ainda filhote, não permitiram que ele partisse tão cedo.
Ganhou uma segunda chance.
Ou foi embora e alguém lá de cima, comovido com tamanha injustiça, o mandou de volta.
Sim, talvez não fosse um cachorro e sim um anjo.
O anjo atrás da porta da cozinha. Porta que, se aberta, libertava dos mais duros problemas do dia-a-dia e da vida sua família sofrida.
Bastava abrir a porta e lá estava ele e sua imensa cabeça e olhar meigo esperando um carinho.
Nunca vi um cachorro gostar tanto de carinho como ele. Tampouco ficar paradinho, recebendo com tranquilidade angelical os afagos enquanto dava seu obrigado em forma de gemidos de alegria.
O anjo também meio malucão quando invadia a casa, fazendo a alegria também dos visitantes, como fez na Copa de 2002 em que nos ajudou com sua correria alegre a trazer o hexa. Todo jogo do Brasil de Felipão, Rivaldo, Ronaldo e Marcão, quando a coisa apertava tinha alguém pedindo, “solta o Sansão!”
O anjo que foi, por 10 anos e meio, o equilíbrio daquela casa, pois era impossível não melhorar o astral só de vê-lo, nosso imenso bicho de pelúcia vivo.
Nosso amigo.
Nosso melhor amigo e sua imensa cabeça a procurar as nossas mãos, como se fossem mãos nos fazendo carinho.
Mãos que eram também suas patas, que nos dava enquanto ficava sentadinho, elegante, bondoso.
Amoroso no sentido máximo, de amor mesmo que nos dava sempre.
Era tão bonito e forte que não percebemos que envelhecia, nessa que é a grande injustiça cometida pelo Criador com os cachorros. Envelhecem e parecem os mesmos. Por isso jamais nos preparamos para sua velhice.
Por isso não percebíamos que sua dificuldade, nos últimos tempos, para se sentar e depois levantar, podia ser algo grave.
Cachorros não deveriam viver tão pouco, em geral uma década.
Deveriam ser eternos.
São.
No coração de quem os amou, Sansão será sempre o ombro amigo e paz necessária que devíamos ter sempre. Como seria bom bastasse olhar pra cima e recebêssemos de novo sua benção, seu conforto, sua serenidade de bebê crescido puro, inocente, pacífico que nunca fez mal a ninguém.
Que nunca brigou com ninguém.
Que nunca desrespeitou a mãe, que ficou junto dele a maior parte de sua vida, mais de 8 anos.
Incrível como, quando abríamos a porta, era sempre ela primeiro a aparecer, a querer entrar, enquanto ele ficava paradão, na boa, respeitoso, só olhando, sabendo que mãe é mãe, que ela vem sempre em primeiro lugar.
Incrível como nunca avançou em uma migalha de comida dela.
Incrível como nunca, mas nunca mesmo, brigou com sua mãe.
Incrível como cuidou dela até o fim, e mesmo quando sua mãe estava indo embora, cada vez mais magra, tinha muito cuidado para não machucá-la com sua força.
Incrível como a limpava lambendo mesmo ela já velhinha e frágil. Ela, a mãe que ele amou como todo filho grato ama sua mãe, com todo o carinho e amor do mundo.
Esta é uma das poucas coisas que atenua um pouco a nossa dor: poucos cachorros tiveram uma vida tão bonita como ele, vivendo protegido e amado pela mãe (ela também nunca levantou a voz ou o latido pra ele) por tantos anos, e sabendo retribuir com tanta beleza todo o calor que Babalu lhe deu.
Mas um dia tudo acabou. Um dia o rei de nosso cães não se levantou mais. Foi internado dias e depois operado, mas poucos dias depois não resistiu.
É duro demais resistir sem ele.
Acho que só resistimos porque ainda existe sua irmã, que não se dava bem com a mãe, e por isso viveu a vida toda longe do irmão. Mas Capitu, mesmo danada e meio maluca como a mãe, também é carinhosa, também geme falando como o irmão. Também tem o coração bonito dessa família e geração maravilhosa de dálmatas que começou com a avó, a inesquecível Duda, que até estrelou meu primeiro livro (Mundaka).
Também tem o amor, que não conseguimos medir, dessa geração de dálmatas que esteve junto de nós por mais de duas décadas.
Uma geração de dálmatas que só existiu porque um dia eu amei demais uma menina e nós dois, cada um com seu dálmata, criamos tudo isso, mas essa é outra história…
Capitu é a última.
Que resista mais, por favor. Porque anjos são maravilhosos mas não conseguem nos dar seu calor.
Mas pelo menos nos deram sua história e suas lições de afeto.
Com Sansão, além de todo o amor e fidelidade, aprendi que é preciso ter calma e ser bom, sempre.
Paz e bondade. O que mais um ser humano, num mundo como esse, precisa aprender?
Obrigado, meu amigo, você foi tão belo e digno que será eterno e um dia passarei para a filha que eu tiver tudo o que me ensinou.

                     Duda (deitada), Babalu e minha mãe