O samba guerreiro da vida

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samba

Depois do arrebatador Intocáveis, a dupla de diretores franceses Eric Toledano e Olivier Nakache brilha de novo com Samba, explorando sem apelação outro grave drama humano, agora a imigração ilegal. Em mais uma monumental interpretação de Omar Sy – o mesmo protagonista de Intocáveis – podemos sentir na pele todo o medo, derrotas, esperança e coragem de lutar do imigrante senegalês Samba Cissé. Desde a espetacular cena-sequência de abertura, mergulhamos na tensão e segregação de ser um imigrante clandestino na França, mesmo já trabalhando há 10 anos no país.

Quais as armas de Samba para sobreviver na dura terra prometida europeia que buscou para fugir da miséria africana? Sua entrega para se relacionar com os outros e uma alegria contagiante, um jeito de ser e batalhar com um sorriso no canto do rosto que honra o nome de batismo que ganhou em homenagem ao povo brasileiro.

Além do iluminado Samba, o personagem de outro imigrante, Wilson, que se faz passar por brasileiro, presta outra homenagem aos brasileiros da classes mais baixas, que enfrentam qualquer trabalho pesado e sina sem lamentos, sem perder o bom humor. De quebra ele ainda exerce a velha arte brazuca de seduzir as mulheres enquanto dança. Mero estereótipo para alguns críticos, essa atitude de dançarino Don Juan é suavizada com leveza e graça, embalada com música brasileira pra levantar o astral do mais derrubado dos seres. Tome então Gilberto Gil e Jorge Bem na trilha sonora, como a deliciosa Take it easy my brother e sua sabedoria de bem lutar e viver.

Samba e seu companheiro de diversos bicos pelas camadas mais baixas da escala produtiva semeiam sabedoria de viver. Correm todo tipo de perigo – podem ser presos ou deportados a qualquer momento – mas não deixam de sacanear um ao outro, tirando sarro de suas dificuldades em trabalhos infernais e relacionamentos quase impossíveis com as raras mulheres francesas que se interessam por seus dramas e corações.

Mulheres como uma executiva machucada por um casamento arruinado e um trabalho exaustivo demais que a faz surtar e ser obrigada a se afastar. Aqui temos outra grande atuação, de um quase mito do cinema francês, a tão delicada quanto profunda Charlotte Gainsbourg, mestra do olhar e dos pequenos gestos reveladores.

Mulheres como as jovens, senhoras e velhinhas de uma ONG que procuram conseguir os documentos que os imigrantes precisam e, mais que isso, se dispõem a algo vital: escutar seus dramas-desabafos. O cinema é pródigo em temáticas como essa, de seres mais humanos que a média do típico homem moderno egoísta, mas as mulheres da ONG deste filme animam o coração dos que ainda acreditam em um mundo melhor. Acalantam nosso coração como se fossem as deliciosas e dançantes canções que embalam a confraternização das voluntárias com os imigrantes em uma festa inesquecível como um clássico de Bob Marley que faz o pessoal soltar o corpo e a alma na pista.

Quem ainda acredita que o cinema pode ser mais que mera fantasia escapista ou entretenimento não pode perder esse filme, que produz o mesmo efeito catártico dos pequenos dramas cotidianos tão bem explorados pelo cinema argentino: em uma cena rimos e flutuamos; na próxima os olhos ficam cheios e o coração apertado. Sonhamos e sorrimos com as esperanças e raça dos imigrantes e logo sentimos uma pontada lá dentro e nos revoltamos com suas quedas e perseguição de um mundo cada vez mais intolerante e xenofóbico.

Graças que há Samba, o homem e a música que tão bem o representa, assim como seu amigo de batalhas pelos serviços que nenhuma francês quer fazer, nas profundezas da separação do lixo às alturas arriscadas de limpar vidros em prédios altíssimos.

Graças que há quem tente protegê-los e reerguê-los contra a frieza do Estado e violência da intolerância.

Graças que o amor e a alegria, algumas vezes, podem mais que o preconceito e o ódio.


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Brasileiros

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brasil

Minha mãe foi a vida toda professora de escola pública, e fez da sua profissão um ato de amor. Seu carinho e atenção com cada aluno, e a capacidade dela de sempre enxergar qualidades e potenciais nos meninos ou meninas era a marca de sua lida diária. Fora das aulas, ela não era muito de ir às ruas protestar. Estava com seus colegas, porém, no famoso dia em que um certo Paulo Maluf, então governador, mandou a polícia montada para cima dos mestres, que pediam um salário decente e melhores condições de trabalho. O protesto, em frente ao Palácio do Governador, em São Paulo, acabou com muitos professores no chão, entre eles minha mãe, que tomou um coice de um cavalo, pobre instrumento do único animal ali, o que o cavalgava a mando da besta maior, “Doutor” Paulo.

Minha mãe ficou toda rôxa mas não quebrou nada, e mesmo vítima, ela jamais desenvolveu uma fala raivosa por causa disso. Apenas repetia que o governo de Maluf simplesmente esmagou o salário dos mestres e ainda lhes tirou várias conquistas. Pior era minha mestra ter que ouvir dos parentes ricos que “professor não devia reclamar, tem 2 meses de férias” e tome blá blá blá típico de boa parte da elite ignorante. E tome desses parentes votarem no doutor em corrupção.

O caso é que a raiva não a tomou mas bateu forte no filho que um dia cresceu e virou jornalista e professor. À minha raiva manifestada contra a enorme e escandalosa desigualdade social e egoísmo de boa parte da elite, ela me pedia tranquilidade e para pensar em coisas boas. Coisas do nobre coração da mãe e mestra, que enchia o porta malas de seu lendário fusquinha de alunos que ela treinava para o festival da canção francesa. Seus alunos humildes de escolas públicas de Pinheiros que, guiados por ela, venciam os das escolas particulares, para orgulho da minha guerreira da educação número 1.

Um dia algum “brilhante” secretário da educação acabou com o ensino médio e fundamental na escola em que minha mãe passou mais anos, e ela, desiludida, se aposentou. Não parou de dar aulas (prosseguiu em universidades) mas parou de fazer a sua pequena revolução com adolescentes carentes aos quais ela ensinava português, francês, e sobretudo, a como perceber os talentos que cada um tinha para lutar e vencer na vida.

Fora da escola pública, a mestra perdeu um pouco de contato com a realidade e não entendia muito meus brados contra tanta coisa nesse país. Eu costumava responder que “um dia esse povo vai perceber o quanto é roubado, maltratado e injustiçado e aí a Revolução Francesa vai ficar pequena perto do que os brasileiros vão fazer”.

O caso é que o impensável e a utopia deste revoltado está acontecendo. Os cegos acham que é apenas uma revolta tola contra os 20 centavos do aumento dos ônibus. E ainda repetem aquele velho discursinho do andar de cima de que a revolta é liderada pelo partido que eles odeiam. Já votei no antigo MDB, no PSDB, PDT e PT e nunca vi partido nenhum organizar um protesto contra seus próprios partidos. Para que o PT iria patrocinar um protesto se São Paulo e o governo federal tem o PT no poder?

Cegos que não enxergam que os 20 centavos são apenas a gota derramada do suor e sangue arrancados do povo, e também da classe média por governos de todos os partidos, e empresários e industriais de várias áreas.

Os cegos, ou falsos cegos com negócios a salvaguardar, tentam enfiar na goela dos outros (via grandes jornais, TVs e redes sociais) a ideia de que só há vândalos nos protestos.

Graças que as redes sociais (e aqui vão os grandes méritos da internet, a capacidade de mobilização e a informação sem filtros e censura) mostraram que o vandalismo maior veio das forças que deveriam garantir a ordem. Pior, que o vandalismo, nó último protesto paulistano, partiu da polícia.

Não é mais sobre 20 centavos, consumidores das distorções das Vejas e grandes mídias afins.

O protesto é sobre grana mais pesada e outros problemas e carências.

É sobre o vandalismo que os governos, empresas e construtoras enfiaram na gente com essas arenas bilionárias super faturadas e algumas com falhas.

É sobre a remoção fascista e violenta de milhares de famílias que estavam no caminho das obras da Copa e Olimpíada e foram expulsas das suas casas no Rio, Porto Alegre, Recife etc.

É sobre o assassinato de  nossa cultura do futebol quando sabemos que o povo está proibido de frequentar as arenas, devido aos preços proibitivos. No amistoso de reabertura do Maracanã o ingresso mais barato era 150 reais. Não dá pro povo.

É sobre o péssimo transporte público que espreme milhões e milhões todos os dias em qualquer grande cidade do país.

É sobre as avenidas e mais avenidas, pontes e mais pontes, construídas apenas para um desafogo temporário do tráfego e trânsito (em poucos anos, o trânsito e os congestionamentos voltam ao normal de antes das obras) e, claro, para alguns faturarem fortunas.

É sobre o país privilegiar os carros em vez de cuidar do transporte da massa. (E aqui faço minha mea culpa, ao achar que os corredores para ônibus nas Marginais seriam uma loucura; bom, eu pensava só nos carros).

É sobre a ridícula extensão das linhas de metrô do país, que servem a muito menos pessoas que deveriam.

É sobre a péssima qualidade da saúde e educação pública (não só pública, pois qualquer um que tem um plano de saúde particular também sofre com sacanagens contratuais e um número cada vez maior de maus profissionais que nos atendem em cinco minutos, não olham em nossos olhos e só sabem pedir exames).

É sobre os preços indecentes praticados em muitos bares, restaurantes e casas noturnas do país (que estão sendo combatidos e denunciados em páginas cidadãs nas redes sociais como a Boicota SP)

É sobre o egoísmo de uma elite que ainda pensa muito pouco nos carentes. Mas pelo menos isto têm mudado um pouco com magnatas que enfim perceberam que só teremos um país melhor, mais justo e seguro se cada um se doar um pouco.

Se cada um ajudar um pouco, criando uma instituição social, ajudando outra, ou dispondo de seu tempo como voluntário. Ayrton Senna, e sua irmã, Viviane, que comanda a maior ONG do país, a que atende mais crianças e tem o nome do nosso mito e exemplo de Brasileiro, ficariam orgulhosos.

O povo está nas ruas, cegos, e não são fantoches de partidos políticos. Muitos dos que estão nas ruas nem votaram ainda, nem são filiados em partidos. São classe média sofrida que não tem carro, como meu aluno João Pedro. São também elite, como meu ex-aluno particular Rick, mas de uma elite consciente, pois conheço poucas mães de famílias como a dele tão atuantes socialmente como a mãe do Rick.

O resto da elite? Bom, o resto prefere não olhar, prefere não fazer nada e se enclausurar em carros blindados, condomínios fechados e shoppings AAA super seguros. Talvez nunca tenham escutado O Rappa…

Mas fiquemos com os brasileiros. Com aqueles que não justificam seu status patriótico com o mero “eu pago meus impostos, eu trabalho etc etc”.

Um país melhor não se faz só com o cumprimento das obrigações.

Se faz com o olhar para o outro. Um outro imenso e sofrido chamado BRASILEIRO.

O BRASILEIRO que percebeu que não terá lugar nem no que mais ama, o futebol.

E aí, meu amigo, aí a coisa vai ficar feia, especialmente quando o desdentado mas com toneladas de alma perceber que não vai ter lugar pra ele no Itaquerão gritar “Vai, Curíntia!”.

PS – Onde estão os artistas, músicos, cineastas e intelectuais brasileiros de hoje? Algum deles já se posicionou ou esteve nas ruas? Será que não tem ninguém com o culhão ou amor verdadeiro pelo país como se tinha nos anos 60? Fica aqui uma homenagem a um que inspirou muitos no passado, e um clássico hoje mais atual que nunca. Escutem e prestem atenção na letra. Lembrei dessa canção graças a um post do ex-aluno consciente Roland Haybeche:

Os mais duros e belos caminhos

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filme-beira

Uma história sobre as surpresas e a salvação que muitas vezes só a estrada e o acaso (destino?) podem nos entregar. Em meio aos quilômetros e quilômetros deixados para trás e tentando superar também o passado no retrovisor, João toca sua vida de caminhoneiro em meio a velhas canções de Roberto Carlos. As músicas rodam uma saudade angustiante em seu peito. Lembranças da alegria, família e amor que um dia teve.

A saudade só vai amainar quando uma carona escondida na caçamba, um menino órfão, começa a se relacionar com o trabalhador cansado da lida e da dor. Esta a tão singela quanto intensa trama principal do belíssimo filme Á Beira do Caminho: um homem e um menino perdidos e machucados viajando juntos; sem rumo, mas encontrando um ao outro.

O filme, quase um poema por suas poucas falas entre olhares e silêncios que gritam, é uma homenagem do diretor Breno Silveira (de 2 Filhos de Francisco) às canções de Roberto Carlos. Às nossas canções, pois quantos não sentiram lá no fundo as histórias e sentimentos do Rei e seu grande amigo Erasmo?

Quantos não olharam para sua amada, amigo e até mesmo para o cachorro fiel com o mesmo coração e sentido dos versos da mais amada dupla da história de nossa música popular?

À Beira do Caminho é fiel à veracidade dos versos-sentimentos de Roberto e por isso o caminhoneiro João (mais uma poderosa interpretação, tão minimalista quanto incendiária, de João Miguel) e o menino Duda (irresistível a simpatia doce do estreante Vinicius Nascimento) vão se conhecendo, brigando e se ajudando embalados-representados por canções inesquecíveis, das mais famosas do rei, como Amigo e Portão (Eu voltei).

Em meio a uma maioria de poucos sucessos do cinema brasileiro que brilham com a mesma batida fórmula da comédia, Á Beira do Caminho escapa desse clichê e parece uma produção argentina, por contar uma pequena grande história, genuinamente nacional, 100% brasileira, que emociona sem apelar.

Uma pequena história que podia acontecer com a gente. Ou aconteceu, para aqueles que em meio a dor aceitaram a mão estendida de pessoas especiais. Mão estendida que é um dos gestos-símbolos vitais deste filme imperdível para quem acredita no poder do tema maior do filme, a amizade.

A amizade que João e Duda trocam sem precisar se falar nas cenas finais, tamanha a cumplicidade que se estabelece entre os dois estranhos que se encontraram e, sobretudo, se aceitaram durante a longa e bela viagem chamada vida. Aceitaram-se porque compreenderam o que é, de verdade, lá no fundo, um

amigo de tantos caminhos
de tantas jornadas,
cabeça de homem mas o coração de menino,

aquele que está do meu lado
em qualquer caminhada…

Pra Frente, Brasil! (ou a “brilhante” operação dos que recusaram o Maestro Guardiola)

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“Respeitamos o passado e as conquistas de Felipão e Parreira, mas precisamos pensar no presente e no futuro”, foram mais ou menos essas as palavras do jornalista Lucio de Castro hoje na ESPN Brasil. Exato. Felipão foi o comandante do Penta, é uma figura querida, um grande motivador e fez também um belo trabalho em Portugal. Tornou uma seleção de quem ninguém tinha medo em uma das potências europeias e mundiais na metade dos anos 2000. Parreira orquestrou o Tetra e também teve um currículo notável. Mas ambos há muito que deixaram de ser sinônimo de bons trabalhos.
A escolha dos vitoriosos mas ultrapassados treinadores de nossos dois últimos títulos mundiais matou uma chance única do futebol brasileiro reencontrar-se consigo mesmo. Perdemos a chance não só de resgatar a essência da bola brasilis – a arte do toque de bola com posse, tabelinhas, dribles, passes verticais, arriscados e pressão pra cima do adversário que estava no DNA, por exemplo, dos tricampeões de 70 ou nos artistas de 82 – como de recuperar o amor de encarnar a amarelinha.
Como um estrangeiro iria recuperar esse amor? Apaixonado pelo futebol bem jogado e pelos maiores da história do jogo bonito, Guardiola é também um mestre forjador de homens sérios, dedicados e dignos. Não é possível, por exemplo, lembrar de um só barraco, caso de estrelismo, orgia, falta de esportividade, violência ou qualquer outro tipo de jogo sujo nas versões do Barcelona que ele dirigiu. Aliás, foi por alguns desses vícios que logo que ele assumiu o Barça se livrou de Deco e Ronaldinho Gaúcho. O máximo de problemas do treinador foram rusgas com Eto´ e Ibrahimovic, mas ambos são egos enormes e não criaram problema só com Pep.
Fala-se tanto na talvez qualidade maior de Felipão – a tal família que criou em 2002 – mas por que não se pensou que Pep poderia criar o mesmo, e com ainda mais força e comprometimento por várias qualidades que ele exibiu como a de ser um mago do vestiário cheio de craques para poucas vagas no Camp Nou? E a estatura humana e profissional de Pep, elegante, articulado, determinado a conquistar e ganhar tudo, como ganhou? E a sua rara qualidade de valorizar tanto as pratas da casa? Aqui uma das críticas mais sem fundamento dos que não o queriam no Brasil: que ele não conhece os jogadores e o futebol brasileiro. Erro crasso. Em primeiro lugar, ele já enfrentou como treinador ou teve ao lado a maioria dos selecionáveis de hoje. Em segundo lugar, como um maníaco garimpeiro, um apaixonado em descobrir novos talentos que ele sempre foi, por que ele não poderia fazer o que fez o argentino Rubem Magnano com o nosso basquete?
Para quem não sabe, Magnano viajou o Brasil todo para conhecer os destaques das categorias de base (os nomes mais famosos, Varejão, Leandrinho, Nenê, Splitter ele já conhecia da NBA ou por tê-los enfrentado com a Argentina) de nossa bola laranja. Meu aluno, seleção sub-17 e sub-20, Gabriel Zanini, cansou de me contar, olhos brilhando, que o argentino tinha aparecido no treino ou jogo dele. Eu mesmo vi o bigode hermano nas arquibancadas do ginásio do Pinheiros observando a molecada das inferiores ou os já adultos, mas novatos do NBB.
Guardiola visitaria a base de nossas seleções e maiores clubes com prazer, com garra, com sua paixão e olho clínico para descobrir o jovem realmente talentoso. Alguém viu algum grosso jogar com ele no Barça? “Ah, mas ele tinha a fábrica de La Masía, a escolinha do Barça, ao seu dispor”. Ué, mas por que foi com Guardiola que os meninos da escolinha mais subiram para o time principal? E por que foi com ele que Xavi e Iniesta se transformaram em monstros da bola? E alguém viu o Dunga, o Mano visitando a base de nossos clubes ou passando um bom tempo em Teresópolis com nossas seleções-sub? Alguém acha que o Felipão vai botar o pé na estrada Brasil afora? Aliás, quantos jovens o Felipão lançou nas equipes que comandou? Raríssimos, pois sempre preferiu os medalhões aos “guris”. E lembremos que os melhores do Brasil hoje são todos muito jovens, mas claro que o presidente da CBF não pensou nisso.
O caso é que a retrógrada, conservadora e ditatorial CBF jamais aceitaria conviver com um treinador moderno e ainda afeito a “essas bobagens” de ensinar não só futebol mas valores. Valores para esse pessoal que manda e desmanda no futebol brasileiro são apenas monetários. Calma, sei que alguns vão falar que “valores é besteira, que jogador tem que ser malandro, que bom caráter não ganha título e sim bola no pé etc etc”. Uhn, quantos malandros jogavam no Barça de Guardiola? Quantos jogam na Espanha campeã de tudo?
Outro erro é o velho imediatismo de achar que deve-se pensar apenas na próxima Copa em vez de mudar e melhorar o modelo técnico do futebol brasileiro. Que jogar bonito que nada, Marin e Del Nero querem é vencer a Copa com um treinador pragmático como eles. Querem é um time amarradinho lá atrás, que vença sempre de 1×0 e pronto. Só esquecem que não há mais o fenômeno Ronaldo e o gênio, sim, Rivaldo, nem os superatletas Cafu e Roberto Carlos, nem Ronaldinho antes do desbunde, nem a segurança e carisma inigualável de São Marcos.
Só esquecem que Felipão e especialmente Parreira venceram Copas com níveis técnicos dos mais baixos da história. Simplesmente não havia grandes seleções rivais em 94 e 2002, tampouco nenhum grande craque estrangeiro em forma. Bastou, por exemplo, um Zidane de novo em forma, em 2006, que ele sozinho acabou com o Brasil de Parreira num dos maiores bailes da história das Copas. A quantidade de dribles desconcertantes e humilhantes que o já veterano Zizou aplicou em nossos jogadores é coisa sem igual na história do futebol. Nem Garrincha entortou tanta gente num só jogo de Copa.
“Ah, mas Felipão é um vencedor, ganhou a Copa e depois foi brilhar em Portugal”. Sim, até o mesmo Zizou acabar com os patrícios em 2006, depois de despachar o Brasil. E lembremos da belíssima campanha na Euro 2004 em que uniu a terrinha toda, mas depois perdeu a final em casa, para a… a Grécia… E depois só vieram fiascos históricos como enfiar o Palmeiras na 2ª divisão (Copa do Brasil, torneio disputado sem os melhores times do Brasil, não é parâmetro; assim como não é parâmetro técnico elevado vencer uma  Copa Sul-Americana, também sem boa parte dos melhores times não só do Brasil, mas da Argentina, Uruguai etc).
Pra piorar, Felipão já disse mais de uma vez não gostar do “joguinho chato” dos espanhóis.
Pior para ele, que deverá engolir o mesmo veneno que afogou Muricy.
Pior para a gente, que engoliremos não só Felipão mas Parreira. Nada contra a experiência (Don Vicente Del Bosque a provar que a rodagem pode ser bela e sábia na maravilhosa Espanha que ganha tudo há anos), mas tudo contra ela quando é sinônimo de dois homens acomodados na fama e no passado.
Não serão os ridículos e hipócritas apelos patrióticos de um filhote da ditadura militar e eterno fantasma obscuro da política nacional, o presidente Marin, proferidos hoje na coletiva de apresentação, que tornarão Felipão e Parreira vencedores de novo. Além do mais porque futebol não é guerra e o brasileiro – que se distanciou muito da amarelinha desde os fiascos dos desbundados e farristas de 2006 e dos guerreiros destemperados ou mal humorados de 2010 – tem o direito, sim, de não torcer por uma seleção que não representa mais o que ele acredita.
Guardiola poderia nos fazer acreditar de novo. Saberia escolher os nomes certos e, sobretudo, priorizaria os jogadores mais hábeis e virtuosos e, claro, um estilo ultra ofensivo e tomando conta da bola como era o nosso futebol do passado.
Felipão? PVC, na ESPN, ontem, fez uma projeção sinistra de como poderia ficar do meio para a frente com ele: Ralf, Felipe Melo, Paulinho e Ramires. Neymar e um centroavante alto e/ou forte (Hulk ou o já bem mediano em 2010, Luis Fabiano). Quatro volantes. Meias talentosos, criadores e verticais?, fora. Lucas fora (um novo Denilson, arma só pro 2º tempo?). Pobre Neymar, isolado ao Deus dará. Claro que Paulinho e Ramires poderiam ser titulares com Guardiola, mas eles teriam mais cérebro e muito mais criação ao lado deles.
Pobre também da descuidada avaliação dos que torceram contra Guardiola, entre outros motivos por acharem que era apenas um lobby de parte da mídia esportiva como o jornal Lance. O lobby veio é da sempre nefasta CBF e de outra mídia historicamente parceira dos cappos do futebol brasileiro.
O que os apaixonados jornalistas do Lance – uma das raras mídia independentes deste país – queriam era apenas o futebol e o futuro muito melhor que viria com o cidadão catalão, espanhol e mundial á frente de tudo.
Finalmente, outro descuido e falta de reflexão: “Ganhamos cinco Copas com brasileiros no comando”. Ora, perdemos outras várias com brasileiros no comando também. Não querer um estrangeiro, em tempos mais que globalizados é bairrismo, medo, ignorância ou o tal do patriotismo guerreiro do Dunga ou, mais enviesado e autoritário, do Marin?“Se quisermos hoje evoluir tecnicamente e, principalmente, taticamente, já que ficamos para trás, o negócio não é investir para trazer jogadores estrangeiros (nos clubes brasileiros), e sim treinadores para os nossos clubes! O caminho hoje é inverso e temos de ter a humildade de reconhecer que não somos mais os melhores do mundo”, escreveu Benjamin Back hoje no Lance. 
A humildade reconhecida com grandeza por Neymar assim que acabou o jogo em seu time foi humilhado por Messi, pela máquina espanhola e pelo maestro Pep. Já esqueceram o que o santista disse? “Hoje eu aprendi o que é futebol. Levamos um baile.”
O baile que deverá prosseguir em 2014, pois a Espanha está anos luz a nossa frente, a Argentina tem Messi e uma seleção cada vez mais acertada, a Alemanha é forte (e joga com arte, até ela, a antes sisuda senhora germânica!) e, incrível, temos ainda uma Itália em que o corajoso Cesare Prandellli sacou os brucutus e colocou só homens que sabem jogar no meio-campo. O Brasil? Ora, “o Brasil parou no tempo e joga o mesmo futebol pragmático de dez, quinze anos atrás, que não funciona mais”, afirmou uma das lendas da bola mundial, o alemão Paul Breitner.
Perdemos a chance de trazer o melhor treinador do planeta e um dos maiores da história do futebol. E, santa burrice, Batman!, perdemos o mestre que estava, vejam só, louco para trabalhar com a gente! PVC de novo, preciso: “É inadmissível que a CBF não tenha nem conversado com Guardiola, nem discutido suas ideias, nada.” 
Ah, desculpem, esqueci, “precisamos ser patriotas!”, berrou Marin hoje, deixando o próprio Felipão, que brilhou tanto em Portugal, visivelmente constrangido. Aliás, aos que veementemente lançaram a grita de que não precisamos de estrangeiros, o contrário pode? Felipão ter treinado a seleção portuguesa pode, mas Guardiola treinar a nossa, não pode? Qual a lógica desse patriotismo? Simplesmente não há. Esse patriotismo é apenas falta de humildade para reconhecer que não temos os melhores treinadores e jogadores do mundo faz tempo. Falta de humildade que não rendeu nenhum convite, por exemplo, ao ótimo e outro defensor do toque de bola, o chileno Jorge Sanpaioli, da La U, para treinar um clube brasileiro.
Mais um dia triste para o futebol brasileiro, que terá repercussões negativas por anos e anos.
Sim, Felipão, pode até trazer o hexa (difícil, não teremos mais as babas de 2002), mas não trará o futebol brasileiro de volta.
Mas “vamo que vamo!” que a nossa patriótica cerveja preferida, depois do “somos guerreiros!”, agora revela e grita que “vai ser tudo festa!, não importa que tá tudo atrasado e super faturado!, o importante é a festa!”. E vamo que vamo, Marin!, “Pra frente, Brasil!, Salve a Seleção!”.

Bróder – Irmãos da Vida

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(Indicado para quem não esquece dos amigos e amigas de infância que um dia foram inseparáveis)
Por mais que a vida seja um fio frágil suspenso num trapézio altíssimo – é muito fácil arrebentá-lo; acertar ou errar, cair, dar o passo errado – há algo imutável e inquebrantável na alma dos homens de verdade: os fios artesanalmente tecidos, com as linhas mais belas e fortes chamadas amizades do coração.

Amizades que vêm da infância, época da vida em que se sonha e se chora junto porque há sempre um ombro, uma palavra, um olhar ou gesto amigo nos amparando. Bróder é exatamente isto: uma celebração das amizades mais fiéis, dos manos que bateram bola juntos num campinho de terra esburacado quase sem terra.
Manos que curtiram as festas, os botecos e piraram nas mesmas minas – por que amigos do peito quase sempre se encantam pelas mesmas meninas?
Manos que um dia tiveram que tomar rumos diferentes e por isso se afastaram, mas jamais se esqueceram.
Broder é a história desse reencontro. Pibe saiu da favela do mas segue lutando para sobreviver com poucos recursos num pequeno apartamento em cima do Minhocão, esposa e filho pequeno e muitas incertezas. Jaiminho se deu bem, o sonho da bola deu certo e ele fez fortuna e fama na Europa. Macu (visceral interpretação de Caio Blat, o cara parece mesmo um mano da periferia em qualquer característica; no físico, gestual, linguajar, até na mente que oscila entre o sorriso e a raiva, entre a esperança e o medo) ficou. Continua junto da rara camaradagem e vizinhança que se conhece e se cumprimenta nas vielas do imenso Capão Redondo, zona sul de São Paulo. Mas continua também perto demais do outro lado: o crime que espreita sem parar quem precisa de dinheiro ou oportunidades “fáceis”.
O reencontro vai se dar no aniversário de Macu. Feijoada, pagode, samba, bolo caseiro; comidas que nenhum restaurante fino poderá igualar, mesmo se o arrogante empresário de Jaiminho acha que é muito melhor ele ir comer no Le Jardin, algum típico templo caríssimo da zona mais nobre – e esnobe, de São Paulo. O samba e o pagode? Mesmo quem não gosta vai finalmente entender a preferência da boleirada e galera da periferia pelo estilo alegre, um sopro bom, divertido e sensual – há sempre uma mulher sexy dançando – num ambiente cada vez mais duro.
Mas há o lado errado farejando como um franco atirador covarde escondido num telhado. Há a dívida de Macu. Há o sucesso de Jaiminho a incomodar a bandidagem, não importa se o craque cresceu ali, sonhou e sofreu no Capão antes da vida lhe dar uma chance.
Há as roupas, o relógio e o super carro do craque. Há o rap, que entra na trilha sonora do filme quando os três amigos fogem um pouco do Capão e escutam “Fim de semana no parque”. Há a catarse dos amigos que se reconhecem cantando juntos de novo uma das canções da adolescência. Mas lembremos, é rap, é Mano Brown quem canta. A canção só pode ser sobre uma dura divisão: a realidade da quebrada contra a vida mais fácil e o luxo e consumismo do lado de fora (e de dentro dos muros).
Onde há rap, quase sempre há a história de um conflito. Bróder poderia descambar para o típico banho de sangue fácil dos “favela movies” como Cidade de Deus, mas lembremos: este é um filme sobre três amigos, sobre o sentimento que nenhum criminoso conseguirá comprar: a amizade indestrutível de três meninos-jovens-homens quem um dia cresceram e sonharam juntos no Capão.
Sim, o perigo do crime ronda feito caçador de recompensas impiedoso. O sucesso de um e o fracasso dos outros incomoda demais, mas Macu, Pibe e Jaiminho, mesmo agora em vidas tão diferentes, um dia foram amigos do peito na infância. E isso o coração não esquece.
O coração, aquele que nem a distância ou a morte apaga.
O coração amigo, este o grande alicerce deste filme que nos faz acreditar que os sentimentos mais nobres ainda conseguem enfrentar o tanto mal e indiferença que se proliferam mundo afora; ou no cotidiano que nos afasta dos antigos parceiros.
Bróder é um daqueles raros filmes que têm seus momentos duros e impiedosos, mas também nos faz acreditar.
Bróder não. Mano. Esta a palavra mais exata, porque ser mano é ser paulistano, é ser brasileiro, é portar uma palavra e um sentimento mais fiel ao que ser irmão de coração de alguém quer dizer.

Aê, manos, vejam esse filme. É nóis. Tum Tum Tum, estou batendo, de mão aberta, no meu coração.


O Carnaval é do Rei e da Ilha

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Não dá para discutir. Carnaval, carnaval mesmo, é o sempre inesquecível desfile da Sapucaí. Assisti apenas a trechos de algumas escolas, e duas me conquistaram. Primeiro, a garra e beleza tão simples quanto sofisticada (como conseguem?) da União da Ilha, a escola que perdeu muito com os incêndios dos barracões às vésperas do Carnaval mas jamais perdeu a magia. A magia de um enredo histórico, sobre as descobertas de Darwin e sua teoria de evolução das espécies; espécies essas que vieram tanto em fantásticos carros alegóricos (o que era aquele tartaruga gigante de Galápagos?) como em delicadas e perfeitas fantasias de abelhas na ala das baianas. A União da Ilha soube como poucas a misturar a grandiosidade com ideias simples como os tatus bolas estilizados. E o drama do fogo fez os foliões se superarem e desfilarem com uma garra poderosa que contagiou a multidão.
No final de todas, no último desfile, veio Ele. O Rei. O verdadeiro Rei, porque o mais amado. Sim, um Rei um pouco recluso, mas que quando aparece, um Rei sempre humilde. Tão humilde que sempre se entrega de corpo, canção e alma aos seus súditos, ao seu povo, à sua vida. Impossível não emocionar-se com a comoção de Roberto Carlos enquanto a Sapucaí toda cantava o samba-hino em sua homenagem. Nada mais justo para o homem das tantas emoções. De amizades inquebrantáveis como a do terno amigo irmão camarada Erasmo que desfilou outras tantas emoções em um dos carros. De amores tão grandes que abraçaram o Brasil inteiro e fizeram milhões cantar seu amor por suas mulheres a partir dos versos do Rei e seu amigo Erasmo.
O Rei, o Rei que chorou enquanto o povo cantava esses singelos mas profundos versos, No mar navegam emoções
Sonhar faz bem aos corações
Na fé com o meu rei seguindo
Outra vez estou aqui vivendo esse momento lindo
De todas as Marias vem as bênçãos lá do céu
Do samba faço oração, poema, emoção!
Foi o ponto alto do desfile do Rio, reverenciando o maior, sim, artista deste país, porque ninguém canta com mais sinceridade e entrega que o Rei.
Obrigado então, Beija-Flor de Nilópolis pela mais bela e justa das homenagens.
Em tempos de tantos falsos reis, é sempre bonito demais ver um Rei de verdade emocionando-se desse jeito.
PS – Sim, há os que dizem que o Rei é brega, que suas canções são bregas, mas duvido que consigam encontrar, lá no fundo de seus corações, palavras mais fortes e belas que as usadas pelo Rei para cantar a amizade e o amor. A amizade e o amor de verdade, de quem viveu cada pedacinho e escala desses sentimentos como Roberto viveu. E olha que quem escreve isso é um roqueiro pesado de carteirinha e milhares de shows, bares e garagens no currículo. Só que esse roqueiro também tem memória: adivinhem quem inventou o rock no Brasil!
PS 2 – Belíssima a matéria-homenagem do Globo Esporte de hoje para o desfile do Rei, entremeado com atletas revelando quais canções do rei cantaram para suas esposas (só Ronaldo não quis cantar…). E o sempre criticado por mim, Tiago Leifert, se redimiu ao espetar seguidas vezes a máscara de um falso rei no Carnaval 2011, Ronaldinho Gaúcho.

Ciclovia de araque

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A Ciclovia do prefeito Kassab estreou ontem em São Paulo do Parque Villa Lobos até Moema, 10 km só para as bikes. A ideia é boa mas a concepção uma piada ao funcionar apenas aos domingos. Tá, bacana poder pedalar tranquilo no domingão sem esses motoristas doentes e mal educados de Sampa, mas pensando em cidadania, alternativa de transporte e respeito ao meio-ambiente é um minúsculo paliativo, quase inútil.
Motivos? O impacto contra o trânsito é zero. A melhora da qualidade de vida também é zero, ou até mais baixa. Explico: quem for pedalar apenas uma vez por semana, nos domingos da ciclovia, não melhora em nada a saúde, pois qualquer atividade física precisa ser feita pelo menos três vezes por semana para trazer benefício ao praticante. Imagina o cara que passa a semana trabalhando feito louco no escritório e domingão vai pedalar a ciclovia toda… A chance do maluco ter problemas físicos é grande.
Aliás, isso é uma ciclovia coisa nenhuma. A prefeitura colocou é faixas nas vias normais de veículos. Por isso que não é nenhum absurdo o comentário distraído do meu pai: “isso é um corredor de ônibus novo”. Ciclovia de verdade tem que ser CONSTRUÍDA. Falando nisso, que fim levou a ciclovia de verdade mas mal feita que acompanha os trens na Marginal? Mal feita porque tem uma entrada aqui e outra na casa do…. Kassab prometeu que até o fim do ano (de 2010…) estariam prontas outras saídas e entradas (Cidade Universitária, Pinheiros, Villa Lobos etc) e elas não saíram das promessas. Aí ele resolveu comprar um monte de tinta vermelha e branca e pintar as faixas dessa ciclovia de mentirinha.
Dá pra levar a sério uma “ciclovia” aberta só aos domingos???
Ciclovia de verdade funciona todos os dias, como acontece, por exemplo, em Bogotá. É, galera, na Colômbia que tem muito menos dinheiro que nossos governos mas lá os melhores urbanistas trabalham com muita eficiência pelos cidadãos. E é óbvio que a nova ciclovia do Kassab nunca poderá funcionar todos os dias, porque senão a cidade para de vez.
Gênio…

O motorista brasileiro é um imbecil*

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“A gente vive esse delírio de que ser dono de um carro é o coroamento do sucesso individual”. (Roberto da Matta, maior antropólogo brasileiro)
 Típica cena nas ruas paulistanas: saio de casa tranquilão e antes da primeira curva que vou fazer com meu carro lá vem o Imbecil. O cara gruda na traseira e começa a pressionar querendo passar como se estivéssemos em uma corrida de Fórmula 1, e eu, com um carro muito mais lento – um Clio lento mesmo, motor 1.0 –  fosse obrigado a dar passagem ao bólido mais rápido. Olho pelo retrovisor e nem consigo identificar qual é a máquina, pois nunca tive interesse nenhum por marcas de carros. Eis que chega a curva e o babaca me ultrapassa, usando a contramão, claro. Só que o imbecil, dessa vez, vai se dar mal, o que revelarei depois dos detalhes.
Detalhe 1: estamos em pleno domingo de eleição, sem trânsito nenhum. Detalhe 2, e típico em muitas dessas situações: o cara vai estacionar poucas centenas de metros depois e me pergunto? Qual a necessidade de voar se vai parar logo ali? Respondo: eles, os babacas dos volantes, sentem-se mais homens acelerando e ultrapassando os outros.
Detalhe 3: Percebo, finalmente que o carro é uma BMW. Não me perguntem o modelo, não tenho a mínima ideia. E esse dado, o carro de bacana confirma mais uma situação típica: o babaca que acha que pode passar por cima dos outros só porque tem mais dinheiro (MUITO mais, obviamente). A frase que o animal deve ter pensado e falado por trás de seus vidros escurecidos e blindados? “Tira essa merda da frente”.
Volto a cena pra trás, antes dos detalhes: digo com todas as letras um palavrão pra mim mesmo após ele passar. Por quê? O babaca me ultrapassa justo em cima da maior valeta que conheço em toda São Paulo. O barulho que faz sua máquina é colírio para os ouvidos, uma das maiores porradas que já escutei de um fundo de carro naquela valeta maravilhosa.
Pena que a lição da valeta seja rara e os babacas metidos a pilotos ou simplesmente que se acham os donos do mundo seguem cometendo os maiores absurdos nas ruas e estradas.
Pra mim são tão selvagens e estúpidos como muitos motoboys. Só que os loucos perigosos das motos pelo menos têm a “desculpa” que são pressionados por seus patrões para fazer um número absurdo de entregas em pouco tempo.
Junte esses bacanas metidos a Schumacher e os motoboys e aposto que estarão os maiores causadores de acidentes nas ruas (nas estradas há ainda o terceiro elemento sinistro da equação assassina do trânsito, os motoristas de caminhões imprudentes e/ou pressionados, como os boys, a correr para entregar mercadorias).
Acidentes? No Brasil morrem todos os anos 40 mil pessoas em acidentes no trânsito, mais do que na maioria das guerras mundo afora.
Esse é o preço que o país paga por ter se vendido à indústria automobilística lá na metade do século XX e por ter investido tão pouco no metrô e no trem.
E há ainda o preço que nós, paulistanos, pagamos por sermos tão dependentes dos carros. E egoístas, pois a maioria anda em seus carros sozinho. E motorista sozinho é um convite a se autoestimular com a própria imbecilidade.
Sim, ando geralmente sozinho, faço a mea culpa, mas pelo menos nunca tive o estúpido vício de meter o pé no acelerador nem de costurar ou pressionar os outros. O máximo que faço algumas vezes, que aprendi com o grande amigo Igor?: se tem um babaca colando atrás em um lugar onde não há como passar, o lance é reduzir a velocidade e segurar o animal e sua fúria.
Bom, quem quiser ler mais sobre as idiotices cometidas por causa de um carro, leia a entrevista com o antropólogo Roberto da Matta na Trip deste mês. Ele ainda detona a necessidade de status e falsa felicidade que muitas máquinas trazem aos seus donos. O texto pode ser lido aqui
* A generalização do título é quase verdadeira, pois no Brasil podemos afirmar que a maioria porta-se como um animal atrás de um volante.
PS – Leiam o comentário da Thaína em que ela mostra como a alta velocidade dos que pisam fundo no acelerador tem a ver com o seu baixo desempenho sexual. Sim, isso é pesquisa feita na Alemanha e que ajudou o governo a combater a estupidez no volante!

A culpa é de quem morreu

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As chuvas e enchentes que tornaram a sobrevivência (vida é outra coisa) dos paulistanos da periferia e pequenas cidades vizinhas um inferno em janeiro e fevereiro caíram de uma vez só no Rio e engoliram os morros cariocas, ruas e avenidas mais “nobres” e até a Zona Sul, onde a Lagoa transbordou. A contagem dos mortos é chocante. Mais chocante ainda é o descaso e incompetência dos governos, que estavam e estão cansados de saber quais são as áreas de risco. As áreas que eles não olham. As áreas que, quando caem – levando arremedos de casas e vidas – eles, os governantes, botam a culpa nos moradores. “Ah, quem mandou construir em área de risco?” é a acusação covarde contra os agora mortos. Covarde porque quem deveria dar um lar e local decente para o povão – que faz o trabalho mais sujo e pesado em Sampa e no Rio – não dá. E não falo só do governo. Por que as grandes empresas, indústrias ou bancos, que tanto faturam, não tornam-se parceiros do governo para construir casas populares? “Ah, os bancos já financiam casas populares”, dirão os banqueiros, fingindo bondade. Sim, financiam, a juros altos, empobrecendo ainda mais os que sonham com a casa própria. Como bem cutucava Renato Russo, “o sistema é podre, o homem é mau”.Pena que Renato esteja morto faz tempo.
Pena que a crítica que alcançava muita gente na cultura brasileira hoje só existe no rap. No rap que não chega ao ouvido de quem pode fazer alguma coisa, da classe média pra cima.
O Rio e São Paulo (e Angra dos Reis, e Santa Catarina quase toda, e etc e etc) submersos são o reflexo de nossas políticas públicas incompetentes, burras e omissas, como a de São Paulo que está sempre abrindo mais e mais faixas cimentadas, matando o verde que poderia drenar as águas. São reflexo de governos que governam para quem tem dinheiro. Ninguém morre pela chuva nos Jardins e em Ipanema.
Quem morre é o Brasileiro típico. O lutador do dia-a-dia que toma um rodo cotidiano como bem mostrou o Rappa há alguns anos.
Quem morre é o Zelão da antiga canção de Sérgio Ricardo, de 1960, que mostra-se, tristemente, tão atual 50 anos depois:

Todo morro entendeu
quando o Zelão chorou.
Ninguém riu, nem brincou
e era Carnaval.
No fogo de um barracão
só se cozinha ilusão,
restos que a feira deixou
E ainda é pouco só.
Mas, assim mesmo o Zelão
dizia sempre a sorrir
que um pobre ajuda outro pobre
até melhorar.
Choveu, choveu.
A chuva jogou seu barraco no chão,
nem foi possível salvar violão
que acompanhou morro abaixo a canção
das coisas todas que a chuva levou,
pedaços tristes do seu coração

Vejam, meus caros: há 50 anos os Brasileiros já ocupavam os morros porque os governos não se preocupavam com eles.

* A canção de Zelão encontrei num site que mostra o Brasil de verdade, aquele que é produto dos poderosos que não fazem o que deveriam fazer. O Brasil que a grande mídia ignora. O site é esse: http://www.consciencia.net/