Amigos de sangue

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amandaComeço esse texto aqui da escola onde a conhecemos. Onde ela fazia aquela cara feia pra gente (quando estava brava, o bicho pegava, eita personalidade forte!) ou onde dava aquele sorriso de cantinho de lábios enquanto dava aquela olhadinha marota, uma marca das Carneiro Valillo! Escrevo pertinho da sala onde ela dava tanto carinho e atenção pra gente, usando os olhos como uma extensão do coração e também como atenção enorme que oferecia tanto para esse seu professor durante as aulas como para seus colegas.

Escrevo de onde a gente aprendeu a dar risada dos seus “defeitos” (ficava pior que boi bravo de rodeio quando era contrariada ou tomava uma bronca!) e ser tocado por suas qualidades.

Qualidades que essa menina especial formada no Uirapuru e no Horizontes-Uirapuru não deixou de nos oferecer nem quando ela encerrou seu ciclo na escola. Porque tá aí uma menina que não deixou de semear amor pra gente mesmo com o tão cruel correr dos anos, verdadeira amnésia para a maioria. Tá aí uma raríssima menina, logo mulher, que soube, como poucas, usar com beleza uma simples rede social virtual como esse FB. Soube usar com palavras tão belas que podíamos sentir, de verdade, o seu bem querer. Um afeto poderoso que foi uma das forças que fez esse seu então meio maluco professor suportar o que eu chamo de “os anos duros”.

Nos anos em que mais precisei e, por uma benção ou incrível sexto sentido dela, quando eu estava no dia mais bad trip possível eis que eu recebia uma mensagem dela Mensagem coisa nenhuma, ela escrevia verdadeiras cartas e minha caixa virtual me lembrava a saudosa sensação de abrir o envelope e ler palavras escritas com tinta e sangue.

Sangue Amanda sempre teve demais, conseguia fazer palavras tecladas penetrarem em nossas veias e limparem todos nosso medos, dores e vazios como se ela fizesse uma transfusão de abraços, amparo e afeto verdadeiro mesmo por trás de uma tela fria de um computador.

Nos dias mais sombrios suas mensagens surgiam bombando feito uma onda inesperada e suas palavras azuis nos empurravam, levantavam e nos davam coragem de voltar a surfar a vida de novo.

Imagino quantas outras tantas ondas a Amanda soprou para outras pessoas. Imagino quantas amizades com amor ela semeou com sua capacidade revolucionária de dar calor e sentido a essa frieza das relações virtuais.

Imagino quantas pessoas ela ajudou a encorajar, a bater forte dentro do peito, a dar aquele sorriso gostoso de quando recebemos palavras de verdade, escritas com amor, e não apenas como rápidas tecladas.

Imagino quantas veias e artérias ela ajudou a correr forte de novo, purificando o sangue de nossas esperanças e nossas qualidades. Incrível como a Amandinha sempre nos fazia lembrar do melhor de nós mesmos.

Por tudo que ela nos deu está na hora de retribuirmos agora com as nossas veias. Com o fluxo vital de nossa amizade-amor. Está na hora de bombarmos o sangue de nossa gratidão em suas veias que um dia nos aliviaram e confortaram tanto.

Está na hora de todo o Horizontes e Uirapuru que foram tocados por ela se transformarem em uma única e vital corrente. Um único coração.

Por você, querida. Obrigado por tudo e temos certeza que, guerreira e valente como sempre foi, sairá dessa. Vai pra cima, Amandinha! E pode deixar que injetaremos muito combustível em seu coração de boxeadora! Vai e mete porrada nisso que a gente estará com você! Sempre!

PS – Sabadão de manhã estarei lá e convoco meus queridos ex-alunos e ex-alunas que a conheceram a fazer o mesmo: doar nosso sangue por ela e para outras pessoas que também precisam. O local onde devemos doar é o Centro de Hematologia de São Paulo. Av. Brigadeiro Luis Antonio, 2533 – Horário: 2a a 6a das 8:00 às 17:00hs e Sábados das 8:00 as 15:00hs. Chegando lá é só falar o nome dela: Amanda Carneiro Vallilo. Ah, a Amandinha pode receber qualquer tipo sanguíneo.

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O homem do fundo da vida

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senna e cao

20 anos sem ele e quanta falta que ainda nos faz. A saudade, não só do piloto e gênio das pistas mas, sobretudo, do homem. Do ser humano nascido em berço de ouro que não deixava de olhar em volta dele, dos que nasceram sem quase nada. A palavra, talvez exata e símbolo de tudo que ele fez e representou é simples e vital: profundo. Dissequemos então como essa palavrinha, na verdade seu próprio modo de ser e viver, marcou sua vida e a de tantos nós, no Brasil e mundo todo.

“Acelera, Ayrton!” poderia ser apenas o grito entusiasmado de Galvão Bueno e todos seus admiradores, mas era a senha para nós também acelerarmos, em nossas vidas. Para pisarmos fundo com mais garra, arrojo, coragem; para assumirmos os tão necessários riscos, que podem nos levar longe. Longe como nossos sonhos mais sinceros. Para acelerarmos “sem puxar o bico”, frear ou reduzir a marcha. Acelerar e ultrapassar limites e concorrentes; e lutar exatamente como o clichê, “como se não houvesse amanhã”.

Por outro lado, Senna era e inspirava também o oposto desse pé na tábua sem medo. Bastava ver seu rosto fora de um cockpit e capacete para percebermos sua serenidade e algo iluminado que vinha de seus olhos e nos acalmava ou simplesmente nos fazia parar e prestar atenção. Aqui o Ayrton que reduzia a velocidade até parar totalmente também nos inspirava a fazer o mesmo. A dar um tempo. A sentir de forma menos passional mas super amorosa. A pensar, refletir e esternar isso como ele fazia em seus depoimentos poderosos. Pensamentos tão intensos – carregados de valores, exemplos e lições – que mexiam com a gente como mantras. Por isso suas falas eram muito mais belas, verdadeiras e eficientes que qualquer autor picareta de autoajuda.

Nessas falas, declaradas para realmente conversar com quem o admirava e para tentar transmitir algo importante com naturalidade, Senna tocava aquela palavrinha mágica, bela e tão necessária que disparou esse texto: o “profundo”.

Incrível como suas palavras vinham das cavernas mais autênticas e sentidas de seu coração e mente e nos tocavam com a mesma força de suas ultrapassagens espetaculares.

Incrível como o ídolo – espécie em geral distante e em outro plano, como um super-herói – em Senna se tornava próximo e humano quando diante de uma câmera de TV fora das corridas.

Incrível como um herói podia nos mirar com aquele olhar oceânico, falar com aquele tom de voz tão calmo quanto sábio e dizer coisas tão importantes para nosso dia-a-dia e vida.

Incrível como ele nos motivava a seguir seus conselhos, exemplos e sugestões de caminhos.

Incrível como um profissional de algo tão distante, para a maioria dos brasileiros, como a Fórmula 1, podia se aproximar e cativar milhões que simplesmente não tinham carro e muitos jamais teriam. Só mesmo algo mais forte que seu talento, trabalho e genialidade para fazer isso com este povo.

Só mesmo essa aura profunda, quase mística, e ao mesmo tempo tão humana e próxima da gente.

Talvez um pouco por isso, por essa capacidade de “escavar” os sentimentos e pensamentos que Senna me transmitiu, que eu goste e cobre tanto essa palavra nos estudos, atitudes e textos dos meus alunos e jovens com quem convivo. Por isso que quando eles se jogam de mente e coração nas redações eu elogio suas palavras “profundas” e as valorizo muito mais que um português irretocável. Elogio a beleza e superação de terem ido longe dentro de si e na análise do mundo para construírem redações iluminadas.

Continuem então, queridos alunos de ontem e hoje, velhos amigos, familiares e raros leitores de textos longos como esse, a pisarem fundo seguindo o exemplo de capacidade, empenho, fé e garra de Senna.

Continuem a explorar o valor de serem profundos em uma época cada vez mais superficial, apressada (nada a ver com a velocidade de Senna), efêmera e vazia na reflexão e convivência. Procurem, como Senna, as palavras e gestos que realmente podem estabelecer uma conexão com os outros, e olhe que nem falei da preocupação social que ele tinha e que gerou, após sua morte, o Instituto Ayrton Senna, simplesmente a ONG que atende mais crianças em todo o Brasil com um programa belíssimo de educação complementada com arte e esporte.

Pisem fundo não apenas nas corridas de suas vidas, mas colaborem também com essa enorme equipe tão fragilizada e cheia de carências chamada Brasil. Procurem não apenas se espelhar em bons modelos, mas inspirar os outros, e olha que tem muitos precisando dessa força e chama.

Podemos ser o motor de pequenas e enormes revoluções positivas como foi o Ayrton Senna, como bem definiu Galvão, do Brasil!!!!!

O homem que nos fez amar o esporte e mais a vida

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luciano do valle

“Jamais morrerá o narrador cuja voz está impregnada na memória afetiva de gerações, por ser a referência sonora de tantos e tantos momentos que não se apagarão. Luciano do Valle é o timbre de uma época, o condutor de emoções que não se separarão da maneira como ele as descreveu. Feche os olhos, escolha um desses momentos e ouça. Luciano continua narrando.” (André Kfouri, no Lance! de hoje)

As primeiras lembranças marcantes que temos do esporte em nossas vidas vêm das primeiras grandes partidas e ídolos iniciais de nosso time do coração. Mas o poder da voz de Luciano de Valle era tão profunda que menos de um ano depois de minhas primeiras recordações de alegrias com meu São Paulo de Valdir Peres, Chicão, Serginho, Zé Sérgio e cia (campeão brasileiro de 77), foi a sua voz que também ficou gravada na porção mais bela e preservada da memória de meu coração. Mais que isso, foi sua narração apaixonada (na medida justa, com o grito mas sem o exagero dos berros seguidos de outros locutores da TV) que talvez me fizeram me tornar, definitivamente, um fanático esportivo. E um fanático sempre a escolher um lado pelo qual torcer, sempre explodindo de alegria ou tristeza com as vitórias e derrotas.

Foi em 1978. Como esquecer as antológicas narrações, mais que isso, descrições vivas, das bombas de Nelinho e Dirceu da seleção brasileira na Copa da Argentina? Luciano, em sua 1ª Copa, já era tão bom que fez até aquela seleção confusa de Coutinho parecer melhor do que era. Apenas parecia, porque mesmo com aquele jogo vergonhoso dos hermanos contra o Peru, era muito melhor mesmo a poderosa seleção local. A Argentina cantada com emoção, e respeito à rara alquimia de beleza e raça de seu jogo, por Luciano. Por isso até hoje escuto Luciano recitando a magia de Fillol, Passarela, Tarantini, Luque, Ardilles, Villa, Olguín e, claro, ele, o primeiro super craque que conheci na vida, o matador cheio de estilo Mario Kempes.

Foi também em 1978 que o Brasil explodiu de alegria com aquela narração do finalzinho da disputa da medalha de bronze do Mundial masculino de basquete. Lá das Filipinas, num jogo de manhã cedinho, Luciano narrou, como se pressentisse o milagre, “3, 2, 1, Marceeeeelllllllllllllllll, cesta para o Brasil!!!!!!!”. Sim, a incrível cesta de Marcel que nos fez virar o jogo e ganhar o bronze da Itália por um pontinho. E Luciano ajudou em todo o Mundial o Brasil a perceber o talento de uma geração fantástica dos então jovens Marcel e Oscar.

Poucos anos depois o mesmo Luciano praticamente apresentou o voleibol ao brasileiro. Com seu talento imenso para descrever as jogadas de uma modalidade então ignorada e desprezada no país, ele fez o país simplesmente se apaixonar pelo vôlei. Foi graças, muito a ele, que o vôlei explodiu com seu canto emocionado dos saques, levantadas e cortadas mágicas de Renan, Bernard, William, Xandó e cia, isso sem falar no seu papel de criador de nossas primeiras musas desse esporte, Isabel, Jaqueline e Vera Mossa.

A emoção e paixão que pelo vôlei que Luciano semeou foi tão grande que a molecada passou até a jogar esse esporte na rua, como eu e meus vizinhos fazíamos: a rede era o portão da antiga Sears defronte a nossas casas. Alguns meninos pulavam o portão e jogavam de dentro da empresa, e outros jogavam na calçada e começo da rua.

Nos anos seguintes, seria dele também a perfeita descrição de um time fantástico, que dava recitais com um toque de bola magistral, falo do Flamengo de Zico e também Leandro, Junior, Andrade, Adílio, Tita, Nunes e cia.

1982. Na Copa das Copas para qualquer brasileiro de 45 anos para cima hoje, Luciano declamou em prosa e poesia a mais bela seleção brasileira que eu e muitos da minha geração viram jogar-encantar: o Brasil de Mestre Telê e seus super craques Falcão, Cerezzo, Sócrates, Zico, Leandro, Júnior e Éder. Até hoje a locução de Luciano naquele Mundial é considerada, por muitos, a mais perfeita narração da história do jornalismo esportivo brasileiro na TV.

Um ano depois foi de Luciano, claro, a voz que apresentou aos brasileiros, no Mundial feminino de basquete jogado no nosso Ibirapuera, duas jovens já fantásticas, Hortência e Paula. Dois super talentos que Luciano batizou pouco depois de Rainha Hortência e Magic Paula. E seria na voz dele, anos e anos depois que elas conquistariam o mundo, campeãs do mundo em 1994 e prata na Olimpíada de Atlanta´96, com Luciano já na Bandeirantes.

Na Band onde ele montou o Show do Esporte, não um mero programa, mas uma grade esportiva inteira que fez do canal paulistano o canal do esporte. Luciano comandou um projeto capaz de proezas como trazer as primeiras transmissões do campeonato italiano de futebol, jogos da NBA e muito mais, como um dos raros erros de Luciano, a aposta no boxe com Maguila, que ele colocou num falso pedestal, aquém dos parcos recursos daquele lutador folclórico, ignorante e frágil, que não aguentou um assalto com um lutador de verdade como Holyfield.

Fora Maguila e a triste obrigação profissional de nos últimos anos ter que dividir seus gritos de gol com o “momento Max Color” nas locuções na Band, além de suportar as intervenções de comentaristas de qualidade duvidosa, fica na gente a beleza da paixão de Luciano. Por vários esportes e, por que não, pela vida sentida com uma explosão de sentimentos maior.

Muitos dos que eram meninos e cresceram sob as narrativas de Luciano tornaram-se homens de incontroláveis exaltações, de alegria ou tristeza. Porque não era possível não vibrar feito um louco possuído nas vitórias, tampouco se recuperar da dor de perder um grande jogo e título narrado por Luciano.

Obrigado, querido Bolacha, por nos revelar e ensinar a amar e reverenciar os mitos e guerreiros das quadras e campos, por semear fogo em nossos corações e nos mostrar que o esporte é, muitas vezes, a vida no máximo de sua intensidade.

PS – Alguém me ajude, mas não eram também de Luciano as narrações da era de ouro do tênis mundial, exibidas na íntegra na Globo desde as semifinais quando em Roland Garros e Wimbledon? Borg, Connors, McEnroe, Villas, que elenco!

PS 2 – Foi com Luciano que o mundo assistiu a até hoje mais incrível performance de um piloto na história da F-1, aquela corrida em que o adorável louco canadense Gilles Villeneuve foi perdendo peças da sua Ferrari e mesmo assim conseguiu completar a prova.

O amigo em extinção

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foto-abraco

Por onde eles andarão? Ainda existirão? Espécie de amigo cada vez mais rara, aquele tipo que adorava reunir os grupos de amigos, parece hoje tão rara quanto as espécies animais exibidas no chatíssimo Globo Repórter. Onde andarão os “agregadores de afetos”, esses seres coletivos da belíssima expressão-definição lavrada pelo jornalista mineiro Humberto Werneck?

Ainda resiste essa espécie que gosta de reunir os amigos reais em sua casa, em tempos de baladas dominadas por estranhos e “amigos” virtuais, tão diferentes das festas nas casas dos amigos e dos parceiros que se reuniam para conversar à soleira da porta ou beira da calçada dos amigos?

Ainda existem aqueles tipos que, ao menor sinal de uma dor no coração do amigo ou amiga do peito, aparecem na hora exata para dar uma força e injetar um pouco de esperança, uma força muito maior do que meras mensagens privadas nas redes sociais?

Pena que sujeitos como o poeta Donizete Galvão, personagem da crônica Um artista do convívio, do Werneck (Estadão, 2/2/14), andam cada vez mais sumidos. Até os telefonemas e o valor afetuoso e terapêutico da voz humana amiga praticamente desapareceram em tempos de torpedos.

Torpedos contra a conversa, o convívio e a arte de regar amizades.

Werneck se despede do poeta-amigo recém-falecido dizendo que “já não poderei dizer a ele o quanto lhe fiquei devendo pela suave insistência com que bateu à minha porta, num instante em que o sofrimento ameaçava fazer de mim um ser inóspito”.

E nós, será que agradecemos aos amigos à moda antiga que também não deixaram que nossos buracos, dores e vazios nos sufocassem?

Experimente a beleza do gesto e palavras de gratidão em vez de teclar mensagens sinceras mas frias e passageiras.

Só o abraço, e os olhos e voz que abraçam, deixam marcas profundas.

Só as velhas festinhas e reuniões com os amigos fazem o mesmo.

Pena que a celebração do amor das grandes amizades cai exponencialmente depois do fim da escola.

É a vida, cada um segue seu rumo, cria sua família, blá blá blá.

Cada Donizete Galvão, cada artista do convívio que desaparece é insubstituível.

Lembremos, portanto, de reunir os amigos.

Chega de meros jantarzinhos para um, dois casais.

Bom mesmo são os churrascões, as festinhas, os encontros da velha turma.

Os encontros, meus amigos, os encontros.

Dizem que sou um saudosista, mas só tenho saudade é dos amigos e amigas que construíram boa parte de meu coração e sonhos. Como disse o poeta Galvão em uma velha entrevista, “persigo alguma permanência em um espaço em que tudo se dissolve”.

A permanência dos velhos parceiros e parceiras que são parte da gente. Parte do que um dia significou essa canção pra gente, meus queridos velhos e novos amigos:

 


Nem as chamas podem apagá-la

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Foram exatamente da cor desse entardecer os anos da nossa infância e adolescência. Foram também parecidos com a beleza simples afetuosa dessas velhas madeiras vindas de outros séculos. Anos dourados que tiveram a graça de acontecer nesse lugar mágico chamado Fazenda. Um lugar e tempo vivido tão belo que às vezes parece que foi apenas um sonho. Mas foram reais, tão quentes e intensos quanto delicados nos feriados, verões e invernos sem fim que passávamos ali. Sem fim porque cada dia na Fazenda era longo como nossas amizades e farras da mesma magnitude que as antigas picardias estudantis das comédias românticas dos anos 80. Simplesmente não queríamos ir embora, talvez pressentindo que um dia não voltaríamos mais e isso se transformaria em um pequeno vazio no fundo do peito jamais preenchido de novo.

Os dias começavam na madrugada em que ainda estávamos em ação, embalados por paixões juvenis, jogos de guerra em pleno breu (a famosa Bandeira que tentávamos roubar dos exércitos inimigos chefiados por generais loucos entocados como o fantasma incrível hulk da corneta, Lucas e uma certa Ana Lara, ainda uma menina mas insana como uma guerrilheira na selva que surgia de tudo quanto é lugar, até despencando de cima das árvores sobre nós), passeios às margens do lago em que contávamos histórias sinistras nas noites de lua cheia com o assustador copo do lado (o terror só aumentava porque sempre havia um amigo desgarrado pronto para surgir do nada, pulando e gritando sobre a gente, e chutando nosso coração pra boca), e outras peripécias.

Depois vinha o sono, farto em sonhos ou pesadelos divertidos. As meninas ficavam protegidas, mais ou menos, na casa grande junto do tio e da tia. Os homens, naquele templo de insanidades chamado República, entre rituais de poções mágicas embaladas por heavy metal que assustariam até o Ozzy e, claro, intermináveis papos para celebrarmos nossas musas ou para tentarmos entender a mente indecifrável delas que muitas vezes nos tornavam mais tontos e enfeitiçados que os garotos da canção do Leoni. Mas não éramos só nós, os meninos. A emoção e o medo explodiam em escalas estratosféricas pelos trotes maquiavélicos que recebíamos do filho mais velho do pedaço, Joseph Hitchcock Louis, junto de seu não menos assustador parceiro, Sebastian Monster Monteiro. O que esses caras sacaneavam a gente faz os trotes das faculdades parecerem brincadeiras do jardim da infância.

Depois de desabarmos em nossos beliches entre sonhos e pesadelos, vinha a manhã que já começava com o sempre espetacular leite de vaca e pão quentinho. Logo começávamos jornadas olímpicas de muito tênis e vôlei em quadra de areia, que acabavam com um bom mergulho na piscina. Haviam também aqueles que encaravam aquele selvagem e enorme cavalo Malhado, e caíam feio, claro! O almoço era chamado com o velho e grande sino e era a hora sagrada da não menos histórica e saborosa comida caseira de Dona Alzira, especialmente na sobremesa com doce de leite empelotado.

Pausa pro cochilo nas duas redes da sacada (esta com essa maravilhosa vista da foto) ou início dos xavecos homéricos dos mais atirados. Bom, os “mais devagar” como este que vos escreve tinha é que ir tirar uma soneca mesmo.

No meio tarde brigávamos pelas melhores canecas para tomarmos o incomparável leite tirado da vaca na hora, morno, no ponto, enchíamos as canecas orgulhosos como alemães na Oktoberfest. E essas poções diretas das tetas das malhadas repunham nossas forças gastas no esporte e rolês intermináveis pela fazenda.

Fim de tarde era hora de mais esporte ou das aventuras explorando o lago remando num bote amarelo pra lá de judiado. Bote que obviamente afundaria um dia no meio do lago, em pleno inverno e nos obrigou a nadar naquela água tão escura e cheia de lodo quanto o Lago Ness escocês…

O anoitecer nos pegava encarando o banho sempre surpreendente do chuveiro detonado da República: ou era geladão mesmo ou nos dava uns puta choques que os mais loucos até curtiam tomar, fanáticos roqueiros elétricos que todos eram (Graças a Deus eram os anos 80 ainda livres do axé, pagode, pagode universitário e funk carioca).

A noite começava com um lanche parrudo e mais tarde iniciávamos os trabalhos com várias opções: salão de jogos, brincadeiras de guerra ou contação de histórias lá fora, mímicas de filmes na casa grande e, claro, as epopeias dos romeus e suas julietas.

Hoje, mais de 30 anos depois, volta e meia a memória e a saudade me assaltam ao ver essas velhas fotos na parede. Lembro então de pessoas e momentos que não deveríamos esquecer. Lembro de uma grande turma de amigos que não queriam saber de balada ou de conhecer, rapidamente e sem profundidade, outras pessoas. Queríamos era viajar juntos, pra esse verdadeiro templo de uma adolescência que não existe mais, esse nome tão simples quanto mítico, a Fazenda.

Tomara que nossos filhos (sim, ainda vou ter) tenham a chance de experimentar um pouquinho dessa dádiva que é viajar com a turma da escola. Essa mágica que é fazer de nossos colegas, amigos. Amigos do peito. Amigos que queriam e estavam sempre juntos, na cidade. Ou nessa aconchegante, bela e simples casa da Fazenda que não existe mais. Sim, só há pouco descobri que o refúgio de nossos anos dourados foi consumido pelo fogo. Talvez ela se foi por nunca mais ter sido reduto de amigos e amigas que se queriam tanto, como nós nos queríamos.

Pena que além da cinzas daquele lugar, foram também embora as nossas velhas amizades.

Mas, se a vida separa e afasta, ela jamais vai nos tirar as lembranças – verdadeiros presentes e sementes que nos formariam nos anos seguintes – da Fazenda.

Tomara que cada um em seu cantinho, nova família (sim, éramos uma família) e vida ainda, de vez em quando, se lembre disso.

Que saudade, meus velhos amigos. Procurem então um dos nossos hinos daqueles anos loucos e escutem mais uma vez “Tãn nãn nãn nãn nãn!!! … Aiiiiiiiiiiiii, Aiiiiiiiiiiii, Iron Man!!!”

Querem matá-lo

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“O amor não dura”, “é mera paixão que acaba, que não vence”, “é apenas uma possessão egoísta”, “não é algo natural”, “foge da realidade de hoje” etc etc. Parece auto-ajuda ao contrário, mas esses tipos de considerações são cada vez mais comuns. Diversos livros, colunistas de jornais e revistas metidos a polêmicos, alguns psicanalistas e intelectuais querem provar que o amor arrebatador que tantos buscam é um grande engano ou algo passageiro e perecível como um alimento com prazo de validade. Alguns dizem até que o ser humano está evoluindo, e que as múltiplas relações são cada vez mais comuns e bem-sucedidas.  É o tal do “poliamor”, citado pela psicóloga Regina Navarro. E ela ainda afirma que “o amor romântico está com os dias contados. Domina filmes e novelas, mas está saindo de cena na vida real”. Ah, Regina assina a obra, em dois volumes, O Livro do Amor
Evolução? Poliamor? Desistir de uma relação só porque vamos percebendo os defeitos de quem está firme com a gente é evoluir? O correto então seria pular de relação em relação como se surfássemos de perfil em perfil das redes sociais? O ato evolutivo é buscar vários tipos de amores nas prateleiras dos bares, baladas e escritórios da vida?
Os detratores do amor afirmam ainda que este sentimento dos sentimentos ainda é uma ingênua idealização romântica dos poetas antigos ou das comédias românticas de Hollywood.
Quanta picaretagem nesta nova estratégia mercadológica desses autores e profissionais que devem ter tomado um pé na bunda monumental ou apenas querem faturar em cima das vítimas de corações partidos.
Sim, o amor romântico, relação regada com cuidado e atenção, está mesmo em declínio, mas não por causa da “ingenuidade” do amor romântico. O “amor de filme” em nossas vidas reais só vem decaindo porque boa parte da sociedade embarcou, passando o cartão de crédito, no egoísmo, superficialidade e individualismo extremos. Muitos só pensam em satisfazer seus desejos e não das parceiras ou parceiros.  Mais exata que a palavra satisfazer para o mundo de hoje é consumir. 
Numerosos homens e mulheres em vez de procurar conhecer e acolher o outro, querem apenas o consumo rápido.Sexo, sexo, sexo. Compromisso? Responsabilidade pelo outro? “Ah, que papo mais careta…”
Ingênuos são é esses insaciáveis que perdem, pelo mero tesão de experimentar e experimentar, aquele olhar, gesto ou palavra de cumplicidade quando mais precisamos.
Amor não é indeciso de sorveteria que deseja provar tudo quanto é sabor. Amor não é um monte de opções e sabores a serem provados, escolhidos e descartados.
Amor é provar e reconhecer em uma pessoa aquele sabor que a gente aprendeu a amar porque está dentro da gente e faz parte do que a gente é. Ou um sabor novo que vai nos ensinar muito e aí sim nos fazer evoluir e nos tornar mais completos. Um sabor novo que a gente não vai deixar mais de pedir só porque lançaram um outro muito atraente.
Amor não combina com a gula.
Amor é contenção. Valorizar as pequenas coisas e gestos.
Amor é aquela que aguenta a dor do seu namorado ou marido sem reclamar dos lamentos dele, sem julgá-lo fraco. É não deixar ele desanimar. É ficar ali do lado, firme, mesmo quando ele mal pode se mexer.
Amor é olhar pra essa pessoa que exala o mais belo e sincero “tamo junto” e saber que ninguém mais vai amar a gente como ela faz.
Porque o amor mexe, remexe, cuida e envolva mesmo o mais adoentado e estourado dos companheiros. E esse turbilhão, essa onda amorosa, pode apostar que é um remédio tão ou mais poderoso quanto o comprimido mais pesado que dão pra ele.
Obrigado, então, amor, por tanta paciência e presença.
E lembro, aos exilados do amor, que a busca nunca deve acabar. Porque o amor é igual à atitude do amigo poeta/historiador/filósofo dos botequins, Paulão. Lembro da noite antiga, em que em pleno bar lotado ele perguntou, quase gritando – com indignação, dor e urgência – “Onde está o amor?!”
Paulão segue procurando e jamais desistirá, como faz o bom e velho Robert De Niro no terceiro conto do filme As idades do amor. Sim, grande Paulão, De Niro é no filme um velho professor de história solitário, um americano vivendo em Roma, que um dia é atravessado pelo furacão da filha de um amigo italiano. Simplesmente uma certa Monica Bellucci…
Para Roma, grandi amici Paulão!, para Roma!
PS – Quem quiser ler a reportagem na Folha de S. Paulo que mostra a “derrocada do amor romântico”, clica aqui

Não deixem o JT morrer

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Se eu pudesse sintetizar toda a minha vida, entre ideais, paixões, sonhos e pequenas realizações em uma única foto, esta seria a imagem. Uma imagem, captada pelo fotógrafo Reginaldo Manente, ligada a um fato. Um fato que só poderia ter sido descrito dessa forma – e foi – pelo jornal mais ousado e belo que conheci, o Jornal da Tarde. Ou simplesmente JT para os íntimos. Somente o JT soube expressar toda a dor genuína, profunda, dos brasileiros naquele 5 de julho de 1982 quando a mais bela seleção brasileira de futebol da história perdeu da Itália em uma partida tão maravilhosa quanto cruel. Estava ali nesse menino chorando também as lágrimas e, mais do que isso, o desamparo do sonho desfeito, dos meninos que eu era e dos homens feitos que também choraram feito meninos. Sonho desfeito, sim, porque eram tempos em que os brasileiros amavam de verdade seus ídolos e craques da bola. Porque seus heróis de camisa amarela e muito talento no pé – Leandro, Junior, Falcão, Sócrates, Cerezzo, Zico, Éder e cia eram também grandes seres humanos, quase todos eles dotados de um bom caráter inspirador e pensamentos articulados, inteligentes. E esses heróis ainda eram guiados por um mestre, Telê Santana.
O caso é que o JT parece que vai deixar de existir segundo boatos que vazam cada vez com mais força de dentro do Grupo Estado, que dirige o jornal.
Como pode desaparecer um jornal que foi uma ideia e um compromisso, lá nos anos 60 quando nasceu, com um jornalismo tão inteligente quanto bem escrito e combativo? Como pode desaparecer um jornal que foi o companheiro de quem sonhava com um Brasil melhor mostrando o melhor de nosso país? Como pode morrer um jornal que, diferente de tantos outros que baseiam suas páginas no pior do brasileiro, mostrou sempre o valor de nossa gente (e isso sem deixar de atacar e descobrir muitas de nossas mazelas?) Como pode ir embora o jornal que, mesmo sem ser um circo de horrores, foi o primeiro a perceber as mentiras e falta de caráter de um certo Paulo Maluf, estampado naquela histórica sequência de capas com o nariz crescendo a cada dia por conta das mentiras que dizia sobre a Paulipetro, companhia petrolífera que torrou bilhões perfurando o solo paulista sem achar uma única gota de petróleo? Como pode morrer um bastião de cultura que nos ensinava tanto com aquele fantástico suplemento de cultura, o Sábado?
Sim, o JT mudou muito ao longo das décadas, em especial a partir do final do século XX, quando tentaram transformá-lo num jornal mais popular e quase que exclusivamente paulistano. O suplemento de cultura, por exemplo, foi assassinado. Mas o JT sempre teve uma essência tão boa, tão rara, que mesmo essa tentativa dos donos de torna-lo popular e rasteiro não vingou, porque seus jornalistas, mesmos os mais novos, eram e são amantes do bom texto, da história valiosa, das analogias ricas, do jornalismo que não é o mero jornalismo noticioso da maioria dos outros jornais. Não, Ivy Faria, Felipe Machado, Julio Maria, Gilberto Amendola, Alessandro Lucchetti, Luiz Antonio Prosperi, entre outros inúmeros nomes, que passaram recentemente por lá ou ainda estão no jornal, nunca deixaram a bola e a qualidade cair. E olha que nem falei dos gênios e grandes homens e mulheres que brilharam no JT mais antigo.
O desejo dos donos do Estadão de fechar o JT será uma enorme mostra de incompetência da direção do grupo. Em um país com tantos jovens, por que não ampliam o espírito sempre jovem, belo e combativo do JT? E não confundam juventude com superficialidade e inexperiência, pois os jornalistas do JT, mesmo quando jovens, sempre souberam destacar , por exemplo, nas famosas entrevistas das 2as feiras, as personalidades mais importantes do país. Nesta última segunda, por exemplo, estava lá uma certa Fernanda Montenegro…
O Grupo Estado deveria é recuperar a essência do JT, voltar a valorizar mais a cultura, mergulhar mais fundo na cidade (não só São Paulo), valorizar mais o bom texto, mais trabalhado como na grande reportagem e nos belos “abres” das entrevistas (lead é coisa de medíocres, os bons jornalistas do JT fizeram sempre é grandes aberturas!). “Ah, os computadores, tablets e aplicativos de celular fazem o pessoal ler menos no papel”? Ora, por que os chefões do Estadão não investiram então no site do JT? Por que sempre deixaram o site do jornal abandonado, feio, incompleto e quase nada interativo e multimídia? Por que sempre só deram atenção ao cada vez mais chato e conservador Estadão?
Porque eles sempre quiseram matar o JT. Porque os mandatários do Estadão de hoje parecem não ter coragem nem criatividade nem ideais para recuperar o JT do passado.
Esta será uma das perdas irreparáveis para muitos brasileiros.
De mim e muitos hoje quarentões e cinquentões, vocês vão tirar parte da infância, parte enorme dos sonhos de futebol, esporte, cidadania e cultura que o JT nos ensinou. Parte de nossa indignação com políticos corruptos como Maluf que seguem soltos.
O JT, tanto quanto um inesquecível professor de escola, o Chico Moura, me ensinou a escrever. Mais que isso, me ensinou a pensar e também a prezar as belas e profundas palavras. Ajudou demais na minha formação. Ajudou a me formar como sonhador, lutador, cidadão, professor, jornalista e escritor.
Estão matando não um jornal, mas um ideal e uma escola de vida e brasilidade.
Que os grandes jornalistas e, mais que isso, grandes espíritos, cabeças e corações que escreveram e escrevem no JT consigam deter esse processo. Ou recriem, em outro lugar, com outro nome mas com a mesma essência, um dos mais importantes jornais que esse país já teve.
Que outro jornal brasileiro conseguiu traduzir em uma única capa uma vida toda como a capa do menino chorando em 1982? O quê da vida foi revelada naquela capa? A capacidade de sonhar, se apaixonar, amar, vibrar, celebrar, sofrer e perder com a fantástica seleção de 82. Aquela era uma época rara em que nossos jogadores representavam o melhor dos brasileiros naquele jeito de jogar que era uma música tão alegre quanto bela e contagiante; e naquele jeito de ser, pensar e falar profundo de quando um Sócrates, Zico ou Telê abria a boca. E essa capa também foi profética, porque a dor do menino, a dor de todos nós que vivemos aquela partida, prenunciava a tristeza e falta de alegria que as seleções do futuro nos trariam.
Tomara que em algum canto desse Brasil que tem hoje tantas pessoas notáveis e inspiradoras como os nosso craques da bola e da vida de 82, algum grande grupo de jornalistas, cidadãos e empresários que não pensem somente em lucros imediatos tenham a coragem de reinventar o JT. “Ah, mas o JT só cair em circulação, cada vez mais vende menos”, devem dizer os frios empresários que comandam o Grupo Estado. Mas claro, vocês desprezaram o JT por décadas, a culpa é de vocês, que foram obrigando o jornal a minguar e se esvaziar. Por que, por exemplo, não deram ao JT o mesmo cuidado e tempo que deram a essa brilhante rádio Estadão ESPN ou a rádio Eldorado, ambas do mesmo grupo de vocês? Por que não viabilizaram e pensaram em parcerias para o JT? Por que não modernizaram de fato, em vez de apenas enxugar, o jornal?
Porque vocês não tiveram cuidado com o jornal que foi a minha vida, e de tantos outros paulistanos e brasileiros. E, sim, aqui admito que o jornal sempre teve uma essência paulistana, mas até aqui a incompetência e desleixo de vocês é grave: como é que pode a cidade mais rica do país perder o seu jornal-símbolo? E não me venham falar que ficará o Estadão, pois o jornalão para mim é muito mais um órgão voltado a Brasília que para São Paulo. E isso, vocês podem ter certeza: quem assina o JT não assinará o Estadão. Sei que muitos jornalistas navegam entre os dois jornais (na verdade, me parece que o Estadão roubava os melhores nomes do JT), mas será fácil continuar lendo esses: irei numa padaria e procurarei a única parte do Estadão que tem um pouco, na verdade, um pouquinho só do espírito do JT: o Caderno 2. Em especial, da edição de sábado. Mas só queria saber onde é que vocês vão enfiar o brilhante pessoal do caderno de esportes, este sim o pedaço que ainda mantém a alma do JT dos anos 60.
Façam alguma coisa, leitores e jornalistas do JT, não deixem o nosso jornal (mais que isso)  morrer.

O coração da verdadeira América

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Existem pessoas que basta vermos a primeira vez que já suspeitamos que estamos diante de alguém raro, destinado a fazer algo especial. Algumas conversas e a suspeita estava confirmada: Marta Elena Sanchez, uma argentina de coração e consciência, e praticamente também uma brasileira – na simpatia pura e calor humano – é uma daquelas pessoas que a maioria das pessoas costuma “conhecer” apenas na pele de um personagem do cinema.
Marta é quase um sinônimo de juventude, não muito a de hoje, mas a daquela que realmente sonhava e lutava por um mundo melhor. Ela é uma canção de protesto, sentimos o vento soprar mais forte que nunca quando ela fala; na verdade, brada, por dentro grita com um coração e humanidade do tamanho da verdadeira América, a Latina.
Marta condena os poderosos egoístas, os que querem perpetuar-se no poder mantendo seus privilégios e mantendo o povo enfraquecido na pobreza. 
Marta está sempre, e tão claramente, do lado da procura da verdade. Por isso ela busca esta verdade na fonte: lá fora, nas ruas e nas mesas dos pequenos bares e cafeterias; e lá dentro, nas conversas amigas em sua cozinha ou na poderosa consciência política que herdou de seus pais.
Por isso que a palavra mais importante para ela é humildade. A humildade de querer conhecer as pessoas, os povos e suas culturas e história.
A humildade, essencial mas tão esquecida hoje, de aprender com os outros, com o diferente.
Sim, Marta é mesmo uma canção, Bob Dylan deve ter imaginado uma moça como ela, buscando um mundo melhor, ao compor Blowin´the Wind.
How many roads must a man walk down,
Before you call him a man?
Quantas estradas um homem deve percorrer
Antes que possam chamá-lo de um homem?
Herdeira do espírito do jovem Che e/ou da juventude que sonhava (não apenas) dos anos 60, por isso ela resolveu mergulhar numa das palavras vitais desta canção: estrada.
Sim, tantos anos depois, Marta atravessará a América para conhecer, de verdade, o que é um latinoamericano.
Muda apenas o veículo, e aqui sacamos ainda mais a dimensão da jornada desta moça com sonhos de menina e coragem e ideais de guerreira: ela cruzará a América não com uma moto – como a lendária La Poderosa de Ernesto e Alberto.
Ela atravessará os pampas, cordilheira e planaltos; cidades, montanhas e praias de bicicleta…
Marta seguirá o vento mais poderoso, o sopro desse imenso coração do tamanho da sua Buenos Aires, Argentina e América Latina.
Marta seguirá suas palavras, que zumbem no ar feito uma pancada nas mentes anestesiadas. Lembro uma frase marcante dela, dita numa noite de verão na amizade acolhedora da cozinha de sua casa-pousada:
“Eu pergunto às pessoas se elas leem jornal, se conhecem o que estão falando ou se apenas repetem o que viram na TV”.
A frase, o questionamento dela, é ainda mais necessário se pensarmos nos que se informam ainda menos, dando apenas leves olhadelas nas páginas iniciais dos portais da internet.
Marta lê jornal, todos os dias, sobretudo o Página 12, o grande jornal humano, honesto e ético de seus país, mas lê também o Clarín, porque sabe que precisa ler o outro lado, o dos poderosos e muitas vezes, mentirosos.
Mas Marta lê-decifra mais ainda as pessoas e o mundo. Talvez por isso ela tenha decidido botar o pé na estrada e fazer a viagem da vida.
Talvez por isso ela tenha desejado transformar seu coração e consciência em memória viva.
A memória viva de quem vai poder contar para a gente o que ela viu nas esquinas e entranhas da América.
Boa sorte, guerreira, um brinde a sua garra e à sua viagem quase inacreditável nestes tempos em que muitos acham que viajar é navegar pela internet.
Saludos desde Brasil, que venham então os Diários de Bicicleta!
Aguardaremos ansiosos pelos relatos de seu olhar e coração profundos.
Boa estrada da vida, moça, pra você, seu companheiro também valente, o Julián, e o fiel e inseparável cachorro que salvou das ruas!
Que essa canção te acompanhe nessa maravilhosa aventura dentro dos corações da América, e mando ela na voz de dentro da terra do maior cantor desse planeta, o grande Bruce:

Paciência

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Conectar é a palavra-chave. Deveria ser a palavra-sentimento mais importante desse mundo. Outro dia fui buscar minha jaqueta preferida na lavanderia com nome francês. Depois de ser atendido com muito mau humor, quando deixei a peça de coração*, desta vez, a recepção foi bem diferente. Recebeu-me um sorriso aberto, franco, daquelas raras pessoas que riem de dentro, com o coração. Na hora de pagar, percebi. A moça não perguntava, ela apontava as opções na maquininha e fazia gestos. Era surda-muda. Algo me distraiu e de repente ela sumiu, para buscar algo de outro cliente. Esperei, queria me despedir e agradecer atendimento tão belo e simpático. Ela demorava, caminhei até a porta (a pressa cotidiana, falta de paciência, pragas modernas) e de repente ela surgiu. Acenei dando tchau e ela devolveu o tchau mais efusivo que já vi, usando cada músculo das mãos com vigor e, claro, exibindo aquele espetáculo de sorriso de novo. Esses instantes me fizeram esquecer o dia duro, desarmar a cara fechada e ganhar um novo ânimo, essa palavrinha que simplesmente é igual à palavra em latim para alma: anima.
O mesmo ânimo ganha esse senhor que recebia parcas moedinhas na calçada até que uma mulher espirituosa e boa resolveu mudar as palavras que ele tinha escrito no papelão velho.
“Mude suas palavras. Mude o seu mundo”, é a mensagem do vídeo. Mude o seu olhar, ou melhor, use seus olhos, de verdade. Olhe querendo ver. E depois dos seus olhos se cruzarem e se conectarem, embarque nesse trem, experimente a maravilha de viajarem juntos.
O problema é que muitas vezes falta ânimo, disposição e coragem, falta essa vontade de alma.
Muito mais fácil é passar pelo velhinho e apenas jogar uma moedinha.
Muito mais fácil é não interagir com as pessoas.
Muito mais fácil é não se envolver.
Como bem escreveu o ex-roqueiro e hoje jornalista Felipe Machado, antigo colega de Cásper Líbero, em sua coluna no Jornal da Tarde,
“Ninguém tem mais paciência para nada, ninguém tem tempo para perder com nada: nem com o que é importante”.
Felipe falava de outra coisa, de novos relacionamentos, mas não estará tudo conectado? Será que não vale também para relações antigas, como amizades que não são resgatadas? Velhas ou novas ele cavoca fundo, “não há tempo para uma segunda chance. Como é que uma relação vai nascer se não dermos espaço para isso acontecer?… Deixa-se de amar por nada. Mata-se por nada. Vive-se para nada. Por que tanta ansiedade? Quem disse que o que virá depois é melhor do que o que está aqui? O importante é aproveitar o momento. Afinal, entre o ‘antes’ e o ‘depois’, a única coisa verdadeiramente real é o ‘agora’.”

Muitos vivem repetindo o clichê de que o agora é o mais importante mas não agarram o agora. Falta ânimo.
Música então, moçada, escutem Paciência, do Lenine, e coloquem um pouco mais de alma. Façam hora, façam horas e dias junto de quem pode ser muito importante.
A vida não para, eu sei, mas a vida é tão rara.
Paremos ela então. Dê um tempo, dê uma nova chance.
Paciência, grande ciência das relações, boa e cuidadosa mãe de amizades e amores construídos aos poucos. Só ela permite a verdadeira conexão.

* Minha jaqueta preferida é do grande San Lorenzo de Almagro, time de futebol argentino, de Buenos Aires, famoso pelo futebol bonito, bem jogado, bem tramado, bem amado.

A pureza de viver

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   (Montevidéu 2011)

Tudo ali parece, a este morador da tão moderna quanto opressiva São Paulo, coisa de outro tempo. De um tempo em que mesmo o dia-a-dia transcorria num ritmo mais calmo e com mais sabor e alegria. Tudo na Montevidéu que conheço me remete à minha inesquecível infância e adolescência dos anos 80, de futebol e brincadeiras na rua e pracinhas; conversas intermináveis à beira das calçadas dos amigos e amigas; e dos passeios de bicicleta atrás das nossas meninas-musas.
Não sei se os montevideanos sabem do privilégio e vida de verdade que usufruem. Não sei se talvez muitos deles não prefeririam ter mais grana e poder em vez de curtir as delícias e astral desta cidade e tempo de outros tempos.
Espero que não, espero que tenham a consciência do valor de sua cidade e capital que parece preservada da agressividade, estupidez, trânsito e poluição infernal de megalópoles como São Paulo. Espero que valorizem até seus muitos prédios velhos, que espantam a pior espécie de turistas, os endinheirados e fúteis demais. Deixem-os ir para Miami ou Dubai…
Preservem sua vida, hermanos charruas. Não são muitas capitais do mundo que têm o que vocês possuem:
As pessoas curtindo tranquilas a caminhada, a corrida e sol na beira do rio que é o mar, o Plata.
A tão simples quanto genial arquitetura debruçada sobre o rio – quilômetros e quilômetros de bancos, com vários pontos para se apoiar as costas (acho uma sacanagem lugares que só têm bancos sem apoio para as costas, ninguém aguenta). Essas muradas são um convite à uma bela relaxada ou uma boa conversa (a charla, como dizem os uruguaios e argentinos).

Tanta gente, de todas as idades, tomando e compartilhando o mate, a toda hora e lugar. Esse mate compartilhado que sai muito mais barato e é muito mais solidário e amigável que o famoso ritual do cafezinho brasileiro.

Os parques admiráveis e tranquilos como o Rodó e o imenso, verdadeiro paraíso para um esportista, o Battle, ao lado do Centenário.
As exposições fotográficas do Rodó, ao ar livre, não sabem como isso é melhor que ter que se enfiar dentro de um museu!
Suas ruas com árvores dos dois lados, formando imensos e gostosos tubos verdes de sombras que confortam e envolvem o pedestre.
Sim, o pedestre que é tratado como cidadão. Não queiram saber como o pedestre é tratado em São Paulo. E pergunto se os estadunidenses acham que civilização é ter que pegar o carro pra tudo, em suas cidades-freeways. Civilização, como disse uma vez aqui nesse blog, é uma cidade que pode ser percorrida a pé, como podem fazer os europeus, os argentinos e vocês.
Não é só um ritmo de vida e o prazer que vocês parecem ter em se encontrar e aproveitar o melhor da sua cidade.
Há algo maior, ainda mais belo.
Há algo quase absurdo nesse mundo em que as pessoas são cada vez mais consumidoras e menos gente.
Num mundo em que cada vez mais só se pensa em vender e consumir, num mundo cheio de vendedores exibindo uma falsa simpatia para atrair os clientes (e muito louco mal educado também, que trata o cliente com frieza e/ou agressividade porque sabe que o cara vai comprar mesmo), os (as) funcionários (as) do comércio montevideano mostram uma simpatia e educação de verdade.
Por isso que mesmo sozinho em Montevidéu, nunca me senti sozinho.
Os responsáveis?
O cara de quem comprei duas laranjas e disse, “que ricas elas estão né, senhor?”.
A moça da lotérica Abitat que me atendeu com todos os detalhes, sem pressa e com um sorriso que queria levar pra casa, me dizendo tudo sobre o jogo que eu queria ver, Nacional e Peñarol.
Os senhores e senhoras das bancas de jornal (kioscos) em que eu ia pegar meu exemplar do melhor jornal do mundo, o (me perdoem, uruguaios), meu fiel Página 12 argentino. Mas saibam, hermanos, que os caras do seu conservador El País, têm o feeling pra falar de futebol no caderno Ovación.
As moças dos restaurantes mais simples ali do Bairro Sur.
Os torcedores do Nacional, que ao me verem com a camisa do São Paulo, vinham falar como se nossos times fossem irmãos pelo passado comum de Lugano (e a mesma história continuará, se Deus quiser, com esse fantástico Sebastian Coates).
O torcedor do Peñarol que tem uma sensacional lojinha de discos, camisetas pop de filmes e séries (remeras) e livros de rock numa galeria da 18 de Julio, pertinho da Plaza Caganchas.
E até, coisa quase surreal, os caras da casa de câmbio, que ao me verem com uma camisa do Rosario Central da Argentina, e ao perceberem meu sotaque de brasileiro, começaram um papo de minutos sobre o futebol brasileiro, argentino e uruguaio. Caraca, amigos, alguém já viu atendente de câmbio simpático em algum lugar do mundo????? Só mesmo em Montevidéu! Falamos de Lugano, Forlán, pai e filho, Pedro Rocha, Dario Pereyra, Coates, papo de amigos antigos de boteco.
E nem falei no clima fantástico dos arredores do Estádio Centenário (a reforma está deixando-o belo de novo!) e de suas arquibancadas, mas isso é assunto pra outro post.
E nem falei da beleza de suas moças, de um charme incrível e sem pose. Um charme do interior antigo do Brasil, das nossas morenas cativantes e autênticas que estão desaparecendo pelo avanço da estúpida incultura dos BBBs (Gran Hermanos) e outros reality shows.
Ponto negativo? Só encontrei no antipático vidro dentro dos táxis que isola e sufoca os passageiros e na atendente de informações turísticas (logo ela???) do terminal de ônibus de Tres Cruces.
Mas fico com a educação, os sorrisos e o tratamento maravilhoso que recebi de seu povo que não me deixou sozinho, que não me deixou acuado.
Fico com o calor humano de um povo que não sei se sabe o tesouro de viver (e não apenas sobreviver) que guardam. E dou risada da ignorância dos idiotas que dizem que criticam Montevidéu como “uma cidade que parece de 50 anos atrás”. Ainda bem que Montevidéu é assim! Mas digo que o 50 anos atrás vale mais para o coração deste povo, um coração de uma época em que as pessoas se tratavam com mais civilidade, interesse e amizade.
PS – Este post é dedicado também à atenção e simpatia da Ele, da Federação Uruguaia de Futebol, que tentou me ajudar numas entrevistas (não deu, moça, mas obrigado pelos esforços!) e do casal Eliza e Miguel, que volta e meia me enviam palavras amigas e cultas por email.