Máquinas de Detenção

Padrão

São atos simples, mas que vamos abandonando pelo conforto e/ou sedução das máquinas e novas tecnologias virtuais. O clique se deu apenas quando deixei o carro na garagem para o break cotidiano que faço nos períodos de trabalho em que apenas escrevo. Caminhar até o mercado, em vez de guiar até ele, muito mais que a liberdade para os olhos, liberta a mente para pensar e refletir. E nem preciso citar o ganho na saúde, né? Ah, “mas isso é tão óbvio”… Sim, só que o conforto, velocidade e praticidade do carro nos emburrece e cega para a riqueza de uma simples e cada vez mais rara caminhada no meio da jornada de trabalho. Tente andar em vez de guiar até o almoço ou lanche da tarde e perceberá a diferença.
Poucas coisas nos devolvem com tanta energia a vida real, mais prazerosa, bela e até produtiva, como a caminhada. Até podemos ver as pessoas, olhá-las e escutá-las. Até podemos ver cachorros e fazer um afago neles.
Caminhar nos torna mais produtivos? Experimente e ficará surpreso com o tanto de ideias e até soluções que encontra ao ter a mente livre de uma direção e outros motoristas.
A máquina vai matando o homem sem ele perceber.
A máquina e as telas. Ou preciso dizer quantas horas perdemos em cliques inúteis atrás de uma telinha de computador? Quanto tempo realmente você aprende algo ou se comunica de verdade na internet? Receber um “curti” no Facebook não é comunicação, é preguiça de quem clicou e não teve a vontade ou esforço de escrever um simples, porém mais humano, comentário. Sim, não lembro de um único “curti” que apertei na rede, pois preferi estabelecer um contato maior, o que só as palavras podem fazer. Preferi fazer um afago.
E o que dizer então das pessoas que só escrevem na nossa rede pra mostrar que elas têm uma opinião “mais correta” que a nossa? E os chatos de plantão, que só escrevem para nos alfinetar e são incapazes de dizer algo legal?
Claro que a internet ensina demais se sabemos onde entrar, mas o saber onde entrar é uma exceção. A maioria entra nos grandes portais, lê algumas manchetes, clica em uma ou duas noticias, e só. O resto é MSN, redes sociais ou jogos on line. E assim vai pro saco, quando se é criança e adolescente, a visita aos amigos e o futebolzinho nas praças. E assim desaparece, nos trabalhadores, os simples mas humanos telefonemas, além da disposição para ler um jornal e um livro.
Assim as máquinas e as telas vão nos tirando vida real e a arte do encontro. E elas, “tão eficazes”, segundo seus escravos, acabam minando nossa própria eficácia. Como? Tente criar o hábito de produzir algo no computador antes de checar seus emails ou mensagens no Facebook e Orkut. Acabo de fazer isso: ainda não acessei a net e já consegui escrever a sempre difícil introdução de minha coluna na revista e também essa divagação para o meu blog pessoal, que ando atualizando muito raramente.
Tomara que eu consiga criar esse hábito, para escrever e render muito mais.
Você não consegue? Em vez de deixar as redes sociais ou emails apitando, deixe num site de música (como o shuffler.fm ou o hypem.com, ou mesmo a sua rádio on line) que poderá ficar muito mais inspirado a trabalhar sem essa louca ansiedade de ver quem escreveu pra gente.
Cuidado com os ladrões de tempo, trabalho e vida.

Anúncios

De novo

Padrão


Incrível a capacidade da Veja de apelar para vender suas revistas. Mais incrível, porém, é descobrir que o comprador do mundo cão e mórbido desta publicação não percebe que é manipulado. Não percebe que as capas chocantes da Veja são pura exploração de tragédias, e não jornalismo. Bom, pelo menos não um jornalismo digno, porque a revista faz é sensacionalismo barato. A constatação do jogo sujo vem da capa seguinte à condenação dos assassinos da menina Isabella. Depois de descer ao fundo mais podre da apelação, ao mostrar, por exemplo, um bebê ferido e morto nos braços da mãe, no atentado de Beslan, Rússia, em 2004, a Veja “se supera” na capa recente de Isabella. Desta vez não mostrou um cadáver mas, pior ainda talvez, mostrou a imagem da menina quando em seu esplendor (apelando para a beleza desta foto, de uma criança feliz e linda) junto da legenda melodramática “Agora Isabella pode descansar em paz”.
Quanta sujeira, meu Deus!, a Veja praticamente mandou uma mensagem para uma menina morta!!! Se eu fosse sua mãe, exigiria uma grana preta da revista por faturar em cima dessa fotografia, pois quanto não faturou a edição com isso? Todavia, a mãe da vítima foi outra que me pareceu ter naufragado não só em sua tragédia pessoal mas na sede de espetáculo de uma mídia como a Veja.
Aposto que esta edição vendeu feito água porque os consumidores de tragédias aumentam cada dia, estimulados por esse tipo de mídia mercantilista, que não tem nada a ver com o bom e digno jornalismo.
O pior é que poucos percebem a manipulação. Meus alunos, por exemplo, num exercício para julgarem a capa da Veja da menina morta da Rússia, defenderam a imagem alegando que a revista reportava bem a face chocante da história, dos bebês e crianças mortas. Apenas uma aluna condenou a capa, não por compreender a estratégia vil do estilo açougueiro da revista, mas por se sentir mal ao ver foto tão chocante.
Difícil viver num mundo assim, em que a mídia controla cada vez mais o (não)pensamento não só das massas incultas, mas das maiorias de qualquer classe social com um jornalismo (?) sangrento cada vez maior nas revistas, jornais, TVs e internet.
Pelo menos a gente tenta fazer a molecada pensar, refletir e perceber que esse mundo não é só isso.

PS – Semana passada morreu, de uma doença, o menino músico do afroreggae, aquele que chorou tocando no enterro do líder assassinado dessa ONG. Por que será que isso foi tão pouco mostrado? Por que será que nenhuma revista mergulha no caso do líder morto?