O caçador de espaços

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Cresceu no meio do mato. Enquanto os outros meninos só queriam saber de passarinhos e como pegá-los com arapucas e estilingues, o negócio dele era coruja. A bichinha escondida e silenciosa, só ele via. Surgia no alto das árvores, entre as folhagens, sempre na extrema direita ou esquerda de algum último galho.
Alguns garotos até ouviam os pios dela mas só Beto descobria seus olhos. Só ele podia descobrir a dona da noite e fazer contato. Por isso talvez ela tenha se tornado sua estrela-guia. Seu futuro. Porque Beto também cresceu na terra. Num campinho de futebol duro, seco e poeirento ou enlameado. E nesse campinho havia três traves formando um gol. E marcar gols era seu maior prazer e habilidade. Porque Beto caçava corujas com amor. Por isso sabia onde elas dormiam. O lugar tão belo e sagrado chamado ninho.
Por isso o garoto desapontou todos os sonhos de sua mãe, “ocê vai istudá i sê doutô, minino” e foi ser o seu destino: um número 9 lindo que sua vó pregou com gosto na camisa do timinho da rua do neto.
Foi ser centroavante. Que outra coisa poderia ser um guri que de repente, quando se aproximava das traves, encontrava uma abertura, um espaço que só ele via e mandava a bola para lá como um carteiro infalível? Para lá, no ângulo, no ninho da coruja.
O gol é sempre uma possibilidade para quem levanta a cabeça, olha com vontade de encontrar, descobre a beleza dos cantinhos-coisas mais escondidos da vida e por fim, bate na bola com a arte e paixão de um goleador. Com um leve toque buscando o beijo suave da amada rede ou uma pancada voluptuosa para arrebatá-la em seus braços. Por isso Beto cresceu rápido e logo se tornou o melhor partido daquelas terras humildes. Quem melhor para conquistar as mocinhas da região que o caçador de gols? Quem mais sedutor que um garotão que as fazia esperar um bom tempo, em plena madrugada, porque desaparecia na mata escura?
Sumia em busca de sua mãe da vida, uma elegante dama da noite e protetora. A coruja, seu anjo da guarda.
“Para o gol há um anjo especial. Um não sei o quê. Você o tem ou não…”, escreveu o escritor argentino Osvaldo Soriano. Para viver também: só enxergando no escuro; só procurando as corujas, coisas e oportunidades que os outros não veem encontramos nosso destino.
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