Creed e Rocky. Nascidos para lutar. Juntos.

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creed2Homenagem é uma palavra tão bela quanto pouco praticada na avalanche da falta de tempo que sobra dos trabalhos ou estudos, e da ditadura do novo, que prevalece em nossa sociedade e mundo cada vez mais consumista e pautados pelas novidades. Graças, porém, que ainda resiste no cinema a arte de reverenciar o passado e aqueles que nos marcaram, emocionaram e/ou ensinaram. O filme Creed, Nascido para Lutar, não faz parte da série Rocky, mas é tão visceral e humano quanto os melhores, mais poéticos e realistas filmes da série, justamente o primeiro, Rocky, um Lutador, e o último, Rocky Balboa. Creed é obra do jovem cineasta negro Ryan Coogler, 30 anos, para homenagear a força que seu pai lhe deu para cursar cinema e a paixão de seu velho pela odisseia do lutador mais querido do cinema (não só…).

A história mostra a tentativa jovem Adonis Johnson de se tornar um boxeador para honrar o sobrenome do pai biológico que ele não conheceu, o lendário Apollo Creed, maior rival e depois amigo que Rocky Balboa teve. Anos de passagens por orfanatos e reformatórios moldam um garoto acostumado a brigar mas ele precisa de muito mais para vencer nos ringues. Precisa da mãe de coração (não a de sangue, também falecida), que o resgata do cárcere infantil, e também de um mestre para fazê-lo evoluir, técnica e mentalmente, com as luvas.

O mestre, obviamente, é Rocky Balboa, mas não será apenas Rocky o professor. O velho lutador simplório da Filadélfia – que perdeu quase tudo e vive de um modesto restaurante com o nome da amada ex-mulher, Adrian – precisará, mais que nunca, também aprender e se motivar com o jovem Adonis. Estabelece-se então mais uma bonita parceria do cinema que fala de boxe, com laços de família do coração que são criados por Rocky e o jovem que ainda precisa se provar para honrar o pai, o melhor pugilista da história no universo da série rockyana: Apollo Creed.

Emulando a força e beleza da ligação de pai e filha do treinador feito por Clint Eastwood com sua menina de ouro, mas sem as ironias e mau humor do treinador de Clint, Stallone- Rocky e o promissor Michael B. Jordan-Adonis vão construindo laços de afeto, respeito, confiança e amor que arrebatam quem assiste ao filme. Os laços são construídos aos poucos e daquela forma tão simples e humilde que compõe o cerne do pacato Rocky de sempre, um raro ex-astro e lenda eterna que manteve-se fiel ao seu caráter e jeito de ser de antes da fama.

A performance de Stallone-Rocky, que ao meu ver sempre foram a mesma pessoa, é tão cativante que o tão menosprezado (pela crítica) ator deve ganhar o Oscar de ator coadjuvante (já ganhou o Globo de Ouro). Stallone, que sempre fez Rocky com uma simbiose de brutalidade (no sentido de ser mais forte que hábil) no boxe e delicadeza de gestos e atitudes fora dele, faz com perfeição o mestre que extrai o melhor de seu pupilo não só na hora do pau das lutas. E está lá o mesmo chapeuzinho fora de moda, o andar balançando, a fala atrapalhada (pela paralisia facial de um lado que Stallone sempre teve). Essa fala e seus pensamentos, porém, que antes eram apenas ingenuidade e juventude, medo e vontade transformaram-se agora em música calma, quase uma oração.

A cada conversa com Adonis, o agora mestre Rocky – tão simples e realista como era seu falecido treinador, Mickey – oferece breves mas profundos sermões de vida real, batalhada, e não da religião. Palavras simples e impactantes. Pura sabedoria de quem saiu do nada, chegou ao topo e depois perdeu tudo – o título mundial, os entes queridos, o melhor amigo, o treinador quase pai – menos a integridade. Menos o saber o valor de cada luta e glória que enfrentou ou teve.

Sim, os críticos de má vontade ou os intelectuais céticos quanto ao valor ou poder do esporte debocharão das palavras de Rocky, chamarão de clichê ou autoajuda barata. Farão isso porque talvez não tenham sido meninos sonhadores ou românticos com ídolos a inspirá-los, jovens guerreiros e esperançosos ou adultos calejados por tantas batalhas perdidas, mas não todas. Para esses que ainda creem, que ainda se emocionam com o velho Rocky, o filme Creed envolve, toca, inspira e nos lembra do melhor e mais sincero de nós mesmos que um dia fomos. Um “melhor de nós” que um dia conhecemos na motivação profunda, mais que isso, inspiração, que as frases de Rocky e, claro, seus treinos malucos, rústicos, e a sua música contagiante nos davam. E ainda nos dão com esse maravilhoso Creed, um verdadeiro brinde de saudação e gratidão em homenagem a Rocky-Stallone oferecido por esse jovem diretor Ryan Coogler. E que lição linda Coogler nos dá, através de Adonis para um Rocky então muito machucado, reforçando o valor e laços de uma parceria de verdade: “Você luta, eu luto.” Que conselho vital e raro! nessa época em que o sistema estimula muito mais a luta, conduta e atitude pessoal, o cada um por si e quase ninguém por todos.

Não foi à toda que Stallone aceitou o convite para emprestar seu personagem ao filme. Imagino o que se passou em seu coração ao ler o roteiro de um filme feito em agradecimento a tudo o que ele sonhou, batalhou e venceu com Rocky. Talvez por isso sua atuação emula, segundo o maior crítico de cinema que conheço, Luiz Carlos Merten, do Estadão, simplesmente aquele que fez o Poderoso Chefão pós-enfarte. O velhinho, outro sábio e mestre, Merten, escreveu que “Marlon Brando encarna no garanhão italiano. Stallone está maravilhoso.”

Caramba: Brando? Não, meus amigos, ante a comparação de Merten, aposto que Stallone apenas diria que não representou nada, nem emulou o mito do cinema. Apenas deixou sua vida, que se confunde com a de Rocky, tomar as telas e nossos corações de lutadores.

Corações que volta e meia lembram de Rocky para não desanimar das pancadas e nocautes que a vida não cansa de dar.

Corações que, tocados por Creed, agora nos fazem lembrar dos mestres de nossas vidas, e que não vencemos sozinhos.

A vida não pode ser vencida com o embuste da mera autoajuda pessoal. Precisamos, demais, de quem nos treine, aprenda e lute com a gente.

Obrigado, Mestres.

Obrigado, Rocky-Stallone e Ryan Coogler.

 

Bra

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Quando o amor à música não nos deixa desistir

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cinema-ricki

Diferente de tantos contos de fada ou histórias apelativas de sonhos realizados que o cinema já contou, raros são os que “chegam lá”: ao estrelato, fama, grana, topo. A maioria sucumbe e perde anos de dedicação e investimento pessoal porque, como já ensinava o AC-DC, it´s a long way to the top. Os artistas mais autênticos, porém, mesmo quando não vingam, jamais perdem a sua essência ou aquilo intangível mas que sabemos estar diante de sua presença, por tanta garra-verdade-beleza que presenciamos: aquilo chamado alma.

A cantora Ricki Randazzo não chegou lá, mas despeja toneladas de alma a cada palavra e verso em que mergulha; a cada melodia que oferece ao público com uma entrega e paixão que emociona até um tão distante sujeito sentado em uma cadeira de cinema. Ricki é apenas uma personagem, uma roqueira sessentona que toca com sua velha banda sempre no mesmo lugar, um bar decadente (ou será resistente?) em algum lugar dos Estados Unidos que não realizou o seu tão decantado american dream, mas um EUA que ainda é a terra ancestral e original do rock and roll. Ricki é o sinônimo exato da palavrinha tão dura que é pronunciada com tanto desprezo pelos escrotos ou insensíveis: looser, perdedora. Ela mora em um cubículo, não tem mais cartão de crédito, teve sua falência decretada pelo banco e rala todo dia como caixa de uma rede de produtos naturais que exige que ela sempre sorria mesmo ganhando um salário que lhe garante apenas a sobrevivência.

Ricki só não perdeu o amor que transborda dela em cada apresentação naquele pequeno bar, de reduzidos mas fiéis frequentadores que não a abandonaram. Só não perdeu o amor à música, mais precisamente ao rock que exala de cada olhar, gesto e do canto que sai de sua voz rouca tão bela e calorosa. Uma voz envolvente que é mais um milagre de interpretação da sempre notável Meryl Streep. Sim, é ela mesma quem canta e engole com sua performance tantas e tantas cantoras do mundo real que não tem uma centelha da paixão que Meryl coloca em cada sopro, grito e canção de sua Ricki.

Ricki-Meryl e sua banda, a The Flash, são a exata tradução do que é o rock mais verdadeiro possível, aquele que seus fiéis não abandonam nunca, aquele que é a razão de viver de cada membro veterano da banda, aquele que é a terapia que faz milhões de pessoas reais no mundo todo suportarem a dura rotina dos dias e horas de trabalho e da batalha que é se deslocar para o trabalho e voltar pra casa nas grandes cidades. E que banda o diretor Jonathan Demme reuniu para o filme, com destaque para outro músico com muito talento e entrega, aqui sim um cantor do mundo real, o veterano cantor-guitarrista-ex-galã dos anos 80, Ricki Springfield. E, ironia que até seja a razão de ser do nome da banda do filme, Springfield foi um astro meteórico do pop rock dos anos 80, de brilho efêmero: depois do estrondo de sua ascensão com a canção “Jessy Girl”, teve mais poucos bons momentos e praticamente desapareceu da cena mundial.

Ricki Springfield, que no filme chama-se Greg, só não perdeu a eletricidade e amor que exala a cada acorde e riff de sua guitarra, uma eletricidade amplificada no filme ao estar junto do amor tardio de sua vida, mas amor, pela cantora Ricki. Aqui a química entre Springfield e Streep, é ainda mais bela nesses dois veteranos que conseguem mostrar que o raro brilho no olhar diante de quem se ama não perde a intensidade com as décadas nas costas.

Sim, há ainda uma trama forte no filme, da mãe que deixou o marido e três filhos (uma menina e dois garotos) pelo sonho de triunfar com a música, e Ricki-Meryl, mesmo com o coração devastado, defende sua escolha de forma tocante no filme. Pelo menos o filme e, por que não?, a vida também, em algum momento lhe dará a chance de se redimir e resgatar um pouco da relação com os filhos que o rock a fez deixar para trás. Porque o rock e a música que são feitos da voz humana e instrumentos arrebatadores – no caso do rock, uma guitarra, um baixo, uma batera e às vezes um teclado e outros instrumentos – em algum momento darão a uma mãe ou pai ausente a chance de cantar e tocar para quem magoou profundamente.

Esqueça as críticas que detonaram o filme. Se você tem o rock na alma, irá curtir um show arrebatador do qual você só irá embora bem depois da última canção (são várias, de clássicos dos anos 80, de Tom Petty a Bruce Springsteen) oferecidas como um presente nostálgico por uma das maiores atrizes da história e seus parceiros veteranaços mas resistentes da banda The Flash. Meryl captou bem todo o espírito do rock que aprendeu com seu “modesto” preparador para esse papel: simplesmente um dos símbolos máximos da história do rock, o gigante dos solos inflamáveis e voz poderosa, Neil Young. Hey, hey, my my, rock and roll will never die!

O samba guerreiro da vida

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samba

Depois do arrebatador Intocáveis, a dupla de diretores franceses Eric Toledano e Olivier Nakache brilha de novo com Samba, explorando sem apelação outro grave drama humano, agora a imigração ilegal. Em mais uma monumental interpretação de Omar Sy – o mesmo protagonista de Intocáveis – podemos sentir na pele todo o medo, derrotas, esperança e coragem de lutar do imigrante senegalês Samba Cissé. Desde a espetacular cena-sequência de abertura, mergulhamos na tensão e segregação de ser um imigrante clandestino na França, mesmo já trabalhando há 10 anos no país.

Quais as armas de Samba para sobreviver na dura terra prometida europeia que buscou para fugir da miséria africana? Sua entrega para se relacionar com os outros e uma alegria contagiante, um jeito de ser e batalhar com um sorriso no canto do rosto que honra o nome de batismo que ganhou em homenagem ao povo brasileiro.

Além do iluminado Samba, o personagem de outro imigrante, Wilson, que se faz passar por brasileiro, presta outra homenagem aos brasileiros da classes mais baixas, que enfrentam qualquer trabalho pesado e sina sem lamentos, sem perder o bom humor. De quebra ele ainda exerce a velha arte brazuca de seduzir as mulheres enquanto dança. Mero estereótipo para alguns críticos, essa atitude de dançarino Don Juan é suavizada com leveza e graça, embalada com música brasileira pra levantar o astral do mais derrubado dos seres. Tome então Gilberto Gil e Jorge Bem na trilha sonora, como a deliciosa Take it easy my brother e sua sabedoria de bem lutar e viver.

Samba e seu companheiro de diversos bicos pelas camadas mais baixas da escala produtiva semeiam sabedoria de viver. Correm todo tipo de perigo – podem ser presos ou deportados a qualquer momento – mas não deixam de sacanear um ao outro, tirando sarro de suas dificuldades em trabalhos infernais e relacionamentos quase impossíveis com as raras mulheres francesas que se interessam por seus dramas e corações.

Mulheres como uma executiva machucada por um casamento arruinado e um trabalho exaustivo demais que a faz surtar e ser obrigada a se afastar. Aqui temos outra grande atuação, de um quase mito do cinema francês, a tão delicada quanto profunda Charlotte Gainsbourg, mestra do olhar e dos pequenos gestos reveladores.

Mulheres como as jovens, senhoras e velhinhas de uma ONG que procuram conseguir os documentos que os imigrantes precisam e, mais que isso, se dispõem a algo vital: escutar seus dramas-desabafos. O cinema é pródigo em temáticas como essa, de seres mais humanos que a média do típico homem moderno egoísta, mas as mulheres da ONG deste filme animam o coração dos que ainda acreditam em um mundo melhor. Acalantam nosso coração como se fossem as deliciosas e dançantes canções que embalam a confraternização das voluntárias com os imigrantes em uma festa inesquecível como um clássico de Bob Marley que faz o pessoal soltar o corpo e a alma na pista.

Quem ainda acredita que o cinema pode ser mais que mera fantasia escapista ou entretenimento não pode perder esse filme, que produz o mesmo efeito catártico dos pequenos dramas cotidianos tão bem explorados pelo cinema argentino: em uma cena rimos e flutuamos; na próxima os olhos ficam cheios e o coração apertado. Sonhamos e sorrimos com as esperanças e raça dos imigrantes e logo sentimos uma pontada lá dentro e nos revoltamos com suas quedas e perseguição de um mundo cada vez mais intolerante e xenofóbico.

Graças que há Samba, o homem e a música que tão bem o representa, assim como seu amigo de batalhas pelos serviços que nenhuma francês quer fazer, nas profundezas da separação do lixo às alturas arriscadas de limpar vidros em prédios altíssimos.

Graças que há quem tente protegê-los e reerguê-los contra a frieza do Estado e violência da intolerância.

Graças que o amor e a alegria, algumas vezes, podem mais que o preconceito e o ódio.


Boyhood – Sobre o tempo e os caminhos de todos nós

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bouhoodSe um filme pudesse ser traduzido em um álbum de fotografias, a captar a essência dos gestos e sentimentos das pessoas comuns, e dos instantes aparentemente banais mas decisivos de suas vidas -, este seria Boyhood, da infância à juventude, mais uma obra tão humana criada pelo sempre ousado e original diretor Richard Linklater. Depois de mostrar a evolução da relação (ao longo de anos e anos) de um par jovem, que se conhece em uma viagem de trem pela Europa (a excepcional trilogia Antes do amanhecer, Antes do anoitecer e Antes da meia-noite), o cineasta mais uma vez faz do tempo um personagem tão importante quanto os protagonistas desse filme-maratona, que acompanhou a história de uma família disfuncional por mais de uma década.

Captar a passagem do tempo, e como ele afeta a vida de gente como a gente. Contar as pequenas situações e histórias que acontecem com todos os que procuram viver, e tem consciência disso, e com os que apenas sobrevivem, aceitando o rolo compressor da rotina, obrigações e de muitas famílias. Mostrar os atos de coragem e resignação; as poucas vitórias e muitas quedas que vão se acumulando e podem nos oferecer a raridade de seguir um sonho ou esquecê-lo para sempre. Revelar aos poucos as pequenas e poderosas mudanças, tanto visuais como interiores que transformam nossas vidas. Tudo isso é alcançado, com rara delicadeza e emoção, contida mas intensa, em Boyhood, graças à genial ideia do diretor: filmar essa história um pouco a cada ano por 12 anos.

Richard filmou os mesmos atores por 12 anos mostrando as mudanças físicas das crianças – depois adolescentes e jovens; e do pai e mãe, casal separado, que envelhecem (belíssimas atuações de Ethan Hawke como o errante de emprego em emprego mas bom pai, e da mãe guerreira e professora feita por Patricia Arquette, que jamais encontra um bom companheiro, mas segue tentando, e no meio disso luta para criar seus filhos).

O projeto pra lá de arriscado (e se algum dos atores sofresse um acidente, abandonasse o filme ou morresse?) deu tanta sorte que contou até com o menino Ellar Coltrane, protagonista principal do filme, se tornando um adolescente e depois jovem com interpretação cada vez mais expressiva e cativante. Aliás, o hoje jovem ator Ellar encarnou com tanta verdade e naturalidade o filho mais novo do casal separado que parece encenar sua própria vida. Ou nossa própria vida, pois os problemas e dilemas, sorrisos e dores; escolhas, acertos e erros que acomete ele e sua família acontecem com todos nós.

Muitas vidas refletem-se no menino Mason (personagem de Ellar), apegado ao pai easy rider e alto astral mas ausente com seus empregos ou meros bicos em cidades distantes. No Mason que demora para se adaptar na nova escola e depois para se adequar às exigências de um sistema de ensino ultrapassado, que não valoriza seu talento e interesse pelas artes. No Mason que precisará de uma condução de um professor para não deixarem lhe tirar a paixão artística. No Mason que baterá cabeça com uma namorada bela mas egoísta e insegura que não o apoia muito em seus sonhos. No Mason que bate de frente com os péssimos padastros que sua mãe lhe oferece. No Mason que será confrontado, ao final da escola, com os caminhos que a sociedade quer lhe impor ou o que o seu coração artístico deseja.

Muitos vão se encontrar também na mãe que dá duro demais para arcar com todas as despesas de Mason e sua irmã. E no pai que nunca tem dinheiro para dar aos filhos, mas tem muito afeto e se importa com a educação dos meninos.

Será uma injustiça enorme o Oscar de melhor filme, direção e edição não ser dado a essa obra tão delicada e real quanto as nossas próprias. E isso Linklater e seu Boyhood conseguem sem apelar ao sentimentalismo e grandes dramas. Tudo no filme é uma pequena colcha caseira de pequenos gestos, fatos e mudanças. O resultado é arte e vida em estado puro, acontecendo com uma naturalidade e beleza que nos cativa desde as primeiras cenas. O resultado é o avesso da fantasia ou blockbuster apelativos típicos do cinema americano. O resultado é uma doce, dura e bela vida como ela é, e como ela pode ser, de acordo com a dimensão de nossas lutas e sonhos.

O resultado é, ao assistirmos Boyhood, tentarmos recordar os instantes e fatos aparentemente banais de nossas vidas que hoje percebemos terem sido decisivos para nos levar aonde estamos e ao que somos hoje:

“A vida é, de facto, “só isto” – este retrato de uma adolescência banal, marcado pela simplicidade das conversas encavacadas com a família ou dos primeiros beijos ou das primeiras bebedeiras, mas pode no entanto ser muito mais do que pode parecer. Basta parar e, mais do que olhar, ver. É a isso que Linklater nos desafia ao longo de quase três horas, rodadas em intervalos incrementais ao longo de doze anos: a ver cenas de uma vida familiar, banal. Porque é o tempo que dá ressonância às coisas, e o que agora nos parece descartável ou desinteressante pode, com o tempo, ganhar uma relevância completamente diferente. O verdadeiro tema de Boyhood é o tempo que passa, e como, ao passar, vai estratificando uma narrativa, uma personagem, uma identidade – as três horas do filme não só não são supérfluas como cristalizam a sua própria essência. Porque, ampliado para o écrã (tela) grande, visto com o recuo do tempo que passa, é o banal que faz de nós quem somos.

Linklater não está aqui para nos enfiar lições de moral pela goela abaixo nem para pintar as coisas de cores garridas: ninguém neste filme, a começar pelos pais divorciados (Arquette e o cúmplice Ethan Hawke), é santo, nunca ninguém disse que isto é fácil e a vida não vem com manual de instruções. É por isso que, chegados ao fim, temos a sensação de ter visto a vida como ela realmente é. E poucos – quase nenhum – filmes o mostraram com tanta e tão desarmante simplicidade.”

(Jorge Mourinha, jornal Público, Portugal)

As imagens mais humanas (Walter Mitty)

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filme-walter mittyHouve um tempo em que as fotografias que corriam o mundo, o encantavam ou chocavam, e faziam com que as pessoas pensassem e refletissem, eram registrados depois de longas caçadas dos fotojornalistas. Gente bem vivida, que se jogava sem medo e com ideais na estrada.

Houve um tempo em que essas fotos eram expostas e discutidas um bom tempo, e não apenas até a próxima atualização de um feed de notícias de rede social.

E nesse tempo, quase extinto, cabia a algumas publicações como a revista Life, mostrar imagens relevantes, de esplendor ou horror da natureza humana.

Para a Life, seus colaboradores e outros exploradores de ontem e hoje com seus olhos mergulhados nos mais belos vales ou abismos sórdidos do ser humano, a vida era um velho filme de fotografia. Um filme só revelado – com todas as suas nuances e detalhes – para os que se dispõem a ver de verdade as pessoas, as coisas e o mundo.

Só quem olha com essa entrega, consegue, além de revelar a humanidade e o mundo, enxergar a si mesmo.

Essa “revelação” é a palavrinha-chave de A vida secreta de Walter Mitty. O filme narra a deliciosa viagem de um anônimo funcionário do setor de revelação de filmes fotográficos da saudosa revista Life americana.

Responsável por revelar – transformar negativos em papel, em imagem – a beleza ou o horror, a coragem e arte captada por grandes fotógrafos como o ousado Sean Collins (brilhante e precisa interpretação minimalista de Sean Penn), Walter Mitty é o típico excelente e dedicado profissional engolido por um trabalho delicado e importante mas sem reconhecimento. É também aquele cara legal, bonzinho e desligado (quando fora de seu laboratório) que os chefes adoram pisotear e os colegas, tirar um sarro. O jeitão meio fora de órbita deve-se a constantes apagões em que sonha acordado e viaja nas mais loucas fantasias românticas ou heroicas.

Tímido, mas não desajeitado – talvez por seu passado de jovem promessa do skate, Walter é peça crucial na última edição da  Life, que será extinta e sobreviverá apenas na internet (fato real que aconteceu com essa publicação). É para ele que o enigmático e brilhante fotógrafo Sean envia sua “foto das fotos”, para estampar a derradeira capa da revista.

A foto desaparece, porém, ao ser entregue. Walter terá então que largar a acomodação e vida opaca do laboratório para correr o mundo atrás de Sean e do destino daquela imagem.

Diferente de outras histórias de “corrida atrás dos sonhos”, Walter perseguirá a foto perdida pelos mares, estradas e vulcões da Groenlândia e Islândia, e nas montanhas do Himalaia sem ater-se apenas às peripécias dos filmes de aventura. Claro, as peripécias estão no filme, mas junto de tiradas bem-humoradas (sem o escracho das comédias típicas de Stiller) e de uma busca maior.

Walter não representa o bem contra o mal, não enfrenta vilões por seu sonho, apenas se arrisca – com toda a força do jovem que foi e ainda redescobre ser – por um tesouro antigo e ameaçado: a beleza de uma foto tirada em máquina analógica e que precisa do papel para acabar de nascer. A beleza da imagem descoberta por um fotógrafo valente e humanista, Sean, que não se preocupa em “apenas” captar a maravilha da natureza ou o drama humano.

A beleza dos que perseguem imagens e momentos que podem iluminar esta humanidade cada vez mais esmagada pelo trabalho e pressões do mundo moderno, cada vez mais tecnológico e frio.

A beleza de uma imagem realmente relevante, o que hoje parece ainda mais urgente na era do narcisismo insuportável das redes sociais e essa multidão de “selfies” a quem só importa uma coisa: a sua própria imagem e ego.

A beleza de um ator que resolve deixar a facilidade de seus recorrentes trabalhos como comediante para contar essa pequena grande história de um homem comum que se reinventa. E Ben Stiller faz isso com perfeição, fazendo um Walter com a inocência e paixão exata. Mais que isso, é ele quem resolveu contar essa história como diretor.

Outras belezas decisivas para empurrarem Walter à estrada em busca da foto das fotos são a música – o rock, claro, de melodia, ritmo e letra contagiantes (que outro estilo tentou tanto melhorar as pessoas e o mundo?) – e a ousadia e mil possibilidades de manobras e caminhos oferecidos por uma simples mas mágica tábua de madeira com rodas ultra aderentes de poliuretano, que fazem amor com o asfalto, a velocidade e a liberdade e aventura: um skate.

Em tempos de tantos sonhos aniquilados pela necessidade ou covardia de apenas “correr atrás” da sobrevivência, a jornada de Walter Mitty é um saboroso despertar contra o cárcere cotidiano.

Caia na estrada com Walter-Stiller que você será envolvido por essa rara canção cinematográfica que faz uma expedição – boa parte dela sobre um skate longboard, e conduzido pelo bom e velho rock and roll – pela beleza dos olhos e corações humanos que ainda se importam em ver enxergando: o outro, o ao redor, a nós mesmos; e a vida como um dia sonhamos na infância e juventude.

As máscaras verdadeiras

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filme-menina de ouro

Usar uma máscara não é apenas uma fuga do que somos e um fingimento do que não somos. É também a fantasia boa, ou a inspiração que nos leva além.

A poetisa Hilda Hilst defendia o valor de nos mascarar, de nos imaginar outros seres, cenas ou elementos da ficção ou mergulhar nessas cenas e vidas inventadas. Inspirados dessa forma temos uma iluminação e podemos nos ultrapassar, até evoluir.

Um livro, um personagem; um filme, uma cena; um poema, um verso; até uma novela etc. Quais são as inspirações que fizeram com que você ficasse tão tocado que imaginou-se parte delas ou motivado por elas? Quais as referências ficcionais que você vestiu como se fossem marcas suas e essas marcas te ajudaram a viver melhor, ou pelo menos sonhar em fazer ou alcançar algo parecido?

Já fui

um jovem pobre rebelde revoltado contra a desigualdade e opressão dos mais ricos, que fugia da realidade com os livros, mas depois lutava contra ela,

uma dupla de ladrões de bancos bom vivant que não feriam ninguém e roubavam pelo prazer de desfalcar os poderosos, além de se mostrarem para a inesquecível ali macgraw e ainda darem uma volta de cavalo ou de bicicleta com ela enquanto tocava aquela canção maravilhosa

um lutador de boxe a quem ninguém dava nada e contra tudo, chegou ao topo, mas sem esquecer de quem o ajudou a chegar lá,

um pai de vários filhos sem esposa se virando com muito coração e surfe na veia para cuidar de sua família,

um vendedor de sucos e sanduíches naturais de tiradas e vocabulário hilário, mas genuinamente praiano e hippie fora do tempo que vivia dentro de um trailer na praia

meninos, homens e velhos que pontuavam suas vidas através das alegrias e tristezas infinitas que o futebol pode proporcionar

um lutador mais do que decadente e todo arrebentado pela vida e pelos ringues que, contra tudo e todos e contra sua saúde em frangalhos, decide voltar ao ringue encarando até o risco de não sair mais dali, mas feliz porque aquele era o seu lugar, “porque pelo menos aqui dentro eu sei quem está batendo em mim”

um homem de clube de bairro falido (tanto ele como o clube) que fará tudo para salvar a agremiação (com esportes, música, atendimento social e celebração de amizades) da especulação imobiliária e gananciosos que desejam demolir tudo para fazer um supermercado no local (o “progresso” diriam os homens-máquinas frios de fazer dinheiro enquanto destroem histórias, pessoas e comunidades).

um professor de literatura desafiando a prisão de mentes e espíritos dos métodos dirigidos e interpretações impostas de muitos livros didáticos e motivando seus alunos a criarem livremente

uma cachorra que enfrenta a desgraça da seca e da fome no nordeste miserável apenas porque está junto daqueles que ama

o menino com a curiosidade do tamanho do mundo, que enxerga em cada coisinha daqueles campões gerais, o mundo

o mais apaixonado e solitário dos super-heróis que só não morre por ser impedido de regressar à amada porque recebeu a dádiva de surfar por toda a galáxia

o homem bom comum que não aguenta a pressão do sistema e dos homens maus e fica verde de raiva e, quando regressa ao estado de homem de novo, precisa pegar a estrada e procurar algo bom em outro lugar enquanto toca aquele mais belo e triste piano da história das séries de tv

dois homens comuns perdidos no tempo e sendo jogados no olho do furacão de acontecimentos marcantes da história da humanidade

um detetive bonachão, meio preguiçoso mas hábil decifrando casos e curtindo a vida no Havaí

um velho ex-jogador de futebol lembrando de velhas histórias dos anos mais românticos e belos do futebol com seus amigos de bar, mas que no final amaldiçoa uma história, e talvez o hábito de relembrar dizendo aquela tão dura, triste e real “que puta história triste!”

um moleque que ama até as tripas o rock and roll e faz dele a sua vida trabalhando para uma revista de rock e vivendo, muito, durante as reportagens

o melhor pai do mundo, que mente para o filho a todo momento e fantasia para que seu bambino não perceba o horror da guerra e dos que se dizem serem humanos

os burros e aparentemente malvados (não na essência) mas seres que acreditam no outro com uma ingenuidade tocante – o coiote, o tom e o frajola, pobres vítimas dos verdadeiros vilões, aquela ema insuportavelmente sorridente, aquele ratinho cínico perverso e aquele passarinho sádico

o marido que enfrenta a descida da mulher no inferno do álcool sem jamais pensar em deixá-la de verdade porque é exatamente igual aos versos daquela canção de arrebentar e porque quer proteger as filhas não da mãe, mas da doença dela

o moleque que não tem condições físicas de se tornar um corredor, mas que encara tudo pelo amor à mãe, o ser mais sagrado desse mundo, e vê o Ser maior enquanto corre com a alma para buscar um milagre e salvá-la

o filho ingrato que briga e desdenha do pai por não acreditar em suas histórias fantasiosas de pescador, mas um dia percebe toda a grandeza e verdade do pai

o menino que, diante do mar pela primeira vez, pede ajuda ao pai para olhar

o cachorro meio lobo que ama a liberdade de correr pela floresta e também o homem que cuidou dele e lhe deu a maior riqueza que podemos dar, o afeto

o cachorro que esperou por seu dono anos e anos mesmo depois dele não voltar mais do trabalho

o bicho papão que se derrete todo pelo carinho de uma doce e simpática pequenina

a menina que não aceita as maldades e injustiças do mundo e dos homens e questiona sem parar o que os adultos jamais conseguem responder

o jovem apaixonado por uma moça simples que um dia a deixa por suas ambições pessoais, mas que o destino mágico lhe coloca de novo no caminho, para que tente ser o pai e marido que sua ambição não deixou ser

o pai que mesmo sem condições mentais dá à filha o maior amor do mundo

cara que vê na rua aquela que sabe que é (e foi) a mulher de sua vida mas, em vez de falar com ela, deixa ela passar para que ele não estrague a vida dela, e de repente toca aquela canção que destroça tudo dos loucos de manchester

um velho rabugento intolerante que vai aprender o poder da amizade com amor com quem menos esperava, os imigrantes asiáticos que ele não tolerava e chamava, independente de onde tinham nascido, de “chinas”, e vai se sacrificar por eles na mais bela cena de altruísmo da história do cinema

um velho treinador solitário e afastado da filha que um dia encontra em uma lutadora de boxe a sua filha da vida

e muito mais, e dando uma rápida pensada nos personagens que lembrei, me impressiono como incorporei bastante algumas das características, pessoais e coletivas, de vários deles

e de todas elas, talvez o que mais bata fundo em mim é a do treinador que faz de tudo para ajudar sua pupila a alcançar o potencial que vê nela e ainda estabelece uma relação pura de mestre e discípula que se tornam o pai e filha, não de sangue mas que a vida lhes deu

talvez esteja falando um monte de besteiras e eu seja apenas o reflexo do que meus valentes pais professores, tão românticos, apaixonados e idealistas quanto lutadores me ensinaram e legaram

mas talvez eu seja também um pouquinho também as emoções, sentimentos e valores de cada ficção que citei aqui (e outras e outras mais)

E vocês, quem são os personagens e histórias que lhes cativaram tanto que se tornaram parte de seus corações e lhes ajudaram a ir mais longe?

E tem algum louco ou maluca aqui que chegou ao final desse texto e ainda vai tentar matar o nome de alguns desses muitos filmes e alguns livros, novelas e desenhos que citei?

Os mais duros e belos caminhos

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filme-beira

Uma história sobre as surpresas e a salvação que muitas vezes só a estrada e o acaso (destino?) podem nos entregar. Em meio aos quilômetros e quilômetros deixados para trás e tentando superar também o passado no retrovisor, João toca sua vida de caminhoneiro em meio a velhas canções de Roberto Carlos. As músicas rodam uma saudade angustiante em seu peito. Lembranças da alegria, família e amor que um dia teve.

A saudade só vai amainar quando uma carona escondida na caçamba, um menino órfão, começa a se relacionar com o trabalhador cansado da lida e da dor. Esta a tão singela quanto intensa trama principal do belíssimo filme Á Beira do Caminho: um homem e um menino perdidos e machucados viajando juntos; sem rumo, mas encontrando um ao outro.

O filme, quase um poema por suas poucas falas entre olhares e silêncios que gritam, é uma homenagem do diretor Breno Silveira (de 2 Filhos de Francisco) às canções de Roberto Carlos. Às nossas canções, pois quantos não sentiram lá no fundo as histórias e sentimentos do Rei e seu grande amigo Erasmo?

Quantos não olharam para sua amada, amigo e até mesmo para o cachorro fiel com o mesmo coração e sentido dos versos da mais amada dupla da história de nossa música popular?

À Beira do Caminho é fiel à veracidade dos versos-sentimentos de Roberto e por isso o caminhoneiro João (mais uma poderosa interpretação, tão minimalista quanto incendiária, de João Miguel) e o menino Duda (irresistível a simpatia doce do estreante Vinicius Nascimento) vão se conhecendo, brigando e se ajudando embalados-representados por canções inesquecíveis, das mais famosas do rei, como Amigo e Portão (Eu voltei).

Em meio a uma maioria de poucos sucessos do cinema brasileiro que brilham com a mesma batida fórmula da comédia, Á Beira do Caminho escapa desse clichê e parece uma produção argentina, por contar uma pequena grande história, genuinamente nacional, 100% brasileira, que emociona sem apelar.

Uma pequena história que podia acontecer com a gente. Ou aconteceu, para aqueles que em meio a dor aceitaram a mão estendida de pessoas especiais. Mão estendida que é um dos gestos-símbolos vitais deste filme imperdível para quem acredita no poder do tema maior do filme, a amizade.

A amizade que João e Duda trocam sem precisar se falar nas cenas finais, tamanha a cumplicidade que se estabelece entre os dois estranhos que se encontraram e, sobretudo, se aceitaram durante a longa e bela viagem chamada vida. Aceitaram-se porque compreenderam o que é, de verdade, lá no fundo, um

amigo de tantos caminhos
de tantas jornadas,
cabeça de homem mas o coração de menino,

aquele que está do meu lado
em qualquer caminhada…

Fugir para se encontrar

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Fugir é sempre uma decisão arriscada, mas pode ser essencial para nos encontramos com a nossa essência, verdades e sonhos mais profundos. Sonhos que só viram realidade se botarmos o pé na estrada. Essência e verdades que muitas vezes só redescobrimos quando confrontados com as surpresas da estrada, com os novos lugares, pessoas e experiências que surgem em nosso caminho. Dois pequenos grandes filmes mergulham nesse tema com beleza e poesia, o brasileiro A Busca e o francês Sejammuito bem-vindos.
A Busca narra a fuga de Pedro, um adolescente incompreendido pelo pai autoritário, Theo, e não motivado por uma mãe aparentemente fraca e triste. Foge também do tormento dos pais separados que ainda se amam mas só brigam e não conseguem viver juntos, muito menos se respeitar. O menino foge também em busca do avô ausente, que não conhece, mas é artista como ele. Sim, Pedro desenha demais, mas tanto o pai sempre cobrando seriedade ou a mãe sempre tristonha não percebem o dom e paixão do filho.
O início tenso e pesado da família em cacos logo ganha o brilho, surpresas e descobertas da estrada. É nela, em estreitas estradinhas e terra ou nas águas de uma represa; entre a cidade, as montanhas e a praia que o menino desaparece e o pai sai em seu encalço.
Aqui A Busca foge do habitual drama dessa temática do pai desesperado atrás do filho que sumiu. Em vez de violência (filmes do tipo mostram quase sempre crianças ou adolescentes raptadas e sofrendo todo tipo de privação e tortura psicológica) e drama policial, o diretor do filme, Luciano Moura, narra a história de um pai, Theo, se reencontrando com o jovem que foi um dia, e conhecendo melhor o filho pelos rastros que o garoto deixa na estrada.
Um trecho em especial faz o pai superar seu jeito metódico, conservador, insosso e frio – daqueles que pedem água num jantar com a mulher amada. Ocorre quando Theo cruza com um grupo de uma juventude bela e livre em um festival de música meio hippie na aldeia-serra de nome “Mimoso”. Do inicial estranhamento da enorme liberdade das jovens, logo Theo se encanta com meninas tão doces e naturais, e relaciona-se com elas como um paizão papo aberto e ombro amigo. A beleza do encontro é mostrar apenas um adulto experiente e meninas ricas de espírito compartilhando instantes fundamentais de pausa na vida comum e cotidiana, quase sempre sufocante. E é através das meninas, que estiveram com seu filho em fuga, que ele percebe outros sentimentos e paixões do seu garoto.
É também junto das meninas, sem julgá-las ou condená-las por estarem vivendo uma utopia hippie passageira, que Theo aprende o que é ser um pai de verdade: aberto e disposto ao diálogo e a ouvir as jovens, ele descobre muito do que deve se passar no coração e anseios do filho. Descobre também, ao juntar as pistas e pegadas do filho, uma força que desconhecia no garoto, que se vira sozinho para dormir, se alimentar e seguir em frente na sua longa e árdua jornada em busca do avô.
Após a poesia de Mimoso, um novo homem-pai surge e a viagem-saga torna-se ainda mais delicada e profunda, e sentimos que, diferente de tantos filmes e seriados mórbidos e sedentos de sangue, a história caminha para um final ainda redentor. Porque a linha-sentimento condutor de A Buscaé a esperança e fé nos outros, a amizade, amor familiar e amadurecimento. Bem diferente da expectativa e comentários idiotas de uma família abastada  – pai saradão, mãe perua e dois garotos “blasés”  – que cruzei na saída do filme. A sequência de comentários deles é um triste sinal da insensibilidade, falta de imaginação e dificuldade para decodificar símbolos. Talvez porque essa família representa boa parte de nossa sociedade que adora reality shows e ficções violentas e/ou trancar-se em seu mundinho de luxo, prazeres tecnológicos, vaidades e medo: “Até parece que um pai ia sair assim, procurando o filho em vez de chamar a polícia”; “Achei que o menino ia ser sequestrado”; “Nenhum adolescente foge assim, ainda mais a cavalo”; “o filme é chato”.
O festival de baboseiras de uma família que esperava um filmeco de ação e sangue não parava. Chato é perceber que pessoas com tantas condições financeiras serem tão ignorantes e incapazes de perceber as lições e belezas deste filme.
A outra produção, o francês Sejam muito bem-vindos, mostra o encontro, em plena fuga de ambos, de Taillandier, um pintor de sucesso que não têm mais motivação para fazer sua arte e viver, e Marylou, uma adolescente que sofre com a violência do padrasto e a submissão da mãe a ele.
O filme é outro que aborda temas pesados, como a depressão do artista sessentão, e a violência doméstica, pedofilia (essas duas últimas são apenas sugeridas, não mostradas) sem apelar para o recurso fácil e torpe de chocar o público. Pelo contrário, o inusual encontro em plena rua do pintor com a menina vai se tornar uma sucessão de trocas de experiências e afetos poderá salvar a dupla. E será através do senhor desconhecido, mas um artista adormecido e homem bom, e da menina rebelde sofrida, mas ainda com esperanças de reencontrar a paz familiar, que ambos serão tocados por um raro mas poderoso amor entre estranhos. Um amor de pai e filha de vida que a realidade colocou no caminho do outro.
Todo aquele que já recebeu o presente de alguém especial que a vida colocou em seu caminho em um lugar e momento inesperado, para lhe ensinar ou dar forças, saboreará como uma gostosa refeição caseira para a alma esse filme. Conduzido com a mesma fonte delicada e poética de A Busca, o francês Sejam muito bem-vindos nos lembra ainda que, para nos reerguer, precisamos estar abertos às mãos que tentarão nos amparar. Basta que as aceitemos.
Todavia, como o pintor que explica à jovem que um artista não precisa ver uma modelo para desenhar suas formas, “basta imaginá-las”, é preciso às vezes fechar os olhos e abrir o coração para que encontremos forças, inspiração e lucidez dentro de nós mesmos. É isso também que o mestre Taillandier ensina à jovem Marylou, depois dela lhe ensinar que ele não podia “ir embora” (o pintor depressivo fugiu de sua casa e família com um rifle no porta-malas do carro), pois ela estava aprendendo muito com ele. Aprendendo sobre arte e, valorizando o afeto, proteção e interesse do senhor para que ela fosse feliz de novo.
O outro lado é o que Marylou dá ao velho Taillandier e aqui o cineasta francês Jean Becker nos oferece a mesma nobreza de espírito do filme brasileiro: bela e sedutora fisicamente, e desconhecendo isso como a jovem desencanada que é, a personagem da menina poderia suscitar sentimentos torpes e doentios no velho pintor. O que prevalece, porém, é algo bom, captado com perfeição pelo crítico Orlando Margarido: “(Marylou) mal tem ideia de sua atração, do belo corpo que se impõe. Não será por essa via da sedução, a mais óbvia e apenas implícita com sutileza pelo filme, que Taillandier se deixará envolver. Marylou é sua musa inspiradora e como tal representa a beleza ainda da pureza possível.”  
Há sempre várias descobertas na estrada. Sobretudo quando a viagem e a fuga são tentativas de nos (re)encontrar com o que há de mais genuíno e bonito em nós mesmos.
*Magníficas as atuações de Wagner Moura (nos faz crer em cada aflição, alegria e descoberta do pai que aprende a ser pai) e, especialmente, de Lima Duarte (o pai ausente e o avô terno e arrependido que luta por uma última chance de voltar à sua  família) em A Busca. Da mesma dimensão é a viagem tão triste ou alegre, sofrida ou apaixonada dos atores franceses Patrick Chesnais, monstro que revela muito em um simples olhar, e a jovem revelação Jeanne Lambert, de beleza morena tão selvagem quanto doce.

Caminhos

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– Essa é a vida que você escolheu?
– Você não escolhe uma vida, pai. Você vive uma.
  (The Way)
É preciso estarmos fora de nossos trajetos habituais para encontrarmos a estrada com a qual nosso coração mais sonhou. Por isso tantos atravessam o mundo para percorrer o Caminho de Santiago: porque querem se lembrar. Ou esquecer quem se tornaram.
Cada um parte por alguma motivação ou desejo especial lá dentro.
Tão lá dentro, tão fundo, que às vezes até está escondido de nós mesmos e, quem sabe, o Caminho poderá nos ajudar a redescobri-lo. A redescobrir-nos.
Muitos, porém, só se lembram quando encontram os outros. Mais que isso, quando conhecem. Convivem. Comungam, no sentindo de compartilhar corações e emoções desnudas. Abertas como uma longa e sinuosa estrada na qual só temos coragem de nos lançar com companhia.
Só nos encontramos quando reencontramos a nossa humanidade, que só existe no contato com o outro.
O filme The Way (podem ler esse texto que não conto o final ou surpresas do filme) narra a dor de um pai que perde o filho enquanto o jovem, em sua jornada pelo mundo, é morto durante uma tempestade enquanto fazia o Caminho de Santiago, peregrinação que reproduz a viagem do apóstolo Tiago da França até Santiago de Compostela, Espanha. A viagem, claro, não é compreendida nem aceita pelo pai, um médico bem-sucedido nos EUA que trabalha demais e só se diverte, pouco, em raras partidas de golfe com os amigos de country club. Mas esse pai, que viaja para resgatar o filho, acaba tendo vontade de completar a viagem que seu filho não conseguiu.
Começa então uma longa caminhada de homenagem ao filho, uma valente tentativa de entender porque o jovem fazia o caminho santo ou de iluminação para pessoas do mundo todo (só o treinador brasileiro Zé Roberto Guimarães já o fez três vezes).
A jornada é inicialmente dolorosa mas o alívio está em cada parada. Nas paisagens, no silêncio e nas outras pessoas que também buscam algo pelo caminho.
Todos nós precisamos, em algum momento importante de nossas vidas, nos jogar em estradas e lugares desconhecidos. Onde a mente não está habituada os sentidos se ampliam e voltamos a ouvir, talvez, a nossa canção essencial.
A música que batia em nossos peitos de menino ou menina ou aquela que nos mostrou o caminho que sonhávamos tomar, amar.
Pé na estrada então, para que sonhos mais belos e arriscados não sigam se perdendo na imobilidade da rotina ou nos feriados e férias banais .
Basta um passo, e o belíssimo filme The Way – com pai e filho na vida reais como atores, o grande Martin Sheen e um de seus filhos, Emilio Estevez – mostram o valor dele. Charlie ´Parker´ Sheen deveria fazer o mesmo…
Não se trata de peregrinar e encarar, se não quiser ou não tiver saúde, o árduo Caminho de Santiago. Pegue o mapa de seu coração e localize as rotas com que um dia sonhou. Pode ser naquela cidadezinha do interior de seu estado; na região estrangeira que um dia viu em fotos, em um filme ou na TV, em qualquer lugar. Mas faça desse também o SEU lugar.
Mas não esqueça que é preciso ir lá fora conhecer.
Para viver mais, Pearl Jam, sempre: Take a walk outside. Dê uma volta lá fora.

Querem matá-lo

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“O amor não dura”, “é mera paixão que acaba, que não vence”, “é apenas uma possessão egoísta”, “não é algo natural”, “foge da realidade de hoje” etc etc. Parece auto-ajuda ao contrário, mas esses tipos de considerações são cada vez mais comuns. Diversos livros, colunistas de jornais e revistas metidos a polêmicos, alguns psicanalistas e intelectuais querem provar que o amor arrebatador que tantos buscam é um grande engano ou algo passageiro e perecível como um alimento com prazo de validade. Alguns dizem até que o ser humano está evoluindo, e que as múltiplas relações são cada vez mais comuns e bem-sucedidas.  É o tal do “poliamor”, citado pela psicóloga Regina Navarro. E ela ainda afirma que “o amor romântico está com os dias contados. Domina filmes e novelas, mas está saindo de cena na vida real”. Ah, Regina assina a obra, em dois volumes, O Livro do Amor
Evolução? Poliamor? Desistir de uma relação só porque vamos percebendo os defeitos de quem está firme com a gente é evoluir? O correto então seria pular de relação em relação como se surfássemos de perfil em perfil das redes sociais? O ato evolutivo é buscar vários tipos de amores nas prateleiras dos bares, baladas e escritórios da vida?
Os detratores do amor afirmam ainda que este sentimento dos sentimentos ainda é uma ingênua idealização romântica dos poetas antigos ou das comédias românticas de Hollywood.
Quanta picaretagem nesta nova estratégia mercadológica desses autores e profissionais que devem ter tomado um pé na bunda monumental ou apenas querem faturar em cima das vítimas de corações partidos.
Sim, o amor romântico, relação regada com cuidado e atenção, está mesmo em declínio, mas não por causa da “ingenuidade” do amor romântico. O “amor de filme” em nossas vidas reais só vem decaindo porque boa parte da sociedade embarcou, passando o cartão de crédito, no egoísmo, superficialidade e individualismo extremos. Muitos só pensam em satisfazer seus desejos e não das parceiras ou parceiros.  Mais exata que a palavra satisfazer para o mundo de hoje é consumir. 
Numerosos homens e mulheres em vez de procurar conhecer e acolher o outro, querem apenas o consumo rápido.Sexo, sexo, sexo. Compromisso? Responsabilidade pelo outro? “Ah, que papo mais careta…”
Ingênuos são é esses insaciáveis que perdem, pelo mero tesão de experimentar e experimentar, aquele olhar, gesto ou palavra de cumplicidade quando mais precisamos.
Amor não é indeciso de sorveteria que deseja provar tudo quanto é sabor. Amor não é um monte de opções e sabores a serem provados, escolhidos e descartados.
Amor é provar e reconhecer em uma pessoa aquele sabor que a gente aprendeu a amar porque está dentro da gente e faz parte do que a gente é. Ou um sabor novo que vai nos ensinar muito e aí sim nos fazer evoluir e nos tornar mais completos. Um sabor novo que a gente não vai deixar mais de pedir só porque lançaram um outro muito atraente.
Amor não combina com a gula.
Amor é contenção. Valorizar as pequenas coisas e gestos.
Amor é aquela que aguenta a dor do seu namorado ou marido sem reclamar dos lamentos dele, sem julgá-lo fraco. É não deixar ele desanimar. É ficar ali do lado, firme, mesmo quando ele mal pode se mexer.
Amor é olhar pra essa pessoa que exala o mais belo e sincero “tamo junto” e saber que ninguém mais vai amar a gente como ela faz.
Porque o amor mexe, remexe, cuida e envolva mesmo o mais adoentado e estourado dos companheiros. E esse turbilhão, essa onda amorosa, pode apostar que é um remédio tão ou mais poderoso quanto o comprimido mais pesado que dão pra ele.
Obrigado, então, amor, por tanta paciência e presença.
E lembro, aos exilados do amor, que a busca nunca deve acabar. Porque o amor é igual à atitude do amigo poeta/historiador/filósofo dos botequins, Paulão. Lembro da noite antiga, em que em pleno bar lotado ele perguntou, quase gritando – com indignação, dor e urgência – “Onde está o amor?!”
Paulão segue procurando e jamais desistirá, como faz o bom e velho Robert De Niro no terceiro conto do filme As idades do amor. Sim, grande Paulão, De Niro é no filme um velho professor de história solitário, um americano vivendo em Roma, que um dia é atravessado pelo furacão da filha de um amigo italiano. Simplesmente uma certa Monica Bellucci…
Para Roma, grandi amici Paulão!, para Roma!
PS – Quem quiser ler a reportagem na Folha de S. Paulo que mostra a “derrocada do amor romântico”, clica aqui