Render-se, jamais!

Padrão

uruguai-inglaterra

O lance é a metáfora exata do jogador uruguaio e do espírito desta seleção. Ao sofrer uma pancada violenta na cabeça, Álvaro Pereira desmaia em campo e é retirado de maca. Como em uma luta de boxe o tempo e o médico da Celeste parecem contar 1, 2, 3, 4… até que, quando o médico já indicara a necessidade de substituição, Pereira, que acabara de recobrar a consciência pelas mãos e voz do companheiro Godín, se levanta e insamente corajoso gesticula e grita que não vai sair e volta para o jogo. No primeiro lance depois de seu quase nocaute, ele se joga num semi-carrinho, se atira no chão para salvar sua seleção de mais uma investida perigosa dos ingleses. Na sequência, segue jogando e lutando feito um leão ferido mas valente até o fim da partida épica.

Até Sir Winston Churchill ficaria arrepiado e recrutaria no ato esses bravos homens celestes para defender os aliados e sua ilha do bombardeio e ataque nazista na II Guerra Mundial. Porque talvez nenhuma outra seleção possua tão arraigado no peito esse sentimento e espírito conclamado pelo grande chefe de estado inglês na guerra das guerras: Never Surrender! Nunca se rendam!

Nunca antes do fim. O fim não existe para um uruguaio de camisa celeste enquanto sua seleção seguir tendo chances. Enquanto um jogo não terminar. Enquanto houver um fiapo de esperança. Por isso os desacreditados homens de Tabárez, tão criticados (tanto os jogadores como o treinador) como menosprezados (por muitos brasileiros que, talvez com medo, tiraram sarro da Celeste após a péssima estreia) fizeram mais um daqueles jogos da vida ontem e venceram os ingleses em uma das maiores partidas da história das Copas.

Por isso esse monstro guerreiro e super craque com momentos de gênio, Luisito Suarez, mesmo um mês depois de operado jogou como se estivesse no melhor da sua forma física. Porque um uruguaio, mesmo quando recém-operado e sem ritmo de jogo, se supera pelo ritmo incomparável de seu coração.

Um coração que parece bater mais forte e com mais gana em quem veste, mais que isso, defende, a camisa que é pele, sangue e alma.

Mais que coração, deve ser alma o que move um Suárez, um Pereira, um, meu Deus!, quanta entrega!, esse fantástico Arévalo Rios que cobre o campo todo com a mesma garra e eficiência!

Deve ser a alma que faz com que esse goleiro não tão grande e completo, Muslera (que partidaço!), cresça e pegue tanto quando o jogo é mais difícil e dramático.

Deve ser alma o que envolve todos os jogadores que lutaram e venceram ontem realmente representando sua camisa, país e povo.

E, sejamos justos, lembremos também de reverenciar o cérebro por trás da alma, esse brilhante ontem Oscar Tabárez. O velho maestro, tão criticado em seu próprio país em boa parte das eliminatórias para essa Copa e, especialmente, na derrota para a Costa Rica, mudou demais o espírito e jeito de jogar de sua seleção ao mudar cinco jogadores para a batalha de ontem. Cinco jogadores! Quem consegue fazer uma equipe melhorar com tantas alterações? Só mesmo o velho maestro. O maestro que, na beleza que só o futebol proporciona, vibrou, correu e se emocionou feito menino a cada gol de Suárez.

Ainda no aspecto cerebral, lembremos também da magistral assistência desse também enorme Cavani no primeiro gol, com o detalhe genial da ameaçada que ele dá antes de cruzar, o que acabou tirando um dos zagueiros ingleses da jogada. O grandíssimo Cavani que chamou a marcação dos ingleses todo o jogo, abrindo espaços para essa máquina mortífera chamada Suárez.

Os brasileiros que debocharam depois do primeiro jogo e os uruguaios mais pessimistas foram lembrados ontem, de novo, que a Celeste é esse eterno boxeador que mesmo sendo massacrado nas cordas e, pior, mesmo quando nocauteado e jogado na lona, enquanto o tempo não ser contado até 10, a batalha não está perdida.

Porque a alma uruguaia pode ser surrada, mas como um Rocky Balboa da bola e da vida, jamais jogará a toalha.

MEA CULPA: Cristiano não pode brilhar sozinho

Padrão

cr7

A pressa da internet resulta muitas vezes em posts que deveriam ser pensados melhor antes de publicados. Ontem fui infeliz ao utilizar um artigo no mínimo de mau gosto de um jornalista brasileiro para respaldar minha visão de que Cristiano Ronaldo foi mal ontem e rende bem menos na seleção que no Real Madrid.

Pensando melhor, até essa minha crença pessoal, de que CR7 não ajuda a seleção como por exemplo Figo fazia no passado, merece uma avaliação melhor. Me bastou lembrar que Cristiano simplesmente não tem os companheiros de talento muito maior que Figo tinha. Grandes jogadores como o meia Rui Costa, o zagueiro Ricardo Carvalho, o goleiro Ricardo (não era tão bom mas crescia demais em grandes competições como uma Euro e uma Copa), entre outros. Bastou pensar um pouco, e não ser atropelado pela velocidade da net e falta de responsabilidade (que tive ontem) para afirmar hoje: como CR7 vai brilhar com os jogadores medianos que atuam ao seu lado na seleção portuguesa? Difícil demais, pois Cristiano precisa ser lançado, precisa ser assistido, é uma flecha que precisa de um arco para render como pode.

Além dessa análise desmedida que fiz, porém, pior talvez foi o que um grande jornalista português me questionou: “por que partilhar aquele texto tão pesado do jornalista Mario Magalhães?” Realmente eu devia ter percebido o que quase me impediu de publicar o post: o tom vulgar e desrespeitoso dado ao Cristiano desde o título do texto, que citou CR7 como “nojento” por supostamente só pensar em si e ser individualista demais, entre outras falhas de caráter julgadas de forma irresponsável e até mentirosa pelo jornalista que linkei. Mentirosa porque parece que seus companheiros (e seus treinadores também) de Real e seleção adoram Cristiano, e acabo de lembrar como Felipão e Alex Fergurson tinham o gajo em ótima conta.

Talvez as críticas desmedidas que CR7 recebeu em toda a sua carreira nasçam mais pelo notório gosto dele pelas câmeras. Mas por que criticar isso se esse cara foi um menino pobre da ilha da Madeira, órfão de pai e com outros duros problemas familiares? Qual o problema dele se adorar, se achar bonito e gostar de mostrar isso? Sim, ele gosta de malhar e exibir seus músculos, mas por que não pode fazer isso se essa característica sempre foi muito importante para o seu próprio rendimento, dependente em boa parte de seu físico privilegiado? E por que não, pelo contrário, percebermos que essa característica é um exemplo positivo, já que CR7 sempre foi o jogador que mais se empenhou nos treinos, tanto nos clubes como na seleção? Por que esse exemplo de profissional vira apenas um exibicionista aos críticos?

Devemos parar de pegar no pé por suas caras e bocas e olharmos mais para o atleta e o homem, e aqui aparece uma faceta talvez desconhecida por muitos brasileiros: o homem Cristiano é muito melhor, mais relevante e digno que a maioria das super estrelas da bola. Além de ter sua própria instituição beneficente, Cristiano é um dos raros pop stars desse planeta que tem uma consciência política e social aguçada e me parece sempre defender as causas mais nobres. E quando a sua ilha de Madeira sofreu com a fúria da natureza, adivinhem quem ajudou demais a atenuar a destruição e ajudar na reconstrução?

Finalmente, peço desculpas aos meus queridos irmãos portugueses, que sempre me acolheram tão bem em seu país, por ter linkado texto tão ofensivo do jornalista Magalhães (mas lembrem que ressaltei, ao publicá-lo, que o texto era pesado com o CR7, se é que isso pode servir de atenuante, talvez não) justo no dia de uma estreia tão dolorosa na Copa. Se tem algo que dói e dá raiva são palavras ofensivas e injustas na hora da dor e da derrota.

O único que merecia palavras pesadas era o selvagem Pepe, um brasileiro que acabou com qualquer chance de Portugal contra a máquina alemã.

Sorte ao CR7 e à Portugal para quem sempre torci com fervor e emoção desde aquele maravilhoso e inesquecível gol de meu primeiro ídolo lusitano, o meia Carlos Manuel, que no finalzinho de um jogo contra a mesma Alemanha, classificou a seleção, se não me engano, para a Copa de 86. E compartilhei meu entusiasmo pela belíssima campanha dos portugas na Euro de 2004.

Que CR7 arrebente nos próximos dois jogos e cale a boca de todos os críticos. A minha já calou por essa simples confissão arrependida, de um jornalista que sou e também professor. E por isso também eu deveria ter pensado melhor antes de publicar o post de ontem (acabei apagando), porque mesmo longe da sala de aula preciso seguir dando exemplo para meus alunos de ontem e hoje. Julgamentos apressados e dar espaço para opiniões irresponsáveis de outros é imperdoável.

Los herderos de Obdulio

Padrão

uruguay_14

“¿Cómo lo hacemos eso con personas tan buenas?”, lamentó Obdulio por sentir la tristeza del pueblo brasileño después del Maracanazzo. Y días y años más tarde, tal vez toda su vida, al grande Obdulio nunca le gustó celebrar la conquista uruguaya espectacular y épica. Un poco debido a los dirigentes del fútbol de su país, que no toleraba, y al dolor dejado en la gente entonces muy amable y cordial del Brasil de la época.

Hoy, décadas más tarde, la cosa es diferente. Claro que todavía hay mucha “gente buena” entre los brasileños de las masas, verdaderos guerreiros y supervivientes de condiciones de vida cada vez más difíciles en metrópolis como Río y San Pablo. Pero quien estuvo recientemente en Uruguay siente que hay un espíritu más amigo, dulce y cordial en los orientales, mucho más que en el ex-país del fútbol.

Los uruguayos son hoy, en afectos y amabilidad, lo que los brasileños fueron 60 años atrás. Así que sería demasiado bello ganaren la Copa del Mundo, para dar una alegría inmensa para estas personas tan diferentes de esse mundo cada vez más beligerante. Un pueblo unido y que vive en paz, sin el cada vez más alto grado de violencia, por ejemplo, que azota la sociedade brasileña de hoy.

Fuese Obdulio vivo y daría cuenta de que los hombres del entrenador Tabárez (mucho más que un técnico, un educador y maestro) no merecen perder esta Copa del Mundo debido al que representan, como muy pocas selecciones de este planeta.

¿Que otros jugadores de una selección crearan una Fundación de caridad para ayudar a los necesitados de su país, como lo hicieron los hombres de la Celeste? ¿ Y que otro país ha creado, de la selección y de su entrenador-educador, un proyecto que forma no sólo los jugadores pero también ciudadanos en toda las categorías de base de Uruguay? Tal vez sólo los alemanes tienen un proyecto similar para abarcar fútbol con educación y ciudadanía.

¿Nosotros, los brasileños? Mientras que la misma máfia prosiga em comando de CBF, nunca tendremos un proyecto que sembre la educación y los valores más nobles entre nuestros jóvenes.

Obdulio estaría orgulloso de percibir que sus compatriotas conservan el mejor de lo que el ser humano fue um día. Un ser humano más tranquilo, más cariñoso, con un ritmo de vida salpicado por rituales diarios pequeños y lentos. Quienes todavía no perdieron los elementos esenciales que desaparecieron em países frenéticos o adictos a las tecnologías virtuales como el Brasil de hoy: convivencia, intercambio de gestos y afecto real, cara a cara. Si anteriormente los brasileños pondrian las sillas en la vereda y celebraban a los vecinos, prácticamente eso ya no existe. Distinto de la gente de frente para el río de la Plata o para los campos y la vida, que todavía se reúne en frente de sus casas para compartir un mate y las impresiones y sentimientos de cada día.

El uruguayo supo conservar el néctar más bello y antiguo de las relaciones humanas. Los que llaman este país de “viejo” por mirar apenas los edifícios antiguos y grises no veen que “viejo” en Uruguay es en la verdad esa rara preservación de la vida antigua en lo que tenia de mejor: en su ritmo más lento y vivido, sentido de verdad.

Por eso Uruguay debería ganar esta Copa y experimentar la catarsis de una grande victoria de nuevo. Y qué hermosa será la victoria celebrada con una ausencia total de estrellato y soberbia de los jugadores uruguayos y su postura muy lejana de los pop stars de buena parte de las estrellas del fútbol mundial.

!Qué bueno sería ver Lugano bajar del avión con la Copa en una mano y en el otro el mate para compartir la conquista y su “uruguaidade” con su Pueblo!

Que bueno para el fútbol y para el mundo sería presenciar el logro de un país, un pueblo y una selección tan puros; guardianes de una inocencia olvidada que aprecia la coexistencia y el ser antes del tener posesiones y mucha plata.

Sí, en 1950 Obdulio sufrió con el silencio y la tristeza de Brasil. Pero el gran capitán puede no haberse dado cuenta que su corazón era mayor que el dolor de los brasileños.

Y Obdulio también no pudo prever, décadas después, que su espíritu, nobleza de valores, talento y fuerza hicieron su aparición en los hombres de Tabárez. En los hombres que llevan en sus pechos la misma grandeza, simplicidad y belleza humana del mito.

Ya es hora de otros mitos. En el mismo Uruguay. Sí, no tienes el paisito una arquitectura moderna, desgastada a través de los siglos (lo único visto por los turistas sin alma), pero esa es una de las sociedades más modernas, avanzadas y respetuosa de este planeta. El país que acepta los matrimonios homosexuales, que legalizaron el aborto y busca un nuevo medio de combate a las drogas. El país en el que su Presidente abdicó de vivir en un palacio para continuar en su sitio y donar el 90% de su salario a los necesitados, gran Mujica.

!Para un mundo mejor, ven y levanta la Copa, Lugano! Seguro que Obdulio, Mujica y la garra charrua habitan en su pecho y en esa camisa como el corazón inmenso late dentro de su pueblo.

La humanidad, para ser rescatada, necesita del triunfo de Uruguay.

Que en el 13 de julio la mística sea suplantada por la más bella realidad.

(PS – Perdón por mi pobre español al escribir)