Os milagres de Rogério Ceni

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sp-rogerio contra ceara“Era apenas o time B do Ceará” disseram os céticos e os espíritos de porco. Esqueceram da pobreza técnica do futebol na maioria dos clubes – inclusive nos grandes e em todas as divisões – do país do 7 a 1 fora o baile e dó dos alemães. Portanto, era, sim, uma duríssima missão para o empobrecido, endividado, aflito e em crise São Paulo de 3 derrotas seguidas (duas delas vexatórias em pleno Morumbi para times na lanterna das série A e B) enfrentar o Ceará e 50 mil fanáticos torcedores na casa deles. Nesse nivelamento por baixo do futebol brasileiro, a eliminação tricolor era muito provável e acabaria provavelmente com o trabalho inovador mas sabotado desse ótimo treinador colombiano chamado Juan Carlos Osório. Rogério Ceni acabou com esse desastre provável.

O São Paulo seria eliminado sem ele. Como Rogério mudou a história?

Sendo Rogério. Sendo esse jogador monstruoso que sempre foi, daí sua tão justa alcunha e apelido de M1TO.

No começo do jogo um atacante cearense, em uma tão comum falha dos horríveis zagueiros tricolores, recebeu a bola livrinho, cara a cara com Rogério. Era só escolher o canto e marcar um gol que tornaria a tarefa tricolor um milagre (marcar três gols) ou simplesmente fuzilar que Rogério não teria chance.

O caso é que não era um goleiro qualquer ou sem história na frente do atacante Fabinho. Estivesse ali o reserva Renan e o gol aconteceria.

O caso é que diante de Rogério aquele gol enorme fica do tamanho do gol caixote das peladas de praia.

Fabinho levantou a cabeça e se viu diante de um muro azul do tamanho da muralha da China.

A tranquilidade e facilidade de se ver livrinho da silva na cara do goleiro virou respeito, medo, pânico.

O chute ou tapa fácil e certeiro virou um um pontapé tosco e sem força em cima de Rogério. Em cima do imã Rogério, que simplesmente desconcertou o rival com a dimensão de seu talento e história. O jogador desconhecido não pôde com o goleiro mitológico, raríssima lenda viva do esporte a atuar em alto nível aos 42 anos.

Pobre atacante, pobre Ceará. E pensar que poderiam ter feito história e eliminado o São Paulo cada vez mais parecido com um verso de seu hino (“as tuas glórias vêm do passado”).

Poderiam se Rogério não estivesse em campo. Se ele não tivesse atraído a bola como um hipnotizador e super-herói com super poderes.

Poderiam se caso houvesse um pênalti para o São Paulo, Rogério não estivesse em campo.

Alguém imagina os inseguros e sem chama Pato, Ganso ou um dos muitos perebas tricolores batendo aquele pênalti com o sangue frio, coragem e precisão de Rogério, com aquele tapa com força calculada no cantinho dos cantinhos, em um lance em que o goleiro rival ainda pulou no canto certo?

Pobre Ceará, porque Rogério estava em campo, e olha que ele estava machucado, com a virilha ainda não totalmente recuperada.

Virilha que o fez perder os últimos 3 importantes jogos do São Paulo. 3 derrotas. E o locutor da ESPN cometeu a bobagem de dizer que “por coincidência o Rogério não jogou nesses 3 jogos”. Coincidência coisa nenhuma! Sem Rogério o São Paulo fica infinitamente inferior, isso é claríssimo.

A “coincidência” acabou na noite de 4ª feira. Acabou na raça, alma e amor de quem, como ele mesmo afirmou depois do jogo, só foi a campo porque “precisava ir”.

Porque o Seu São Paulo precisava dele.

Porque mitos jogam e lutam no sacrifício, mesmo se são tão valentes que não acreditam estar se sacrificando.

Por isso foi tão bela e arrepiante a resposta de Rogério ao repórter que o entrevistou ao final de mais uma missão milagrosa de um dos maiores goleiros e artilheiros que o mundo conheceu:

– Jogou no sacrifício, Rogério?

– Não, é sempre um prazer jogar pelo São Paulo.

a corrida eterna de assis

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assis

Até hoje, mais de 30 anos depois, a cena tão bela quanto dramática e emocionante me volta nítida. era o minuto final de um fla-flu eletrizante como eram os fla-flus dos tempos em que a maioria de nossos grandes jogadores e craques ainda desfilavam em nossos estádios. eram os tempos em que os campeonatos estaduais ainda tinham alto nível de competitividade e, acreditem, pobres jovens de hoje, dezenas e dezenas de milhares de pessoas iam em cada clássico. eram tempos ainda do maracanã lotado, do velho, mítico e enorme, colossal maracanã com sua geral do povão e aquela monumental marquise e arquibancada. eram tempos em que os estaduais muitas vezes eram tão valorizados como um campeonato brasileiro. eram os tempos em que o futebol ainda era arte no país do futebol arte. por isso tudo, quando o canhoto de fina estirpe assis arrancou pelo lado direito do campo, dezenas de milhares rubro-negros ficaram mudos, com medo daquele jogador que parecia crescer contra eles; e outras dezenas de milhares tricolores se levantaram hipnotizados, torcendo, sentindo, quase que sabendo… eram os tempos em que os títulos ainda eram decididos por grandes jogadores ou craques que se tornavam mitos ao realizarem jogadas maravilhosas que nunca acabaram no coração e memória de quem assistia aqueles jogos eternos.

aquela corrida de assis – que não era um jogador rápido, mas protegia a bola como poucos – jamais parou depois de receber aquele lançamento magistral de outro grande de sua época, delei. não parou nem depois dele invadir a área e na frente do grande raul, que cresceu pra cima dele protegendo sua meta e quase todos os ângulos. sim, assis quase parou, como fazem os grandes jogadores com culhões e calma para dar o último e mortal tiro, e com maestria deu um tapa na bola no único cantinho que raul não conseguiu esconder.

o golaço, gol de placa, gol histórico, gol monumental, um dos mais belos da história do estádio dos estádios, não encerrou a corrida de assis porque gols como esse a gente não para de rever como se quiséssemos resgatar e guardar uma das pequenas grandes belezas vitais de nossas vidas. sim, vital, porque o futebol arte é tão belo para quem cresceu louco pela bola e por seus ídolos e times como outras coisas importantes e fundamentais da vida.

para mim e tantos meninos que cresceram nos mágicos anos 80 de tantos craques, times fantásticos e daquela seleção cinematográfica e musical de mestre telê, o futebol arte é uma lembrança tão querida e valiosa como os melhores amigos, festas, brincadeiras e musas de nossa infância. de nossos anos dourados.

por isso o grande assis, que nos deixou agora, jamais parou de correr. um correr que deveria servir de aula para os alucinados jogadores brasileiros de hoje, porque o correr de assis era cadenciado, belo, elegante, um galope, quase um trote. um correr inteligente, do craque que sabia dosar o futebol de corpo e mente.

assis não precisaria ter feito mais nada na carreira do que essa corrida magistral, mas ele fez e ainda foi sempre um grande sujeito fora dos campos e ainda um parceiro mais que fiel do seu grande amigo dos gramados, o inseparável Washington que tantas glórias protagonizou junto dele.

mas vai lá, assis, corre, corre, continua a correr e dá um abraço lá em cima no velho amigo que o espera para mais uma jornada inesquecível do inesquecível casal 20 do futebol brasileiro. os gols, quantos gols!, voltarão a tomar conta do único campinho à altura do antigo, bom e velho maracanã de verdade: o céu.

assis e washington

(washington e assis)

 

O homem que nos fez amar o esporte e mais a vida

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luciano do valle

“Jamais morrerá o narrador cuja voz está impregnada na memória afetiva de gerações, por ser a referência sonora de tantos e tantos momentos que não se apagarão. Luciano do Valle é o timbre de uma época, o condutor de emoções que não se separarão da maneira como ele as descreveu. Feche os olhos, escolha um desses momentos e ouça. Luciano continua narrando.” (André Kfouri, no Lance! de hoje)

As primeiras lembranças marcantes que temos do esporte em nossas vidas vêm das primeiras grandes partidas e ídolos iniciais de nosso time do coração. Mas o poder da voz de Luciano de Valle era tão profunda que menos de um ano depois de minhas primeiras recordações de alegrias com meu São Paulo de Valdir Peres, Chicão, Serginho, Zé Sérgio e cia (campeão brasileiro de 77), foi a sua voz que também ficou gravada na porção mais bela e preservada da memória de meu coração. Mais que isso, foi sua narração apaixonada (na medida justa, com o grito mas sem o exagero dos berros seguidos de outros locutores da TV) que talvez me fizeram me tornar, definitivamente, um fanático esportivo. E um fanático sempre a escolher um lado pelo qual torcer, sempre explodindo de alegria ou tristeza com as vitórias e derrotas.

Foi em 1978. Como esquecer as antológicas narrações, mais que isso, descrições vivas, das bombas de Nelinho e Dirceu da seleção brasileira na Copa da Argentina? Luciano, em sua 1ª Copa, já era tão bom que fez até aquela seleção confusa de Coutinho parecer melhor do que era. Apenas parecia, porque mesmo com aquele jogo vergonhoso dos hermanos contra o Peru, era muito melhor mesmo a poderosa seleção local. A Argentina cantada com emoção, e respeito à rara alquimia de beleza e raça de seu jogo, por Luciano. Por isso até hoje escuto Luciano recitando a magia de Fillol, Passarela, Tarantini, Luque, Ardilles, Villa, Olguín e, claro, ele, o primeiro super craque que conheci na vida, o matador cheio de estilo Mario Kempes.

Foi também em 1978 que o Brasil explodiu de alegria com aquela narração do finalzinho da disputa da medalha de bronze do Mundial masculino de basquete. Lá das Filipinas, num jogo de manhã cedinho, Luciano narrou, como se pressentisse o milagre, “3, 2, 1, Marceeeeelllllllllllllllll, cesta para o Brasil!!!!!!!”. Sim, a incrível cesta de Marcel que nos fez virar o jogo e ganhar o bronze da Itália por um pontinho. E Luciano ajudou em todo o Mundial o Brasil a perceber o talento de uma geração fantástica dos então jovens Marcel e Oscar.

Poucos anos depois o mesmo Luciano praticamente apresentou o voleibol ao brasileiro. Com seu talento imenso para descrever as jogadas de uma modalidade então ignorada e desprezada no país, ele fez o país simplesmente se apaixonar pelo vôlei. Foi graças, muito a ele, que o vôlei explodiu com seu canto emocionado dos saques, levantadas e cortadas mágicas de Renan, Bernard, William, Xandó e cia, isso sem falar no seu papel de criador de nossas primeiras musas desse esporte, Isabel, Jaqueline e Vera Mossa.

A emoção e paixão que pelo vôlei que Luciano semeou foi tão grande que a molecada passou até a jogar esse esporte na rua, como eu e meus vizinhos fazíamos: a rede era o portão da antiga Sears defronte a nossas casas. Alguns meninos pulavam o portão e jogavam de dentro da empresa, e outros jogavam na calçada e começo da rua.

Nos anos seguintes, seria dele também a perfeita descrição de um time fantástico, que dava recitais com um toque de bola magistral, falo do Flamengo de Zico e também Leandro, Junior, Andrade, Adílio, Tita, Nunes e cia.

1982. Na Copa das Copas para qualquer brasileiro de 45 anos para cima hoje, Luciano declamou em prosa e poesia a mais bela seleção brasileira que eu e muitos da minha geração viram jogar-encantar: o Brasil de Mestre Telê e seus super craques Falcão, Cerezzo, Sócrates, Zico, Leandro, Júnior e Éder. Até hoje a locução de Luciano naquele Mundial é considerada, por muitos, a mais perfeita narração da história do jornalismo esportivo brasileiro na TV.

Um ano depois foi de Luciano, claro, a voz que apresentou aos brasileiros, no Mundial feminino de basquete jogado no nosso Ibirapuera, duas jovens já fantásticas, Hortência e Paula. Dois super talentos que Luciano batizou pouco depois de Rainha Hortência e Magic Paula. E seria na voz dele, anos e anos depois que elas conquistariam o mundo, campeãs do mundo em 1994 e prata na Olimpíada de Atlanta´96, com Luciano já na Bandeirantes.

Na Band onde ele montou o Show do Esporte, não um mero programa, mas uma grade esportiva inteira que fez do canal paulistano o canal do esporte. Luciano comandou um projeto capaz de proezas como trazer as primeiras transmissões do campeonato italiano de futebol, jogos da NBA e muito mais, como um dos raros erros de Luciano, a aposta no boxe com Maguila, que ele colocou num falso pedestal, aquém dos parcos recursos daquele lutador folclórico, ignorante e frágil, que não aguentou um assalto com um lutador de verdade como Holyfield.

Fora Maguila e a triste obrigação profissional de nos últimos anos ter que dividir seus gritos de gol com o “momento Max Color” nas locuções na Band, além de suportar as intervenções de comentaristas de qualidade duvidosa, fica na gente a beleza da paixão de Luciano. Por vários esportes e, por que não, pela vida sentida com uma explosão de sentimentos maior.

Muitos dos que eram meninos e cresceram sob as narrativas de Luciano tornaram-se homens de incontroláveis exaltações, de alegria ou tristeza. Porque não era possível não vibrar feito um louco possuído nas vitórias, tampouco se recuperar da dor de perder um grande jogo e título narrado por Luciano.

Obrigado, querido Bolacha, por nos revelar e ensinar a amar e reverenciar os mitos e guerreiros das quadras e campos, por semear fogo em nossos corações e nos mostrar que o esporte é, muitas vezes, a vida no máximo de sua intensidade.

PS – Alguém me ajude, mas não eram também de Luciano as narrações da era de ouro do tênis mundial, exibidas na íntegra na Globo desde as semifinais quando em Roland Garros e Wimbledon? Borg, Connors, McEnroe, Villas, que elenco!

PS 2 – Foi com Luciano que o mundo assistiu a até hoje mais incrível performance de um piloto na história da F-1, aquela corrida em que o adorável louco canadense Gilles Villeneuve foi perdendo peças da sua Ferrari e mesmo assim conseguiu completar a prova.

O mais humano dos mitos

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rivaldo

41 anos e ele finalmente parou, depois de alguns anos em que as pernas não respondiam mais à sua genialidade. Sim, genialidade, do maior jogador do futebol brasileiro dos últimos 20 anos, o grande condutor e maestro do penta. O maior e mais completo jogador da Copa de 2002.

Rivaldo foi um dos raros super craques humildes que o mundo da bola produziu. Super estrela que simplesmente se recusou a ser uma super estrela, por sempre ter se recusado a expor sua vida pessoal num marketing insuportável tão comum em outros monstros da sua mesma geração.

Que outra espécime parecida com ele existiu no futebol brasileiro? Um monstro da bola, maestro de uma conquista de Copa, e ao mesmo tempo tão pacato e correto, um exemplo de verdade dentro e fora dos campos?

Uma pena que ele deu margem para a estupidez dos pobres de espírito, que caçoaram de sua persistência em seguir jogando sem o brilho daquele que já foi o melhor do mundo não só na eleição da FIFA de 1999.

Rivaldo podia ter parado de jogar no auge, mas como criticar um mito que portou-se sempre como um homem comum e discreto?

Como criticar o desejo de um ex-menino miserável, calado, mais que tímido; que passou por tantas privações e dores antes de conquistar a fama (nos campos, não na mídia)? Como criticar um homem que apenas queria seguir fazendo o que amava e lhe salvou a vida?

O futebol e a dignidade perdem demais com as chuteiras penduradas do mais humilde dos mitos. Sim, mito, porque o que este camisa 10 à moda antiga fez no Mogi, Palmeiras, Barcelona e Seleção Brasileira está guardado para sempre no seleto livro de ouro dos raros mitos da bola campeões do mundo como protagonistas principais.

Obrigado por, numa modalidade tão carente de exemplos, ter sido sempre esse caráter e ser humano fantástico, Rivaldo.

Um ser humano que, como contou meu ex-aluno Guilherme Albero ´Itapema´, entrega refeições aos seguranças e funcionários do condomínio onde mora, e ainda diz para esses caras: “Se eu esquecer, passa lá em casa, a hora que for que eu preparo a refeição para vocês.”

Dá para acreditar nisso? Só mesmo em Rivaldo.

Só mesmo no mais belo dos corações, no mais brasileiro de nossos mitos  – por sua origem de pobre e nordestino.

No mais perseguido dos mitos, do qual muitos duvidaram e criticaram (especialmente na Olimpíada de 96), até que ele calou a boca de todos em 2002 falando com aquela perna esquerda malabarista, poderosa, precisa, ilusionista, mágica.

Claro, um calar a boca sem peitar ou discutir com os críticos.

Rivaldo era elegante e reservado demais para dar espaço para os pobres de espírito e de conhecimento do que é o mais belo futebol.

A menina que nos faz jogar com ela

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vanessa

Vê-la jogando lava a alma. Mais que isso, nos transporta lá para dentro. É tanta vontade que ela exala cada vez que parte em direção à bola lançada – supersônica, motor explodindo a milhares de cavalos, fome pura de futebol na veia – que a vontade transborda. Contagia. Impressionante como ela parece comer o ar, estufando a bochecha, buscando o fôlego e tentando mantê-lo enquanto dispara como se cada lance fosse o último minuto do campeonato.

Pra ela é. Por isso, mesmo sendo apenas uma menina, nos emociona como se fosse aquele ídolo deus da raça de nosso clube de coração.

Mágica, a menina levanta a gente e nos faz viajar em lembranças boleiras inesquecíveis: de repente senti, ao vê-la se matar por cada bola, a mesma emoção dos tempos em que o ídolo Lugano nos arrepiava com seus olhos arregalados e toneladas de garra, entrega e amor.

Sim, amor, porque essa moça parece amar o futebol como só aqueles jogadores do passado amavam. Um amor sincero, e com alegria máxima, a tal da felicidade, a cada gol marcado. Gol é pouco, golaços. Junto do sangue bom Túlio, a gente via ela jogar e ficava admirado em cada lance, em cada batida precisa, e com força!, que ela dava na bola. Batida é pouco, ela parece pintar cada chute, numa precisão de movimentos que eu não conseguia identificar de onde vinha.

Sua mãe deu a senha quando eu perguntei se ela treinava em algum clube. Não, porque a filha é bailarina, e teria exame no mesmo dia em que ela, de manhã, almoçava a bola como um humilde atrás do PF sagrado de cada dia. Daí talvez venha o estilo raro dela, os gestos alongados nos chutes, o voo sustentado quando ela disputa a bola no alto e, surpresa, mata no peito sem medo com uma arte leve, flutuante, coisa de craque.

Craque, guerreira e mágica. Assistir Vanessa Bueno jogando futsal é uma experiência tão intensa que ela consegue até com que a gente esqueça dos já anos afastado do futebol, primeiro pelo joelho lesionado, hoje pela coluna.

Obrigado, moça, seu futebol de corpo e alma, exalado em cada lance, de repente me transportou para meus tempos de lateral esquerdo, e a cada corrida alucinada sua em jogadas formidáveis, parecia que eu voltava a jogar e disparar feito um louco pelas beiradas do campo. Impossível ver você jogar e não jogar junto.

Obrigado por jogar pela gente com a paixão que você mostra em todos os detalhes e lances do futebol que foi, é, e sempre será a nossa vida.

PS – Parabéns também às outras meninas valentes e habilidosas do Colégio Universitas, que deram de presente pra gente uma belíssima manhã de final de campeonato em Santos.

Pra Frente, Brasil! (ou a “brilhante” operação dos que recusaram o Maestro Guardiola)

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“Respeitamos o passado e as conquistas de Felipão e Parreira, mas precisamos pensar no presente e no futuro”, foram mais ou menos essas as palavras do jornalista Lucio de Castro hoje na ESPN Brasil. Exato. Felipão foi o comandante do Penta, é uma figura querida, um grande motivador e fez também um belo trabalho em Portugal. Tornou uma seleção de quem ninguém tinha medo em uma das potências europeias e mundiais na metade dos anos 2000. Parreira orquestrou o Tetra e também teve um currículo notável. Mas ambos há muito que deixaram de ser sinônimo de bons trabalhos.
A escolha dos vitoriosos mas ultrapassados treinadores de nossos dois últimos títulos mundiais matou uma chance única do futebol brasileiro reencontrar-se consigo mesmo. Perdemos a chance não só de resgatar a essência da bola brasilis – a arte do toque de bola com posse, tabelinhas, dribles, passes verticais, arriscados e pressão pra cima do adversário que estava no DNA, por exemplo, dos tricampeões de 70 ou nos artistas de 82 – como de recuperar o amor de encarnar a amarelinha.
Como um estrangeiro iria recuperar esse amor? Apaixonado pelo futebol bem jogado e pelos maiores da história do jogo bonito, Guardiola é também um mestre forjador de homens sérios, dedicados e dignos. Não é possível, por exemplo, lembrar de um só barraco, caso de estrelismo, orgia, falta de esportividade, violência ou qualquer outro tipo de jogo sujo nas versões do Barcelona que ele dirigiu. Aliás, foi por alguns desses vícios que logo que ele assumiu o Barça se livrou de Deco e Ronaldinho Gaúcho. O máximo de problemas do treinador foram rusgas com Eto´ e Ibrahimovic, mas ambos são egos enormes e não criaram problema só com Pep.
Fala-se tanto na talvez qualidade maior de Felipão – a tal família que criou em 2002 – mas por que não se pensou que Pep poderia criar o mesmo, e com ainda mais força e comprometimento por várias qualidades que ele exibiu como a de ser um mago do vestiário cheio de craques para poucas vagas no Camp Nou? E a estatura humana e profissional de Pep, elegante, articulado, determinado a conquistar e ganhar tudo, como ganhou? E a sua rara qualidade de valorizar tanto as pratas da casa? Aqui uma das críticas mais sem fundamento dos que não o queriam no Brasil: que ele não conhece os jogadores e o futebol brasileiro. Erro crasso. Em primeiro lugar, ele já enfrentou como treinador ou teve ao lado a maioria dos selecionáveis de hoje. Em segundo lugar, como um maníaco garimpeiro, um apaixonado em descobrir novos talentos que ele sempre foi, por que ele não poderia fazer o que fez o argentino Rubem Magnano com o nosso basquete?
Para quem não sabe, Magnano viajou o Brasil todo para conhecer os destaques das categorias de base (os nomes mais famosos, Varejão, Leandrinho, Nenê, Splitter ele já conhecia da NBA ou por tê-los enfrentado com a Argentina) de nossa bola laranja. Meu aluno, seleção sub-17 e sub-20, Gabriel Zanini, cansou de me contar, olhos brilhando, que o argentino tinha aparecido no treino ou jogo dele. Eu mesmo vi o bigode hermano nas arquibancadas do ginásio do Pinheiros observando a molecada das inferiores ou os já adultos, mas novatos do NBB.
Guardiola visitaria a base de nossas seleções e maiores clubes com prazer, com garra, com sua paixão e olho clínico para descobrir o jovem realmente talentoso. Alguém viu algum grosso jogar com ele no Barça? “Ah, mas ele tinha a fábrica de La Masía, a escolinha do Barça, ao seu dispor”. Ué, mas por que foi com Guardiola que os meninos da escolinha mais subiram para o time principal? E por que foi com ele que Xavi e Iniesta se transformaram em monstros da bola? E alguém viu o Dunga, o Mano visitando a base de nossos clubes ou passando um bom tempo em Teresópolis com nossas seleções-sub? Alguém acha que o Felipão vai botar o pé na estrada Brasil afora? Aliás, quantos jovens o Felipão lançou nas equipes que comandou? Raríssimos, pois sempre preferiu os medalhões aos “guris”. E lembremos que os melhores do Brasil hoje são todos muito jovens, mas claro que o presidente da CBF não pensou nisso.
O caso é que a retrógrada, conservadora e ditatorial CBF jamais aceitaria conviver com um treinador moderno e ainda afeito a “essas bobagens” de ensinar não só futebol mas valores. Valores para esse pessoal que manda e desmanda no futebol brasileiro são apenas monetários. Calma, sei que alguns vão falar que “valores é besteira, que jogador tem que ser malandro, que bom caráter não ganha título e sim bola no pé etc etc”. Uhn, quantos malandros jogavam no Barça de Guardiola? Quantos jogam na Espanha campeã de tudo?
Outro erro é o velho imediatismo de achar que deve-se pensar apenas na próxima Copa em vez de mudar e melhorar o modelo técnico do futebol brasileiro. Que jogar bonito que nada, Marin e Del Nero querem é vencer a Copa com um treinador pragmático como eles. Querem é um time amarradinho lá atrás, que vença sempre de 1×0 e pronto. Só esquecem que não há mais o fenômeno Ronaldo e o gênio, sim, Rivaldo, nem os superatletas Cafu e Roberto Carlos, nem Ronaldinho antes do desbunde, nem a segurança e carisma inigualável de São Marcos.
Só esquecem que Felipão e especialmente Parreira venceram Copas com níveis técnicos dos mais baixos da história. Simplesmente não havia grandes seleções rivais em 94 e 2002, tampouco nenhum grande craque estrangeiro em forma. Bastou, por exemplo, um Zidane de novo em forma, em 2006, que ele sozinho acabou com o Brasil de Parreira num dos maiores bailes da história das Copas. A quantidade de dribles desconcertantes e humilhantes que o já veterano Zizou aplicou em nossos jogadores é coisa sem igual na história do futebol. Nem Garrincha entortou tanta gente num só jogo de Copa.
“Ah, mas Felipão é um vencedor, ganhou a Copa e depois foi brilhar em Portugal”. Sim, até o mesmo Zizou acabar com os patrícios em 2006, depois de despachar o Brasil. E lembremos da belíssima campanha na Euro 2004 em que uniu a terrinha toda, mas depois perdeu a final em casa, para a… a Grécia… E depois só vieram fiascos históricos como enfiar o Palmeiras na 2ª divisão (Copa do Brasil, torneio disputado sem os melhores times do Brasil, não é parâmetro; assim como não é parâmetro técnico elevado vencer uma  Copa Sul-Americana, também sem boa parte dos melhores times não só do Brasil, mas da Argentina, Uruguai etc).
Pra piorar, Felipão já disse mais de uma vez não gostar do “joguinho chato” dos espanhóis.
Pior para ele, que deverá engolir o mesmo veneno que afogou Muricy.
Pior para a gente, que engoliremos não só Felipão mas Parreira. Nada contra a experiência (Don Vicente Del Bosque a provar que a rodagem pode ser bela e sábia na maravilhosa Espanha que ganha tudo há anos), mas tudo contra ela quando é sinônimo de dois homens acomodados na fama e no passado.
Não serão os ridículos e hipócritas apelos patrióticos de um filhote da ditadura militar e eterno fantasma obscuro da política nacional, o presidente Marin, proferidos hoje na coletiva de apresentação, que tornarão Felipão e Parreira vencedores de novo. Além do mais porque futebol não é guerra e o brasileiro – que se distanciou muito da amarelinha desde os fiascos dos desbundados e farristas de 2006 e dos guerreiros destemperados ou mal humorados de 2010 – tem o direito, sim, de não torcer por uma seleção que não representa mais o que ele acredita.
Guardiola poderia nos fazer acreditar de novo. Saberia escolher os nomes certos e, sobretudo, priorizaria os jogadores mais hábeis e virtuosos e, claro, um estilo ultra ofensivo e tomando conta da bola como era o nosso futebol do passado.
Felipão? PVC, na ESPN, ontem, fez uma projeção sinistra de como poderia ficar do meio para a frente com ele: Ralf, Felipe Melo, Paulinho e Ramires. Neymar e um centroavante alto e/ou forte (Hulk ou o já bem mediano em 2010, Luis Fabiano). Quatro volantes. Meias talentosos, criadores e verticais?, fora. Lucas fora (um novo Denilson, arma só pro 2º tempo?). Pobre Neymar, isolado ao Deus dará. Claro que Paulinho e Ramires poderiam ser titulares com Guardiola, mas eles teriam mais cérebro e muito mais criação ao lado deles.
Pobre também da descuidada avaliação dos que torceram contra Guardiola, entre outros motivos por acharem que era apenas um lobby de parte da mídia esportiva como o jornal Lance. O lobby veio é da sempre nefasta CBF e de outra mídia historicamente parceira dos cappos do futebol brasileiro.
O que os apaixonados jornalistas do Lance – uma das raras mídia independentes deste país – queriam era apenas o futebol e o futuro muito melhor que viria com o cidadão catalão, espanhol e mundial á frente de tudo.
Finalmente, outro descuido e falta de reflexão: “Ganhamos cinco Copas com brasileiros no comando”. Ora, perdemos outras várias com brasileiros no comando também. Não querer um estrangeiro, em tempos mais que globalizados é bairrismo, medo, ignorância ou o tal do patriotismo guerreiro do Dunga ou, mais enviesado e autoritário, do Marin?“Se quisermos hoje evoluir tecnicamente e, principalmente, taticamente, já que ficamos para trás, o negócio não é investir para trazer jogadores estrangeiros (nos clubes brasileiros), e sim treinadores para os nossos clubes! O caminho hoje é inverso e temos de ter a humildade de reconhecer que não somos mais os melhores do mundo”, escreveu Benjamin Back hoje no Lance. 
A humildade reconhecida com grandeza por Neymar assim que acabou o jogo em seu time foi humilhado por Messi, pela máquina espanhola e pelo maestro Pep. Já esqueceram o que o santista disse? “Hoje eu aprendi o que é futebol. Levamos um baile.”
O baile que deverá prosseguir em 2014, pois a Espanha está anos luz a nossa frente, a Argentina tem Messi e uma seleção cada vez mais acertada, a Alemanha é forte (e joga com arte, até ela, a antes sisuda senhora germânica!) e, incrível, temos ainda uma Itália em que o corajoso Cesare Prandellli sacou os brucutus e colocou só homens que sabem jogar no meio-campo. O Brasil? Ora, “o Brasil parou no tempo e joga o mesmo futebol pragmático de dez, quinze anos atrás, que não funciona mais”, afirmou uma das lendas da bola mundial, o alemão Paul Breitner.
Perdemos a chance de trazer o melhor treinador do planeta e um dos maiores da história do futebol. E, santa burrice, Batman!, perdemos o mestre que estava, vejam só, louco para trabalhar com a gente! PVC de novo, preciso: “É inadmissível que a CBF não tenha nem conversado com Guardiola, nem discutido suas ideias, nada.” 
Ah, desculpem, esqueci, “precisamos ser patriotas!”, berrou Marin hoje, deixando o próprio Felipão, que brilhou tanto em Portugal, visivelmente constrangido. Aliás, aos que veementemente lançaram a grita de que não precisamos de estrangeiros, o contrário pode? Felipão ter treinado a seleção portuguesa pode, mas Guardiola treinar a nossa, não pode? Qual a lógica desse patriotismo? Simplesmente não há. Esse patriotismo é apenas falta de humildade para reconhecer que não temos os melhores treinadores e jogadores do mundo faz tempo. Falta de humildade que não rendeu nenhum convite, por exemplo, ao ótimo e outro defensor do toque de bola, o chileno Jorge Sanpaioli, da La U, para treinar um clube brasileiro.
Mais um dia triste para o futebol brasileiro, que terá repercussões negativas por anos e anos.
Sim, Felipão, pode até trazer o hexa (difícil, não teremos mais as babas de 2002), mas não trará o futebol brasileiro de volta.
Mas “vamo que vamo!” que a nossa patriótica cerveja preferida, depois do “somos guerreiros!”, agora revela e grita que “vai ser tudo festa!, não importa que tá tudo atrasado e super faturado!, o importante é a festa!”. E vamo que vamo, Marin!, “Pra frente, Brasil!, Salve a Seleção!”.

Não deixem o JT morrer

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Se eu pudesse sintetizar toda a minha vida, entre ideais, paixões, sonhos e pequenas realizações em uma única foto, esta seria a imagem. Uma imagem, captada pelo fotógrafo Reginaldo Manente, ligada a um fato. Um fato que só poderia ter sido descrito dessa forma – e foi – pelo jornal mais ousado e belo que conheci, o Jornal da Tarde. Ou simplesmente JT para os íntimos. Somente o JT soube expressar toda a dor genuína, profunda, dos brasileiros naquele 5 de julho de 1982 quando a mais bela seleção brasileira de futebol da história perdeu da Itália em uma partida tão maravilhosa quanto cruel. Estava ali nesse menino chorando também as lágrimas e, mais do que isso, o desamparo do sonho desfeito, dos meninos que eu era e dos homens feitos que também choraram feito meninos. Sonho desfeito, sim, porque eram tempos em que os brasileiros amavam de verdade seus ídolos e craques da bola. Porque seus heróis de camisa amarela e muito talento no pé – Leandro, Junior, Falcão, Sócrates, Cerezzo, Zico, Éder e cia eram também grandes seres humanos, quase todos eles dotados de um bom caráter inspirador e pensamentos articulados, inteligentes. E esses heróis ainda eram guiados por um mestre, Telê Santana.
O caso é que o JT parece que vai deixar de existir segundo boatos que vazam cada vez com mais força de dentro do Grupo Estado, que dirige o jornal.
Como pode desaparecer um jornal que foi uma ideia e um compromisso, lá nos anos 60 quando nasceu, com um jornalismo tão inteligente quanto bem escrito e combativo? Como pode desaparecer um jornal que foi o companheiro de quem sonhava com um Brasil melhor mostrando o melhor de nosso país? Como pode morrer um jornal que, diferente de tantos outros que baseiam suas páginas no pior do brasileiro, mostrou sempre o valor de nossa gente (e isso sem deixar de atacar e descobrir muitas de nossas mazelas?) Como pode ir embora o jornal que, mesmo sem ser um circo de horrores, foi o primeiro a perceber as mentiras e falta de caráter de um certo Paulo Maluf, estampado naquela histórica sequência de capas com o nariz crescendo a cada dia por conta das mentiras que dizia sobre a Paulipetro, companhia petrolífera que torrou bilhões perfurando o solo paulista sem achar uma única gota de petróleo? Como pode morrer um bastião de cultura que nos ensinava tanto com aquele fantástico suplemento de cultura, o Sábado?
Sim, o JT mudou muito ao longo das décadas, em especial a partir do final do século XX, quando tentaram transformá-lo num jornal mais popular e quase que exclusivamente paulistano. O suplemento de cultura, por exemplo, foi assassinado. Mas o JT sempre teve uma essência tão boa, tão rara, que mesmo essa tentativa dos donos de torna-lo popular e rasteiro não vingou, porque seus jornalistas, mesmos os mais novos, eram e são amantes do bom texto, da história valiosa, das analogias ricas, do jornalismo que não é o mero jornalismo noticioso da maioria dos outros jornais. Não, Ivy Faria, Felipe Machado, Julio Maria, Gilberto Amendola, Alessandro Lucchetti, Luiz Antonio Prosperi, entre outros inúmeros nomes, que passaram recentemente por lá ou ainda estão no jornal, nunca deixaram a bola e a qualidade cair. E olha que nem falei dos gênios e grandes homens e mulheres que brilharam no JT mais antigo.
O desejo dos donos do Estadão de fechar o JT será uma enorme mostra de incompetência da direção do grupo. Em um país com tantos jovens, por que não ampliam o espírito sempre jovem, belo e combativo do JT? E não confundam juventude com superficialidade e inexperiência, pois os jornalistas do JT, mesmo quando jovens, sempre souberam destacar , por exemplo, nas famosas entrevistas das 2as feiras, as personalidades mais importantes do país. Nesta última segunda, por exemplo, estava lá uma certa Fernanda Montenegro…
O Grupo Estado deveria é recuperar a essência do JT, voltar a valorizar mais a cultura, mergulhar mais fundo na cidade (não só São Paulo), valorizar mais o bom texto, mais trabalhado como na grande reportagem e nos belos “abres” das entrevistas (lead é coisa de medíocres, os bons jornalistas do JT fizeram sempre é grandes aberturas!). “Ah, os computadores, tablets e aplicativos de celular fazem o pessoal ler menos no papel”? Ora, por que os chefões do Estadão não investiram então no site do JT? Por que sempre deixaram o site do jornal abandonado, feio, incompleto e quase nada interativo e multimídia? Por que sempre só deram atenção ao cada vez mais chato e conservador Estadão?
Porque eles sempre quiseram matar o JT. Porque os mandatários do Estadão de hoje parecem não ter coragem nem criatividade nem ideais para recuperar o JT do passado.
Esta será uma das perdas irreparáveis para muitos brasileiros.
De mim e muitos hoje quarentões e cinquentões, vocês vão tirar parte da infância, parte enorme dos sonhos de futebol, esporte, cidadania e cultura que o JT nos ensinou. Parte de nossa indignação com políticos corruptos como Maluf que seguem soltos.
O JT, tanto quanto um inesquecível professor de escola, o Chico Moura, me ensinou a escrever. Mais que isso, me ensinou a pensar e também a prezar as belas e profundas palavras. Ajudou demais na minha formação. Ajudou a me formar como sonhador, lutador, cidadão, professor, jornalista e escritor.
Estão matando não um jornal, mas um ideal e uma escola de vida e brasilidade.
Que os grandes jornalistas e, mais que isso, grandes espíritos, cabeças e corações que escreveram e escrevem no JT consigam deter esse processo. Ou recriem, em outro lugar, com outro nome mas com a mesma essência, um dos mais importantes jornais que esse país já teve.
Que outro jornal brasileiro conseguiu traduzir em uma única capa uma vida toda como a capa do menino chorando em 1982? O quê da vida foi revelada naquela capa? A capacidade de sonhar, se apaixonar, amar, vibrar, celebrar, sofrer e perder com a fantástica seleção de 82. Aquela era uma época rara em que nossos jogadores representavam o melhor dos brasileiros naquele jeito de jogar que era uma música tão alegre quanto bela e contagiante; e naquele jeito de ser, pensar e falar profundo de quando um Sócrates, Zico ou Telê abria a boca. E essa capa também foi profética, porque a dor do menino, a dor de todos nós que vivemos aquela partida, prenunciava a tristeza e falta de alegria que as seleções do futuro nos trariam.
Tomara que em algum canto desse Brasil que tem hoje tantas pessoas notáveis e inspiradoras como os nosso craques da bola e da vida de 82, algum grande grupo de jornalistas, cidadãos e empresários que não pensem somente em lucros imediatos tenham a coragem de reinventar o JT. “Ah, mas o JT só cair em circulação, cada vez mais vende menos”, devem dizer os frios empresários que comandam o Grupo Estado. Mas claro, vocês desprezaram o JT por décadas, a culpa é de vocês, que foram obrigando o jornal a minguar e se esvaziar. Por que, por exemplo, não deram ao JT o mesmo cuidado e tempo que deram a essa brilhante rádio Estadão ESPN ou a rádio Eldorado, ambas do mesmo grupo de vocês? Por que não viabilizaram e pensaram em parcerias para o JT? Por que não modernizaram de fato, em vez de apenas enxugar, o jornal?
Porque vocês não tiveram cuidado com o jornal que foi a minha vida, e de tantos outros paulistanos e brasileiros. E, sim, aqui admito que o jornal sempre teve uma essência paulistana, mas até aqui a incompetência e desleixo de vocês é grave: como é que pode a cidade mais rica do país perder o seu jornal-símbolo? E não me venham falar que ficará o Estadão, pois o jornalão para mim é muito mais um órgão voltado a Brasília que para São Paulo. E isso, vocês podem ter certeza: quem assina o JT não assinará o Estadão. Sei que muitos jornalistas navegam entre os dois jornais (na verdade, me parece que o Estadão roubava os melhores nomes do JT), mas será fácil continuar lendo esses: irei numa padaria e procurarei a única parte do Estadão que tem um pouco, na verdade, um pouquinho só do espírito do JT: o Caderno 2. Em especial, da edição de sábado. Mas só queria saber onde é que vocês vão enfiar o brilhante pessoal do caderno de esportes, este sim o pedaço que ainda mantém a alma do JT dos anos 60.
Façam alguma coisa, leitores e jornalistas do JT, não deixem o nosso jornal (mais que isso)  morrer.

Barça, a deusa-bruxa fatal

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Tenho o hábito de assistir partidas de futebol na TV com um jornal ou revista na mão. O hábito nasceu nas tardes de domingo, pela mediocridade das partidas do Campeonato Brasileiro. Pela pobreza de treinadores covardes que enchem seus times de volantes brucutus – matando a arte no espaço vital de um time, o meio de campo – e ainda instruem seus laterais e alas a chuveirar na área. O problema é que esses últimos simplesmente não sabem cruzar, como os volantes brucutus são incapazes de dar um passe preciso mais alongado.

O jornalzinho ou revista na mão nunca resiste aos cinco minutos do 1º tempo quando o jogo é do Barça. O fenômeno se repetiu no último domingo. Se podemos ler e ver um jogo do Brasileirão ao mesmo tempo – tamanha a ausência de belas jogadas e um estilo (falta de) truncado, feio – quando aquelas camisas azuis e grenás movem-se flutuando pelo gramado e pincelando jogadas como Michelangelos da bola, é impossível não largar tudo e ficar fascinado.

A hipnose é tão grande que até os jogadores santistas sucumbiram a ela. Tive a nítida impressão, mesmo de tão longe, que os camisas brancas estavam abobalhados como um adolescente que de repente vê a musa da sua vida desfilando a sua frente, sorrindo, belíssima e, “desgraça” ainda maior, nua. Desgraça porque um time de futebol não pode ser um adolescente, ainda mais na máxima decisão do planeta. Mas os santistas ficaram assim: tontos, babões, enfeitiçados pelas sereias catalãs.
Sereias, sim, porque o futebol do Barça é venenosamente feminino. Os toques e passes são tão sutis e perfeitos, e os jogadores movimentam-se com tanta fluidez e leveza que somos envolvidos pela mesma sensualidade hipnótica de um menino ou homem que perde a fala e fica paralisado diante de uma belíssima mulher com toneladas de sex appeal.
O maravilhamento é ainda mais forte porque esse time-deusa-sereia nos apaixona, nos faz querer que suas partidas-recitais nunca acabem.
Sim, os santistas, mesmo disputando o jogo de suas vidas, se apaixonaram loucamente como um adolescente pela musa da escola. Até o treinador Muricy, depois de dar alguns ataques iniciais de raiva, caiu no torpor do seduzido que sabe que não há mais o que fazer, a não ser adorar a deusa que brilha a sua frente.
Pena, para os santistas – e dádiva para os amantes do futebol como deveria sempre ser, arte – que a deusa catalã (com atributos também argentinos e brasileiros) é bipolar: é também bruxa. Uma bruxa impiedosa, carrasca, que entra em ação quando a deusa não está com a bola. O bote acontece quando o Barça não está com a bola, e seus jogadores pressionam o rival de forma insuportável até tomarem a pelota e iniciarem de novo um tão belo quanto sinistro espetáculo de jogadas sensuais que só param num beijo motal chamado gol.
Quanta crueldade, em plena competição futebolística, um time de futebol finge-se sereia e atropela sem dó o rival como a mulher fatal que é. Se nem o maligno Mourinho, seus jogadores galácticos e capangas conseguiram aprisionar a deusa maior do futebol mundial, não seria Muricy e sua equipe inexperiente que retiraria o poder mágico do Barcelona. Inexperiente, sim, porque o massacre de Yokohama provou o que poucos jornalistas brasileiros diziam: que o futebol não só santista, mas brasileiro, está em um nível bem mais baixo que o europeu, e infinitamnte mais baixo que o do Barcelona. O “sensacional e disputadíssimo campeonato brasileiro” é na verdade um torneio de baixo nível técnico nivelado por baixo, com um monte de equipes medrosas jogando no erro do adversário. E o que dizer da “empolgante” seleção brasileira do Mano, que conseguiu ser desclassificado da Copa América pelo Paraguai? E o time de guerreiros cavalos do Dunga?
A real é que o futebol brasileiro virou hoje uma maioria de grossos ignorantes que distribui pontapés e malvadezas a mando de treinadores medrosos. Por isso que um de nossos poucos tesouros, o garoto Neymar, não resistiu e com uma sinceridade possível só num menino inteligente, não cansou de demonstrar ao final da hipnose toda sua admiração pela deusa Barça. Depois de abordar o feiticeiro-chefe da musa, o treinador-mestre-mago Pep Guardiola, dizendo (segundo um jornal espanhol) que queria jogar no Barcelona, nosso menino de ouro ainda teve a coragem de não inventar desculpas esfarrapadas. “Hoje a gente aprendeu o que é jogar futebol”.
Pena que Neymar é apenas um jogador. Pena que não poderá mudar o medo de nosso técnicos e dirigentes que preocupam-se em montar equipes “competitivas”, desde as categorias de base, em vez de montar equipes que joguem futebol. Que joguem com a arte que um dia marcou o futebol brasileiro.
Por isso que, apesar dos nobres esforços do presidente do Santos, um raro dirigente que gosta de futebol e não só de vitórias, logo Neymar irá embora.
Sempre louvei a coragem de Luís Álvaro em manter Neymar no Brasil, mas depois do massacre no Japão, acho agora que é um desperdício permanecer no Brasil. Pra que continuar jogando nesse deserto de talentos? Pra que seguir driblando um monte de pernas de pau?
Enquanto os clubes brasileiros não voltarem a amar o futebol arte que um dia foi nosso DNA, não há mais sentido em ficar.
Vai embora, Neymar, vá brilhar onde merece. Vista, por favor, a camisa azul e grená. Junte-se à deusa-bruxa. Só ali poderá desenvolver todo o seu potencial.
O espetáculo, a magia, a paixão e emoção do Barça se tornarão ainda maior quando você se juntar ao melhor time de todos os tempos.

Gênios

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Jogo do Barça, ainda mais pela Liga dos Campeões, é ocasião de gala. Jogo, não, show. Show é pouco. Arte. Fantasia. Magia. Ou não é coisa de magos as jogadas do primeiro e segundo gol do melhor time do mundo de verdade? O que foi a penetração e o passe genial de Iniesta no primeiro gol, completado com a levantadinha surreal de Messi na bola pra tirar a bola do goleiro antes de fuzilar? E o que dizer da triangulação Iniesta-Villa-Xavi no segundo tento, completada com uma frieza de super craque de Xavi? Até pênalti os caras transformam em arte, porque a simplicidade perfeita de Messi no penal é coisa rara de gênio calmo, de gênio que faz obra de arte até quando domina a simplicidade.
O futebol é muito mais fácil, simples e belo quando Xavi, Iniesta e Messi começam a tocar a bola de pé em pé até o veredicto irrevogável de mais um gol maravilhoso do fantástico Barcelona.

Ibra sensacional

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Temos o privilégio de poder ver, nos dias de hoje, um dos melhores times de todos os tempos em ação. Sim, muitos não sabiam como ficaria o Barça sem o goleador impiedoso, Eto´o. Mas a dúvida se dissipa cada vez que seu substituto, o sueco Ibrahimovic, faz coisas como a que fez no terceiro gol do Barça, ontem contra o Racing, em Santander. Quando um grandalhão como esse sabe proteger a bola (como poucos) e ainda possui uma técnica e habilidade excepcional, o estrago é pesado. E Ibra ainda é um daqueles raros jogadores inteligentes, que enfia a bola onde ninguém espera. Na melhor tradição Doutor Sócrates, vejam o que o sueco aprontou ontem. De quebra, acompanhem outras jogadas mágicas, do cirúrgico armador Xavi e do genial Messi. Mais um recital. Futebol arte puríssimo.