Lugano – O regresso do herói mais humano

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lugano volta 2A imagem, mesmo distante, da arquibancada do Pacaembu, é nítida e poderosa. Quando ele perfila ao lado dos outros jogadores, sua camisa (para ele e nós, manto sagrado) parece ter o dobro da largura dos outros companheiros. A razão é física, emocional e anímica. O peito é realmente enorme, para conter uma caixa torácica ampla e, sobretudo, um coração e alma do tamanho da história do São Paulo e de seu amor, dedicação e gratidão pelo clube que o projetou no futebol mundial.

A dimensão da camisa branca tricolor amplia-se ainda mais nos olhos e peito do torcedor nesse emocionante matar a saudade de um dos raros heróis com quem pudemos nos reencontrar.

Fui ao Pacaembu sozinho ontem porque o reencontro com um herói deve acontecer desta forma. Há que se estar concentrado, interiorizado, esperando como um ritual de fé, quando o vemos de novo e sentimos tanto. Há que se esperar focados em nossa gratidão por alguém que nos fez vibrar, sonhar e vencer tanto.

Há que se ensinar aos que não têm heróis, que nesse cotidiano, país e mundo com tantos vilões, heróis como Lugano são necessários, fundamentais.

Há que se gritar o seu nome com tudo o que está em nossos pulmões porque esse guerreiro ajudou e inspirou muitos tricolores, uma década atrás, a lutar, resistir, sobreviver e vencer.

Em uma fase dura de minha vida, com o coração e a alma abatidos, Lugano foi um dos poucos que me deu ânimo, com seu exemplo de dura trajetória inicial no São Paulo, sua volta por cima e glória construída com uma garra descomunal. Se minha inesquecível turma da Pós em Jornalismo de 2005 e 2006 no interior paulista me dava o afeto e alegria vitais em fins de semana antológicos, era ele quem me inspirava a lutar e também ser um cara melhor.

E que luta! Nos gramados, ele sempre vestiu seu coração e foi lutar, desvestindo-se de qualquer precaução, medo ou economia de ânimo em cada lance.

Em cada lance a que se entregou de corpo e alma porque vestiu de verdade uma camisa que sentiu como manto, prêmio e pele.

Reencontrar Lugano é como ser reanimado, acordado e levantado por um guerreiro e líder histórico.

É nos permitir um pouco de esperança, sonho e muita batalha de novo. E como precisamos disso, nós, torcedores tricolores tão maltratados, traídos e sofridos nos últimos tantos anos de derrotas e decepções, muitas delas vergonhosas.

Reencontrar Lugano nos torna todos escoceses invadidos recebendo o brado e chamado desse William Wallace da bola. Um Coração Valente, envelhecido, sim, mas ainda, tomara, um libertador e faísca para contagiar seus novos companheiros a entenderem o que é se entregar de verdade a essa camisa, e isso passa pelo sentimento de perceber esta camisa e o futebol como algo muito maior que um mero compromisso profissional.

O leão voltou a rugir de novo ontem, pena que para um público tão pequeno, meros 7 mil são-paulinos, mas presumível pelos fracassos anteriores recentes.

Os que foram esperar o ídolo, herói e homem ontem, porém, puderam sorrir como não sorriam há muito tempo; com um sorriso meio feliz demais, meio maníaco partindo das veias, coração, pulmão, coração, de todo lugar de nosso corpo e alma que fica arrepiado, eletrizado e energizado quando vemos o mais guerreiro dos heróis entre nós de novo.

Sonhemos um pouco, meus amigos tricolores. O time, muito menos o elenco, não parecem permitir isso, mas pelo menos podemos ver de novo um jogador e líder que é um grito das profundezas a cada disputa de bola e cobrança verbal, do juiz e companheiros, que protagoniza.

Obrigado por estar de novo pertinho lutando, gritando e sonhando por nós.

Obrigado, também, por esse ser humano transparente e valoroso que você é, que voltamos a perceber a cada palavra, frase, olhar e gesto que vemos a cada entrevista na TV.

Obrigado por seguir sendo um herói não só da bola, mas da vida, do caráter, dos seus bons valores inegociáveis, o que é tão raro no pobre e mesquinho universo humano do futebol brasileiro.

Obrigado por ser o Diós mais humano que lutou, e voltou a lutar, por nós.

Sim, por nós, porque o futebol não é mera distração ou entretenimento, e o São Paulo não é uma mera paixão. Ambos são elementos importantes em nossas vidas e até ajudaram a formar quem somos. E que dádiva e beleza é ter em nossa formação esse jogador-homem que vale como uma matéria vital dada em anos de escola, uma matéria viva, poderosa e eterna chamada Diego Lugano!

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O que o São Paulo e o futebol brasileiro perderam

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sp-osorio1Pouco tempo após o técnico Juan Carlos Osório deixar o São Paulo, sua partida só reforça o atraso, ignorância e soberba (sentimento de se achar melhor que os outros, fato que não é mais verdade há anos) dos homens que comandam ou repercutem o futebol brasileiro, seja na direção dos clubes, seja no posto de treinador, diretor, presidente ou jornalista e comentarista da mídia. O atraso ou a pouca paciência envolveram até outro elemento vital do futebol, o torcedor.

Muitos torcedores do São Paulo não viram problema algum no fim de breve ciclo do colombiano. “Ah, ele inventava muito, era um professor pardal”. Outros reclamaram da novela para ele decidir ir embora. Sim, Osório demorou a deixar o cargo por ser um raro treinador a passar por aqui que não faz teatro, que não faz cenas ou declarações hipócritas. Honesto, ético e humano como sempre se mostrou desde que chegou ao Morumbi, ele realmente viveu o drama de ter que decidir entre dois sonhos: dirigir um grande clube do futebol que já foi o melhor do mundo ou comandar uma seleção em uma Copa do Mundo, o sonho maior de qualquer treinador.

Inventor? Sim, Osório é, mas na melhor acepção da palavra sempre buscou buscar novas soluções e colocar jogadores para fazerem funções em que se dariam melhor do que a posição em que atuavam, sem grande brilho. Foi ele quem colocou Carlinhos livre como último homem de meio-campo, quase um atacante. Antes escalado sempre para a lateral esquerda para a qual não tinha mais a mínima condição física, foi só com Osório que Carlinhos encontrou seu lugar e ajudou, bastante, o São Paulo. Ah, lembremos que boa parte da mídia no mínimo debochou no início dessa alteração.

Osório ainda conseguiu o quase milagre de reconstruir o então buraco que a mentirosa diretoria tricolor lhe deu logo de cara no meio-campo: os dois volantes, Denílson e Souza, que vendeu. Era o começo da liquidação do elenco com a qual Osório não contava. Mas o colombiano observou, trabalhou, testou e logo colocou Breno e Tiago Mendes nessas posições e o São Paulo construiu uma rara dupla de volantes que tanto protegia a zaga quanto saía jogando bem. E foi Osório quem resgatou Breno, lhe deu forças e moral. E preciso falar do que ele fez com Pato???

O atraso, a ignorância e soberba que citei na abertura desse texto cabem direitinho nas primeiras atitudes de Doriva no comando do time. Primeiro não teve a mínima decência de valorizar o trabalho de Osório, ou simplesmente conversar com Milton Cruz sobre o que havia dado certo, para poder aproveitar. Logo de cara quis botar banca e falou que iria implantar as suas convicções de que com ele há sempre um time-base, o que atacou e implodiu de cara os vários testes e mudanças que o colombiano promovia. Testes e mudanças que deixaram a Doriva um time na semifinal da Copa do Brasil e na porta do G4 do Brasileirão.

O mínimo que Doriva deveria ter feito era primeiro avaliar e não já sair destruindo o trabalho de Osório. E outra bobagem e mais ignorância: como bem observou meu ex-aluno e uspiano Ricardo Vidigal, um dos jovens são-paulinos que conheço mais presentes no Morumbi e raro jovem que pensa o futebol de forma ampla, ele deveria ter tido a humildade e inteligência de perceber que não deveria tentar implantar suas convicções e estilo de jogo quando faltam só 8 partidas para o final do Brasileirão. Que treinador é capaz de alterar radicalmente uma equipe, elenco e forma de trabalho em tão pouco tempo?

Vamos então à estreia de Doriva, o fiasco e atuação medonha diante do enfraquecido Fluminense. De cara, o treinador sacou Breno da equipe titular e pior, afirmou que com ele Breno é zagueiro e não o volante mágico, poderoso, incrível que Osório descobriu. A imbecilidade é maior ainda ao sabermos (qualquer ser que entenda um pouquinho de futebol) que Breno é o melhor jogador de todo o elenco tricolor.

A estupidez de Doriva ataca até o que poderia ser uma vantagem histórica dele: foi atleta de mestre Telê Santana, justo o Telê que foi um dos treinadores que mais soube encontrar posições e funções mais eficazes para seus jogadores. Foi com Telê, por exemplo, que Cafu viveu sua melhor fase ao ser deslocado para ser o quarto homem de meio-campo e atacante-surpresa no início dos anos de glória do passado. Assim Cafu arrebentou no Brasileiro de 91, que colocou o São Paulo de volta na Libertadores depois de muitos anos (na época, só o campeão brasileiro era garantido na Liberta), no Paulista e Liberta de 92 e Mundial de 92, quando a lateral direita era de Vítor.

Doriva, como a esmagadora maioria dos treinadores brasileiros, e a maioria dos jornalistas e comentaristas picaretas da grande mídia (com raras exceções como uma ESPN Brasil, os independentes PVC e Juca, e o jornal Lance) já mostra o mesmo conservadorismo e apego a velhos modelos. Modelos há muito ultrapassados no futebol moderno dos melhores clubes e seleções do planeta. Tomara que aprenda com as derrotas que já viveu na estreia, e seguirão vindo enquanto não devolver Breno ao time e ao meio-campo ou resgatar algumas das ideias de Osório.

Quanto ao futebol brasileiro em geral, a mídia medíocre e boa parte de nossos treinadores adoraram atacar os números pouco convincentes do colombiano e não souberam valorizar os novos métodos e ideias de um treinador ousado. Um símbolo dessa burrice do apego aos números, em vez de se apegar ao bom futebol jogado? Um jornalista com muito espaço na rádio e TV, Marcondes Brito representa bem a burrice dos pragmáticos e avessos ao estrangeiro: “Eu acho que a passagem de Osório pelo Brasil deve ser aferida com dados, com números. Foram quatro meses de trabalho, 28 jogos, 12 vitórias, sete empates e nove derrotas, um aproveitamento de 51,1%.”

Prefiro ficar com outro jornalista, André Kfouri e suas seguidas defesas do colombiano:

“No plano teórico, parece óbvio que o ambiente do futebol de qualquer país só tem a ganhar ao receber treinadores estrangeiros. A exposição a novos métodos amplia a capacitação de profissionais, em uma relação benéfica para os dois lados. Especificamente em um país como o Brasil, em que o carrossel dos técnicos gira com os mesmos nomes trocando de lugar, às vezes, com horas de diferença entre a demissão e o novo emprego, o arejamento do mercado é ainda mais importante. Mas os obstáculos se manifestam, na prática, quando o recém-chegado é submetido ao mesmo rigor imediatista que ceifa trabalhos com pouco tempo de duração. Seguimos preocupados com o produto final, ignorando o processo. E quando surge uma voz que evoca outra metodologia e promete paciência, não cumpre, porque a questão principal nada tem a ver com paciência, mas com convicção”, escreveu André e pouco depois, já com a partida de Osório, definiu sua passagem: Eis seu legado: esforçar-se para ser compreendido, não trabalhar para proteger seu emprego, aplicar conceitos modernos a um ambiente atrasado, e, finalmente, dizer à cartolagem brasileira o que ela precisa ouvir.”

O futebol brasileiro segue apegado a treinadores e métodos arcaicos e a uma mídia em grande parte medíocre que segue fazendo o sonho dos alemães deste 7 a 1 sem fim. Uma mídia que aplaude até o fraco Dunga, só porque ganhamos fácil (nem tanto…) da… Venezuela.

O profissional apaixonado

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Poucos minutos antes do fim do jogo, Muricy o homenageou sacando-o do jogo para ser aplaudido e honrado pela massa. Impossível a emoção não envolver um sãopaulino ao ver o abraço, tão simbólico, que Rogério dá em Kaká antes dele se despedir da camisa que o formou e aprender a amar. Impossível não ficar feliz pelo instante bonito mas tão triste por esse jogador que se entrega tanto deixar nosso time. Impossível não perceber também, na atitude de Rogério, de atravessar o campo e ir até Kaká, que o goleiro já começa a adiada mas marcada despedida. Impossível não perceber como o São Paulo perde sem Kaká.

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Sim, o ex-melhor do mundo e mito do Milan, não é mais o mesmo tecnicamente, mas segue sendo um super profissional, mais que abnegado, que contagia uma equipe com tanta correria, briga e suor. Lá de cima, da arquibancada, dava pra perceber o cabelo molhado e a camisa encharcada e suja de tanto Kaká se movimentar por todas as faixas do campo. Diferente da maioria de jogadores de linha no ocaso de suas carreiras, que se poupam ou dá migué mesmo, Kaká ainda corre e luta em campo como um menino. E esse exemplo fará falta demais em uma equipe que tem alguns caráteres opostos ao seu.

Fazia muito tempo que eu não ia ao Morumbi. Fui por um único motivo: me despedir do jogador que devolveu ao São Paulo o seu time. Explico: Antes dele chegar o que se via era apenas um apanhado de bons jogadores que não engrenava, por falta de compromisso, doação e/ou união. A situação mudou demais com a chegada de Kaká. Se para um Álvaro Pereira o empenho não mudaria nada (pois o uruguaio já nasceu e cresceu lutando), para algumas estrelas do clube, como Pato, Luís Fabiano e, sobretudo, Ganso, aquela imagem do consagradíssimo Kaká chegando cedinho para treinar, correndo feito louco nos treinos e ainda indo embora bem depois do encerramento da labuta cotidiana, foi decisiva.

Seria necessária muita falta de vergonha na cara para alguns seguirem se dedicando pouco, no limite mínimo, ao perceberem o suor e a entrega de Kaká em cada treinamento e partida. Por isso que Pato e Ganso cresceram. E havia ainda o exemplo tático: rara espécie em extinção no futebol brasileira, a inteligência para se deslocar e jogar de Kaká fez crescer a produção de jogadores próximos dele, como Souza, além de obrigar que, lá vem ele de novo, Ganso também se deslocasse mais.

Mais que Rogério, que é o líder incontestável há anos e anos, mas que por isso mesmo deve ter um desgaste óbvio com alguns jogadores, Kaká foi o grande aglutinador do São Paulo renascido de 2014. Sim, a equipe não ganhou nada, mas da luta contra o rebaixamento o clube subiu para o vice nacional e uma boa participação na sul-americana. E, mais que isso, o apanhado sem liga se tornou um time sólido, competitivo, forte de novo.

Pena que foi apenas um breve retorno. Não rendeu títulos? Sim, mas espero que a lição de humildade, garra e solidariedade de Kaká não seja esquecida.

Temo, porém, que sua saída e exemplo (“porra, é o Kaká, se ele tá se matando assim, eu não posso me esconder”…) voltem a acomodar alguns jogadores, como aquele camisa 10 que ontem voltou à sua habitual apatia e participação “intensa” de um, dois bons passes e só.

Obrigado, e que pena já ir embora, Kaká, sua camisa e alma transbordante de valentia serão, creio eu, insubstituíveis.

Los herderos de Obdulio

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“¿Cómo lo hacemos eso con personas tan buenas?”, lamentó Obdulio por sentir la tristeza del pueblo brasileño después del Maracanazzo. Y días y años más tarde, tal vez toda su vida, al grande Obdulio nunca le gustó celebrar la conquista uruguaya espectacular y épica. Un poco debido a los dirigentes del fútbol de su país, que no toleraba, y al dolor dejado en la gente entonces muy amable y cordial del Brasil de la época.

Hoy, décadas más tarde, la cosa es diferente. Claro que todavía hay mucha “gente buena” entre los brasileños de las masas, verdaderos guerreiros y supervivientes de condiciones de vida cada vez más difíciles en metrópolis como Río y San Pablo. Pero quien estuvo recientemente en Uruguay siente que hay un espíritu más amigo, dulce y cordial en los orientales, mucho más que en el ex-país del fútbol.

Los uruguayos son hoy, en afectos y amabilidad, lo que los brasileños fueron 60 años atrás. Así que sería demasiado bello ganaren la Copa del Mundo, para dar una alegría inmensa para estas personas tan diferentes de esse mundo cada vez más beligerante. Un pueblo unido y que vive en paz, sin el cada vez más alto grado de violencia, por ejemplo, que azota la sociedade brasileña de hoy.

Fuese Obdulio vivo y daría cuenta de que los hombres del entrenador Tabárez (mucho más que un técnico, un educador y maestro) no merecen perder esta Copa del Mundo debido al que representan, como muy pocas selecciones de este planeta.

¿Que otros jugadores de una selección crearan una Fundación de caridad para ayudar a los necesitados de su país, como lo hicieron los hombres de la Celeste? ¿ Y que otro país ha creado, de la selección y de su entrenador-educador, un proyecto que forma no sólo los jugadores pero también ciudadanos en toda las categorías de base de Uruguay? Tal vez sólo los alemanes tienen un proyecto similar para abarcar fútbol con educación y ciudadanía.

¿Nosotros, los brasileños? Mientras que la misma máfia prosiga em comando de CBF, nunca tendremos un proyecto que sembre la educación y los valores más nobles entre nuestros jóvenes.

Obdulio estaría orgulloso de percibir que sus compatriotas conservan el mejor de lo que el ser humano fue um día. Un ser humano más tranquilo, más cariñoso, con un ritmo de vida salpicado por rituales diarios pequeños y lentos. Quienes todavía no perdieron los elementos esenciales que desaparecieron em países frenéticos o adictos a las tecnologías virtuales como el Brasil de hoy: convivencia, intercambio de gestos y afecto real, cara a cara. Si anteriormente los brasileños pondrian las sillas en la vereda y celebraban a los vecinos, prácticamente eso ya no existe. Distinto de la gente de frente para el río de la Plata o para los campos y la vida, que todavía se reúne en frente de sus casas para compartir un mate y las impresiones y sentimientos de cada día.

El uruguayo supo conservar el néctar más bello y antiguo de las relaciones humanas. Los que llaman este país de “viejo” por mirar apenas los edifícios antiguos y grises no veen que “viejo” en Uruguay es en la verdad esa rara preservación de la vida antigua en lo que tenia de mejor: en su ritmo más lento y vivido, sentido de verdad.

Por eso Uruguay debería ganar esta Copa y experimentar la catarsis de una grande victoria de nuevo. Y qué hermosa será la victoria celebrada con una ausencia total de estrellato y soberbia de los jugadores uruguayos y su postura muy lejana de los pop stars de buena parte de las estrellas del fútbol mundial.

!Qué bueno sería ver Lugano bajar del avión con la Copa en una mano y en el otro el mate para compartir la conquista y su “uruguaidade” con su Pueblo!

Que bueno para el fútbol y para el mundo sería presenciar el logro de un país, un pueblo y una selección tan puros; guardianes de una inocencia olvidada que aprecia la coexistencia y el ser antes del tener posesiones y mucha plata.

Sí, en 1950 Obdulio sufrió con el silencio y la tristeza de Brasil. Pero el gran capitán puede no haberse dado cuenta que su corazón era mayor que el dolor de los brasileños.

Y Obdulio también no pudo prever, décadas después, que su espíritu, nobleza de valores, talento y fuerza hicieron su aparición en los hombres de Tabárez. En los hombres que llevan en sus pechos la misma grandeza, simplicidad y belleza humana del mito.

Ya es hora de otros mitos. En el mismo Uruguay. Sí, no tienes el paisito una arquitectura moderna, desgastada a través de los siglos (lo único visto por los turistas sin alma), pero esa es una de las sociedades más modernas, avanzadas y respetuosa de este planeta. El país que acepta los matrimonios homosexuales, que legalizaron el aborto y busca un nuevo medio de combate a las drogas. El país en el que su Presidente abdicó de vivir en un palacio para continuar en su sitio y donar el 90% de su salario a los necesitados, gran Mujica.

!Para un mundo mejor, ven y levanta la Copa, Lugano! Seguro que Obdulio, Mujica y la garra charrua habitan en su pecho y en esa camisa como el corazón inmenso late dentro de su pueblo.

La humanidad, para ser rescatada, necesita del triunfo de Uruguay.

Que en el 13 de julio la mística sea suplantada por la más bella realidad.

(PS – Perdón por mi pobre español al escribir)

O mais humano dos mitos

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41 anos e ele finalmente parou, depois de alguns anos em que as pernas não respondiam mais à sua genialidade. Sim, genialidade, do maior jogador do futebol brasileiro dos últimos 20 anos, o grande condutor e maestro do penta. O maior e mais completo jogador da Copa de 2002.

Rivaldo foi um dos raros super craques humildes que o mundo da bola produziu. Super estrela que simplesmente se recusou a ser uma super estrela, por sempre ter se recusado a expor sua vida pessoal num marketing insuportável tão comum em outros monstros da sua mesma geração.

Que outra espécime parecida com ele existiu no futebol brasileiro? Um monstro da bola, maestro de uma conquista de Copa, e ao mesmo tempo tão pacato e correto, um exemplo de verdade dentro e fora dos campos?

Uma pena que ele deu margem para a estupidez dos pobres de espírito, que caçoaram de sua persistência em seguir jogando sem o brilho daquele que já foi o melhor do mundo não só na eleição da FIFA de 1999.

Rivaldo podia ter parado de jogar no auge, mas como criticar um mito que portou-se sempre como um homem comum e discreto?

Como criticar o desejo de um ex-menino miserável, calado, mais que tímido; que passou por tantas privações e dores antes de conquistar a fama (nos campos, não na mídia)? Como criticar um homem que apenas queria seguir fazendo o que amava e lhe salvou a vida?

O futebol e a dignidade perdem demais com as chuteiras penduradas do mais humilde dos mitos. Sim, mito, porque o que este camisa 10 à moda antiga fez no Mogi, Palmeiras, Barcelona e Seleção Brasileira está guardado para sempre no seleto livro de ouro dos raros mitos da bola campeões do mundo como protagonistas principais.

Obrigado por, numa modalidade tão carente de exemplos, ter sido sempre esse caráter e ser humano fantástico, Rivaldo.

Um ser humano que, como contou meu ex-aluno Guilherme Albero ´Itapema´, entrega refeições aos seguranças e funcionários do condomínio onde mora, e ainda diz para esses caras: “Se eu esquecer, passa lá em casa, a hora que for que eu preparo a refeição para vocês.”

Dá para acreditar nisso? Só mesmo em Rivaldo.

Só mesmo no mais belo dos corações, no mais brasileiro de nossos mitos  – por sua origem de pobre e nordestino.

No mais perseguido dos mitos, do qual muitos duvidaram e criticaram (especialmente na Olimpíada de 96), até que ele calou a boca de todos em 2002 falando com aquela perna esquerda malabarista, poderosa, precisa, ilusionista, mágica.

Claro, um calar a boca sem peitar ou discutir com os críticos.

Rivaldo era elegante e reservado demais para dar espaço para os pobres de espírito e de conhecimento do que é o mais belo futebol.

Nasce um Gigante

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Só ao vivo conhecemos melhor a realidade e temos um panorama completo da verdade. Sempre soube da lealdade e poder da paixão dos atleticanos pelo Galo. A cada temporada, mesmo com sucessivos fiascos, desde 1971, nos campeonatos brasileiros, lá estava a massa lotando a arquibancada do Mineirão e cantando; na verdade, clamando. Clamando com o que só podia ser um amor misturado com uma fé incondicional de quem não ganhava nada além do certame mineiro e seguia cantando, empurrando seu time. E perdendo. Uma coisa é perceber isso pela TV e pelos relatos dos poucos atleticanos que conheci. A gente vê e sente um pouco, mas só podemos é, na real, imaginar o tamanho desse amor. Outra é ir lá em cima, na Serra das Alterosas, nas Minas Gerais, e adentrar no Mineirão antigo.

Estive lá há poucos anos, quando o Galo liderava folgado o Campeonato Brasileiro sob direção do treinador Celso Roth. Em pleno meio de semana frio, acho que de julho, dezenas de milhares de malucos vestidos de branco e preto andavam nos arredores do estádio. Lá dentro eram cerca de 40 mil e fui jogado no inferno, em plena torcida deles, por uma grande amiga alvinegra mas louca pra me mostrar o que era ser Atlético. Logo de cara percebi a intensidade da massa, incendiada pelo mascote mais doente e agressivo do futebol brasileiro, o Galo Doido, que realmente só pode ter um atleticano ultrafanático dentro da fantasia, de tão vibrante e ensandecido que era aquele bicho meio galo meio homem.

O jogo todo, contra meu pobre São Paulo no primeiro ano de uma série sinistra de vacas magras de anos que viriam, foi um passeio conduzido pelo velho craque Júnior (ex-ala esquerdo e um dos maestros de meu tricolor na conquista da Liberta 2005) e pelo megafone colossal dos gritos da massa que não parava um segundo. Foi a coisa mais próxima de uma torcida argentina – de cantar sem parar – que vi naqueles tempos. Hipnotizado e massacrado pela massa rival, achei que seria impossível alguém tirar aquele título brasileiro deles.

Mas vieram alguns meses e o velho tremor e fraquejar do Atlético na reta final explodiram e no final da temporada eles conseguiram perder até a vaga na Libertadores após uma humilhação imperdoável: tomar 6 a 1 do Cruzeiro naquele mesmo estádio em que eu vislumbrei um campeão.

Erro meu sobre ser campeão, mas percebi com clareza uma nação da qual desconhecia a força. A nação em forma um Galo doido, cantador e com um fanatismo e gritar sem parar.

O caso é que as derrotas e os vexames foram se sucedendo e todo ano eu checava a média de público e aqueles galos insanos seguiam tomando o Mineirão, com exceção dos anos de exílio no interior do estado quando o templo da bola de Belo Horizontes estava em reforma.

O caso é que quando o segundo estádio de Belo Horizonte, o Independência foi reformado e devolvido à cidade, a nação voltou a se concentrar em algo que podiam chamar de lar, mesmo que espremida. O caso é que nesse estádio acanhado debruçado sobre o gramado, a nação virou uma ameaça com decibéis e voltagem ainda mais ameaçadora aos rivais. E por isso (e, claro, pela qualidade do elenco montado pelo treinador Cuca, e comprado pelo presidente Kalil), o Atlético tornou-se imbatível no Independência e foi massacrando seus oponentes na 1ª fase da Liberta 2013 e nas oitavas de final.

Bom, depois vieram os inacreditáveis confrontos contra o Tijuana e o Newells, nas quartas e semifinal, em que a massa não conseguiu desnortear os adversários mas reencontrou-se com aquela fé gigantesca de sua história de derrotas e traumas. Uma fé que, mesmo à beira do abismo, fazia os milhares de galos doidos acreditarem mesmo quando o Tijuana teve um pênalti a favor no finzinho do jogo; mesmo quando o jogo contra o Newells ia acabando e o gol não saía para levar a batalha para a prorrogação. A novidade foi que a fé virou felicidade por classificações históricas que só poderiam ser obra daquele “sobrenatural de almeida” de que tanto falava e invocava Nelson Rodrigues.

Eis que veio a grande final da Liberta, a primeira da história do clube, e o mesmo roteiro muito mais que dramático se repetiu: derrota fora de casa por dois gols e a necessidade de empreender outra epopeia para renascer e vencer.

E o Galo repetiu contra o Olimpia paraguaio, tricampeão da América, história parecidíssima ao confronto com o Newell´s. E o Galo sofreu, muito. E o Galo esteve muito perto do fim, antes do paraguaio escorregar com o gol livre, sem goleiro, a sua frente. E o Galo teve fé, porque aquela imensa torcida, de volta a um Mineirão desfigurado, mas Mineirão, cantou numa sinfonia de 60 mil fiéis “Eu acredito!”.

E o Galo se tornou o maior clube da América porque o amor de sua torcida faz milagres, ou empurra seus artistas e guerreiros a façanhas tão belas quanto inexplicáveis. Porque, como um dia disse o lendário escritor e galo doente Roberto Drummond, “Se houver uma camisa branca e preta pendurada no varal durante uma tempestade, o atleticano torce contra o vento.”

E essa força e fé da nação atleticana, adicionada à confiança e grandeza que o clube e seus jogadores acabam de ganhar com esse título extraordinário, acabam de tornar o Galo um gigante do futebol sul-americano e, sim, mundial.

A menina que nos faz jogar com ela

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Vê-la jogando lava a alma. Mais que isso, nos transporta lá para dentro. É tanta vontade que ela exala cada vez que parte em direção à bola lançada – supersônica, motor explodindo a milhares de cavalos, fome pura de futebol na veia – que a vontade transborda. Contagia. Impressionante como ela parece comer o ar, estufando a bochecha, buscando o fôlego e tentando mantê-lo enquanto dispara como se cada lance fosse o último minuto do campeonato.

Pra ela é. Por isso, mesmo sendo apenas uma menina, nos emociona como se fosse aquele ídolo deus da raça de nosso clube de coração.

Mágica, a menina levanta a gente e nos faz viajar em lembranças boleiras inesquecíveis: de repente senti, ao vê-la se matar por cada bola, a mesma emoção dos tempos em que o ídolo Lugano nos arrepiava com seus olhos arregalados e toneladas de garra, entrega e amor.

Sim, amor, porque essa moça parece amar o futebol como só aqueles jogadores do passado amavam. Um amor sincero, e com alegria máxima, a tal da felicidade, a cada gol marcado. Gol é pouco, golaços. Junto do sangue bom Túlio, a gente via ela jogar e ficava admirado em cada lance, em cada batida precisa, e com força!, que ela dava na bola. Batida é pouco, ela parece pintar cada chute, numa precisão de movimentos que eu não conseguia identificar de onde vinha.

Sua mãe deu a senha quando eu perguntei se ela treinava em algum clube. Não, porque a filha é bailarina, e teria exame no mesmo dia em que ela, de manhã, almoçava a bola como um humilde atrás do PF sagrado de cada dia. Daí talvez venha o estilo raro dela, os gestos alongados nos chutes, o voo sustentado quando ela disputa a bola no alto e, surpresa, mata no peito sem medo com uma arte leve, flutuante, coisa de craque.

Craque, guerreira e mágica. Assistir Vanessa Bueno jogando futsal é uma experiência tão intensa que ela consegue até com que a gente esqueça dos já anos afastado do futebol, primeiro pelo joelho lesionado, hoje pela coluna.

Obrigado, moça, seu futebol de corpo e alma, exalado em cada lance, de repente me transportou para meus tempos de lateral esquerdo, e a cada corrida alucinada sua em jogadas formidáveis, parecia que eu voltava a jogar e disparar feito um louco pelas beiradas do campo. Impossível ver você jogar e não jogar junto.

Obrigado por jogar pela gente com a paixão que você mostra em todos os detalhes e lances do futebol que foi, é, e sempre será a nossa vida.

PS – Parabéns também às outras meninas valentes e habilidosas do Colégio Universitas, que deram de presente pra gente uma belíssima manhã de final de campeonato em Santos.

O São Paulo não merece Rogério

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Em mais uma noite mágica de sua trajetória iluminada, Rogério Ceni fez milagres – do início ao fim do jogo – e ainda fez de falta, em pleno campo inimigo, seu 88º gol na carreira com a camisa 1 Tricolor. Pena que os outros homens que o acompanharam no jogo contra o Once Caldas, em Manizales, Colômbia, não estiverem, mais uma vez, à sua altura. Por isso que o pobre, sem alma ou até ridículo desempenho da maioria de seus companheiros fez com que ontem, pela primeira vez, Rogério perdesse um jogo em que marcou gol. Sim, nas outras 82 partidas em que o goleiro havia balançado as redes, o São Paulo registrara 64 vitórias e 18 empates. Por isso o monstro da camisa 1 ficou tão irritado sobretudo com o gol da virada e vitória dos colombianos: Jorge Wagner perdeu uma bola dominada no campo de ataque (de novo, Jorge?!) para Dário Moreno. Ele avançou, ultrapassou o meio-campo, passou fácil por um ingênuo Jean, penetrou mais, entrou na área sãopaulina, enfiou a bola no meio das pernas de um zagueiro sem pegada e alma chamado Miranda, passou por Jean, de novo!, que voltara para a cobertura (onde estavam Richarlyson e Jorge Wagner, que deveriam fazer esse trabalho???) e chutou forte e rasteiro sem chances para Rogério e decretando o 2 a 1 para o time da Colômbia. Antes disso, Jorge Wagner bateu um lateral para Marcelinho Paraíba, e este morto mascarado que anda em campo passeando sua indolência, perdeu a bola de um contra-ataque fulminante que acabaria num gol de cabeça em cima dos 1m94 de Xandão. Mais uma trapalhada do homem que veio do Barueri…
Listo a seguir o desempenho dos carrascos de Rogério, ou melhor, traidores:
Cicinho
, uma avenida maior que a Sapucaí para o Once Caldas.
Miranda, grotesco, até quando ele seguirá enganando a tantos, falhando nos jogos mais duros, como sua série sem fim de dribles levados e cabeçadas perdidas que mostra na Libertadores? Quando vocês, sãopaulinos ditos esclarecidos, perceberão que ele é bom só na antecipação? Quando perceberão sua falta de pegada e raça? Quando perceberão que homens muito mais limitados que ele, como Fabão, foram muito mais importantes para o clube?
Xandão, mais um erro decisivo, irregular demais, alterna roubadas de bola incríveis com vacilos terríveis.
Jorge Wagner, duro falar mal dele, pois esse se entrega e dá duro no campo todo, ainda mais quando há um Rick do lado, mas DE NOVO deu a bola para o adversário contra-atacar e marcar.
Richarlyson, como aguentar um cara que destrói várias jogadas nossas, incapaz de acertar um passe, de marcar com inteligência e ainda com o irritante costume de dar bicos na arquibancada quando tenta bater no gol?
Jean, um leão, mas o vacilo, DUPLO!, no gol da vitória dos gringos, foi lamentável.
Cléber Santana, erra poucos passes, tem força para chegar, mas desaparece em certos momentos e sumiu na marcação ontem. Parece achar que é mais jogador do que é, talvez pelos anos de Europa.
Paraíba, esse não pode jamais vestir nossa camisa honrada e vitoriosa, o cara desfila sua máscara sem fazer nada de produtivo, não tem garra e parece que todos esquecem que ele foi o líder de um time que caiu para a 2ª divisão do Brasileiro.
Washington, o guerreiro de sempre, mas teve só 2 chances, por que obviamente a bola não chegava, porque o São Paulo do gênio Juvenal contratou um time inteiro e NÃO TROUXE NENHUM MEIA CRIATIVO!
O último é Hernanes, tão criticado por mim, mas que ontem foi a única luz criativa do time, e ainda lutou bastante o jogo todo. Pena que não teve em Cicinho um parceiro à altura.
Tá feia a coisa! Quem quer vencer a Libertadores não pode ter zaga frágil, não pode ser desatento, né, Jorge?!, nem sofrer sem um meia criativo. Tradução: Já era. A não ser que o tal do Fernandinho seja um monstro, que Alex Silva – bom zagueiro mas metido a craque como Miranda – tenha perdido sua máscara e soberba (foi ele que perdeu todas para Washington naquela eliminação da Libertadores de 2008, vocês, que o acham um monstro, já esqueceram disso?); e que Souto dê luz criativa e alma a esse meio-campo. E que Dagoberto jogue bem os jogos decisivos, e não partidinhas que não valem nada como jogo contra nanico do Paulistinha.
Pobre Rogério!

Por Amor

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Não há, no mundo todo, um povo que ame mais o futebol que o argentino. Por isso, para eles, ficar fora da Copa do Mundo seria uma tragédia tão dolorosa e amarga. O argentino respira futebol todos os dias, nas charlas (conversas) apaixonadas nos cafés; nos jornais que devoram nos mesmos cafés, nos balcões; nos meninos que ainda encontram muitos campinhos mesmo em uma grande metrópole como Buenos Aires; e, claro, nos estádios que eles transformam em arenas e espetáculos arrepiantes através de seus cânticos criativos, belos e emocionados. Cânticos de apoio e amor aos seus clubes que duram toda a duração das partidas.
Voltando ao tema Copa do Mundo, o que aconteceu ontem em Buenos Aires só não emocionou aqueles que não amam, de verdade, o futebol. A sofrida Argentina, mal escalada e treinada, sim, por Maradona, em toda as Eliminatórias para a Copa, sofria com um pobre 1 a 0 em cima do último colocado, o Peru. Sofria até essa vitória parcial virar drama quando, debaixo de uma tempestade de filme de terror, os peruanos empataram o jogo aos 45 minutos do 2º tempo. O empate deixava os donos da casa em situação terrível na luta para classificar-se à Copa. Mas eis que no último minutos dos três de desconto, aos 48 minutos, na pressão pelo gol salvador, a bola espirrada sobra justo nos pés de um centroavante veterano, folclórico, ridicularizado por muitos (um dia perdeu três pênaltis num jogo só) e amado por outros tantos. Amado por mais da metade do país, pois é ídolo histórico do time do povo, o Boca Juniors. A bola bateu em todo mundo e sobrou para o grandalhão grosso mas valente, corajoso, bravo, e desde ontem, imortal, Martin Palermo.
Imortal porque Palermo estava no lugar certo para empurrar a bola ao fundo das redes, fazendo o talvez gol mais dramático e esperado da história do futebol argentino. Na sequência, estádio e país inteiro vindo abaixo, o também ridicularizado Maradona (até por seu próprio povo, quanta ingratidão), saiu correndo feito louco e mergulhou num peixinho sensacional no gramado inundado, deslizando metros e metros de amor àquela camisa que ele tornou mítica em seus tempos de jogador.
Podem falar o que quiserem de Diego, acusá-lo de tudo, menos de falta de sinceridade, paixão e emoções verdadeiras. A explosão daquele que já foi Diós parecia selar a épica vitória argentina mas, incrível!, na retomada do jogo, um peruano chutou do meio de campo e acertou o travessão dos argentinos!, após um leve desvio do arqueiro. Escanteio e só depois dele a seleção da casa se salvou.
Salvou-se por ontem, porque ainda virá uma batalha muito maior, na Montevidéu do único povo que tem motivos fortes para odiarem os argentinos: os uruguaios, que sempre foram tão sacaneados e desprezados pelo país de Diego. O Uruguai de outros dois monumentais Diegos, o zagueiro Lugano, ex-São Paulo e o atacante Forlán, que realizou o outro milagre de ontem: a vitória celeste, fora de casa, contra o Equador, de virada, com gol decisivo convertido de pênalti aos 47 do 2o tempo…
Diferente dos uruguaios, nós, brasileiros, não temos motivos para entrar na onda dos tolos ou ignorantes que falam mal dos argentinos sem jamais terem colocado os pés na terra dos nossos, sim, hermanos. Sem jamais terem sentido e percebido como é profunda a loucura do argentino pelo futebol. Sem jamais terem conhecido um povo que, diferente de nós, luta por seus direitos, pressiona governos e enfrenta a polícia para defenderem preços justos e condições de vida decentes. Sem jamais terem percebido como, sim, os argentinos gostam dos brasileiros e de nossa cultura. Basta um dia na terra deles para percebermos, seja num banco de táxi, num café ou numa balada, como eles adoram elogiar nossos craques, praias, música e, claro, mulheres.
E, diferente de muitas estrelas do futebol brasileiro – que vestem a camisa da seleção sem entrega, comprometimento e raça (Robinho?) – os argentinos defendem sua camisa celeste e branca com uma dedicação e amor sinceros. Porque os jogadores argentinos bem-sucedidos não esquecem suas origens humildes. Não esquecem que um dia foram um pibe (menino) torcendo por um ídolo, um clube e um país.
Por isso tudo, por amor ao futebol de toque e alma; à maravilhosa cultura (o tango, a literatura e jornalismo riquíssimos, o cinema do cotidiano emocionante, por J.J. Campanella e Darín), culinária (carne, alfajores!), vinhos e até cerveja (Quilmes, leve, gostosa, a única que não m dá ressaca!); por respeito à garra e consciência política e social dos hermanos, pude dormir ontem com um sorrisão enorme e coração feliz porque o amor ao futebol venceu ontem uma das partidas mais dramáticas já realizadas. Fiquem então com a narração dos gols de ontem, na voz apaixonada de um locutor local.
PS – Engole essa, Thiago Leifert!, mala que vive debochando dos argentinos, não entende nada de futebol, muito menos de amor ao futebol, e por isso acabou com o ex-melhor noticiário esportivo da TV brasileira, o Globo Esporte.