Quando o amor à música não nos deixa desistir

Padrão

cinema-ricki

Diferente de tantos contos de fada ou histórias apelativas de sonhos realizados que o cinema já contou, raros são os que “chegam lá”: ao estrelato, fama, grana, topo. A maioria sucumbe e perde anos de dedicação e investimento pessoal porque, como já ensinava o AC-DC, it´s a long way to the top. Os artistas mais autênticos, porém, mesmo quando não vingam, jamais perdem a sua essência ou aquilo intangível mas que sabemos estar diante de sua presença, por tanta garra-verdade-beleza que presenciamos: aquilo chamado alma.

A cantora Ricki Randazzo não chegou lá, mas despeja toneladas de alma a cada palavra e verso em que mergulha; a cada melodia que oferece ao público com uma entrega e paixão que emociona até um tão distante sujeito sentado em uma cadeira de cinema. Ricki é apenas uma personagem, uma roqueira sessentona que toca com sua velha banda sempre no mesmo lugar, um bar decadente (ou será resistente?) em algum lugar dos Estados Unidos que não realizou o seu tão decantado american dream, mas um EUA que ainda é a terra ancestral e original do rock and roll. Ricki é o sinônimo exato da palavrinha tão dura que é pronunciada com tanto desprezo pelos escrotos ou insensíveis: looser, perdedora. Ela mora em um cubículo, não tem mais cartão de crédito, teve sua falência decretada pelo banco e rala todo dia como caixa de uma rede de produtos naturais que exige que ela sempre sorria mesmo ganhando um salário que lhe garante apenas a sobrevivência.

Ricki só não perdeu o amor que transborda dela em cada apresentação naquele pequeno bar, de reduzidos mas fiéis frequentadores que não a abandonaram. Só não perdeu o amor à música, mais precisamente ao rock que exala de cada olhar, gesto e do canto que sai de sua voz rouca tão bela e calorosa. Uma voz envolvente que é mais um milagre de interpretação da sempre notável Meryl Streep. Sim, é ela mesma quem canta e engole com sua performance tantas e tantas cantoras do mundo real que não tem uma centelha da paixão que Meryl coloca em cada sopro, grito e canção de sua Ricki.

Ricki-Meryl e sua banda, a The Flash, são a exata tradução do que é o rock mais verdadeiro possível, aquele que seus fiéis não abandonam nunca, aquele que é a razão de viver de cada membro veterano da banda, aquele que é a terapia que faz milhões de pessoas reais no mundo todo suportarem a dura rotina dos dias e horas de trabalho e da batalha que é se deslocar para o trabalho e voltar pra casa nas grandes cidades. E que banda o diretor Jonathan Demme reuniu para o filme, com destaque para outro músico com muito talento e entrega, aqui sim um cantor do mundo real, o veterano cantor-guitarrista-ex-galã dos anos 80, Ricki Springfield. E, ironia que até seja a razão de ser do nome da banda do filme, Springfield foi um astro meteórico do pop rock dos anos 80, de brilho efêmero: depois do estrondo de sua ascensão com a canção “Jessy Girl”, teve mais poucos bons momentos e praticamente desapareceu da cena mundial.

Ricki Springfield, que no filme chama-se Greg, só não perdeu a eletricidade e amor que exala a cada acorde e riff de sua guitarra, uma eletricidade amplificada no filme ao estar junto do amor tardio de sua vida, mas amor, pela cantora Ricki. Aqui a química entre Springfield e Streep, é ainda mais bela nesses dois veteranos que conseguem mostrar que o raro brilho no olhar diante de quem se ama não perde a intensidade com as décadas nas costas.

Sim, há ainda uma trama forte no filme, da mãe que deixou o marido e três filhos (uma menina e dois garotos) pelo sonho de triunfar com a música, e Ricki-Meryl, mesmo com o coração devastado, defende sua escolha de forma tocante no filme. Pelo menos o filme e, por que não?, a vida também, em algum momento lhe dará a chance de se redimir e resgatar um pouco da relação com os filhos que o rock a fez deixar para trás. Porque o rock e a música que são feitos da voz humana e instrumentos arrebatadores – no caso do rock, uma guitarra, um baixo, uma batera e às vezes um teclado e outros instrumentos – em algum momento darão a uma mãe ou pai ausente a chance de cantar e tocar para quem magoou profundamente.

Esqueça as críticas que detonaram o filme. Se você tem o rock na alma, irá curtir um show arrebatador do qual você só irá embora bem depois da última canção (são várias, de clássicos dos anos 80, de Tom Petty a Bruce Springsteen) oferecidas como um presente nostálgico por uma das maiores atrizes da história e seus parceiros veteranaços mas resistentes da banda The Flash. Meryl captou bem todo o espírito do rock que aprendeu com seu “modesto” preparador para esse papel: simplesmente um dos símbolos máximos da história do rock, o gigante dos solos inflamáveis e voz poderosa, Neil Young. Hey, hey, my my, rock and roll will never die!

Anúncios

A verdadeira bateria vem de dentro

Padrão

menina e violao-pola

As frases e os gestos são diários, quase onipresentes:

– Mãe, coloca meu iPad pra carregar?

– Filha, coloca meu iPhone pra carregar?

Pior é a histeria se a bateria está acabando ou, santo desastre batman nerd das trevas!, ela acabou. Parece que é o mundo que acaba junto. Talvez porque ele exista e aconteça cada vez mais, para os dependentes tecnológicos, dentro de uma telinha do que fora.

Implico com a palavra “carregar”, que é proferida como uma senha mágica pelos dependentes de todas as idades. Triste modernidade digital que empobreceu uma palavra outrora tão rica, bela, profunda. Lembro do poema de Drummond, “carrego comigo”*, sobre como ele leva dentro de si algo muito maior e vital que o embrulho que carrega pra lá e pra cá. Lembro do peso e fardo, tantas vezes, das batalhas e barreiras que nos obrigam, como Atlas, a carregar o mundo nas costas.

Lembro então de uma imagem narrada por uma mãe amiga, sobre a filha de 15 anos que chega do interior. A imagem de uma menina carregando um violão nas costas. Uma menina trazendo a música, mais que isso, vida real (e tantos sonhos!) nas costas. Isso que é carregar no melhor sentido da palavra! Portar, transportar, trazer! Trazer um presente, verdadeiro tesouro. Não há bateria mais bonita e valiosa para essa menina que a vontade de tocar, fazer música, talvez cantar também, até gritar, mas tudo ligado à magia das canções.

E quem sabe ela não crie e componha suas próprias canções, atitude mil anos luz à frente da passividade de apenas passar o dedo freneticamente em telinhas, pulando de site em site, mensagem em mensagem, foto em foto etc etc.

E poucas baterias são mais belas que as referências e inspirações que essa jovem roqueira revela carregar ao escrever seu autorretrato, na primeira redação que lhe pedi na vida: Mafalda, Cássia, Dandara, Chiquinha, Clarice.

E ela escreve com a mesma eletricidade e paixão de seu rock and roll mestre. Uma simples folha de papel de caderno vira partitura: “Olho para o lado e vejo uma pauta em branco pronta para as melodias serem marcadas. Observo para dentro e sinto guitarras e baterias na hora de serem tocadas pelas sete notas musicais…”, escreve, ou melhor, toca a menina nesta folha viva de sua redação-canção.

Ah, roqueira, e queria lhe dizer que esse texto foi rascunhado nas páginas da Rolling Stone com o Dave Grohl na capa, justo na edição com uma nota escolhendo como uma das melhores do ano uma banda brasileira que você descobriu lá no Rio Grande do Norte, Far From Alaska. Procurei no youtube (aí sim, pra isso os malditos aparelhinhos servem!), botei o play na canção com nome que mais cativou, Dino vs. Dino, e pluft!, quanta originalidade, delicadeza e fúria da vocalista! Bandaça!, e essa música me remeteu aos duelos dos bons e velhos faroestes, pela melodia e riffs do guitarrista, pelo clima da canção, pelo canto em inglês.

Far from Alaska, Longe do Alaska (nome tão certeiro quanto divertido), mais uma vez o rock and roll dispara e recarrega nossas energias para o grande show chamado vida ao vivo.

Continue carregando vida nas costas, moça e bote pra quebrar a lição de atitude que o punk rock lhe ensinou: do it yourself. Carregue-se de você mesma (sem deixar de beber em outras referências), faça você mesma!

Quando uma banda resgata o bar, as pessoas e a vida que mais amamos

Padrão

foo fighters

Raros são os que conseguem fazer um estádio lotado com dezenas de milhares de pessoas parecer uma celebração no bar junto dos amigos do peito ou da companheira amada. Raras são as estrelas desprovidas de egos e vaidades colossais, ou da necessidade doentia de precisarem parecer que são os maiores artistas ou ícones do planeta. Raro demais é Dave Grohl e seu Foo Fighters, que incendiaram e talvez, sobretudo, deixaram-se incendiar pelo mais que entusiasmado e participante público que abraçou o Morumbi na noite de ontem (23/01).

O que faz Dave é simplesmente entrar em um estádio e transformá-lo no bar que um dia mais amamos (sim, os melhores bares de rock, os mais aconchegantes e verdadeiros, pelo menos aqui em São Paulo, desapareceram há anos). No bar em que abrimos o coração com os melhores amigos (um de cada vez) e refletimos sobre essa maravilha e brutalidade chamada vida. No bar em que erguemos os braços e gritamos brindando coisas sérias ou sacanagens divertidas junto de antigos amigos desaparecidos nas brumas do tempo ou distâncias. No bar em que um dia beijamos pela primeira vez a mulher de nossa vida.

Dave só faz é cantar e tocar com fúria e paixão sua guitarra jedi; jedi porque azul, cor iluminada e clara do bem e dos sonhos; cor pura e bela como o mar, o céu e o sabre do guerreiro pacífico da velha saga do cinema. E com que fúria-entrega e paixão ele faz isso! Com que amor pelo que faz e pelo seu público! Mesmo estando um pouco abaixo de vozes mais belas e guitarristas mais criativos da história do rock, sua garra entrega tornam o show do Foo Figthers apaixonante. Uma tempestade elétrica de altos decibéis, canções envolventes (algumas verdadeiras congregações sublimes como My Hero e Best of You) e, não um detalhe pequeno, muita simpatia e autenticidade, pois Dave Grohl não é poser nem faz do palco uma sucessão de passos e gestos ensaiados como alguns mestres desse quesito (Bono por exemplo).

Dave (admitamos, a banda, mesmo sendo de alto nível, é apenas um complemento dele) torna-se o cara por “apenas” ir lá na frente, dar o sangue e ao mesmo tempo brincar e conversar com a multidão como se estivesse naquele velho bar escuro de tijolinhos e velhos posters na parede. O papo é tão alegre, divertido e sacana quanto profundo. Inúmeros palavrões convocam a massa a cantar algo e depois um homem feito e, sim, estrela do rock (sem querer demonstrar isso, não precisa) de repente se emociona com uma multidão que simplesmente não quer parar de cantar o coro no hino Best of You. Já na lista das maiores apresentações ao vivo de uma canção na história do rock, a massa e Dave redefiniram ontem no Morumbi com essa música o significado da palavra catarse.

Dave é o cara também por tocar em um show de dimensões colossais (pela massa, não pela parafernália cênica, sem exageros) como se estivesse no bar em que começou a tocar, em algum buraco acolhedor da gelada e cinzenta Seattle do final dos anos 80. Toca com uma alegria cativante e dá espaço para seus companheiros terem seus momentos de brilho no show. Talvez porque, como acredita minha mulher – fascinada pelo jeito sangue bom do cara – o Foo Fighters não se parece com tantas bandas de anos de estrada em que os caras só se juntam nos shows e depois, por não se suportarem, cada um vai pro seu canto. Não, Dave e seus parceiros de banda parecem mesmo serem próximos, saírem juntos com suas famílias ou apenas se encontrarem no bar para tomarem uma cerveja gelada e curtirem ou desabafarem juntos.

Os brothers do Foo Fighters ainda apresentam algo que pouquíssimas bandas oferecem: uma série generosa de covers, talvez porque não se esquecem dos garotos fanáticos por alguma banda que um dia foram, do sentimento tão gostoso que é um dia, quando jovem, conseguir reproduzir um canto, riff ou melodia de algum deus dos vocais, guitarra, baixo ou bateria. Por isso ontem tivemos trechos de Tom Sawyer, do Rush; Detroit Rock City, do Kiss; um pouco de Black Sabbath e duas canções do Queen, uma delas a belíssima e sempre arrebatadora Under Pressure.

Enquanto Under Pressure tomava o Morumbi com os gritos-pedidos de give love, give love (dê amor), bacana ver e saber que ainda existem estrelas e bandas que caem na estrada com o mais belo, genuíno e nobre espírito não só do rock, mas da arte e vida também: o espírito de ir lá e fazer o seu melhor com uma entrega maravilhosa, e por isso arrebatadora. Uma entrega sem artifícios, sem discursos planejados ou efeitos especiais.

Especial é simplesmente tocar ou escutar canções poderosas e deixar-se levar pela paixão terapêutica e transcendental que é a música e esse rock and roll que tanto nos alivia e ainda nos dá uma energia incomparável para sobreviver ao massacre cotidiano e seguir sonhando com dias e vidas melhores.

Obrigado por nos lembrar do sonho e da raça que precisamos para colocá-los em prática, Dave, obrigados por lembrar-nos de darmos o nosso the best.

Obrigado por lembrar-nos que também podemos ser heróis, porque heróis, como você ensina em My Hero, são gente simples, gente como a gente.

O amigo que o tempo não levou

Padrão

pearl-jam-black

O tipo é raríssimo. Podem passar meses, até anos sem a gente encontrá-lo; e anos e anos desde que nossa amizade foi cultivada com vivências, viagens e conversas marcantes, mas o cara demonstra o mesmo sentimento ao nos ver tanto tempo e rumos distintos depois. Enquanto tantos reencontros são superficiais, marcados por sorrisos e palavras meia-boca, o cara olha fundo e diz: – Bom te ver, cara.

Bons amigos olham pra gente com saudade e memória. E falam como a melodia e letra de alguma canção fundamental que volta e meia reaparece de repente no rádio ou internet pra nos lembrar de algumas das partes mais bonitas e sinceras de nossas vidas. Quantos ainda reverenciam uma amizade como se estivessem erguendo, com honra e afeto, um brinde à uma amizade que poderia ter se perdido, como tantas outras, nas brumas do passado?

Depois de tanto tempo, mesmo em um papo rápido, conversamos sobre aquelas coisas essenciais que os amigos do peito costumavam compartilhar. Falamos sobre música, sobre canções. Ele pergunta o que eu tenho ouvido, falo que os velhos poetas Bruce (Springsteen) e Bob (Seger) e suas canções sobre gente comum que dá duro na vida mas não deixa de sentir, viver e amar profundamente.

Logo a coisa pega mais fundo e não lembro por qual gancho digo ao amigo que em minhas aulas de hoje (sim, ele foi meu aluno décadas atrás) boa parte dos alunos não se importa com as canções que dou em aula, diferente do que rolava antes. Preferem olhar seus celulares. Preferem seus mundos e novidades que devem ser muito mais atraentes que um velho professor e suas velhas canções.

O velho amigo de fé fica surpreso, decepcionado, por mim, e por ele, que é também um guardião da alma, beleza e reflexão dos grandes hinos da música, especialmente do rock.

Logo o papo se encerra, típico de breves encontros em festas de casamento como a em que estávamos. 5, 10 minutos até chegar alguém talvez com alguma amenidade. Não pude lhe dizer como ele é ainda um dos poucos a não ter esquecido aquele grande 2002 de aulas e afetos que na verdade eram a mesma coisa, e deveriam ser para todo professor que quer realmente ensinar e aprender.

Não pude lhe dizer que no dia seguinte do último e recente casamento, enquanto eu tomava meu café, lendo meu caderno de jornal preferido (um suplemento de literatura e cultura de um jornal do Rio onde você viveu o amigo alguns anos) diante da janela na padaria que me dá uma paz gostosa, tocou uma daquelas velhas canções que eu costumava dar em aula.

Pearl Jam, cara, com uma daquelas músicas completas, comecinho lento, terno como o amigo que tenta tirar o peso do nosso ombro pesado ou machucado pela vida. Pearl Jam, cara, de repente a melodia cresce, os instrumentos ganham força e o Eddie brada forte. Grita com a garra com que velhos amigos um dia cantaram alto, forte, juntos, celebrando ou exorcizando algum demônio, como se estivéssemos em algum final de balada em uma daquelas viagens mágicas.

Floripa, cara, nem lembro qual o verso ou refrão de canção que cantávamos, mas sei que expulsávamos os diabos juntos. Como dois amigos que se prezavam, como dois amigos dividindo a dádiva da estrada, da viagem, daquele tempo sem muitos compromissos e preocupações a não ser cantar sobre a vida para esquecer o pior dela e celebrar o melhor.

Cara, a canção que rolou na padoca é Black, e alguns versos me lembram das boas e velhas zoeiras daquela turma especial. Poderiam ser apenas versos nostálgicos, mas com as suas palavras lá no casório parecem afetos vivos e um estímulo para, quando chegarem novos dias negros, eu simplesmente sair pra dar um rolê a pé ou de skate transformando o canto do Eddie em uma lembrança que pode ser presente:

I take a walk outside
I’m surrounded by some kids at play
I can feel their laughter

Foi bom ter ver, também, cara.
Puta abraço, irmão.

Bruce, o artista que precisa da gente

Padrão

bruce Bruce Springsteen não representa, não segue poses estudadas, não obedece um ponto eletrônico na orelha, não segue os padrões dos artistas mais renomados e populares. O que ele faz é mergulhar em uma maratona emocional junto de seu público, perdão, COM o seu público. Raríssimos artistas se entregam tanto como ele, fazendo de um show ao vivo realmente uma comunhão. Não uma comunhão religiosa, porque seus shows não são transes místicos de adoração, mas aquela comunhão mais simples e bela de fãs e músico tocando juntos uma história de amor à música e aos sentimentos e histórias mais verdadeiras.

Em vez do transe estudado e do fanatismo da relação entre outros artistas e bandas com seus fãs, um show de Bruce não é um mero show, mas sim um encontro. Um encontro tão delicado quanto incendiário de olhares, palavras, gritos, histórias e experiências. Um encontro que é um compartilhar poderoso que Bruce oferece em cada minuto, palavra, melodia e canto que dá ao público. E recebe dele.

Sim, recebe, porque Bruce, diferente dos artistas de shows pré-formatados e engessados, não segue um set list, mas sim o que seus fãs querem ouvir. Mais que ouvir, sentir; porque a cada música cantada com uma imbatível simbiose de emoção e entrega, ele transporta o público tanto para dentro de suas canções narrativas como para dentro de si mesmo.

Dentro de nós mesmos porque Bruce atinge nossas camadas mais profundas com suas letras, melodias e canto tão viscerais que parecem partir de dentro da Terra antes de invadir e penetrar nossa pele, mente e coração.

A força é tamanha porque suas canções narram histórias verdadeiras, de gente verdadeira. Poucos têm uma obra tão vasta e bela como Bruce.  São versos sobre amores partidos e reconstruídos da juventude; do pé na estrada em viagens tanto de fuga como de renascimento; de pequenas grandes pessoas anônimas, suas conquistas, dores e bravura, como os bombeiros do 11 de setembro americano, os trabalhadores braçais explorados, jovens e soldados jogados na loucura da guerra ou homens enfrentando doenças graves, entre outros temas mais humanos impossíveis.

Bruce cantou e compôs sobre todos os pequenos grandes dramas humanos e fez de suas letras e melodias uma mistura de explosão de sentimentos e reflexão questionadora. Que outro roqueiro teve a coragem e humanidade de em pleno álbum em homenagem às vítimas do 11 de setembro incluir uma faixa belíssima e terrivelmente triste como a canção em que narra, sem crítica alguma, o dia em que um jovem homem bomba partiu um busca de seu Paraíso (a canção chama-se Paradise e está no fundamental álbum The Rising).

Quantos outros fizeram um hino tão denso e crítico como Born in the USA, canção em que desnuda a triste sina dos que lutaram no Vietnam e na volta ao lar perderam o emprego, a esperança e a lucidez?

Quantos artistas populares mostraram tão fundo a exploração dos operários e demais trabalhadores braçais, sugados e usados até a última gota, como Bruce fez em várias canções, como Atlantic City?

E quantos criaram histórias de amor tão longas e densas que parecem livros inteiros, verdadeiros romances dramáticos, como fez em The River, Bobby Jean, Sandy e dezenas de outras canções.

Quantos se preocuparam tanto não com os fáceis personagens vencedores e bem-sucedidos mas com os homens comuns que enfrentaram o diabo para conseguir um pouco de paz na guerra da sobrevivência?

E, por outro lado, quantos outros foram tão fundo nas essenciais e inspiradoras histórias de redenção como Land of Hope and Dreams?

Quantos entenderam tanto a paixão dos loucos homens jovens dispostos a tudo pelo coração de uma mulher como também o coração quase impenetrável de uma grande mulher, mas vasto e maravilhoso quando conquistado, como em Secret Graden?

E, meu Deus, quantos cantam e oferecem um show com essa quase inacreditável alegria transbordante que Bruce oferece a toda momento?

Quantos estão ali em cima realmente por amor e não só pelos milhões como ele?

E, meu Deus, como é possível um monstro sagrado, lenda e mito como ele tocar e cantar com a mesma alegria, paixão e entrega de um garoto e sua banda que toca para seus amigos de escola e familiares?

É possível porque Bruce se alimenta do amor do público, e num universo tantas vezes falso como é o dos grandes espetáculos, ele realmente ama estar com seus fãs, e sentir o calor humano da massa.

Porque Bruce é ele mesmo uma canção, aquelas que pegam fundo no fundo do peito e nos fazem rever os mais belos ou duros momentos de nossa vida, para sorrirmos ou lembrarmos e nos levantarmos.

Obrigado, Boss, por nos oferecer o maior show de nossas vidas, graças também aos excepcionais e arrebatadores músicos de sua banda fantástica.

Fantástica e amiga, que gostoso foi perceber outra qualidade rara em seu show: a amizade entre vocês, pareciam garotos de escola compartilhando momentos mágicos no meio de cada canção! E incrível como você valoriza cada músico e dá espaço para eles brilharam junto de você.

Com você e conosco.

Rock and Roll Man

Padrão

maestro e mauri

– Tio, você precisa fazer exames regulares, fazer check up, ver o coração – falou a sobrinha ansiosa e sempre um pouco preocupada, que analisa seu corpo periodicamente.

– Ah, está tudo bem, meu coração está ótimo – o velho roqueiro responde com um sorriso maroto e na sequência revela o segredo de sua ótima saúde e também astral: – No meu sangue corre rock and roll! – ele diz com paixão enquanto mostra as veias e segue exalando o sorriso do roqueiro legítimo que sempre terá alma de garoto.

Disso são feitos os mais autênticos dos homens: de uma vida totalmente entregue ao que mais importa: os amores cultivados com fervor e jamais abandonados.

O amor por seus filhos, esposa, família, alunos e seu combustível vital diário: a música. Com as canções folclóricas chilenas – que leciona nas escolas e cursos livres para a molecada – ele ganha a vida. E com o rock ele se alimenta para fazer todo o resto de sua vida.

Este é Mauricio Ruben Rojas Rojas, 55 anos, guitarrista da banda amadora Kamaleón, que de amadora só tem o costume de serem uma banda que toca por amor, e não por profissão, pois o som dos caras, mais que profissional, é visceral. Raro caso de banda que faz de covers verdadeiras releituras, a Kamaleón faz reinterpretações únicas, belas, envolventes e arrebatadoras como só as bandas originais conseguem ser.

O segredo da banda está na cara, no rosto de Mauricio enquanto não simplesmente sola, mas faz amor com sua guitarra que ele deve chamar de menina e doce namorada como a mítica Lucille do mestre do blues B.B. King. Escutem a fera dos Andes e perceberão o carinho de suas carícias nas cordas que afaga como se tocasse a mulher amada e logo a fúria passional, quando o riff voa para o solo, com que envolve sua menina elétrica em solos que são puro rock sexual feito com amor, alegria e aquele toque melódico supersônico, com muita velocidade, só possível nos diabos da guitarra. Só possível nas mãos de homens que transcendem o solo físico e de coração ao tocar com a alma.

E o diabo das cordas ainda canta algumas canções que são verdadeiros hinos no refinado repertório da Kamaleón. E aí vemos o mesmo ardor, o mesmo amor, o mesmo calor desse “velho do caralho!”, apelido que lhe dei tanto por seu talento musical incendiário como por seu bom humor constante. O bom humor contagiante que é mais uma marca de velhos roqueiros legítimos que não precisam de muito para abrirem um sorrisão rasgado: basta um bom copo de vinho, uma comidinha caseira sem frescura (como o cachorro quente temperado com abacate salgado e outros temperos delicados), a família, alguns amigos e rock and roll diário no aparelho de som enquanto toma o café da manhã, no carro a caminho do trabalho e no seu mágico estúdio que mantém em sua caverna sagrada no alto de sua casa.

A caverna, além do pequeno estúdio em que grava música por amor, possui um super telão e as caixas de som ideais para passar seus próprios shows ou das bandas que ama. Passar para os amigos e familiares, pois o Velho do Caralho tem no sangue outra essência e marca dos roqueiros velhos de guerra: a paixão em compartilhar, em transmitir o poder do rock para as pessoas, o poder não só energizante mas curativo, terapêutico.

A cura que ele toca em algumas das canções que mais ama, como a que, por coincidência era o mesmo toque de meu celular, Separate Ways, do Journey. O bom e velho rock sinfônico desta banda que casa perfeitamente com o amplo espírito desse grande pássaro-rei das guitarras, Mauricio “Condor” Rojas. Quando garoto, ultra romântico, rei das cartinhas e poemas para as meninas, eu não conquistava nenhuma de minhas musas com as palavras, mas sonhava em um dia alcançar o que o Journey prometia:

“Someday love will find you / Break those chains that bind you”

Um dia o amor vai te encontrar / Quebrar as barreiras que te prendem.

Um dia (re)encontrei o amor na sobrinha do grande Condor elétrico dos Andes chilenos, e como foi bom escutar depois o tio dela nos presenteando com essa canção-hino dos corações que jamais desistem.

Como os corações desses homens vitais que jamais vão parar de tocar, de cantar, celebrar e compartilhar.

Como o coração amplificado a milhares de volts de emoções multiplicadas pelo infinito que Mauricio “Condor” Luci nos transmite a cada riff, solo, canto, conversa, conselho e história que nos oferece de presente na rara dádiva que foi poder ficar hospedado com ele e sua família em alguns breves mas eternos dias em sua casa ao pé dos Andes e também na deliciosa viagem para a mítica Valparaíso do poeta Pablo Neruda.

Obrigado, Maestro, pela chama e afeto de amigo, irmão, tio, pai e claro, avô!, velho do caralho (hehe!) que nos ofereceu nesses inesquecíveis dias do início de agosto de 2013.

Gracias por todo, mi amigo, mi hermano!

PS – Outra saudação especial para o filho do mito, o garoto gentil, o nobre jovem do contrabaixo, outro super talento roqueiro, Sir Mauri do Coração Puro!; e nossos agradecimentos também para a Tia Generosa Violeta, que nos fez sentir em casa com seus cuidados especiais e presentes; para a sempre iluminada em seu sorriso puro e afetuoso, Tammy, e para a menina dos olhos de Mauri, Miss Susi, a moça mais delicada dos Andes. E ainda para a outra filha do maestro, a mais que calorosa, a moça sinônimo de hospitalidade que parece um brinde, à vida e à amizade, chamada Tania.

maestro e familia

Mauricio, Mauri, Tammy, Violeta e Tania.

As máscaras verdadeiras

Padrão

filme-menina de ouro

Usar uma máscara não é apenas uma fuga do que somos e um fingimento do que não somos. É também a fantasia boa, ou a inspiração que nos leva além.

A poetisa Hilda Hilst defendia o valor de nos mascarar, de nos imaginar outros seres, cenas ou elementos da ficção ou mergulhar nessas cenas e vidas inventadas. Inspirados dessa forma temos uma iluminação e podemos nos ultrapassar, até evoluir.

Um livro, um personagem; um filme, uma cena; um poema, um verso; até uma novela etc. Quais são as inspirações que fizeram com que você ficasse tão tocado que imaginou-se parte delas ou motivado por elas? Quais as referências ficcionais que você vestiu como se fossem marcas suas e essas marcas te ajudaram a viver melhor, ou pelo menos sonhar em fazer ou alcançar algo parecido?

Já fui

um jovem pobre rebelde revoltado contra a desigualdade e opressão dos mais ricos, que fugia da realidade com os livros, mas depois lutava contra ela,

uma dupla de ladrões de bancos bom vivant que não feriam ninguém e roubavam pelo prazer de desfalcar os poderosos, além de se mostrarem para a inesquecível ali macgraw e ainda darem uma volta de cavalo ou de bicicleta com ela enquanto tocava aquela canção maravilhosa

um lutador de boxe a quem ninguém dava nada e contra tudo, chegou ao topo, mas sem esquecer de quem o ajudou a chegar lá,

um pai de vários filhos sem esposa se virando com muito coração e surfe na veia para cuidar de sua família,

um vendedor de sucos e sanduíches naturais de tiradas e vocabulário hilário, mas genuinamente praiano e hippie fora do tempo que vivia dentro de um trailer na praia

meninos, homens e velhos que pontuavam suas vidas através das alegrias e tristezas infinitas que o futebol pode proporcionar

um lutador mais do que decadente e todo arrebentado pela vida e pelos ringues que, contra tudo e todos e contra sua saúde em frangalhos, decide voltar ao ringue encarando até o risco de não sair mais dali, mas feliz porque aquele era o seu lugar, “porque pelo menos aqui dentro eu sei quem está batendo em mim”

um homem de clube de bairro falido (tanto ele como o clube) que fará tudo para salvar a agremiação (com esportes, música, atendimento social e celebração de amizades) da especulação imobiliária e gananciosos que desejam demolir tudo para fazer um supermercado no local (o “progresso” diriam os homens-máquinas frios de fazer dinheiro enquanto destroem histórias, pessoas e comunidades).

um professor de literatura desafiando a prisão de mentes e espíritos dos métodos dirigidos e interpretações impostas de muitos livros didáticos e motivando seus alunos a criarem livremente

uma cachorra que enfrenta a desgraça da seca e da fome no nordeste miserável apenas porque está junto daqueles que ama

o menino com a curiosidade do tamanho do mundo, que enxerga em cada coisinha daqueles campões gerais, o mundo

o mais apaixonado e solitário dos super-heróis que só não morre por ser impedido de regressar à amada porque recebeu a dádiva de surfar por toda a galáxia

o homem bom comum que não aguenta a pressão do sistema e dos homens maus e fica verde de raiva e, quando regressa ao estado de homem de novo, precisa pegar a estrada e procurar algo bom em outro lugar enquanto toca aquele mais belo e triste piano da história das séries de tv

dois homens comuns perdidos no tempo e sendo jogados no olho do furacão de acontecimentos marcantes da história da humanidade

um detetive bonachão, meio preguiçoso mas hábil decifrando casos e curtindo a vida no Havaí

um velho ex-jogador de futebol lembrando de velhas histórias dos anos mais românticos e belos do futebol com seus amigos de bar, mas que no final amaldiçoa uma história, e talvez o hábito de relembrar dizendo aquela tão dura, triste e real “que puta história triste!”

um moleque que ama até as tripas o rock and roll e faz dele a sua vida trabalhando para uma revista de rock e vivendo, muito, durante as reportagens

o melhor pai do mundo, que mente para o filho a todo momento e fantasia para que seu bambino não perceba o horror da guerra e dos que se dizem serem humanos

os burros e aparentemente malvados (não na essência) mas seres que acreditam no outro com uma ingenuidade tocante – o coiote, o tom e o frajola, pobres vítimas dos verdadeiros vilões, aquela ema insuportavelmente sorridente, aquele ratinho cínico perverso e aquele passarinho sádico

o marido que enfrenta a descida da mulher no inferno do álcool sem jamais pensar em deixá-la de verdade porque é exatamente igual aos versos daquela canção de arrebentar e porque quer proteger as filhas não da mãe, mas da doença dela

o moleque que não tem condições físicas de se tornar um corredor, mas que encara tudo pelo amor à mãe, o ser mais sagrado desse mundo, e vê o Ser maior enquanto corre com a alma para buscar um milagre e salvá-la

o filho ingrato que briga e desdenha do pai por não acreditar em suas histórias fantasiosas de pescador, mas um dia percebe toda a grandeza e verdade do pai

o menino que, diante do mar pela primeira vez, pede ajuda ao pai para olhar

o cachorro meio lobo que ama a liberdade de correr pela floresta e também o homem que cuidou dele e lhe deu a maior riqueza que podemos dar, o afeto

o cachorro que esperou por seu dono anos e anos mesmo depois dele não voltar mais do trabalho

o bicho papão que se derrete todo pelo carinho de uma doce e simpática pequenina

a menina que não aceita as maldades e injustiças do mundo e dos homens e questiona sem parar o que os adultos jamais conseguem responder

o jovem apaixonado por uma moça simples que um dia a deixa por suas ambições pessoais, mas que o destino mágico lhe coloca de novo no caminho, para que tente ser o pai e marido que sua ambição não deixou ser

o pai que mesmo sem condições mentais dá à filha o maior amor do mundo

cara que vê na rua aquela que sabe que é (e foi) a mulher de sua vida mas, em vez de falar com ela, deixa ela passar para que ele não estrague a vida dela, e de repente toca aquela canção que destroça tudo dos loucos de manchester

um velho rabugento intolerante que vai aprender o poder da amizade com amor com quem menos esperava, os imigrantes asiáticos que ele não tolerava e chamava, independente de onde tinham nascido, de “chinas”, e vai se sacrificar por eles na mais bela cena de altruísmo da história do cinema

um velho treinador solitário e afastado da filha que um dia encontra em uma lutadora de boxe a sua filha da vida

e muito mais, e dando uma rápida pensada nos personagens que lembrei, me impressiono como incorporei bastante algumas das características, pessoais e coletivas, de vários deles

e de todas elas, talvez o que mais bata fundo em mim é a do treinador que faz de tudo para ajudar sua pupila a alcançar o potencial que vê nela e ainda estabelece uma relação pura de mestre e discípula que se tornam o pai e filha, não de sangue mas que a vida lhes deu

talvez esteja falando um monte de besteiras e eu seja apenas o reflexo do que meus valentes pais professores, tão românticos, apaixonados e idealistas quanto lutadores me ensinaram e legaram

mas talvez eu seja também um pouquinho também as emoções, sentimentos e valores de cada ficção que citei aqui (e outras e outras mais)

E vocês, quem são os personagens e histórias que lhes cativaram tanto que se tornaram parte de seus corações e lhes ajudaram a ir mais longe?

E tem algum louco ou maluca aqui que chegou ao final desse texto e ainda vai tentar matar o nome de alguns desses muitos filmes e alguns livros, novelas e desenhos que citei?

a estrada de todos os tempos

Padrão

(Hoje, ao pegar uma redação que eu tinha esquecido de esqueci de ler – me perdoa!; descobri que uma menina que é uma das razões de eu seguir dando aulas com amor – pela dedicação, paixão e entrega dela nas aulas – tornou-se fãzaça dos Beatles, e queria me dizer isso, como disse no PS entusiasmado de sua redação escrita com as belas e valentes letras dela numa folha do Pequeno Príncipe. Em homenagem a ela, ressuscito então um velho tema que eu tinha no pão na chapa original, a seção canções da vida. Não esperem algo muito elaborado, o processo de criação dessa seção é simplesmente escutar uma canção que me emociona e ir rabiscando ou teclando instintivamente. Hoje saiu isso:)

a longa e larga estrada, the long and winding road, uma daquelas melodias e canções que nos transportam para a estrada mais longa, a da vida.

a vida lá de trás, no retrovisor de nossas memórias mais belas ou tristes; e para frente, porque mesmo se essa canção fala de um cara deixado para trás com o coração partido, why leave me standing here? (por que me deixar aqui sozinho?) a melodia é tão bela que chama lágrimas, mas de alegria, um poder que só os gênios da música conseguem criar: a tristeza que toca a alma e nos embaça os olhos, sim, mas também nos ganha um sorriso no canto do rosto. no canto do coração, como um atalho para a estrada mais importante, a que estamos pegando hoje, com as pessoas que amamos, com os amigos que estão com a gente hoje e com a pessoa que está ao nosso lado: o amor que escolhemos e nos escolheu para a estrada mais dura e imprevisível, a do futuro. é para você também, minha guerreira, essa canção da estrada sem fim que encararemos juntos em breve.

e, às pessoas importantes que passaram pela nossa vida e sumiram, quem sabe os versos e canto de Paul não as toquem: You left me waiting here /A long long time ago / Don’t keep me standing here /Lead me to your door

por que alguns velhos parceiros e amigas não nos guiam de novo para suas portas?

por que as fecham?

talvez porque, no massacre cotidiano do trabalho e obrigações esqueçam de dar um tempo e escutar velhas canções e velhos sentimentos.

old feelings, mas que um dia foram a coisa mais sincera e real de seus, nossos, corações, lá na juventude. lá nas estradas em que sonhamos os sonhos mais reais. os sonhos dos 15 anos.

toquem de novo essas canções, meus velhos e velhas!

ps – dádiva ser professor e ser jovem de novo em cada aula em que a molecada abraça a proposta com paixão e depois escrevem colocando os sentimentos mais sinceros numa folhinha de papel com a música de suas caligrafias.

Long Play Man (O Homem de Vinil)

Padrão

LP1

Nunca foi um homem comum, desses que, anestesiados pela rotina e acovardados pelas exigências dela, torna-se apenas um velho disco compacto que toca uma música só, da mera sobrevivência cinza da batalha dos dias que se sucedem. Não, Seu Héllio é o revolucionário e guardião Homem de Vinil. O homem de várias faixas e canções como são seus amados LPs. É ele tanto o trabalhador de sua profissão em que se aposentou – sim, há que cuidar da família – como o sonhador das noites e fim de semana em que mergulha na grande paixão pelas músicas, em especial pelos grandes cantores brasileiros antigos e outros artistas que desconheço mas que, claro, ele têm, pois Seu Hélio não é daqueles obsessivos reducionistas com uma predileção única e limitadora.

Só pode ter vindo de algumas preciosidades que ele trouxe para casa que sua filha caçula um dia se apaixonou pelo rock britânico e americano dos anos 50 e 60. Só pode ter sido de algum clássico dos Beatles ou do rei Elvis que a pequena Lara um dia se apaixonou, perdidamente e para sempre, pela música que escava o coração com cantos, riffs de guitarra e batidas numa bateria. E graças ao pai ela encontrou, com os velhos bolachões, onde extravasar sua alegria transbordante ou desabafar suas dores e desilusões.

Graças a esse raro guardião de uma verdade hoje provada mas tão contestada no passado recente: o som muito mais fiel, belo e potente da música dos LPs. O som que foi contestado pela indústria poderosa que enfiou goela baixo do mundo inteiro a mentira de que o CD tinha o som mais puro que o LP. Quase mataram o LP com isso.

Não mataram porque valentes e sonhadores como seu Hélio não deixaram, com suas pequenas lutas a cada fim de semana, as pequenas barricadas das feiras de discos como a do Praça Benedito Calixto.

Minha descoberta da paixão do Seu Hélio pela música veio informado pela filha Lara, e um dia resolvi entrevistá-lo para uma seção que tinha no jornal Gazeta de Pinheiros em que contava a história de pessoas especiais, mas quase anônimas, de São Paulo.

Alguns encontros resistem aos breves instantes em que aconteceram. Quando o entrevistei, colecionar LPs (sobretudo, amá-los), estava longe do hobby vintage e clássico comum hoje, de valorização da boa cultura e produtos do passado. Os LPs eram apenas coisa velha e ultrapassada para uma esmagadora maioria de amantes da música que viraram meros consumidores. Tolos consumidores que jogaram fora os belíssimos álbuns de vinis, com aquela capa grande, com arte incrível, para economizar espaço e ganhar em sonoridade com a pureza do CD.

Lembro até hoje de meu choque quando Seu Hélio me disse que o LP traz uma sonoridade muito mais real que o CD por trazer claramente as diferentes texturas sonoras e instrumentos, bem diferente da uniformização do CD que, escondia, segundo ele, nuances e sons. E o sábio guardião ainda afirmou que o CD matava outra verdade da música, as distorções dos vocalistas e instrumentos.

Quase 20 anos depois, especialistas provaram o que seu Hélio sempre soube e defendeu: que o CD e, mais ainda, a música digital, baixada para o computador, simplesmente destroem várias camadas sonoras, comprimindo tudo numa maçaroca muitas vezes insossa que nos faz mal distinguirmos os diferentes instrumentos musicais e as nuances de canto das vozes. A indústria da música e dos computadores mentiu descaradamente anos e anos com a balela de que retiravam as “impurezas” das canções. As impurezas que são, porém, a verdade da música e das diferentes melodias e acordes que nos encantam.

Quando falei com ele, não era ainda a época da ditadura da música digital para computadores, iPods, tablets e celulares. O que diria seu Hélio desse tipo de música?

Fora da música, Seu Hélio era famoso pela aparente braveza, eu mesmo tinha medo de telefonar e ser atendido por aquele vozeirão sério de locutor de rádio. Desconfio que esse jeitão era apenas impressão, mas uhn, como não ser bravo com três filhas pra criar, rs? E na verdade, a impressão meio que diminuiu quando conheci a paixão dele pela música.

E a braveza desapareceu quando conheci sua sabedoria em outra área: lembro que um dia lhe falei que a filha Lara devia ter vivido em outros tempos, pela paixão dela por músicas antigas e pelos valores nobres e românticos dela, oprimidos pela era do individualismo. Seu Hélio foi rápido e preciso: “Não, justamente por isso (pelo que a filha amava e acreditava), a gente precisa dela agora, nessa época”.

Seu Hélio partiu de repente, como um show arrebatador que termina antes do bis, mas como o homem-música que sempre foi, sua obra fica. Seus álbuns de vinil e os tão preciosos discos de afeto que ele tocou com amor: a esposa atenciosa, afetuosa e calma (alguém tinha que amainar o ciúme do homem com as filhas, rs) e ainda quituteira de mão cheia!; a filha mais velha de 10.000 volts, guerreira que sempre agarrou a vida com valentia; a filha do meio mais silenciosa, introspectiva, calma e vital como uma balada pra nos tranquilizar e ajudar a encarar a vida; e a caçula idealista e guardiã, como o pai, de um mundo mais humano e belo que um dia já existiu e resiste no coração dela.

Seu Hélio partiu, mas não foi embora. Alguns homens são como canções. Nunca deixam de tocar em nossos corações.

Os primeiros anos do resto de nossas vidas

Padrão
Uma das canções da vida. Ou melhor, que nos faz lembrar de pedaços essenciais mas soterrados, até interrompidos, dela. Música-tema de St. Elmo´s Fire (O Primeiro anos do resto de nossas vidas, com Demi Moore ainda menina e cia juvenil estrelada). Os instrumentos iniciais (violino?) são um passaporte para o passado. O tecladinho soa como velhas fotografias de rostos e corações que não devíamos ter esquecido, jamais. A bateriazinha de leve nos lembra de abraços, sorrisos, do jeito iluminado com que olhávamos os amigos e vice versa.
Por que a vida nos separou? “Ah, o tempo, os caminhos, as famílias…” que cada um criou ou ainda tenta criar. Ou a dureza dos que mudam demais e esquecem de como eram melhores, mais humanos, quando garotos e meninas.
A profundidade do piano e a o sax expandem a canção e nos levam de volta às fotografias de momentos inesquecíveis, da pureza de amigos e amigas que um dia foram nossos irmãos de sonhos, viajando juntos nos sonhos fundamentais dos 15 anos: as musas impossíveis, os pequenos grandes feitos, as pequenas  partidas de colégio que transformávamos em finais de Copa do Mundo (quem não lembra de uma grande vitória na quadra da escola onde um dia você sonhou, viveu, sorriu e sofreu, esquece algumas das maiores emoções da vida). As viagens com a turma, as festinhas, as piscinas, o mar, o lago, as águas que corriam mais puras e inocentes. As águas que corriam intensas e emocionantes como o sangue da juventude de atitude.
Volta o tecladinho, a dedilhar com suavidade o menino ou menina quem um dia fomos, jovens em tempos mais reais, onde festas era marcadas de boca em boca, em que conversas eram anunciadas com um toque na campainha de nossas casas ou um grito nos chamando.
Eram tempos em que o amigo, em vez de mandar mensagens via computador ou celular, surgia do nada (do tudo, de seus corações) batendo em nossa porta, sem avisar mas sendo bem recebido.
Eram tempos de papos intermináveis à beira da calçada de frente para ruas tranquilas, livres de tantos carros ou da gente nervosa, apressada e mal educada de hoje. Eram rolês de bike sem capacetes, com as orelhas mais livres para escutar o mundo imenso que sentíamos e imaginávamos quando moleques, e sem roupinhas especiais. Pedalávamos com a mesma roupa com que jogávamos bola ou taco na rua. Pedalávamos por ruas e tempos menos consumistas e neuróticos, mais calmos e humanos.
Eram tempos de ligações mais simples e profundas. Não lembro de falar ou ouvir a palavra “conexão” quando garoto, mas tenho certeza que os amigos eram muito mais conectados na era dos gritos na porta de casa e nos rolês a pé ou de bicicleta em pleno fim de semana (é, acho que tínhamos muito menos lições de casa no passado, talvez os professores e as direções de escolas soubessem ensinar o essencial em vez do massacre conteudista cada vez maior de hoje).
Tínhamos tempo livre de verdade. Éramos mais livres para sonhar e viver. Vivíamos na rua. E não me venham falar de que hoje há muita violência, mais carros etc. Sim, é verdade, mas ainda existem muitas ruas, praças e parques onde se pode crescer e viver sem medo. Pena que a paranoia dos pais ou o excesso de atividades em que enfiem seus filhos acabe com a adolescência hoje.
A adolescência e juventude que parece ter ficado no passado, como no maravilhoso filme St. Elmo´s Fire, em que os amigos, sonhavam, ajudavam-se e, sobretudo, ficavam juntos.
Eram outros tempos.
Eram outros humanos.
Mas graças que alguns resistentes ainda lembram de filmes e canções como essa, como a velha amiga dos anos incríveis que postou essa canção hoje cedo no Facebook.
E graças que ainda existem, nos corações de quem sabe encontrar a companhia e amor certo, romances como o desse filme que marcou os românticos dos anos 80.
Graças que, mesmo se a mágica dos 15 anos não volta, ainda é possível cultivar uma pessoa como cultivávamos os jardins incomparáveis dos amigos dos 15 anos.
Se os amigos desapareceram na cinza poeira do tempo, ou no poço sem fundo (sem volta?) dos que mudaram por questões de grana e status, cuide de sua parceira ou do seu companheiro com o mesmo cuidado, alegria e entusiasmo com que regavam os moleques e meninas dos anos mais mágicos da sua vida.
Quem sabe, fazendo isso, e exercendo a arte esquecida do romance no amor, você não lembrará do amor tão belo quanto: o amor que se irradiava dos amigos e amigas do peito que não apenas se curtiam, mas celebravam a vida juntos.
Texto dedicado aos que se sentem bem demais quando a esposa ou namorada encosta a cabeça nos nossos ombros no cinema vendo um filme que celebra o amor ou a parcela diminuta, mas combativa, da humanidade que ainda luta por um mundo melhor.
PS – Quem vai agitar uma festinha pelos bons tempos??? Ou quem é que vai começar a bater um fio, telefonar para os velhos amigos, em vez da frieza e fugacidade dos posts virtuais?
Nunca é tarde para resgatar a pessoa sensacional que você um dia foi.