Quem nos tira das cordas

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Amor é saber que depois do ringue cotidiano, alguém vai colocar ataduras em nossas feridas de tantas pancadas tomadas. E vai elogiar nosso único soco bem dado. O único golpe que encaixamos e ela percebeu, valorizou. E ela nos fará acreditar que este golpe é bom demais, que basta treiná-lo muito, e adicionar alguns outros, que vamos nos levantar.
Quem nos ama nos impele a lutar, mesmo todo estourado e só querendo um bom colchão-maca para deitar e esquecer.
Quem ama de verdade é igual ao treinador no canto do ringue que não deixa seu lutador desistir, e o ajuda-cuida-orienta a como sair daquele massacre.
O amor não pode, porém, estar presente na maioria de nossos combates do dia-a-dia. Mas lembrar de seu rosto e o quanto acredita na gente é a prece e força que precisamos para sair das cordas.
Não importa quantos nocautes sofremos. Importa é lembrar dela, levantar e contra-atacar feito um Rocky Balboa possuído que mesmo quase não enxergando ou ouvindo mais, ainda vê imagens embaçadas dela e escuta, como um fósforo riscado na escuridão silenciosa, a voz dela.
O amor dela. O nosso amor. A nossa família. A nossa vida, que será sempre, mais forte que qualquer adversário, mesmo esse peso pesado cruel e poderoso chamado sobrevivência.
Obrigado por me dar forças e por acreditar.
Bora encarar essa dor física e espaço profissional reduzido e lutar sem jamais desistir. Uma hora o jogo vira.
Eye of the tiger na mente e suor. POW!!!!!

Paciência

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Conectar é a palavra-chave. Deveria ser a palavra-sentimento mais importante desse mundo. Outro dia fui buscar minha jaqueta preferida na lavanderia com nome francês. Depois de ser atendido com muito mau humor, quando deixei a peça de coração*, desta vez, a recepção foi bem diferente. Recebeu-me um sorriso aberto, franco, daquelas raras pessoas que riem de dentro, com o coração. Na hora de pagar, percebi. A moça não perguntava, ela apontava as opções na maquininha e fazia gestos. Era surda-muda. Algo me distraiu e de repente ela sumiu, para buscar algo de outro cliente. Esperei, queria me despedir e agradecer atendimento tão belo e simpático. Ela demorava, caminhei até a porta (a pressa cotidiana, falta de paciência, pragas modernas) e de repente ela surgiu. Acenei dando tchau e ela devolveu o tchau mais efusivo que já vi, usando cada músculo das mãos com vigor e, claro, exibindo aquele espetáculo de sorriso de novo. Esses instantes me fizeram esquecer o dia duro, desarmar a cara fechada e ganhar um novo ânimo, essa palavrinha que simplesmente é igual à palavra em latim para alma: anima.
O mesmo ânimo ganha esse senhor que recebia parcas moedinhas na calçada até que uma mulher espirituosa e boa resolveu mudar as palavras que ele tinha escrito no papelão velho.
“Mude suas palavras. Mude o seu mundo”, é a mensagem do vídeo. Mude o seu olhar, ou melhor, use seus olhos, de verdade. Olhe querendo ver. E depois dos seus olhos se cruzarem e se conectarem, embarque nesse trem, experimente a maravilha de viajarem juntos.
O problema é que muitas vezes falta ânimo, disposição e coragem, falta essa vontade de alma.
Muito mais fácil é passar pelo velhinho e apenas jogar uma moedinha.
Muito mais fácil é não interagir com as pessoas.
Muito mais fácil é não se envolver.
Como bem escreveu o ex-roqueiro e hoje jornalista Felipe Machado, antigo colega de Cásper Líbero, em sua coluna no Jornal da Tarde,
“Ninguém tem mais paciência para nada, ninguém tem tempo para perder com nada: nem com o que é importante”.
Felipe falava de outra coisa, de novos relacionamentos, mas não estará tudo conectado? Será que não vale também para relações antigas, como amizades que não são resgatadas? Velhas ou novas ele cavoca fundo, “não há tempo para uma segunda chance. Como é que uma relação vai nascer se não dermos espaço para isso acontecer?… Deixa-se de amar por nada. Mata-se por nada. Vive-se para nada. Por que tanta ansiedade? Quem disse que o que virá depois é melhor do que o que está aqui? O importante é aproveitar o momento. Afinal, entre o ‘antes’ e o ‘depois’, a única coisa verdadeiramente real é o ‘agora’.”

Muitos vivem repetindo o clichê de que o agora é o mais importante mas não agarram o agora. Falta ânimo.
Música então, moçada, escutem Paciência, do Lenine, e coloquem um pouco mais de alma. Façam hora, façam horas e dias junto de quem pode ser muito importante.
A vida não para, eu sei, mas a vida é tão rara.
Paremos ela então. Dê um tempo, dê uma nova chance.
Paciência, grande ciência das relações, boa e cuidadosa mãe de amizades e amores construídos aos poucos. Só ela permite a verdadeira conexão.

* Minha jaqueta preferida é do grande San Lorenzo de Almagro, time de futebol argentino, de Buenos Aires, famoso pelo futebol bonito, bem jogado, bem tramado, bem amado.

Máquinas de Detenção

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São atos simples, mas que vamos abandonando pelo conforto e/ou sedução das máquinas e novas tecnologias virtuais. O clique se deu apenas quando deixei o carro na garagem para o break cotidiano que faço nos períodos de trabalho em que apenas escrevo. Caminhar até o mercado, em vez de guiar até ele, muito mais que a liberdade para os olhos, liberta a mente para pensar e refletir. E nem preciso citar o ganho na saúde, né? Ah, “mas isso é tão óbvio”… Sim, só que o conforto, velocidade e praticidade do carro nos emburrece e cega para a riqueza de uma simples e cada vez mais rara caminhada no meio da jornada de trabalho. Tente andar em vez de guiar até o almoço ou lanche da tarde e perceberá a diferença.
Poucas coisas nos devolvem com tanta energia a vida real, mais prazerosa, bela e até produtiva, como a caminhada. Até podemos ver as pessoas, olhá-las e escutá-las. Até podemos ver cachorros e fazer um afago neles.
Caminhar nos torna mais produtivos? Experimente e ficará surpreso com o tanto de ideias e até soluções que encontra ao ter a mente livre de uma direção e outros motoristas.
A máquina vai matando o homem sem ele perceber.
A máquina e as telas. Ou preciso dizer quantas horas perdemos em cliques inúteis atrás de uma telinha de computador? Quanto tempo realmente você aprende algo ou se comunica de verdade na internet? Receber um “curti” no Facebook não é comunicação, é preguiça de quem clicou e não teve a vontade ou esforço de escrever um simples, porém mais humano, comentário. Sim, não lembro de um único “curti” que apertei na rede, pois preferi estabelecer um contato maior, o que só as palavras podem fazer. Preferi fazer um afago.
E o que dizer então das pessoas que só escrevem na nossa rede pra mostrar que elas têm uma opinião “mais correta” que a nossa? E os chatos de plantão, que só escrevem para nos alfinetar e são incapazes de dizer algo legal?
Claro que a internet ensina demais se sabemos onde entrar, mas o saber onde entrar é uma exceção. A maioria entra nos grandes portais, lê algumas manchetes, clica em uma ou duas noticias, e só. O resto é MSN, redes sociais ou jogos on line. E assim vai pro saco, quando se é criança e adolescente, a visita aos amigos e o futebolzinho nas praças. E assim desaparece, nos trabalhadores, os simples mas humanos telefonemas, além da disposição para ler um jornal e um livro.
Assim as máquinas e as telas vão nos tirando vida real e a arte do encontro. E elas, “tão eficazes”, segundo seus escravos, acabam minando nossa própria eficácia. Como? Tente criar o hábito de produzir algo no computador antes de checar seus emails ou mensagens no Facebook e Orkut. Acabo de fazer isso: ainda não acessei a net e já consegui escrever a sempre difícil introdução de minha coluna na revista e também essa divagação para o meu blog pessoal, que ando atualizando muito raramente.
Tomara que eu consiga criar esse hábito, para escrever e render muito mais.
Você não consegue? Em vez de deixar as redes sociais ou emails apitando, deixe num site de música (como o shuffler.fm ou o hypem.com, ou mesmo a sua rádio on line) que poderá ficar muito mais inspirado a trabalhar sem essa louca ansiedade de ver quem escreveu pra gente.
Cuidado com os ladrões de tempo, trabalho e vida.

Vida Real, O Encontro I

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(Essa foi a mais bela foto, de pessoas que conheci, que simboliza bem o que é compartilhar)

Por que ir nesse encontro pensado por meu desejo de encontrar pessoas especiais reais, e não meros retratos e suas palavras despejadas numa telinha?
Porque o mundo virtual está se apoderando de algumas palavras que fazem muito mais sentido só quando elas existem de carne e osso (in flesh and blood, como diriam os gringos do passado, aqueles dos westerns e não esses criadores lunáticos obsessivos de novos sites e tecnologias). Uma dessas palavras chama-se compartilhar. Talvez seja a palavra-chave.

Uma coisa é compartilhar links na internet e passar para os “amigos” (meros contatos e conhecidos, talvez). Outra, bem diferente, é compartilhar momentos.

Momentos só existem quando uma pessoa está diante da outra.
Momentos só existem quando vemos um sorriso e gostamos dele.
Momentos só serão lembrados intensamente depois como inesquecíveis se vemos com nossos olhos, se escutamos a voz humana falada diretamente, se presenciamos um gesto ou fato na hora em que ele ocorre, ao vivo.
Ninguém compartilha nada profundamente enquanto está com a bunda sentada numa cadeira em frente a uma telinha longe do sol, do frio, da chuva e do vento. Longe das outras pessoas. Longe das mãos que apertam outras mãos. Longe dos dois braços que se abrem como um coração para envolver outra pessoa. Longe desta incomparável experiência que é ver a outra pessoa e falar com ela pessoalmente.
Longe de um gesto tão banal mas tão simbólico e poderoso como erguer um copo para esse fantástico ritual chamado brinde.

Ninguém brinda com um amigo por trás de uma telinha.

Por isso, meus amigos (as), meus irmãos (ãs) e amores, espero vocês nesta sexta-feira para erguermos um brinde à vida real e à nossa camaradagem real.
Hoje cedo surfei belas e longas ondas e como sempre elas lavaram minha alma, mas não completamente. Chegou uma hora em que, mesmo com o mar em boas condições, resolvi sair. Surfar sozinho tem prazo. Porque falta alguém ao lado.
Por isso peguei minha derradeira onda da session, fiz o sinal da cruz e fui embora.
Hoje cedo só lavei a alma completamente quando, antes de subir a serra, parei no canal 2 para apertar a mão de um amigo, de um filho, de um irmão. Meu ex-aluno, hoje professor de surf.
E lembrar que anos atrás a primeira vez em que ele surfou na vida foi com uma prancha minha.
– E aí, meu irmão?
– E aí, mestre?
– Só dei uma parada aqui, já tô indo embora…

O papo é breve, preciso voltar a Sampa para trabalhar mas então ele fala aquelas 3 palavrinhas mágicas;
– Pô, faz um cinco aí.

Faz um cinco, moçada. Mesmo quem já tiver um compromisso, dá uma passadinha lá no Seu Justino nessa noite de 15 de outubro. Façam uns cinco minutinhos.
Compartilhar, moçada, é tudo.
Ergo então um brinde a você que se importou e leu esse texto.
Obrigado.

O melhor e o pior do Brasil

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Não admiro quem apenas critica seu país e não faz nada para melhorá-lo. Piores são os que debocham do Brasil, valorizam tudo o que é estrangeiro e menosprezam o que é nosso. Acho corajosos os que vão embora tentar a vida, por oportunidades de carreira, em outro país. Só que mais bravos ainda são os que ficam e tentam a grandiosa tarefa de trabalhar por esse país e sua gente. O país e sua cidade estão cheios de problemas? Essa gente valente não quer saber. Quer é valorizar o que há de bom. Quer é semear esperança. Quer é arregaçar as mangas e fazer alguma coisa que não seja apenas para si mesmo. Quer é ficar e lutar.
Antes de me acusarem de pequeno, nesse mundo em que muitos atacam antes de esperar o raciocínio completo, afirmo que poucas coisas me ensinaram mais que viajar. Só que tudo o que aprendi e conheci de outros povos e culturas quero é utilizar aqui. Tento utilizar aqui. Tento, por exemplo, mostrar o que vi, li, escutei e senti para meus alunos. Muitos escutam. Outros muitos preferem não sair de seus mundinhos em que não cabe nem o seu país.
Pena que muitos achem a luta em casa uma perda de tempo, pois muitos jovens valorizam mais quem consegue uma bela carreira no exterior e ganha uma bolada ao invés de quem permanece no Brasa ganhando menos e sofrendo mais.
Por isso admiro tanto os que vão e voltam. Os que voltam e trazem o que aprenderam lá fora para melhorar sua pátria, seu povo, seu lar. Assim fez Raí, que poderia, após 5 anos de Paris, ter ficado lá mesmo, assumindo um belo cargo no Paris Saint-Germain e dando uma vida segura e farta em cultura e oportunidades para suas filhas. Mas ele preferiu voltar e criar uma Fundação para dar uma chance para os que não têm quase nada. Raí, que trocou Paris por São Paulo, cabe direitinho num poema em prosa de um escritor mexicano, José Emilio Pacheco: “Não entendo suas razões para amar um lugar desesperador e sem esperança. Ou talvez exista a esperança porque você está aqui mais uma vez e enche de luz outra estação sombria.”
É muito fácil meter o pau em nossa selva neurótica, agressiva, estressante e barulhenta. Mais difícil é ajudar a humanizar São Paulo.
Muito mais fácil é meter o pau na escolha do Rio para a próxima Olimpíada e dizer que só vão roubar (como se não fossem seguir roubando sem a Olimpíada).
Mais difícil é pensar em projetos e ações para aproveitar a excepcional oportunidade de nos tornamos uma nação esportiva. Uma nação com mais atletas e, isso é quase inversamente proporcional: menos jovens marginais.
Não sei cantar o hino nacional nem admiro a maioria dos brasileiros famosos de hoje. Mas fico emocionado e feliz a cada cumprimento educado e sorriso que ganho da gente humilde que anda e luta pelas ruas. A cada pobre morador de barraco que guarda um atleta abnegado, como o Jornal Nacional mostrou hoje na bela matéria sobre o menino pernambucano de 14 anos que faz lançamento de martelo, uma prova em que o Brasil não tem nenhuma tradição. Incrível a raça, vontade, paixão e esperança desse menino e seus companheiros que treinam com tênis rasgados que precisam ser preenchidos com papelão para não rasgarem nos seus pés enquanto giram o corpo violentamente para lançar o martelo.
Esse é o Brasil de verdade. Os super-heróis do povo. Pena que sejam considerados gente menor por muitos. “Você gosta de contar essas histórias de gente humilde que sofre, dá duro e chega lá, né?”, me perguntou há pouco tempo um senhor sobre os personagens de meu livro de esportes. Na hora pensei ser um elogio mas logo percebi que ele na verdade desprezava esses que ralaram tanto. Talvez por achar o esporte e o nosso povo coisas pequenas.
Errado. A verdade é que temos um povo enorme, que só precisa é ter oportunidades. Que só precisa do apoio de brasileiros de verdade. De brasileiros que podem conhecer o mundo mas não caem nessa bobagem globalizante e consumista de que somos cidadãos globais. Somos o nosso país. Depois somos mundo. E devíamos ter consciência e orgulho disso.
Quem não tem que vá pra Miami ou não nos atrapalhe com seu derrotismo ou egoísmo.
* Rainha Marta ilustra esse texto por ser uma rara estrela bem-sucedida no exterior que veste com amor e entrega a camisa de seu país e de um clube brasileiro. E ainda luta para suas companheiras de futebol feminino terem mais chances na carreira.

O mestre dos instantes

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Ele caçava as imagens mais difíceis de serem capturadas, as do cotidiano. As fotografias que precisavam ser percebidas e clicadas com a velocidade e serenidade (como é possível aliar coisas tão díspares?) de quem olha e enxerga toda a vida dos pequenos atos e gestos. Pequenos flashes simples do dia-a-dia urbano pacato ou da loucura da guerra. A guerra onde foi vizinho e testemunha, tantas vezes, da morte.
O francês Henri Cartier-Bresson foi o mestre maior dos instantes decisivos. Fotografava como um arqueiro zen a lançar suas flechas precisas e por isso, sua receita da foto perfeita era “colocar na mesma linha de mira a cabeça, o olho e o coração”, como ele mesmo afirmou. O coração que derramava-se de cada simples e mágica imagem que ele perseguia nas ruas de sua Paris e mundo todo. Mundo porque, mais que fotografar, Bresson tinha sede de viver e defender seus ideais. Por isso serviu o exército de seu país na II Guerra Mundial, foi capturado, fugiu e então lutou na Resistência contra os nazistas que ocupavam a França. Por isso, finda a guerra, rodou o planeta fazendo excepcionais trabalhos de fotorreportagem em diversos conflitos. Depois criou, em 1947, junto de outros jovens e geniais colegas, como Robert Capa, a inesquecível agência Magnum, nome mágico, verdadeiro ícone do jornalismo, humanismo, arte e fotografia mundial.
Uma imperdível mostra-restrospectiva de Bresson – com retratos que fez de artistas e intelectuais famosos do passado e as poesias do instante que citei aqui – está sendo realizada no SESC Pinheiros até 20 de novembro.
Oportunidade imperdível para amantes da fotografia e da humanidade. E aprendizes talentosas e sensíveis como minha ex-aluna querida, Rafinha. Ela um dia registrou, numa praia paulista, esse instante poderoso que é a síntese de seu próprio país:

O fim do passeio

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Quantos ainda passeiam de verdade nas grandes cidades, a pé ou de bicicleta, pensando na vida ou conversando com um amigo ou cara metade?
Passear não é ir no shopping, ver lojas ou caminhar ultra-acelerado para manter a forma, o que transforma esse ato em obrigação ou malhação.
Passear não é colocar um headphone nos ouvidos e sair por aí sem prestar atenção ou pensar em nada.
Passear é permitir-se jogar tempo e conversa fora contra a ditadura opressora do time is money. É um ato de rebeldia contra o “tempo é dinheiro” com que seu chefe tira seu sangue e horas extras (ou você, que não respeita o horário de seus funcionários…)
Pena que passear, para muitos escravos ou carrascos do trabalho e lucro a qualquer preço com prazos cada vez mais “pra ontem”, é coisa de vagabundos.
Pena que dar uma volta com alguém importante é ato cada vez mais raro, a não ser nos esporádicos encontros de domingo em algum parque ultra-lotado de São Paulo nesses dias.
Pena que uma das maravilhas propiciadas pelo caminhar tranquilo cidade afora – a dedicação e atenção que damos ao outro – é soterrada pela pressa, trênsito, neurose e competitividade exacerbada. Assim a vida cotidiana não nos deixa ver que “as horas que não se podem dedicar ao passeio ou à amizade são horas que já não se dedicam ao amor próprio”, afirmou o escritor espanhol Rafael Argullo. Sim, não passear também joga contra nós porque deixamos de ficar um tempo essencial com o melhor de nós mesmos, que aflora muito enquanto passeamos.
O espanhol Argullo dá um belo exemplo, de uma habitual volta a pé por sua Barcelona:

“Esta manhã estava passeando com um amigo debaixo deste sol magnífico e estávamos a uma hora conversando, passeando tranquilamente, por uma das poucas ruas que isso é possível no centro de Barcelona, porque ainda não teve êxito comercial… Encontramos um terceiro amigo, que há muito tempo não nos via. Se aproximou de nós e disse: “Vocês ainda têm tempo de ir caminhando tranquilamente pela cidade”. Eu lhe respondi que no momento em que não tem mais tempo para fazer isso, é melhor deixar de viver, porque já abandonou previamente a vida… Há algo nestes momentos de calma caminhada que é profundamente revolucionário: a dedicação, por exemplo, que damos à comida, quando tem tempo para saborear o alimento em vez de enguli-lo. Essa dedicação que significa a sensualidade e o erotismo contra o fast food da pornografía. A dedicação que significa a cultura frente à falsa religião dos bestsellers … A atenção que significa um filme de estrutura clássica frente aos jogos artificiais dos efeitos especiais. A atenção que significa uma conversa com um amigo frente a uma espécie de comunicação com símbolos, puramente utilitária, em que degeneramos (MSN? Orkut, eu pergunto). Passear, mesmo sendo difícil, segue sendo algo reivindicável porque é a base de nossa capacidade de pensar e se expressar para os outros. Portanto, creio que o ritmo mais lento é profundamente revolucionário… Poderíamos exaltar a lentidão, a dedicação, a capacidade de atravessar a complexidade da vida, acossados como estamos por todos os lados pelo fast-food.”
Claro que passear é difícil demais em megalópolis mega-apinhadas de gente e carros como São Paulo, mas ainda é possível. Tenho procurado pessoas importantes para isso, na hora do almoço ou depois do fim do expediente, e passeamos pela Vida Madalena ou calçadas largas da Av. Paulista. Mas tenho saudade mesmo é da adolescência em que tinha tempo para visitar os amigos pedalando com minha bicicleta. E, sobretudo, das horas em que passava com o maior amigo pensando na vida, nos sonhos e nas nossas musas. Bom, mas a gente adapta isso, e há pouco tempo costumava fazer reuniões de pauta com meu editor na revista de surfe dando um longo rolê por ruas pacatas de um bairro ainda especial chamado Vila Mariana. A Vila Mariana que não tem a pose da Madalena. Andando, pensando, trocando ideias e sendo iluminados por belas moças ou senhores educados e simpáticos, planejamos várias resportagens. Incrível como naquelas ruas a arquitetura das matérias saía prontinha, nem precisávamos passar para o papel depois, é ou não é, Edu?
E claro, é preciso celebrar e abrir uma champanhe se você ainda passeia, de mãos dadas, com sua namorada ou esposa. De mãos dadas e sem a agressão do celular no bolso. Ou sua companheira não merece sua atenção total e exclusiva?
E então, alguém aí quer passear de verdade? Alguém aí quer fazer um saudável balanço da vida ou planos para o futuro? Chega mais que sei rotas perfeitas para isso, e temperadas ainda com paradinhas em cafés e padarias sem frescura e pagação. Vai passear, moçada!
PS – Não falei dos passeios com os cães, não dá pra pensar muito com o que eles aprontam, né, mas a loucura que eles têm para dar uma volta explica um pouco a importância de passear para nós também.

Polaroid

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(Os anos inocentes. Ju, Lu, Bi. Um velho roqueiro tira a foto. Morumbi, 2007. Aerosmith)
Nesses tempos de máquinas digitais, lembrar da velha Polaroid, aquele trambolho que tirava fotos e imprimia as imagens na hora, em papel, pode parecer algo ultrapassado demais. Só que nada é ultrapassado quando há charme e beleza envolvidos. Algum nerd maluco fascinado por aquelas maquinas antigas criou um programa em que podemos transformar nossos fotos (que estão no computador) em polaroides. E tudo isso num click só. É escolher a foto, arrastar com o mouse e jogar na polaroid do PC. A preciosidade pode ser baixada e usada no site http://www.poladroid.net
A imagem que ilustra esse post foi criada com esse brinquedo. O passado parece ficar ainda mais bonito.

o verdadeiro amor é todo dia

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Como é bom, nas horas duras ou depois de uma briga com alguém que a gente preza demais, ir lá fora e olhar a cara dela. Perceber o olhar tão puro, doce, cheio de carinho. Amor incondicional. Amor todo dia, todo instante. E não esse amor que só é bonito de vez em quando, quando o amigo ou a amiga não estão de pá virada. Porque um cachorro, por mais que tome uns tapas na bunda ou um balde de água fria quando começa a latir ou uivar feito doido [né, Capitu? !], não guarda essa besteira chamada rancor. Porque um cachorro, ainda mais se for uma louca dálmata baixinha que mora aqui em casa e detona tudo, só sabe amar. Amor sem essas barreiras tolas que os seres humanos, mesmo os amigos, colocam entre si.
É, foi preciso que o cara lá de cima colocasse um cachorro entre nós para aprendermos um pouco sobre o lado mais bonito do sentimento mais importante.
Portanto, pense muito antes antes de bater boca com um amigo. Antes disso, chega pra ele e faz uma perguntinha simples, – por quê?
O mundo seria muito melhor se as pessoas perguntassem antes de bater.
O mundo seria muito melhor se todo mundo tivesse uma cachorrinha amorosa como a Capitu.
PS – Em breve, pra não causar ciúme e revolução no quintal, falo também da minha maior companheira, Babalu [mãe dessa baixinha que falei] e do maluco tranquilão, parece um cachorro hippie, com cara de urso polar, o Sansão, o cachorro que é a cara do Higino! E não poderia esquecer da matriarca da família, que me acompanhou 14 anos sempre me dando um amor especial, a inesquecível Duda
(23/07/2004)

Procura-se vivo ou morto

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Foi no meio do bar, da noite já turbinada por baladas roqueiras e pelo sempre poderoso combustível de velhos amigos lembrando os bons tempos, as experiências vividas, as aventuras e os amores sonhados. De repente o coração do amigo – outrora tão jovem, decidido e revolucionário [queria mudar o mundo] – reduzira-se apenas à uma amarga e dolorosa pergunta que ele fez, com a coragem e tristeza dos que um dia acreditaram tanto:
– O que fizeram com o amor, Zé?! Ele ainda existe?????
Tomei um susto grande, e simplesmente não consegui responder, tamanha a força e angústia daquela pergunta fundamental. Olhei para o amigo e tentei falar alguma coisa. Não deu, só saiu, após segundos intermináveis, um “esclarecedor”,
– Porra, Paulinho…
Foi tudo o que consegui dizer, talvez por ter, há algum tempo, a mesma dúvida violenta e corrosiva. Ainda bem que naquela noite logo pintaram risadas pelo papo profundo demais. E o peso da bateria, os gritos do cantor, as viagens e barulho das guitarras concretizaram a anestesia. Mas volta e meia a pergunta daquele ex-sonhador se transforma em outras. Se transforma numa dura página de classificados da vida:
Procura-se o amor.
Procura-se a coragem de amar
, o novo e o velho sentimento.
Procura-se uma fotografia e tudo o que ela representou.
Procura-se uma menina que inspirou um final feliz de um romance de um surfista.
Procuram-se as canções de amor que o rock fez pra ela através da paixão dele pelo rock.
Procura-se a melodia daquele sentir juntos, com a mesma intensidade e significado, aquelas cenas dos filmes.
Procura-se aquela canção, que falava de um louco mundo e de um sensato e tão verdadeiro amor.
Procura-se uma reunião de amigos que se comprometeram a não se esquecerem embalados por uma canção do U2, “One”.
Procuram-se os amigos que compartilhavam as ondas.
Procura-se tanta coisa
e tão pouco é encontrado
.

Procura-se uma luz como aquele sorriso puro e doce da menina que ficava bem em qualquer lugar.
Procura-se uma luz. Nas ondas, canções, esportes, pais, raros amigos e amigas de verdade. Mas tudo isso não resolve nada.
Porque, caro Paulo, não sei o que fizeram com o amor.
Talvez esteja morto.
Ou escondido nas profundezas,
com medo de novas cicatrizes,
com medo de lutar de novo.
Só que lembro sempre o que pregava um poeta romano antigo, “o amor é como o serviço militar: Para trás, covardes!”
(06/07/2004)