Lugano – O regresso do herói mais humano

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lugano volta 2A imagem, mesmo distante, da arquibancada do Pacaembu, é nítida e poderosa. Quando ele perfila ao lado dos outros jogadores, sua camisa (para ele e nós, manto sagrado) parece ter o dobro da largura dos outros companheiros. A razão é física, emocional e anímica. O peito é realmente enorme, para conter uma caixa torácica ampla e, sobretudo, um coração e alma do tamanho da história do São Paulo e de seu amor, dedicação e gratidão pelo clube que o projetou no futebol mundial.

A dimensão da camisa branca tricolor amplia-se ainda mais nos olhos e peito do torcedor nesse emocionante matar a saudade de um dos raros heróis com quem pudemos nos reencontrar.

Fui ao Pacaembu sozinho ontem porque o reencontro com um herói deve acontecer desta forma. Há que se estar concentrado, interiorizado, esperando como um ritual de fé, quando o vemos de novo e sentimos tanto. Há que se esperar focados em nossa gratidão por alguém que nos fez vibrar, sonhar e vencer tanto.

Há que se ensinar aos que não têm heróis, que nesse cotidiano, país e mundo com tantos vilões, heróis como Lugano são necessários, fundamentais.

Há que se gritar o seu nome com tudo o que está em nossos pulmões porque esse guerreiro ajudou e inspirou muitos tricolores, uma década atrás, a lutar, resistir, sobreviver e vencer.

Em uma fase dura de minha vida, com o coração e a alma abatidos, Lugano foi um dos poucos que me deu ânimo, com seu exemplo de dura trajetória inicial no São Paulo, sua volta por cima e glória construída com uma garra descomunal. Se minha inesquecível turma da Pós em Jornalismo de 2005 e 2006 no interior paulista me dava o afeto e alegria vitais em fins de semana antológicos, era ele quem me inspirava a lutar e também ser um cara melhor.

E que luta! Nos gramados, ele sempre vestiu seu coração e foi lutar, desvestindo-se de qualquer precaução, medo ou economia de ânimo em cada lance.

Em cada lance a que se entregou de corpo e alma porque vestiu de verdade uma camisa que sentiu como manto, prêmio e pele.

Reencontrar Lugano é como ser reanimado, acordado e levantado por um guerreiro e líder histórico.

É nos permitir um pouco de esperança, sonho e muita batalha de novo. E como precisamos disso, nós, torcedores tricolores tão maltratados, traídos e sofridos nos últimos tantos anos de derrotas e decepções, muitas delas vergonhosas.

Reencontrar Lugano nos torna todos escoceses invadidos recebendo o brado e chamado desse William Wallace da bola. Um Coração Valente, envelhecido, sim, mas ainda, tomara, um libertador e faísca para contagiar seus novos companheiros a entenderem o que é se entregar de verdade a essa camisa, e isso passa pelo sentimento de perceber esta camisa e o futebol como algo muito maior que um mero compromisso profissional.

O leão voltou a rugir de novo ontem, pena que para um público tão pequeno, meros 7 mil são-paulinos, mas presumível pelos fracassos anteriores recentes.

Os que foram esperar o ídolo, herói e homem ontem, porém, puderam sorrir como não sorriam há muito tempo; com um sorriso meio feliz demais, meio maníaco partindo das veias, coração, pulmão, coração, de todo lugar de nosso corpo e alma que fica arrepiado, eletrizado e energizado quando vemos o mais guerreiro dos heróis entre nós de novo.

Sonhemos um pouco, meus amigos tricolores. O time, muito menos o elenco, não parecem permitir isso, mas pelo menos podemos ver de novo um jogador e líder que é um grito das profundezas a cada disputa de bola e cobrança verbal, do juiz e companheiros, que protagoniza.

Obrigado por estar de novo pertinho lutando, gritando e sonhando por nós.

Obrigado, também, por esse ser humano transparente e valoroso que você é, que voltamos a perceber a cada palavra, frase, olhar e gesto que vemos a cada entrevista na TV.

Obrigado por seguir sendo um herói não só da bola, mas da vida, do caráter, dos seus bons valores inegociáveis, o que é tão raro no pobre e mesquinho universo humano do futebol brasileiro.

Obrigado por ser o Diós mais humano que lutou, e voltou a lutar, por nós.

Sim, por nós, porque o futebol não é mera distração ou entretenimento, e o São Paulo não é uma mera paixão. Ambos são elementos importantes em nossas vidas e até ajudaram a formar quem somos. E que dádiva e beleza é ter em nossa formação esse jogador-homem que vale como uma matéria vital dada em anos de escola, uma matéria viva, poderosa e eterna chamada Diego Lugano!

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Creed e Rocky. Nascidos para lutar. Juntos.

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creed2Homenagem é uma palavra tão bela quanto pouco praticada na avalanche da falta de tempo que sobra dos trabalhos ou estudos, e da ditadura do novo, que prevalece em nossa sociedade e mundo cada vez mais consumista e pautados pelas novidades. Graças, porém, que ainda resiste no cinema a arte de reverenciar o passado e aqueles que nos marcaram, emocionaram e/ou ensinaram. O filme Creed, Nascido para Lutar, não faz parte da série Rocky, mas é tão visceral e humano quanto os melhores, mais poéticos e realistas filmes da série, justamente o primeiro, Rocky, um Lutador, e o último, Rocky Balboa. Creed é obra do jovem cineasta negro Ryan Coogler, 30 anos, para homenagear a força que seu pai lhe deu para cursar cinema e a paixão de seu velho pela odisseia do lutador mais querido do cinema (não só…).

A história mostra a tentativa jovem Adonis Johnson de se tornar um boxeador para honrar o sobrenome do pai biológico que ele não conheceu, o lendário Apollo Creed, maior rival e depois amigo que Rocky Balboa teve. Anos de passagens por orfanatos e reformatórios moldam um garoto acostumado a brigar mas ele precisa de muito mais para vencer nos ringues. Precisa da mãe de coração (não a de sangue, também falecida), que o resgata do cárcere infantil, e também de um mestre para fazê-lo evoluir, técnica e mentalmente, com as luvas.

O mestre, obviamente, é Rocky Balboa, mas não será apenas Rocky o professor. O velho lutador simplório da Filadélfia – que perdeu quase tudo e vive de um modesto restaurante com o nome da amada ex-mulher, Adrian – precisará, mais que nunca, também aprender e se motivar com o jovem Adonis. Estabelece-se então mais uma bonita parceria do cinema que fala de boxe, com laços de família do coração que são criados por Rocky e o jovem que ainda precisa se provar para honrar o pai, o melhor pugilista da história no universo da série rockyana: Apollo Creed.

Emulando a força e beleza da ligação de pai e filha do treinador feito por Clint Eastwood com sua menina de ouro, mas sem as ironias e mau humor do treinador de Clint, Stallone- Rocky e o promissor Michael B. Jordan-Adonis vão construindo laços de afeto, respeito, confiança e amor que arrebatam quem assiste ao filme. Os laços são construídos aos poucos e daquela forma tão simples e humilde que compõe o cerne do pacato Rocky de sempre, um raro ex-astro e lenda eterna que manteve-se fiel ao seu caráter e jeito de ser de antes da fama.

A performance de Stallone-Rocky, que ao meu ver sempre foram a mesma pessoa, é tão cativante que o tão menosprezado (pela crítica) ator deve ganhar o Oscar de ator coadjuvante (já ganhou o Globo de Ouro). Stallone, que sempre fez Rocky com uma simbiose de brutalidade (no sentido de ser mais forte que hábil) no boxe e delicadeza de gestos e atitudes fora dele, faz com perfeição o mestre que extrai o melhor de seu pupilo não só na hora do pau das lutas. E está lá o mesmo chapeuzinho fora de moda, o andar balançando, a fala atrapalhada (pela paralisia facial de um lado que Stallone sempre teve). Essa fala e seus pensamentos, porém, que antes eram apenas ingenuidade e juventude, medo e vontade transformaram-se agora em música calma, quase uma oração.

A cada conversa com Adonis, o agora mestre Rocky – tão simples e realista como era seu falecido treinador, Mickey – oferece breves mas profundos sermões de vida real, batalhada, e não da religião. Palavras simples e impactantes. Pura sabedoria de quem saiu do nada, chegou ao topo e depois perdeu tudo – o título mundial, os entes queridos, o melhor amigo, o treinador quase pai – menos a integridade. Menos o saber o valor de cada luta e glória que enfrentou ou teve.

Sim, os críticos de má vontade ou os intelectuais céticos quanto ao valor ou poder do esporte debocharão das palavras de Rocky, chamarão de clichê ou autoajuda barata. Farão isso porque talvez não tenham sido meninos sonhadores ou românticos com ídolos a inspirá-los, jovens guerreiros e esperançosos ou adultos calejados por tantas batalhas perdidas, mas não todas. Para esses que ainda creem, que ainda se emocionam com o velho Rocky, o filme Creed envolve, toca, inspira e nos lembra do melhor e mais sincero de nós mesmos que um dia fomos. Um “melhor de nós” que um dia conhecemos na motivação profunda, mais que isso, inspiração, que as frases de Rocky e, claro, seus treinos malucos, rústicos, e a sua música contagiante nos davam. E ainda nos dão com esse maravilhoso Creed, um verdadeiro brinde de saudação e gratidão em homenagem a Rocky-Stallone oferecido por esse jovem diretor Ryan Coogler. E que lição linda Coogler nos dá, através de Adonis para um Rocky então muito machucado, reforçando o valor e laços de uma parceria de verdade: “Você luta, eu luto.” Que conselho vital e raro! nessa época em que o sistema estimula muito mais a luta, conduta e atitude pessoal, o cada um por si e quase ninguém por todos.

Não foi à toda que Stallone aceitou o convite para emprestar seu personagem ao filme. Imagino o que se passou em seu coração ao ler o roteiro de um filme feito em agradecimento a tudo o que ele sonhou, batalhou e venceu com Rocky. Talvez por isso sua atuação emula, segundo o maior crítico de cinema que conheço, Luiz Carlos Merten, do Estadão, simplesmente aquele que fez o Poderoso Chefão pós-enfarte. O velhinho, outro sábio e mestre, Merten, escreveu que “Marlon Brando encarna no garanhão italiano. Stallone está maravilhoso.”

Caramba: Brando? Não, meus amigos, ante a comparação de Merten, aposto que Stallone apenas diria que não representou nada, nem emulou o mito do cinema. Apenas deixou sua vida, que se confunde com a de Rocky, tomar as telas e nossos corações de lutadores.

Corações que volta e meia lembram de Rocky para não desanimar das pancadas e nocautes que a vida não cansa de dar.

Corações que, tocados por Creed, agora nos fazem lembrar dos mestres de nossas vidas, e que não vencemos sozinhos.

A vida não pode ser vencida com o embuste da mera autoajuda pessoal. Precisamos, demais, de quem nos treine, aprenda e lute com a gente.

Obrigado, Mestres.

Obrigado, Rocky-Stallone e Ryan Coogler.

 

Bra

O moleque que nada com a água

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No esporte e na vida, lutar, mesmo de forma incansável, muitas vezes não é suficiente para a vitória e evolução. Enquanto boa parte luta com a água a cada braçada (alguns até a espancam e esparramam jorros pra tudo quanto é lado), ele desliza, flui e avança tranquilo em alta velocidade (*).

Enquanto outros se matam para avançar, ele avança como um fenômeno da natureza. Silencioso, inabalável e determinado como o rio que corre até o mar.

– Incrível como o Ogawa não faz barulho ao nadar, digo ao treinador que comanda um treino à beira da piscina.

– Ele é um dos mais técnicos mesmo, responde.

Gabriel Ogawa foi um dos alunos mais distraídos e brincalhões que já tive. Um típico japonês porra louca que compensava tarefas de redação não feitas com tiradas perfeitas que mandava lá do fundão pra animar as aulas.

Sala de aula significa paredes. Prisão de horas e horas a cada manhã. Moleque doido com espírito de passarinho e peixe, era visível seu mal estar em ficar trancado ali tanto tempo. Acho que só não pirava pelo astral e presença de espírito e por não ter nada de outra prisão que atormenta adolescentes em anos de escola: a timidez e dificuldade de se expor e se comunicar.

Sabíamos que ele era um nadador mas não botávamos fé pela formação distante da “saradona” e por não ter muita altura.

O moleque, porém, era um campeão, e diziam que dava pau na molecada de sua idade na prova mais completa da natação, o medley (nunca soube se era mais forte nos 200 ou 400 metros).

Os anos se passaram, voltei ao clube onde na juventude eu treinara sonhando em ser campeão olímpico de atletismo e um dia o reencontrei nas alamedas do clube. O mesmo jeitão leve, divertido mas com uma pitada diferente que eu não sabia identificar o que era, nem o que significava.

O tempo passou mais um pouco e o diferente percebi ser o amadurecimento e a dedicação enorme à sua natação. Ele até saíra de sua casa, no distante bairro de Santana, para morar mais perto do seu clube, no apartamento de atletas. Mais um pouco e ele deixou o apê por não aguentar mais a infantilidade de alguns nadadores. Sim, o moleque seguia com aquele bom humor do passado, mas sabia que precisava de um lugar mais tranquilo para dormir e estar bem para os treinos e treinos dos dias seguintes.

A entrega às piscinas o fez ser convocado ano passado para a seleção brasileira no Mundial Adulto no Qatar e o garoto com empenho de homem feito é uma das promessas da natação brasileira hoje.

Foi nesse quadro que o vi nadar pela primeira vez, num simples treino.

Falando em simplicidade, Ogawa tem no currículo inúmeras conquistas dos tempos de categorias de formação, até os juvenis, juniores ou sub-18 (não sei como são divididas as categorias na natação), mas jamais demonstrou a mínima marra. A marra que toma muitos jovens nadadores, a maioria proveniente de classes mais favorecidas.

Lá vem então o japonês, chegando na lanchonete do clube para um rápido lanche. Lá vem ele com seu passo manso meio preguiçoso, tranquilão, e com aquele sorriso malandro de sempre e a mesma tirada sacana de sempre ao ver seu velho professor trabalhando no computador, “sai do Facebook”.

Mas lá vai ele também lembrar que o esporte não é tudo. Depois de ser sacaneado na universidade que não lhe deixava repor provas quando viajava para competir, ele vai recomeçar seu curso de games (sim, em curso superior!) em outra instituição.

Lá vai o japonês mais brasileiro que conheço, e talvez esse seja seu segredo além da técnica apurada nas raias: a simbiose entre a disciplina oriental e o astral inabalável de um brazuca legítimo que talvez signifique calma e frieza na pressão das competições.

Lá vai então o japonês mergulhar na piscina na hora do tiro leve como um passarinho brasileiro e focado como um Daniel San treinado pelo Senhor Myagi.

Vai pra cima, ziriguidun de olhos puxados e busca suas medalhas no duro tatame azul da natação adulta!

PS* – Claro que na hora dos tiros e da competição, ele deve espalhar água também pois as provas exigem também explosão, mas aposto que faz isso com um desperdício de energia menor que o da maioria.

O profissional apaixonado

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Poucos minutos antes do fim do jogo, Muricy o homenageou sacando-o do jogo para ser aplaudido e honrado pela massa. Impossível a emoção não envolver um sãopaulino ao ver o abraço, tão simbólico, que Rogério dá em Kaká antes dele se despedir da camisa que o formou e aprender a amar. Impossível não ficar feliz pelo instante bonito mas tão triste por esse jogador que se entrega tanto deixar nosso time. Impossível não perceber também, na atitude de Rogério, de atravessar o campo e ir até Kaká, que o goleiro já começa a adiada mas marcada despedida. Impossível não perceber como o São Paulo perde sem Kaká.

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Sim, o ex-melhor do mundo e mito do Milan, não é mais o mesmo tecnicamente, mas segue sendo um super profissional, mais que abnegado, que contagia uma equipe com tanta correria, briga e suor. Lá de cima, da arquibancada, dava pra perceber o cabelo molhado e a camisa encharcada e suja de tanto Kaká se movimentar por todas as faixas do campo. Diferente da maioria de jogadores de linha no ocaso de suas carreiras, que se poupam ou dá migué mesmo, Kaká ainda corre e luta em campo como um menino. E esse exemplo fará falta demais em uma equipe que tem alguns caráteres opostos ao seu.

Fazia muito tempo que eu não ia ao Morumbi. Fui por um único motivo: me despedir do jogador que devolveu ao São Paulo o seu time. Explico: Antes dele chegar o que se via era apenas um apanhado de bons jogadores que não engrenava, por falta de compromisso, doação e/ou união. A situação mudou demais com a chegada de Kaká. Se para um Álvaro Pereira o empenho não mudaria nada (pois o uruguaio já nasceu e cresceu lutando), para algumas estrelas do clube, como Pato, Luís Fabiano e, sobretudo, Ganso, aquela imagem do consagradíssimo Kaká chegando cedinho para treinar, correndo feito louco nos treinos e ainda indo embora bem depois do encerramento da labuta cotidiana, foi decisiva.

Seria necessária muita falta de vergonha na cara para alguns seguirem se dedicando pouco, no limite mínimo, ao perceberem o suor e a entrega de Kaká em cada treinamento e partida. Por isso que Pato e Ganso cresceram. E havia ainda o exemplo tático: rara espécie em extinção no futebol brasileira, a inteligência para se deslocar e jogar de Kaká fez crescer a produção de jogadores próximos dele, como Souza, além de obrigar que, lá vem ele de novo, Ganso também se deslocasse mais.

Mais que Rogério, que é o líder incontestável há anos e anos, mas que por isso mesmo deve ter um desgaste óbvio com alguns jogadores, Kaká foi o grande aglutinador do São Paulo renascido de 2014. Sim, a equipe não ganhou nada, mas da luta contra o rebaixamento o clube subiu para o vice nacional e uma boa participação na sul-americana. E, mais que isso, o apanhado sem liga se tornou um time sólido, competitivo, forte de novo.

Pena que foi apenas um breve retorno. Não rendeu títulos? Sim, mas espero que a lição de humildade, garra e solidariedade de Kaká não seja esquecida.

Temo, porém, que sua saída e exemplo (“porra, é o Kaká, se ele tá se matando assim, eu não posso me esconder”…) voltem a acomodar alguns jogadores, como aquele camisa 10 que ontem voltou à sua habitual apatia e participação “intensa” de um, dois bons passes e só.

Obrigado, e que pena já ir embora, Kaká, sua camisa e alma transbordante de valentia serão, creio eu, insubstituíveis.

a corrida eterna de assis

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assis

Até hoje, mais de 30 anos depois, a cena tão bela quanto dramática e emocionante me volta nítida. era o minuto final de um fla-flu eletrizante como eram os fla-flus dos tempos em que a maioria de nossos grandes jogadores e craques ainda desfilavam em nossos estádios. eram os tempos em que os campeonatos estaduais ainda tinham alto nível de competitividade e, acreditem, pobres jovens de hoje, dezenas e dezenas de milhares de pessoas iam em cada clássico. eram tempos ainda do maracanã lotado, do velho, mítico e enorme, colossal maracanã com sua geral do povão e aquela monumental marquise e arquibancada. eram tempos em que os estaduais muitas vezes eram tão valorizados como um campeonato brasileiro. eram os tempos em que o futebol ainda era arte no país do futebol arte. por isso tudo, quando o canhoto de fina estirpe assis arrancou pelo lado direito do campo, dezenas de milhares rubro-negros ficaram mudos, com medo daquele jogador que parecia crescer contra eles; e outras dezenas de milhares tricolores se levantaram hipnotizados, torcendo, sentindo, quase que sabendo… eram os tempos em que os títulos ainda eram decididos por grandes jogadores ou craques que se tornavam mitos ao realizarem jogadas maravilhosas que nunca acabaram no coração e memória de quem assistia aqueles jogos eternos.

aquela corrida de assis – que não era um jogador rápido, mas protegia a bola como poucos – jamais parou depois de receber aquele lançamento magistral de outro grande de sua época, delei. não parou nem depois dele invadir a área e na frente do grande raul, que cresceu pra cima dele protegendo sua meta e quase todos os ângulos. sim, assis quase parou, como fazem os grandes jogadores com culhões e calma para dar o último e mortal tiro, e com maestria deu um tapa na bola no único cantinho que raul não conseguiu esconder.

o golaço, gol de placa, gol histórico, gol monumental, um dos mais belos da história do estádio dos estádios, não encerrou a corrida de assis porque gols como esse a gente não para de rever como se quiséssemos resgatar e guardar uma das pequenas grandes belezas vitais de nossas vidas. sim, vital, porque o futebol arte é tão belo para quem cresceu louco pela bola e por seus ídolos e times como outras coisas importantes e fundamentais da vida.

para mim e tantos meninos que cresceram nos mágicos anos 80 de tantos craques, times fantásticos e daquela seleção cinematográfica e musical de mestre telê, o futebol arte é uma lembrança tão querida e valiosa como os melhores amigos, festas, brincadeiras e musas de nossa infância. de nossos anos dourados.

por isso o grande assis, que nos deixou agora, jamais parou de correr. um correr que deveria servir de aula para os alucinados jogadores brasileiros de hoje, porque o correr de assis era cadenciado, belo, elegante, um galope, quase um trote. um correr inteligente, do craque que sabia dosar o futebol de corpo e mente.

assis não precisaria ter feito mais nada na carreira do que essa corrida magistral, mas ele fez e ainda foi sempre um grande sujeito fora dos campos e ainda um parceiro mais que fiel do seu grande amigo dos gramados, o inseparável Washington que tantas glórias protagonizou junto dele.

mas vai lá, assis, corre, corre, continua a correr e dá um abraço lá em cima no velho amigo que o espera para mais uma jornada inesquecível do inesquecível casal 20 do futebol brasileiro. os gols, quantos gols!, voltarão a tomar conta do único campinho à altura do antigo, bom e velho maracanã de verdade: o céu.

assis e washington

(washington e assis)

 

Los herderos de Obdulio

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“¿Cómo lo hacemos eso con personas tan buenas?”, lamentó Obdulio por sentir la tristeza del pueblo brasileño después del Maracanazzo. Y días y años más tarde, tal vez toda su vida, al grande Obdulio nunca le gustó celebrar la conquista uruguaya espectacular y épica. Un poco debido a los dirigentes del fútbol de su país, que no toleraba, y al dolor dejado en la gente entonces muy amable y cordial del Brasil de la época.

Hoy, décadas más tarde, la cosa es diferente. Claro que todavía hay mucha “gente buena” entre los brasileños de las masas, verdaderos guerreiros y supervivientes de condiciones de vida cada vez más difíciles en metrópolis como Río y San Pablo. Pero quien estuvo recientemente en Uruguay siente que hay un espíritu más amigo, dulce y cordial en los orientales, mucho más que en el ex-país del fútbol.

Los uruguayos son hoy, en afectos y amabilidad, lo que los brasileños fueron 60 años atrás. Así que sería demasiado bello ganaren la Copa del Mundo, para dar una alegría inmensa para estas personas tan diferentes de esse mundo cada vez más beligerante. Un pueblo unido y que vive en paz, sin el cada vez más alto grado de violencia, por ejemplo, que azota la sociedade brasileña de hoy.

Fuese Obdulio vivo y daría cuenta de que los hombres del entrenador Tabárez (mucho más que un técnico, un educador y maestro) no merecen perder esta Copa del Mundo debido al que representan, como muy pocas selecciones de este planeta.

¿Que otros jugadores de una selección crearan una Fundación de caridad para ayudar a los necesitados de su país, como lo hicieron los hombres de la Celeste? ¿ Y que otro país ha creado, de la selección y de su entrenador-educador, un proyecto que forma no sólo los jugadores pero también ciudadanos en toda las categorías de base de Uruguay? Tal vez sólo los alemanes tienen un proyecto similar para abarcar fútbol con educación y ciudadanía.

¿Nosotros, los brasileños? Mientras que la misma máfia prosiga em comando de CBF, nunca tendremos un proyecto que sembre la educación y los valores más nobles entre nuestros jóvenes.

Obdulio estaría orgulloso de percibir que sus compatriotas conservan el mejor de lo que el ser humano fue um día. Un ser humano más tranquilo, más cariñoso, con un ritmo de vida salpicado por rituales diarios pequeños y lentos. Quienes todavía no perdieron los elementos esenciales que desaparecieron em países frenéticos o adictos a las tecnologías virtuales como el Brasil de hoy: convivencia, intercambio de gestos y afecto real, cara a cara. Si anteriormente los brasileños pondrian las sillas en la vereda y celebraban a los vecinos, prácticamente eso ya no existe. Distinto de la gente de frente para el río de la Plata o para los campos y la vida, que todavía se reúne en frente de sus casas para compartir un mate y las impresiones y sentimientos de cada día.

El uruguayo supo conservar el néctar más bello y antiguo de las relaciones humanas. Los que llaman este país de “viejo” por mirar apenas los edifícios antiguos y grises no veen que “viejo” en Uruguay es en la verdad esa rara preservación de la vida antigua en lo que tenia de mejor: en su ritmo más lento y vivido, sentido de verdad.

Por eso Uruguay debería ganar esta Copa y experimentar la catarsis de una grande victoria de nuevo. Y qué hermosa será la victoria celebrada con una ausencia total de estrellato y soberbia de los jugadores uruguayos y su postura muy lejana de los pop stars de buena parte de las estrellas del fútbol mundial.

!Qué bueno sería ver Lugano bajar del avión con la Copa en una mano y en el otro el mate para compartir la conquista y su “uruguaidade” con su Pueblo!

Que bueno para el fútbol y para el mundo sería presenciar el logro de un país, un pueblo y una selección tan puros; guardianes de una inocencia olvidada que aprecia la coexistencia y el ser antes del tener posesiones y mucha plata.

Sí, en 1950 Obdulio sufrió con el silencio y la tristeza de Brasil. Pero el gran capitán puede no haberse dado cuenta que su corazón era mayor que el dolor de los brasileños.

Y Obdulio también no pudo prever, décadas después, que su espíritu, nobleza de valores, talento y fuerza hicieron su aparición en los hombres de Tabárez. En los hombres que llevan en sus pechos la misma grandeza, simplicidad y belleza humana del mito.

Ya es hora de otros mitos. En el mismo Uruguay. Sí, no tienes el paisito una arquitectura moderna, desgastada a través de los siglos (lo único visto por los turistas sin alma), pero esa es una de las sociedades más modernas, avanzadas y respetuosa de este planeta. El país que acepta los matrimonios homosexuales, que legalizaron el aborto y busca un nuevo medio de combate a las drogas. El país en el que su Presidente abdicó de vivir en un palacio para continuar en su sitio y donar el 90% de su salario a los necesitados, gran Mujica.

!Para un mundo mejor, ven y levanta la Copa, Lugano! Seguro que Obdulio, Mujica y la garra charrua habitan en su pecho y en esa camisa como el corazón inmenso late dentro de su pueblo.

La humanidad, para ser rescatada, necesita del triunfo de Uruguay.

Que en el 13 de julio la mística sea suplantada por la más bella realidad.

(PS – Perdón por mi pobre español al escribir)

O homem do fundo da vida

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20 anos sem ele e quanta falta que ainda nos faz. A saudade, não só do piloto e gênio das pistas mas, sobretudo, do homem. Do ser humano nascido em berço de ouro que não deixava de olhar em volta dele, dos que nasceram sem quase nada. A palavra, talvez exata e símbolo de tudo que ele fez e representou é simples e vital: profundo. Dissequemos então como essa palavrinha, na verdade seu próprio modo de ser e viver, marcou sua vida e a de tantos nós, no Brasil e mundo todo.

“Acelera, Ayrton!” poderia ser apenas o grito entusiasmado de Galvão Bueno e todos seus admiradores, mas era a senha para nós também acelerarmos, em nossas vidas. Para pisarmos fundo com mais garra, arrojo, coragem; para assumirmos os tão necessários riscos, que podem nos levar longe. Longe como nossos sonhos mais sinceros. Para acelerarmos “sem puxar o bico”, frear ou reduzir a marcha. Acelerar e ultrapassar limites e concorrentes; e lutar exatamente como o clichê, “como se não houvesse amanhã”.

Por outro lado, Senna era e inspirava também o oposto desse pé na tábua sem medo. Bastava ver seu rosto fora de um cockpit e capacete para percebermos sua serenidade e algo iluminado que vinha de seus olhos e nos acalmava ou simplesmente nos fazia parar e prestar atenção. Aqui o Ayrton que reduzia a velocidade até parar totalmente também nos inspirava a fazer o mesmo. A dar um tempo. A sentir de forma menos passional mas super amorosa. A pensar, refletir e esternar isso como ele fazia em seus depoimentos poderosos. Pensamentos tão intensos – carregados de valores, exemplos e lições – que mexiam com a gente como mantras. Por isso suas falas eram muito mais belas, verdadeiras e eficientes que qualquer autor picareta de autoajuda.

Nessas falas, declaradas para realmente conversar com quem o admirava e para tentar transmitir algo importante com naturalidade, Senna tocava aquela palavrinha mágica, bela e tão necessária que disparou esse texto: o “profundo”.

Incrível como suas palavras vinham das cavernas mais autênticas e sentidas de seu coração e mente e nos tocavam com a mesma força de suas ultrapassagens espetaculares.

Incrível como o ídolo – espécie em geral distante e em outro plano, como um super-herói – em Senna se tornava próximo e humano quando diante de uma câmera de TV fora das corridas.

Incrível como um herói podia nos mirar com aquele olhar oceânico, falar com aquele tom de voz tão calmo quanto sábio e dizer coisas tão importantes para nosso dia-a-dia e vida.

Incrível como ele nos motivava a seguir seus conselhos, exemplos e sugestões de caminhos.

Incrível como um profissional de algo tão distante, para a maioria dos brasileiros, como a Fórmula 1, podia se aproximar e cativar milhões que simplesmente não tinham carro e muitos jamais teriam. Só mesmo algo mais forte que seu talento, trabalho e genialidade para fazer isso com este povo.

Só mesmo essa aura profunda, quase mística, e ao mesmo tempo tão humana e próxima da gente.

Talvez um pouco por isso, por essa capacidade de “escavar” os sentimentos e pensamentos que Senna me transmitiu, que eu goste e cobre tanto essa palavra nos estudos, atitudes e textos dos meus alunos e jovens com quem convivo. Por isso que quando eles se jogam de mente e coração nas redações eu elogio suas palavras “profundas” e as valorizo muito mais que um português irretocável. Elogio a beleza e superação de terem ido longe dentro de si e na análise do mundo para construírem redações iluminadas.

Continuem então, queridos alunos de ontem e hoje, velhos amigos, familiares e raros leitores de textos longos como esse, a pisarem fundo seguindo o exemplo de capacidade, empenho, fé e garra de Senna.

Continuem a explorar o valor de serem profundos em uma época cada vez mais superficial, apressada (nada a ver com a velocidade de Senna), efêmera e vazia na reflexão e convivência. Procurem, como Senna, as palavras e gestos que realmente podem estabelecer uma conexão com os outros, e olhe que nem falei da preocupação social que ele tinha e que gerou, após sua morte, o Instituto Ayrton Senna, simplesmente a ONG que atende mais crianças em todo o Brasil com um programa belíssimo de educação complementada com arte e esporte.

Pisem fundo não apenas nas corridas de suas vidas, mas colaborem também com essa enorme equipe tão fragilizada e cheia de carências chamada Brasil. Procurem não apenas se espelhar em bons modelos, mas inspirar os outros, e olha que tem muitos precisando dessa força e chama.

Podemos ser o motor de pequenas e enormes revoluções positivas como foi o Ayrton Senna, como bem definiu Galvão, do Brasil!!!!!

Um pôr-do-sol infinito chamado Rogério Ceni

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 Ninguém se despede de um grande amor lentamente. Só o atleta que chega naquilo que os antigos chamavam de “o ocaso de uma carreira”.

Nenhum grande amor termina de forma tão dolorosa como a do grande ídolo que vai partindo, porque sente que o fim está chegando.
Sente a dor em cada músculo; em cada pé, joelho, ombro e braço que se machuca e não se recupera mais facilmente como antes. Agora a dor demora a partir e o ídolo, grande que é, apaixonado que é, não vai esperar a dor ceder. 
Porque a dor de não jogar será maior perto do fim. Rasgará a alma de quem está cruzando as últimas curvas.
E pesa ainda a responsabilidade de ser amado. O grande ídolo não quer se ausentar em seus últimos momentos, em seus últimos jogos, em seu últimos campeonatos.
Não quer magoar seu grande amor: o distintivo que bate no meio do peito dos que torcem por ele. Um distintivo que é, para o ídolo de verdade, a mesma coisa que o torcedor que o ama com respeito e gratidão.
Por isso é tão duro quando o grande ídolo escuta o burburinho sinistro de algumas críticas que vêm de onde ele menos esperava: daqueles que amava. Daqueles que o amavam.
Nada é mais belo que o amor. Mas nada dói mais que o amor que nos abandona, que não nos ama mais.
Nada é mais duro que jogar-viver machucado e falhar. Porque o ser humano perde o respeito ou desama com facilidade. Não importa a muitos que alguém está lá, no sacrifício, jogando-defendendo por eles. Importa que esse alguém falhou.
Não foi no jogo contra o Strongest, na Bolívia, que Rogério falhou pela primeira vez em um jogo decisivo. Houve outras falhas antes, raríssimas, mas houve. Não foi a primeira vez que ele foi criticado por quem antes só o venerava. O caso é que a crítica, quando perto do fim, costuma ser ainda mais dura, porque vem acompanhada de uma cobrança cruel: “Está na hora de se aposentar”.
Os críticos não ligaram se ele se machucara feio contra o Corinthians.
Os críticos não ligaram para a sua história, tão grandiosa que parece lenda.
Ele ligou. Ele sentiu o baque.
Pior: temeu encerrar a carreira de forma deprimente, eliminado em sua própria casa do campeonato que sempre foi sua paixão eterna como se fosse aquele mesmo garoto sedento de glórias que esperava uma chance para substituir outro grande goleiro, Zétti.
Ocorre que a vida dos grandes personagens costuma não se encerrar de forma melancólica. Ocorre que há algo lá em cima, para os que creem; ou algo que vem do coração energético do mundo, para os céticos, que não aceita que histórias maravilhosas como a deste homem do número 01 às costas acabe desta forma, de repente, como uma bomba que dá chabu ou uma paixão que não se torna amor.
Ocorre que as forças ocultas, mas presentes da humanidade, tecem a vida dos grandes como uma história fantástica, um conto de fadas, uma lenda.
Ocorre que mesmo quando o grande ídolo estava rodeado de um grupo então apático, derrotado, condenado, eis que a sua alma e poder contagiou seus companheiros, e o amor dos milhares que amavam de verdade o seu distintivo também fez a sua parte.
Ocorre que um atacante sem muitos recursos técnicos, mas com uma garra e valentia monumental, disputava cada bola como se sua vida dependesse dela. 
Ocorre que junto desse possuído corria um baixinho que enfrentou todas as privações e dores que significa ser uma criança pobre no Nordeste miserável.
Ocorre que o baixinho que venceu seu destino, Osvaldo, enfiou um passe de mágica para Aloísio.
Ocorre que o atacante sempre possuído como seu apelido, Boi Bandido, matou a bola no peito e preparou-se para marcar, mas foi derrubado. Pênalti.
Ocorre que ele, o homem que se despede lentamente de seu grande amor, começou a caminhar lentamente da sua meta, do seu lar, do seu amor, da sua fortaleza, até a muralha inimiga; a muralha que jamais teve medo de enfrentar porque um dia, revolucionário, decidiu que não apenas evitaria gols, mas os marcaria.
Ocorre que um estádio inteiro, em seu Morumbi, e outros estádios inteiros, no coração de todo são-paulino que não pôde ir ao jogo, cantaram, gritaram e bradaram o seu nome.
Ocorre que enquanto ele se ajeitava para cobrar o pênalti que só ele poderia cobrar, porque só ele teria a coragem de cobrar, o mundo inteiro de sãopaulinos ficou com os olhos cheios e subitamente sem voz ou respiração.
Ocorre que alguns de nós, sim, temíamos pela injustiça dele falhar e ser considerado o responsável por uma despedida que não seria apenas de nosso time, mas dele mesmo.
Ocorre que ele jamais duvidou.
Por isso ele caminhou de novo lentamente para a bola, talvez porque só lentamente que ele e nós poderíamos relembrar tudo o que ele já fez, todas as defesas, todos os gols, todos os títulos, todo o filme ou na verdade, série de filmes que ele viveu em sua carreira tão longa que parecia infinita, ainda parece.
Por isso ele de novo cerrou todos os músculos de sua face antes de, quase parado, bater na bola com a decisão, calma e querer do homem que deseja e precisa falar algo para sua amada pela última vez.
Por isso ele marcou de novo.
Porque um grande amor, como o grito dos radialistas, Rogériooooooooooooooooooooo!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
… não termina nunca.

Lucas – O menino que não se acovardou

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O caso deve ser único no futebol mundial, do jogador já vendido que em vez de se resguardar, passa a jogar com uma coragem e uma determinação maior. Do jovem que em vez de se poupar, sonhando já com a fortuna que fará na Europa, simplesmente não pensa no futuro e apenas se agarra com uma paixão extraordinária, rara, ao clube que o revelou, ao clube que aprendeu a amar. O que Lucas fez neste segundo semestre de 2012 é por isso tudo uma das mais belas histórias de amor de um atleta à camisa que defendia. E imaginem como ele deve ter enfrentado e ignorado a influência de muitas vozes ligadas ao seu staff profissional pessoal – sobretudo seu empresário, velha raposa do mundo da bola – para jogar desse jeito, com algo maior que a já imensa palavra coragem.
Sim, algo mais elevado que coragem foi o que entregou nos gramados esse menino que mesmo vendido passou a partir pra cima com ainda mais vontade pra cima de seus marcadores, e ainda não tirou o pé das divididas, e deu combate recuperando muitas bolas – início de contra-ataques mortais.
Algo mais elevado fez o menino que, diferente de muitas promessas só pra agradar a torcida, típicas das estrelas do futebol, realmente lutou com tudo e mais do que podia por um título. Mais do que podia porque o Lucas antes de ser negociado era já um talento enorme, mas não ainda esse guerreiro de filme medieval a enfrentar no peito, na canela e na raça a fúria e selvageria dos inimigos.
Esse algo que Lucas deixou no gramado do Morumbi e nas arenas sangrentas do Chile e Argentina sob a conivência de árbitros medíocres, foi aquele sentimento quase extinto no futebol, o velho amor à camisa. Não aquele amor da boca pra fora pra seduzir a arquibancada e a mídia, mas um legítimo, nobre e digno sentimento verdadeiro.
Um amor verdadeiro que ele não conseguiu esconder ao ficar um tempão pra deixar o gramado do CT da Barra Funda no seu último treino. Ele simplesmente não queria deixar o campo. Simplesmente não queria ir embora, como transpareceu em mais uma despedida, a sua última entrevista no CT. Ali, emocionado, ele revelava em sua face transparente, sincera, o quanto amava o seu São Paulo. Por isso, quando alguns de seus companheiros invadiram a entrevista, ele não conteve as lágrimas, mesmo em meio à imaturidade e deselegância dos colegas, que em vez de apenas lhe darem um abraço, deram-lhe um banho e alguns tapas na cabeça. Graças que pelo menos o comportamento juvenil (típico de jogadores de futebol brasileiros…) logo virou apenas abraços e um bonito choro coletivo.
Falando em coletivo, em grupo, até nisso o amor enorme e sincero de Lucas pelo São Paulo nesses últimos meses o mudou para melhor. Se antes ele abusava do individualismo e não levantava a cabeça – e por isso o criticamos bastante – a sensação de que sua despedida estava se aproximando o fez olhar mais para os companheiros e ganhar espírito de grupo dentro de campo (fora ele sempre teve esse espírito). Adicionando a isso a mão de Ney Franco em prol desse jogo coletivo (e bem jogando, valorizando a arte e a posse de bola), Lucas cresceu tanto que foi capaz de dar aquela maravilhosa assistência para Osvaldo fazer o gol do título da Sul-Americana.
Isso que é amor: um menino que vira homem e um jogador que escuta, aprende e evolui porque deseja o melhor para o seu clube, para o seu amor.
Um dos amores mais dignos e puros que o futebol e nosso São Paulo já viram. Um amor sem gestos e declarações ensaiadas. Um amor tão apaixonado em campo quanto racional, equilibrado, de um garoto que mesmo tomando mais pancadas que qualquer um de seus companheiros, jamais revidou um pontapé, jamais revidou uma agressão.
Fez isso tudo porque quem ama de verdade não deixa seu amor sozinho.
Obrigado por nos amar com tanta beleza e verdade.
Obrigado por nos reconduzir ao lugar mágico do qual tínhamos tanta saudade.
Obrigado por ajudar a transformar um grupo apático em uma equipe aguerrida e impregnada daquilo intraduzível chamado alma.
A alma de um legítimo fabuloso campeão e ser humano com que você contagiou nosso time até esse título que você nos prometeu e entregou, dentro de campo.
Fica agora um vazio perigoso.
Porque nossa maior arma foi embora e metade do nosso coração.
Que a outra metade, nosso capitão generoso (nobre atitude, repetindo Puyol, de homenagear um companheiro na hora de levantar a taça) semeie na equipe os maravilhosos sentimentos e ações que você nos ensinou nesses meses inesquecíveis.
Adeus, Lucas.
Adeus, Sãopaulino.
(PS – Menção especial ao irmão coragem de Lucas neste São Paulo: Osvaldo. Um jogador pouco badalado, mas que como Lucas nas horas mais difíceis e sangrentas, se agiganta, aparece, enfrenta a carnificina sem reclamar e ainda é capaz de fazer gols maravilhosos, quase impossíveis como aquele toque sutil por cobertura quase sem ângulo do gol que decretou nosso título e enterrou de vez o adversário mais sujo e violento que tivemos em nossa história).

20 anos do sonho da América

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Ainda hoje aquele pôster – amassado, rasgado e envelhecido pelo tempo – está pendurado no velho quarto de um garoto que virou quarentão mas não o esqueceu. Nele vemos um raro caso de guerreiro elegante. A camisa está manchada de terra, na verdade enobrecida da terra e do chão do qual ele não tinha medo. O chão no qual ele se atirava numa jogada típica, o carrinho que dava para recuperar a bola nas laterais do campo, lugares que ele sabia que resultariam em contra-ataques mortais. Este era o lado guerreiro, de quem dividia sem medo e enfrentava no peito os mais duros marcadores rivais, em qualquer pedaço do campo. Havia também a elegância, o porte altivo, corpo e mente ereta, de quem jogava o fino e com inteligência, com toques refinados, passes precisos e solidários, chutes tão violentos quanto precisos, e cabeçadas que eram tiros de canhão. Até hoje, 20 anos depois, Raí segue dependurado na parede da velha casa dos meus pais e não cai. Porque aquele São Paulo era derrubador, brigador, vencedor. Conquistador da primeira Libertadores tricolor. A até hoje talvez mais bela taça que conquistamos, por seu significado e dificuldade.
    Eram 105 mil são-paulinos no Morumbi lotado e duvido desse número, pois passei o jogo todo espremido em um dos últimos lances da arquibancada, o que fez muito jornalista falar em pelo menos 120 mil torcedores naquela noite. A mãe de todas as noites gloriosas do São Paulo de Raí, outros fantásticos jogadores e, claro, mestre Telê. Resgatando hoje a escalação, o esquadrão é monumental: O seguríssimo e heroico Zétti (e ainda um ser humano sensacional), o multihomem em campo, Cafu, o clássico e raçudo Antonio Carlos, a muralha Ronaldão e o vigoroso mas inconstante Ivan (não naquela final), típico caso de jogador que só brilhava e arrebentava sob o comando e orientação de mestre Telê. No meio-campo, o cão de guarda mas bom no primeiro ou segundo passe (diferente dos meros brucutus de hoje) e uma das almas do time, o sempre enlouquecidamente mais que raçudo, Pintado. Ao seu lado na proteção da zaga e início dos contra-ataques infernais tricolores, o clássico e nobre zagueiro central, deslocado por Telê, Adílson, quase um líbero, pois Telê era, sim, bom em tática também, como não acreditavam seus críticos. Um pouco mais à frente, capitão, líder e matador Raí comandando as ações ofensivas com o homem de papel, fluído, quase etéreo, mas ilusionista, rapidíssimo e inteligente nos toques rápidos, além de goleador, Palhinha. Já no ataque, mas volta e meia recuando um pouco para armarem tabelinhas sensacionais, o genial Müller, tão flecha quanto arco de boa parte dos gols tricolores. Junto dele, do outro lado, o veloz e não tão inteligente Elivélton, mas hábil e de chute forte. E se Müller, coisa rara, não estava bem, houve o amalucado mas habilidoso e supersônico Macedo no banco para entrar e sofrer o pênalti que nos daria a vitória necessária para levarmos o jogo aos pênaltis.
Pênalti que Raí encarou com a frieza de valente dos valentes, caixa, 1 a 0 igual ao placar da derrota na Argentina contra esse lutador Newell´s Old Boys comandando por um certo Marcelo Bielsa…
Veio então a decisão por pênaltis e aí brilhou não só o heroísmo e técnica de Zétti mas um dos diferenciais daquele São Paulo de outros tempos: o trabalho bem feito nos bastidores e preparação da equipe. Zétti sabia para onde pular porque seu treinador, e observador de todos os adversários do time naquela Libertadores, já tinha mapeado a cobrança dos jogadores do Newell´s. Falo de Valdir de  Moraes, ele mesmo, aquele que depois ainda formaria um certo Marcos no rival alviverde. E ainda havia na comissão técnica tricolor Moraci Santana e Turíbio de Barros, comandantes de toda a preparação física e fisiológica dos jogadores naquela Libertadores.
Falta ainda o Mestre Telê Santana. E o que eu posso dizer de um treinador que montou um time sensacional desse, como mostra a escalação? O que dizer de um treinador que baseou seu time em pegada, sim (Ronaldão e Pintado na chefia do jogo duro mas na bola), mas também nas maravilhosas tabelinhas entre Raí, Palhinha, Müller e Elivélton? O que dizer de um treinador que morava no CT do São Paulo e investigava todos os dias os gramados para quem nenhum buraco machucasse seus atletas ou prejudicasse o toque de bola conduzido por Raí e cia? O que dizer de um mestre sem frescuras e vaidades, que só se importava em treinar e treinar, bem diferente dos treinadores pop stars que infestariam o futebol brasileiro e mundial em pouco tempo? O que dizer de um perfeccionista e raro treinador formador de jogadores completos, que exigia a repetição dos fundamentos básicos do passe, cruzamento, tabela e chutes? O que dizer de um mestre amado para sempre, até hoje cantado com saudade no seu templo e imensa sala de aula do Morumbi?
Bonita ontem (antes da pelada de mau gosto contra o Atlético…), a homenagem aos homens e heróis que começaram duas décadas atrás o sonho de nos tornarmos o melhor time do mundo. Só não concordei com os jogadores de hoje estamparem em suas camisas os nomes dos nossos heróis.  
Nunca vi, por exemplo, o Maestro Raí maltratar a bola, não dar o sangue ou reclamar de uma marcação do árbitro… Nunca vi o maior jogador de nossa história nos deixar na mão.
Raí só nos deixava nas nuvens. No topo do mundo.

* Textinho do Maestro sobre a Libertadores de 1992 aqui