O homem que nos fez amar o esporte e mais a vida

Padrão

luciano do valle

“Jamais morrerá o narrador cuja voz está impregnada na memória afetiva de gerações, por ser a referência sonora de tantos e tantos momentos que não se apagarão. Luciano do Valle é o timbre de uma época, o condutor de emoções que não se separarão da maneira como ele as descreveu. Feche os olhos, escolha um desses momentos e ouça. Luciano continua narrando.” (André Kfouri, no Lance! de hoje)

As primeiras lembranças marcantes que temos do esporte em nossas vidas vêm das primeiras grandes partidas e ídolos iniciais de nosso time do coração. Mas o poder da voz de Luciano de Valle era tão profunda que menos de um ano depois de minhas primeiras recordações de alegrias com meu São Paulo de Valdir Peres, Chicão, Serginho, Zé Sérgio e cia (campeão brasileiro de 77), foi a sua voz que também ficou gravada na porção mais bela e preservada da memória de meu coração. Mais que isso, foi sua narração apaixonada (na medida justa, com o grito mas sem o exagero dos berros seguidos de outros locutores da TV) que talvez me fizeram me tornar, definitivamente, um fanático esportivo. E um fanático sempre a escolher um lado pelo qual torcer, sempre explodindo de alegria ou tristeza com as vitórias e derrotas.

Foi em 1978. Como esquecer as antológicas narrações, mais que isso, descrições vivas, das bombas de Nelinho e Dirceu da seleção brasileira na Copa da Argentina? Luciano, em sua 1ª Copa, já era tão bom que fez até aquela seleção confusa de Coutinho parecer melhor do que era. Apenas parecia, porque mesmo com aquele jogo vergonhoso dos hermanos contra o Peru, era muito melhor mesmo a poderosa seleção local. A Argentina cantada com emoção, e respeito à rara alquimia de beleza e raça de seu jogo, por Luciano. Por isso até hoje escuto Luciano recitando a magia de Fillol, Passarela, Tarantini, Luque, Ardilles, Villa, Olguín e, claro, ele, o primeiro super craque que conheci na vida, o matador cheio de estilo Mario Kempes.

Foi também em 1978 que o Brasil explodiu de alegria com aquela narração do finalzinho da disputa da medalha de bronze do Mundial masculino de basquete. Lá das Filipinas, num jogo de manhã cedinho, Luciano narrou, como se pressentisse o milagre, “3, 2, 1, Marceeeeelllllllllllllllll, cesta para o Brasil!!!!!!!”. Sim, a incrível cesta de Marcel que nos fez virar o jogo e ganhar o bronze da Itália por um pontinho. E Luciano ajudou em todo o Mundial o Brasil a perceber o talento de uma geração fantástica dos então jovens Marcel e Oscar.

Poucos anos depois o mesmo Luciano praticamente apresentou o voleibol ao brasileiro. Com seu talento imenso para descrever as jogadas de uma modalidade então ignorada e desprezada no país, ele fez o país simplesmente se apaixonar pelo vôlei. Foi graças, muito a ele, que o vôlei explodiu com seu canto emocionado dos saques, levantadas e cortadas mágicas de Renan, Bernard, William, Xandó e cia, isso sem falar no seu papel de criador de nossas primeiras musas desse esporte, Isabel, Jaqueline e Vera Mossa.

A emoção e paixão que pelo vôlei que Luciano semeou foi tão grande que a molecada passou até a jogar esse esporte na rua, como eu e meus vizinhos fazíamos: a rede era o portão da antiga Sears defronte a nossas casas. Alguns meninos pulavam o portão e jogavam de dentro da empresa, e outros jogavam na calçada e começo da rua.

Nos anos seguintes, seria dele também a perfeita descrição de um time fantástico, que dava recitais com um toque de bola magistral, falo do Flamengo de Zico e também Leandro, Junior, Andrade, Adílio, Tita, Nunes e cia.

1982. Na Copa das Copas para qualquer brasileiro de 45 anos para cima hoje, Luciano declamou em prosa e poesia a mais bela seleção brasileira que eu e muitos da minha geração viram jogar-encantar: o Brasil de Mestre Telê e seus super craques Falcão, Cerezzo, Sócrates, Zico, Leandro, Júnior e Éder. Até hoje a locução de Luciano naquele Mundial é considerada, por muitos, a mais perfeita narração da história do jornalismo esportivo brasileiro na TV.

Um ano depois foi de Luciano, claro, a voz que apresentou aos brasileiros, no Mundial feminino de basquete jogado no nosso Ibirapuera, duas jovens já fantásticas, Hortência e Paula. Dois super talentos que Luciano batizou pouco depois de Rainha Hortência e Magic Paula. E seria na voz dele, anos e anos depois que elas conquistariam o mundo, campeãs do mundo em 1994 e prata na Olimpíada de Atlanta´96, com Luciano já na Bandeirantes.

Na Band onde ele montou o Show do Esporte, não um mero programa, mas uma grade esportiva inteira que fez do canal paulistano o canal do esporte. Luciano comandou um projeto capaz de proezas como trazer as primeiras transmissões do campeonato italiano de futebol, jogos da NBA e muito mais, como um dos raros erros de Luciano, a aposta no boxe com Maguila, que ele colocou num falso pedestal, aquém dos parcos recursos daquele lutador folclórico, ignorante e frágil, que não aguentou um assalto com um lutador de verdade como Holyfield.

Fora Maguila e a triste obrigação profissional de nos últimos anos ter que dividir seus gritos de gol com o “momento Max Color” nas locuções na Band, além de suportar as intervenções de comentaristas de qualidade duvidosa, fica na gente a beleza da paixão de Luciano. Por vários esportes e, por que não, pela vida sentida com uma explosão de sentimentos maior.

Muitos dos que eram meninos e cresceram sob as narrativas de Luciano tornaram-se homens de incontroláveis exaltações, de alegria ou tristeza. Porque não era possível não vibrar feito um louco possuído nas vitórias, tampouco se recuperar da dor de perder um grande jogo e título narrado por Luciano.

Obrigado, querido Bolacha, por nos revelar e ensinar a amar e reverenciar os mitos e guerreiros das quadras e campos, por semear fogo em nossos corações e nos mostrar que o esporte é, muitas vezes, a vida no máximo de sua intensidade.

PS – Alguém me ajude, mas não eram também de Luciano as narrações da era de ouro do tênis mundial, exibidas na íntegra na Globo desde as semifinais quando em Roland Garros e Wimbledon? Borg, Connors, McEnroe, Villas, que elenco!

PS 2 – Foi com Luciano que o mundo assistiu a até hoje mais incrível performance de um piloto na história da F-1, aquela corrida em que o adorável louco canadense Gilles Villeneuve foi perdendo peças da sua Ferrari e mesmo assim conseguiu completar a prova.

O pior é que ele é a regra

Padrão
Tudo pelo sucesso. Passar por cima dos outros. Fazer qualquer coisa para alcançar seus objetivos. E esse qualquer coisa envolve qualquer tipo de artimanhas e recursos (falta de?). Este é o José Mourinho do Real Madrid, e também, em menor escala, o da Inter de Milão.

Quando Mourinho percebeu que não ganharia do Barcelona de Messi, Xavi, Iniesta e Guardiola na bola, resgatou uma profissão que não existia no grande Real, um clube orgulhoso de esquadrões que encantaram o futebol jogando um futebol ultra ofensivo e belo. A profissão de capanga.
Uma das poucas vezes em que o bando de Madrid de Mou venceu este Barça maravilhoso ocorreu quando o capanga Pepe entrou em campo com uma única missão: não deixar Messi jogar. Sem eufemismos: enfiar a porrada no Melhor do Mundo sem dó.
O problema para Mou é que nas partidas seguintes, nem as pancadas assassinas de Pepe (não entendo como esse boçal ainda não quebrou a perna de Messi) adiantaram. Então ele reforçou o Bando de branco. Bastou perceber quais seus jogadores de caráter mais frágil e duvidoso. Pronto. O primeiro da lista é Michel Salgado, que começou a distribuir pontapés sem dó.
Não bastou. Então Mourinho percebeu um capanga dos sonhos: jovem, veloz, forte. O brasileiro Marcelo. Resultado? O colocou em campo com uma única missão: arrebentar Fábregas. Quase conseguiu, mas por um dos mistérios do Barça, não quebrou o filho pródigo barcelonista que acabava de voltar pra casa.
Batendo e batendo (e, na sua única estratégia vinculada ao futebol, pressionando o Barça em seu campo), Mou quase conseguiu sustentar um empate com a orquestra de Xavi, Iniesta e Guardiola. Até que Messi, pra variar, colocou um enorme ponto final na violência sem fim do Bando do português.
O mais incrível da história é o talvez maior clube de todos os tempos, o Real, aceitar vender sua alma para vencer o Barça depositando confiança e poder total a um general sem nenhum escrúpulo como Mourinho. E Mou, com seus seguidos ataques de histeria e imbecilidade fora de campo (a última foi sua agressão covarde no assistente de Guardiola, pelo que tomou um revide mais forte que sua agressão, toma!), contagia cada vez mais seus jogadores e não me surpreenderia se até o santo Kaká começasse a dar bordoadas quando entrar em campo.
Até o grande goleiro Casillas entrou no estúpido clima de guerra e deu uma entrevista vergonhosa ao final do último jogo, dizendo que Fábregas, ao ser agredido por Marcelo, “fez cena, como sempre”. Por isso foi repreendido por um antigo ídolo do Real, o artilheiro Fernando Morientes. Este condenou não só a falta de sinceridade de Casillas como a postura bélica do Real.
Como bem disse hoje no Jornal da Tarde um de seus colunistas, essa apelação de Mourinho nunca caberia num time de Telê Santana. O jornalista lembra de uma declaração de Junior Baiano, que revelou não ter dado pontapés num jogador do Velez (o baixinho infernal Turco Asssad) que acabou com o São Paulo na final da Libertadores de 1994, porque o técnico era Telê.
O jornalista ainda diz que Mourinho tem muitos títulos no currículo, mas nenhum deles com o brilhantismo, beleza e jogo limpo de um Mestre do futebol como Telê.

O problema é que hoje, os Mourinhos aumentam cada vez mais, no futebol e na vida.

Fala-se muito no Mou “grande estrategista” que superou o Barcelona na Champions League em que venceu com a Inter de Milão. Daquela eliminação, com a Inter se defendendo o jogo todo, e baseando-se apenas nos contra-ataques e pauladas, lembro do comentário do grande Falcão, que era o grande líder do Brasil que encantou o Mundo em 1982, com Telê na direção. “Nunca vi uma retranca tão covarde em toda a minha vida como a da Inter contra o Barcelona”.

Triste é perceber que os covardes, violentos e arrogantes são reverenciados por muitos jornalistas e profissionais de outras áreas como homens de visão e mestres da estratégia.
Mas graças que existem ainda Homens e Artistas como o Barcelona, seu treinador e sua filosofia para mostrar como se pode ganhar com beleza e de forma limpa.

Cada jogada magistral de Xavi, Iniesta, Piqué e cia; e cada golaço de Messi não são apenas uma vitória do futebol arte.
São um foco de resistência dos homens decentes, nobres e corajosos contra a selvageria dos Bandos de Mourinhos e seus genéricos que infestam e dominam outras carreiras e empresas.

A crise moral do esporte brasileiro

Padrão
A vergonhosa participação da seleção brasileira na Copa América passa, muito, pela crise moral que o futebol e várias modalidades atravessam no Brasil. A crise começa no visual, com muito jogador se preocupando demais com o corte novo no cabelinho, a roupinha descolada e até o headphone mais vistoso e potente. Há também muita brincadeirinha, tiração de sarro e trotes bobos na seleção. Coisa normal, da “alegria” do jogador brasileiro? Ontem o goleiro Julio César revelou que temia pelo desempenho brasileiro nos pênaltis porque ele sabia do fraco aproveitamento nas cobranças dos seus companheiros nos treinos. Treinos de pênaltis que eram mais brincadeiras do que ensaios sérios. Treinos que Mano Menezes nem acompanhava.
O visual é um elemento banal, menor, mas já demonstra uma excessiva vaidade individual. Que Neymar use aquele moicano ridículo, vá lá porque ele se garantiu no Santos ganhando tudo assim (não na seleção…). Quando Daniel Alves imitou o penteado, deu no que deu…
Pior é a falta de uma equipe e espírito de grupo, claríssima na seleção do grupo dos veteranos liderados por Lúcio e no dos moleques, liderados por Neymar e apadrinhados pelo veterano que nunca amadureceu, Robinho. Mas não me venham falar no grupo unido do Dunga, porque grupo unido em torno de uma ideia e estilo imbecil (o tal futebol guerreiro que resultou em aberrações como Felipe Mello), não vale.
Cada vez mais nítida também a postura blasé, fria, com que os jogadores vestem a camisa da seleção. Em campo, a postura blasé vira aliada do individualismo de quererem decidir os jogos sozinhos. E voltando a respeito, eles só demonstram isso por quem lhes pagam fortunas, os seus clubes. Uhn, respeito em termos, porque é um tal de jogador quebrar contrato e fazer chantagem pra ser liberado para outros clubes… Grande parte dos jogadores de ponta brasileiros só pensam em grana, em salários maiores. Mesmo um ídolo amado de uma torcida, Kléber, anda fazendo de tudo para ir para o Flamengo. Amor da torcida? Ele não tá nem aí pra vocês, palmeirenses.
Claro que a culpa não é só dos jogadores. Há também os empresários inescrupulosos que assediam e compram os direitos dos atletas desde que são garotos. Há os dirigentes dos clubes, que não estão nem aí em acompanhar os estudos dos meninos das categorias de base. Todos só querem faturar em cima dos garotos. E não estão nem aí quando 99% deles não dão certo na bola e, como não estudaram, vão se ferrar na vida.
Há também a culpa da mídia, que exalta qualquer um com um pouquinho mais de talento, massageando o ego vazio de nossos jogadores sem a mínima formação educacional e moral.
O mais triste é que o problema não fica só no futebol. O descaso com a formação dos atletas como homens existe até no “tão organizado” vôlei, em que os melhores do país passam longas temporadas concentrados no CT de Saquarema, e a escola que se dane.
E esse desrespeito acontece em várias modalidades. Tenho um grande aluno, cabeça boa, sério, dedicado, grande coração, que simplesmente quase não esteve em sala de aula no primeiro semestre inteiro. Ou estava concentrado com a seleção, em outra cidade, ou estava disputando competições no exterior. Óbvio que os dirigentes do seu esporte não está nem aí para a formação dele num ano-chave, o último do colegial, às portas do vestibular e da escolha de uma carreira. Só querem saber das conquistas do garoto, que vem trazendo grandes resultados ao país. Planejamento da Confederação e organização para respeitar o período letivo do garoto? Zero. Qual o preço que o menino pagará, no futuro, por seu empenho no esporte?
Basquete? Talvez o caso mais claro de falta de respeito com seu país. Os mais badalados atletas brasileiros simplesmente se recusam, seguidamente, a vestirem a camisa da seleção, como fazem Leandrinho e Nenê. E ainda dão desculpas esfarrapadas para não defenderem o Brasil. Gozado que o MVP das finais da NBA, onde os brasileiros jogam (pouco, são reservas de luxo…), o alemão Dirk Nowitiki, nunca deixou de atender a uma convocação da seleção alemã. E disse uma vez que, se for preciso, ele mesmo pagaria o seguro exigido por seu clube na NBA.
Mais da crise moral? Mesmo os diferenciados jogadores de vôlei da seleção, dos quais realmente podemos sentir a paixão e orgulho com que defendem a amarelinha, mancharam suas carreiras belíssimas com aquela vergonhosa partida entregada ordenada por Bernardinho no Mundial do ano passado.
Natação? Sim, Cielo está ainda se defendendo da acusação de doping na China, mas o fato é que, neste século, adivinhem qual o país que teve mais atletas flagrados no exame anti-doping de natação em todo o mundo? Sim, Brasil.
O mesmo doping que fez um verdadeiro arrastão em muitos grandes nomes do atletismo brasileiro no ano passado, incluindo um dos mais renomados treinadores de nossa história.
Até no vôlei de praia somos pêgos agora, como ocorreu com Pedro Sohlberg, flagrado por tomar esteróides. Imagino o desgosto de sua mãe, a grande Isabel, uma das mais valentes e íntegras atletas de nossa história, uma das responsáveis por o Brasil ser hoje uma potência no vôlei feminino.
Tudo isso para dizer que há um descaso muito grande na formação dos atletas brasileiros hoje que resulta em cabeças vazias e individualistas e um vale tudo por resultados (doping, entregadas etc).
Como resolver isso? O pequeno e vizinho Uruguai dá a receita, com seu belíssimo projeto implantado por Oscar Tabarez no futebol, em que os jogadores das seleções de base estudam e são acompanhados por profissionais de várias áreas. Os frutos estão aí, com a Celeste brilhando na equipe adulta e no sub-17 (vice-mundial) e sub-20.
O problema é que basta olhar para o presidente do órgão esportivo mais poderoso do país, Ricardo Teixeira e sua CBF (sua porque ele faz dela o que bem entende) para imaginar ele refletindo sobre a formação do jogador brasileiro. Com sua linguagem chula típica (leiam a chocante, debochada e nojenta entrevista dele na revista Piauí deste mês) ele deve pensar, “que se f…”.
Pensando nas outras modalidades, o poderoso Nuzman e seu milionário Comitê Olímpico Brasileiro (sim, seu…) só trabalha pelo esporte de alto rendimento. Joga a responsabilidade do trabalho de base para o governo e para os clubes (como, se estes, com raras exceções como um Pinheiros, um Minas Tênis, só pensam no futebol?).
O futuro é negro.
PS – A razão das fotos que ilustram esse post? Reparem no uniforme sóbrio, respeitoso e padrão dos uruguaios e pensem na seleção brasileira… Ah, e eles preferem a companhia de um mate (que compartilham) que de aparelhinhos, celulares etc. A outra foto é do jovem Denílson, que volta ao São Paulo depois de anos na Europa e não se dá o trabalho de tirar o bonezinho e o óculos-escuro para posar com a bandeira do clube.
Nunca vi Raí, maior jogador da história do São Paulo, de boné ou óculos-escuro.

O erro do trio de lata

Padrão
O vexame monumental do Corinthians na Pré-Libertadores têm a mesma explicação dos seguidos vexames de São Paulo e Palmeiras nos últimos anos: a soberba e incompetência de seus dirigentes. Depois do fiasco na reta final do Brasileirão que já dava como ganho, e do retorno das férias de um Ronaldo ainda mais gordo, quem Andrés Sanchez contratou para melhorar sua equipe? Ninguém. Sobre Fábio Santos eu comento daqui a pouco… Pra piorar, Andrés se livrou não apenas de um jogador importante, mas de seu melhor homem. Aquele responsável por quase toda a criatividade, inteligência e velocidade do seu meio-campo e parte do ataque, por marcar, apoiar e fazer gols decisivos, Elias. E há ainda outra estupidez de Andrés, anterior à perda de Elias, aqui bem parecida com a cegueira de seu inimigo tão parecido com ele, Juvenal Juvêncio, o ditador sãopaulino: a escolha errada de treinadores. Enquanto Juvenal foi buscar um treinador que não ganha nada há 30 anos (!?), Carpeggiani, Andrés foi buscar uma das maiores farsas do futebol brasileiro, o metido a intelectual Tite, aquele que traz o pior da escola gaúcha de treinadores: o amor à retranca que é igual à covardia. E o currículo de Tite limita-se a um título importante, a Copa do Brasil de 2001, com o Grêmio. Só isso.
Quando li no jornal que Roberto Carlos não jogaria contra o Tolima ontem, fiquei espantado ao saber que seu substituto era outra farsa: um dos jogadores mais odiados e xingados da história recente do São Paulo, Fábio Santos, que foi “revelado” no Morumbi. Lembro bem de quantas vezes xingava esse lateral habilidoso que se achava craque e por isso não marcava ninguém e ainda era um caráter mais que duvidoso. Lembro também de uma avenida maior que Giovanni Gronchi, que sempre deixava às suas costas na era em que o São Paulo guardou uma das maiores secas da sua história, os anos pós-Telê e Raí. Aliás, Juan, o novo ala esquerdo tricolor parece um clone de Fábio Santos, sabendo apenas cruzar melhor. E tem outra defeito de Santos: a pipocada em momentos cruciais.
Fábio Santos + a covardia monumental de Tite, que encheu seu arremedo de time com volantes e não escalou nenhum meia para municiar Dentinho (outro que não tem na raça e valentia o seu forte), Jorge Guerreiro e o cone Ronaldo, fizeram o Corinthians tomar um baile dos colombianos no 1º tempo, não tomando gols por acaso e má pontaria do Tolima. Os 15 minutos de pressão alvinegra no 2º tempo (enfim, um pouco de coragem) quase resultaram em mais um milagre de Ronaldo, mas as mãos do goleiro paraguaio do Tolima parecem que encerraram, definitivamente, a carreira do ex-Fenômeno que não soube que sua hora de parar já passou faz tempo. Pouco depois o Tolima abriu o marcador, com jogada construída nas costas de um jogador ainda sem ritmo e em má forma, Alessandro, que voltou há pouco de contusão. A seguir o peruano Ramirez, que acabara de entrar, fez a tolice de ser expulso e logo os colombianos decretaram o fim da era Ronaldo ao construírem uma jogada nas costas de… adivinhem quem… Fábio Santos. E na conclusão dos dois gols ficou clara também a ausência de um zagueiro à altura do bom e velho William, zagueiro limitado, mas viril, líder e que dava conta do recado e crescia na hora H.
E não achemos nós, de meu time, o São Paulo, e vocês, palmeirenses, que podem rir à toa. Não podemos. Não podem, porque o maior vexame de um clube brasileiro na história dos Libertadores protagonizado pelo Corinthians, para mim não é muito diferente do “tetracampeonato inverso” medonho das seguidas eliminações do São Paulo na Liberta 2007/8/9/10 da Era Juvenal de fracassos e erros na única competição que interessa, de fato, ao sãopaulino mais doente. Graças ao dedo podre de Juvenal para escolher treinadores e da sua mão cerrada para contratar, é fiasco atrás de fiasco. A única diferença, pequenina… é que o São Paulo é tri da Liberta e fez seguidos papelões muito por culpa da diretoria e certos jogadores enganadores (Dagoberto no topo…), mas jamais por sucumbir à pressão (pra não dizer outra coisa) do mais duro torneio do planeta.
Palmeiras? A década de derrotas vergonhosas prossegue sem perspectiva num clube em que suas diretorias corneteiras e briguentas alternam-se no poder, e mantém um time que tem Marcos, Assunção, Kleber e mais ninguém. Ou algum palmeirense de verdade acha que liderar o Paulistão é prova de força? O elenco alviverde segue sendo um dos mais frágeis dos clubes grandes do país, cheio de jogadores inexpressivos sem a mínima história de sucesso e ainda sofrerá ainda mais quando outra farsa, Valdívia, voltar a jogar. E ainda há, no banco, um Felipão parado no tempo há anos.
Rir de verdade só podem os santistas, mas apenas por mais seis meses. Ou vocês acham que Neymar e Ganso seguirão na Vila após a janela européia do meio do ano??? E não achem que a Fábrica de Meninos da Vila é tão farta assim. Os meninos da Vila só surgem de dez em dez anos, às vezes mais. Assim foi com a geração de Nilton Batata, Juari, Pita e João Paulo (anos 80), Diego e Robinho (início dos 2000), Ganso e Neymar (2010).
Enquanto os grandes clubes paulistas não virarem empresas, com dirigentes profissionais e transparência, seguiremos vendo nossos presidentes venderem nossos raros destaques todos os anos, e não repondo essas peças. E alguém aqui me diz o que o Juvenal fez com a venda do Hernanes???

Os voos mais belos

Padrão

Poucas coisas são mais belas que os saltos das mulheres do atletismo que iluminaram Berlim no Mundial que acabou ontem. Não falo apenas da óbvia beleza física das longas pernas e corpos torneados das saltadoras de vara e em distância (as em altura são mais magras). Falo da beleza de quem dedica a vida pelo louco e antigo sonho impossível do ser humano de voar. Impossível não para elas. Lá vão então as deusas Isinbayeva, Maurren, Vlasic, Mellis e cia. a voar encantando. A voar fazendo de seus corpos e mentes máquinas de uma sutileza e precisão incríveis.

(Blanca)
O salto em altura que coroou os olhos feiticeiros de Blanca Vasic é a arte da sutileza, dos pássaros humanos que precisam praticamente parar antes de tentar superar o sarrafo. Correm, param antes do salto e de repente, como estilingues humanos, explodem se arremessando em busca das alturas. Além do domínio do corpo, haja preparação mental para enfrentar o carrasco chamado sarrafo.

(Isinbayeva)
O salto com vara é ainda mais técnico ao se lidar com corpo, mente, vara e alturas de prédios pequenos. Há que se usar a vara como parceira de propulsão para o lançamento e depois abandoná-la no momento exato em que se procura fugir de um sarrafo perto do céu. Autocontrole é pouco…

(May Mellis)
O salto em distância parece o mais fácil na execução, mas exige um ritmo militar de passadas e corrida antes do salto cirúrgico, que não pode tocar a linha vermelha. E pede também uma certa altura fundamental, em pleno voo, para saltar mais longe. Pra finalizar, é o salto que mais exige força muscular nas pernas. A força que nossa Maurren não teve na final de ontem por estar com o joelho machucado.
Vale destacar ainda a comunhão bacana entre saltadoras e público, quando as primeiras pedem as palmas para marcar suas corridas e ritmo antes de voar.
E, claro, como não gostar de uma modalidade com tantas deusas de pernas compridas e ainda com um sorriso como esse que posto abaixo, da turca May Mellis, bronze no salto em distância???


(Mayday! Mayday!)

A agonia de Jade

Padrão

Há um ano e meio ela era a namoradinha do Brasil, campeã panamericana no Rio e esperança em Pequim. Hoje, Jade, apenas 17 anos, sofre com uma gravíssima lesão no punho, não poderá treinar forte e competir durante um ano, e não recebe salário do seu clube, o Flamengo, há um ano, e ainda sofre com o descaso e os erros da Confederação Brasileira de Ginástica (CBG). Essa entidade, que fez seguidos exames nela durante todo o ano passado, simplesmente não constatou a gravidade de sua lesão, uma necrose causada por múltiplas fraturas seguidas, no pulso direito. Mais grave ainda é que Jade era acusada pelo médico da CBG de fazer manha. Se era manha, porque o médico lhe mandava tomar remédios 3 vezes por dia na preparação para a Olimpíada e durante os Jogos de Pequim?
Por isso tudo a carreira de nossa mais promissora ginasta está ameaçada. Pra piorar, Jade depende hoje praticamente da caridade do médico que a atende e de uma farmácia, que lhe dá os remédios que precisa tomar pra dor. Assim é tratada um dos poucos grandes talentos do esporte olímpico brasileiro.
“O meu pai quer que a CBG (Confederação Brasileira de Ginástica) pague o tratamento, que é caríssimo. No momento, estou me tratando porque as pessoas estão me ajudando. Eu vou comprar um remédio na farmácia e me dão em troca de uma camisa autografada. Estávamos pagando o médico, mas ele decidiu que vai me ajudar a partir de agora” explicou Jade no jornal Lance. Ela aguarda a avaliação de um especialista americano para saber se viajará ao país para se tratar. Mas como ela poderá pagar esse tratamento? Por que o milionário Comitê Olímpico Brasileiro não assume o futuro dessa menina especial?
Vejam abaixo uma entrevista com Jade no Esporte Espetacular em que ela revela mais sobre sua ansiedade, medo e revela ainda estar sendo acompanhada por um psicólogo pra segurar essa barra pesada.

Padrão


Um convite do coração
– Tem jogo meu hoje, sábado, domingo…; Raíssa convidava para um jogo atrás do outro, mas seu professor nunca ia. Na maioria das vezes não dava mesmo; em outras ele podia ter se esforçado mais. Não o fez, mas mesmo assim ela tentava de novo, com a mesma beleza dos que convidam de verdade, fazendo o convidado se sentir especial. Vinha e vinha de novo, porque o ser humano precisa ser visto e apoiado no que faz com mais paixão. O apoio, mágico, que sentimos quando alguém vem nos ver em pleno dia de semana.

Um dia ele foi, depois de muito tempo sem vê-la em ação. Como foi bom perceber a evolução dela. A atacante irregular do passado se tornou mais firme e forte. A garra e vontade aumentaram, além dela ter adquirido uma notável concentração para sacar: olhos fixos nas adversárias enquanto se abaixa e bate a bola várias vezes no chão com as duas mãos, antes de levantá-la e enfiar a mão com força e precisão. Não errou nenhum! Me lembrou a concentração dos grandes atletas da história, imperturbáveis e decididos antes de cobrar um pênalti, lance livre ou saque.

E ainda preciso ressaltar suas defesas, em como também melhorou nesse fundamento cada vez mais exigido e essencial em um time de vôlei.

Parabéns, moça, pena que tão poucos foram lá te ver, como seu professor, seus colegas, Renato, o torcedor número um dos esportistas do seu colégio, a Bia, e, claro, seu fã número um, seu pai. Aliás, precisava ver a tensão e alegria de seu velho a cada ponto.

Obrigado também por me convidar por outro motivo: pude voltar ao Pinheiros, o clube onde fui tão feliz treinando atletismo e sonhando com uma intensidade parecida com a sua paixão pelo vôlei.
Queria assistir mais momentos felizes de sua vida como esses, Raíssa. Como não dá, saiba que estaremos sempre torcendo por você. Não sabemos onde chegará, mas lembre no futuro que houve uma época em que conseguiu nos inspirar e motivar com sua raça, talento e determinação em uma quadra de voleibol.

Finalmente, nunca perca esse seu jeito tão transparente, alegre e esperançoso de convidar as pessoas para assisti-la. É tão bonito como aqueles apresentadores que anunciam um espetáculo para o público.

PS – Mas da próxima vez vê se dá pelo menos um tchauzinho para seus torcedores né!!!

Padrão


Sonhos da bola laranja
São meros garotos, mas já treinam e sonham como homens. Fernando Soria, Thiago Ortega e Henrique Aguiar jogam basquete nas categorias inferiores do Palmeiras. Domingo passado estrearam nos playoffs do Campeonato Paulista. Pela primeira vez pude vê-los em ação e constatar aquele brilho nos olhos de meninos que sonham tanto. Com o basquete brasileiro? Seleção? Talvez. Mas minha aposta maior é que quando a noite e o sono chega, o travesseiro gostoso e o corpo exausto os levam direto para a NBA ou para a Europa, porque o basquete profissional nacional anda cada vez mais triste. Que moleque será louco de sonhar em jogar para uma seleção que tem o Lula como treinador? Ou o Grego como presidente há milênios? E como vão sonhar com o Brasil se não existem mais ídolos aqui desde que o eterno Oscar encerrou a carreira? Tá, posso estar errado, porque o Fernando já me disse achar um absurdo o Nenê se recusar a jogar pela seleção, mas sei não…

Antes do sonho, uma jornada longa demais. Direto para o jogo Palmeiras e Paulistano, no ginásio desse último. Fernando volta de contusão no tornozelo, está meio mal nos primeiros dois quartos, mas depois, mostra o seu valor. No momento mais dramático, quando o Paulistano empata o jogo em 50 a 50, ele pega a bola, atravessa a quadra toda, se infiltra, marca uma bela cesta e ainda sofre falta. Depois, vai fazer isso de novo e ir além, pegando rebotes, dando belas assistências (duas desde o seu garrafão até a zona morta do inimigo, servindo seu companheiro; uma com extrema habilidade, servindo o parceiro passando a bola por trás de suas costas) e marcando pontos importantes. Atuação de jogador que trabalha bem em todas as funções e fundamentos essenciais de quem sonha em ser grande. Mas é preciso melhorar, muito, em um detalhe que decide muitos jogos: os lances livres. Errou demais, e o jogo poderia ter sido mais tranqüilo (o Paulistano encostou no finalzinho, quase virou) se não errasse cinco ou seis arremessos desse.

Outro menino que esteve bem foi Ortega, pivô trabalhando bem nos rebotes defensivos, se projetando bem nos primeiros passes das ações ofensivas e até fazendo uns pontinhos. Falta ao guri mais força física, que virá com o tempo, e um pouco mais de calma.

Henrique não jogou, mas quantos garotos podem se orgulhar de fazer parte de uma grande equipe e um grande clube como o Palmeiras? E quantos ele não terá superado para garantir um lugar naquele banco de reservas honrado?

Os três garotos representam bem o que é ser um jovem esportista batalhador e respeitoso. Ao final da partida Fernando fez questão de apertar a mão não só de adversários e juízes, mas também do pessoal da mesa de cronometragem. Humildade e educação são passos fundamentais nos caminhos de um campeão. E ele ainda mostrou algo raro para os tão jovens: calma nos momentos decisivos da partida, não é daqueles de se enervar facilmente, pelo menos foi o que mostrou nesse jogo.

Parabéns a essa molecada por essa valiosa vitória. E que sigam na postura, determinação e talento que exibiram domingo passado. Quem sabe um dia a Europa ou até aquele sonho gigantesco não vire realidade.

PS- Lembrem, guris, que humildade e respeito deve valer em todos os lugares. Portanto, nada de sacanear os (as) atletas de outros esportes com quem vocês convivem. Ao Fernando, vai um recado especial: nunca vi a Raíssa errar um saque, é incrível a concentração dela nesse momento e o ritual dela antes de levantar a bola e meter a paulada com precisão e força. Se aproxima dela, moleque, vai aprender muito. E lembra que o Oscar, ao final de cada treino, ficava um tempão treinando arremessos sozinho.