Creed e Rocky. Nascidos para lutar. Juntos.

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creed2Homenagem é uma palavra tão bela quanto pouco praticada na avalanche da falta de tempo que sobra dos trabalhos ou estudos, e da ditadura do novo, que prevalece em nossa sociedade e mundo cada vez mais consumista e pautados pelas novidades. Graças, porém, que ainda resiste no cinema a arte de reverenciar o passado e aqueles que nos marcaram, emocionaram e/ou ensinaram. O filme Creed, Nascido para Lutar, não faz parte da série Rocky, mas é tão visceral e humano quanto os melhores, mais poéticos e realistas filmes da série, justamente o primeiro, Rocky, um Lutador, e o último, Rocky Balboa. Creed é obra do jovem cineasta negro Ryan Coogler, 30 anos, para homenagear a força que seu pai lhe deu para cursar cinema e a paixão de seu velho pela odisseia do lutador mais querido do cinema (não só…).

A história mostra a tentativa jovem Adonis Johnson de se tornar um boxeador para honrar o sobrenome do pai biológico que ele não conheceu, o lendário Apollo Creed, maior rival e depois amigo que Rocky Balboa teve. Anos de passagens por orfanatos e reformatórios moldam um garoto acostumado a brigar mas ele precisa de muito mais para vencer nos ringues. Precisa da mãe de coração (não a de sangue, também falecida), que o resgata do cárcere infantil, e também de um mestre para fazê-lo evoluir, técnica e mentalmente, com as luvas.

O mestre, obviamente, é Rocky Balboa, mas não será apenas Rocky o professor. O velho lutador simplório da Filadélfia – que perdeu quase tudo e vive de um modesto restaurante com o nome da amada ex-mulher, Adrian – precisará, mais que nunca, também aprender e se motivar com o jovem Adonis. Estabelece-se então mais uma bonita parceria do cinema que fala de boxe, com laços de família do coração que são criados por Rocky e o jovem que ainda precisa se provar para honrar o pai, o melhor pugilista da história no universo da série rockyana: Apollo Creed.

Emulando a força e beleza da ligação de pai e filha do treinador feito por Clint Eastwood com sua menina de ouro, mas sem as ironias e mau humor do treinador de Clint, Stallone- Rocky e o promissor Michael B. Jordan-Adonis vão construindo laços de afeto, respeito, confiança e amor que arrebatam quem assiste ao filme. Os laços são construídos aos poucos e daquela forma tão simples e humilde que compõe o cerne do pacato Rocky de sempre, um raro ex-astro e lenda eterna que manteve-se fiel ao seu caráter e jeito de ser de antes da fama.

A performance de Stallone-Rocky, que ao meu ver sempre foram a mesma pessoa, é tão cativante que o tão menosprezado (pela crítica) ator deve ganhar o Oscar de ator coadjuvante (já ganhou o Globo de Ouro). Stallone, que sempre fez Rocky com uma simbiose de brutalidade (no sentido de ser mais forte que hábil) no boxe e delicadeza de gestos e atitudes fora dele, faz com perfeição o mestre que extrai o melhor de seu pupilo não só na hora do pau das lutas. E está lá o mesmo chapeuzinho fora de moda, o andar balançando, a fala atrapalhada (pela paralisia facial de um lado que Stallone sempre teve). Essa fala e seus pensamentos, porém, que antes eram apenas ingenuidade e juventude, medo e vontade transformaram-se agora em música calma, quase uma oração.

A cada conversa com Adonis, o agora mestre Rocky – tão simples e realista como era seu falecido treinador, Mickey – oferece breves mas profundos sermões de vida real, batalhada, e não da religião. Palavras simples e impactantes. Pura sabedoria de quem saiu do nada, chegou ao topo e depois perdeu tudo – o título mundial, os entes queridos, o melhor amigo, o treinador quase pai – menos a integridade. Menos o saber o valor de cada luta e glória que enfrentou ou teve.

Sim, os críticos de má vontade ou os intelectuais céticos quanto ao valor ou poder do esporte debocharão das palavras de Rocky, chamarão de clichê ou autoajuda barata. Farão isso porque talvez não tenham sido meninos sonhadores ou românticos com ídolos a inspirá-los, jovens guerreiros e esperançosos ou adultos calejados por tantas batalhas perdidas, mas não todas. Para esses que ainda creem, que ainda se emocionam com o velho Rocky, o filme Creed envolve, toca, inspira e nos lembra do melhor e mais sincero de nós mesmos que um dia fomos. Um “melhor de nós” que um dia conhecemos na motivação profunda, mais que isso, inspiração, que as frases de Rocky e, claro, seus treinos malucos, rústicos, e a sua música contagiante nos davam. E ainda nos dão com esse maravilhoso Creed, um verdadeiro brinde de saudação e gratidão em homenagem a Rocky-Stallone oferecido por esse jovem diretor Ryan Coogler. E que lição linda Coogler nos dá, através de Adonis para um Rocky então muito machucado, reforçando o valor e laços de uma parceria de verdade: “Você luta, eu luto.” Que conselho vital e raro! nessa época em que o sistema estimula muito mais a luta, conduta e atitude pessoal, o cada um por si e quase ninguém por todos.

Não foi à toda que Stallone aceitou o convite para emprestar seu personagem ao filme. Imagino o que se passou em seu coração ao ler o roteiro de um filme feito em agradecimento a tudo o que ele sonhou, batalhou e venceu com Rocky. Talvez por isso sua atuação emula, segundo o maior crítico de cinema que conheço, Luiz Carlos Merten, do Estadão, simplesmente aquele que fez o Poderoso Chefão pós-enfarte. O velhinho, outro sábio e mestre, Merten, escreveu que “Marlon Brando encarna no garanhão italiano. Stallone está maravilhoso.”

Caramba: Brando? Não, meus amigos, ante a comparação de Merten, aposto que Stallone apenas diria que não representou nada, nem emulou o mito do cinema. Apenas deixou sua vida, que se confunde com a de Rocky, tomar as telas e nossos corações de lutadores.

Corações que volta e meia lembram de Rocky para não desanimar das pancadas e nocautes que a vida não cansa de dar.

Corações que, tocados por Creed, agora nos fazem lembrar dos mestres de nossas vidas, e que não vencemos sozinhos.

A vida não pode ser vencida com o embuste da mera autoajuda pessoal. Precisamos, demais, de quem nos treine, aprenda e lute com a gente.

Obrigado, Mestres.

Obrigado, Rocky-Stallone e Ryan Coogler.

 

Bra

Amigos de sangue

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amandaComeço esse texto aqui da escola onde a conhecemos. Onde ela fazia aquela cara feia pra gente (quando estava brava, o bicho pegava, eita personalidade forte!) ou onde dava aquele sorriso de cantinho de lábios enquanto dava aquela olhadinha marota, uma marca das Carneiro Valillo! Escrevo pertinho da sala onde ela dava tanto carinho e atenção pra gente, usando os olhos como uma extensão do coração e também como atenção enorme que oferecia tanto para esse seu professor durante as aulas como para seus colegas.

Escrevo de onde a gente aprendeu a dar risada dos seus “defeitos” (ficava pior que boi bravo de rodeio quando era contrariada ou tomava uma bronca!) e ser tocado por suas qualidades.

Qualidades que essa menina especial formada no Uirapuru e no Horizontes-Uirapuru não deixou de nos oferecer nem quando ela encerrou seu ciclo na escola. Porque tá aí uma menina que não deixou de semear amor pra gente mesmo com o tão cruel correr dos anos, verdadeira amnésia para a maioria. Tá aí uma raríssima menina, logo mulher, que soube, como poucas, usar com beleza uma simples rede social virtual como esse FB. Soube usar com palavras tão belas que podíamos sentir, de verdade, o seu bem querer. Um afeto poderoso que foi uma das forças que fez esse seu então meio maluco professor suportar o que eu chamo de “os anos duros”.

Nos anos em que mais precisei e, por uma benção ou incrível sexto sentido dela, quando eu estava no dia mais bad trip possível eis que eu recebia uma mensagem dela Mensagem coisa nenhuma, ela escrevia verdadeiras cartas e minha caixa virtual me lembrava a saudosa sensação de abrir o envelope e ler palavras escritas com tinta e sangue.

Sangue Amanda sempre teve demais, conseguia fazer palavras tecladas penetrarem em nossas veias e limparem todos nosso medos, dores e vazios como se ela fizesse uma transfusão de abraços, amparo e afeto verdadeiro mesmo por trás de uma tela fria de um computador.

Nos dias mais sombrios suas mensagens surgiam bombando feito uma onda inesperada e suas palavras azuis nos empurravam, levantavam e nos davam coragem de voltar a surfar a vida de novo.

Imagino quantas outras tantas ondas a Amanda soprou para outras pessoas. Imagino quantas amizades com amor ela semeou com sua capacidade revolucionária de dar calor e sentido a essa frieza das relações virtuais.

Imagino quantas pessoas ela ajudou a encorajar, a bater forte dentro do peito, a dar aquele sorriso gostoso de quando recebemos palavras de verdade, escritas com amor, e não apenas como rápidas tecladas.

Imagino quantas veias e artérias ela ajudou a correr forte de novo, purificando o sangue de nossas esperanças e nossas qualidades. Incrível como a Amandinha sempre nos fazia lembrar do melhor de nós mesmos.

Por tudo que ela nos deu está na hora de retribuirmos agora com as nossas veias. Com o fluxo vital de nossa amizade-amor. Está na hora de bombarmos o sangue de nossa gratidão em suas veias que um dia nos aliviaram e confortaram tanto.

Está na hora de todo o Horizontes e Uirapuru que foram tocados por ela se transformarem em uma única e vital corrente. Um único coração.

Por você, querida. Obrigado por tudo e temos certeza que, guerreira e valente como sempre foi, sairá dessa. Vai pra cima, Amandinha! E pode deixar que injetaremos muito combustível em seu coração de boxeadora! Vai e mete porrada nisso que a gente estará com você! Sempre!

PS – Sabadão de manhã estarei lá e convoco meus queridos ex-alunos e ex-alunas que a conheceram a fazer o mesmo: doar nosso sangue por ela e para outras pessoas que também precisam. O local onde devemos doar é o Centro de Hematologia de São Paulo. Av. Brigadeiro Luis Antonio, 2533 – Horário: 2a a 6a das 8:00 às 17:00hs e Sábados das 8:00 as 15:00hs. Chegando lá é só falar o nome dela: Amanda Carneiro Vallilo. Ah, a Amandinha pode receber qualquer tipo sanguíneo.

A verdadeira bateria vem de dentro

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menina e violao-pola

As frases e os gestos são diários, quase onipresentes:

– Mãe, coloca meu iPad pra carregar?

– Filha, coloca meu iPhone pra carregar?

Pior é a histeria se a bateria está acabando ou, santo desastre batman nerd das trevas!, ela acabou. Parece que é o mundo que acaba junto. Talvez porque ele exista e aconteça cada vez mais, para os dependentes tecnológicos, dentro de uma telinha do que fora.

Implico com a palavra “carregar”, que é proferida como uma senha mágica pelos dependentes de todas as idades. Triste modernidade digital que empobreceu uma palavra outrora tão rica, bela, profunda. Lembro do poema de Drummond, “carrego comigo”*, sobre como ele leva dentro de si algo muito maior e vital que o embrulho que carrega pra lá e pra cá. Lembro do peso e fardo, tantas vezes, das batalhas e barreiras que nos obrigam, como Atlas, a carregar o mundo nas costas.

Lembro então de uma imagem narrada por uma mãe amiga, sobre a filha de 15 anos que chega do interior. A imagem de uma menina carregando um violão nas costas. Uma menina trazendo a música, mais que isso, vida real (e tantos sonhos!) nas costas. Isso que é carregar no melhor sentido da palavra! Portar, transportar, trazer! Trazer um presente, verdadeiro tesouro. Não há bateria mais bonita e valiosa para essa menina que a vontade de tocar, fazer música, talvez cantar também, até gritar, mas tudo ligado à magia das canções.

E quem sabe ela não crie e componha suas próprias canções, atitude mil anos luz à frente da passividade de apenas passar o dedo freneticamente em telinhas, pulando de site em site, mensagem em mensagem, foto em foto etc etc.

E poucas baterias são mais belas que as referências e inspirações que essa jovem roqueira revela carregar ao escrever seu autorretrato, na primeira redação que lhe pedi na vida: Mafalda, Cássia, Dandara, Chiquinha, Clarice.

E ela escreve com a mesma eletricidade e paixão de seu rock and roll mestre. Uma simples folha de papel de caderno vira partitura: “Olho para o lado e vejo uma pauta em branco pronta para as melodias serem marcadas. Observo para dentro e sinto guitarras e baterias na hora de serem tocadas pelas sete notas musicais…”, escreve, ou melhor, toca a menina nesta folha viva de sua redação-canção.

Ah, roqueira, e queria lhe dizer que esse texto foi rascunhado nas páginas da Rolling Stone com o Dave Grohl na capa, justo na edição com uma nota escolhendo como uma das melhores do ano uma banda brasileira que você descobriu lá no Rio Grande do Norte, Far From Alaska. Procurei no youtube (aí sim, pra isso os malditos aparelhinhos servem!), botei o play na canção com nome que mais cativou, Dino vs. Dino, e pluft!, quanta originalidade, delicadeza e fúria da vocalista! Bandaça!, e essa música me remeteu aos duelos dos bons e velhos faroestes, pela melodia e riffs do guitarrista, pelo clima da canção, pelo canto em inglês.

Far from Alaska, Longe do Alaska (nome tão certeiro quanto divertido), mais uma vez o rock and roll dispara e recarrega nossas energias para o grande show chamado vida ao vivo.

Continue carregando vida nas costas, moça e bote pra quebrar a lição de atitude que o punk rock lhe ensinou: do it yourself. Carregue-se de você mesma (sem deixar de beber em outras referências), faça você mesma!

O amigo que o tempo não levou

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O tipo é raríssimo. Podem passar meses, até anos sem a gente encontrá-lo; e anos e anos desde que nossa amizade foi cultivada com vivências, viagens e conversas marcantes, mas o cara demonstra o mesmo sentimento ao nos ver tanto tempo e rumos distintos depois. Enquanto tantos reencontros são superficiais, marcados por sorrisos e palavras meia-boca, o cara olha fundo e diz: – Bom te ver, cara.

Bons amigos olham pra gente com saudade e memória. E falam como a melodia e letra de alguma canção fundamental que volta e meia reaparece de repente no rádio ou internet pra nos lembrar de algumas das partes mais bonitas e sinceras de nossas vidas. Quantos ainda reverenciam uma amizade como se estivessem erguendo, com honra e afeto, um brinde à uma amizade que poderia ter se perdido, como tantas outras, nas brumas do passado?

Depois de tanto tempo, mesmo em um papo rápido, conversamos sobre aquelas coisas essenciais que os amigos do peito costumavam compartilhar. Falamos sobre música, sobre canções. Ele pergunta o que eu tenho ouvido, falo que os velhos poetas Bruce (Springsteen) e Bob (Seger) e suas canções sobre gente comum que dá duro na vida mas não deixa de sentir, viver e amar profundamente.

Logo a coisa pega mais fundo e não lembro por qual gancho digo ao amigo que em minhas aulas de hoje (sim, ele foi meu aluno décadas atrás) boa parte dos alunos não se importa com as canções que dou em aula, diferente do que rolava antes. Preferem olhar seus celulares. Preferem seus mundos e novidades que devem ser muito mais atraentes que um velho professor e suas velhas canções.

O velho amigo de fé fica surpreso, decepcionado, por mim, e por ele, que é também um guardião da alma, beleza e reflexão dos grandes hinos da música, especialmente do rock.

Logo o papo se encerra, típico de breves encontros em festas de casamento como a em que estávamos. 5, 10 minutos até chegar alguém talvez com alguma amenidade. Não pude lhe dizer como ele é ainda um dos poucos a não ter esquecido aquele grande 2002 de aulas e afetos que na verdade eram a mesma coisa, e deveriam ser para todo professor que quer realmente ensinar e aprender.

Não pude lhe dizer que no dia seguinte do último e recente casamento, enquanto eu tomava meu café, lendo meu caderno de jornal preferido (um suplemento de literatura e cultura de um jornal do Rio onde você viveu o amigo alguns anos) diante da janela na padaria que me dá uma paz gostosa, tocou uma daquelas velhas canções que eu costumava dar em aula.

Pearl Jam, cara, com uma daquelas músicas completas, comecinho lento, terno como o amigo que tenta tirar o peso do nosso ombro pesado ou machucado pela vida. Pearl Jam, cara, de repente a melodia cresce, os instrumentos ganham força e o Eddie brada forte. Grita com a garra com que velhos amigos um dia cantaram alto, forte, juntos, celebrando ou exorcizando algum demônio, como se estivéssemos em algum final de balada em uma daquelas viagens mágicas.

Floripa, cara, nem lembro qual o verso ou refrão de canção que cantávamos, mas sei que expulsávamos os diabos juntos. Como dois amigos que se prezavam, como dois amigos dividindo a dádiva da estrada, da viagem, daquele tempo sem muitos compromissos e preocupações a não ser cantar sobre a vida para esquecer o pior dela e celebrar o melhor.

Cara, a canção que rolou na padoca é Black, e alguns versos me lembram das boas e velhas zoeiras daquela turma especial. Poderiam ser apenas versos nostálgicos, mas com as suas palavras lá no casório parecem afetos vivos e um estímulo para, quando chegarem novos dias negros, eu simplesmente sair pra dar um rolê a pé ou de skate transformando o canto do Eddie em uma lembrança que pode ser presente:

I take a walk outside
I’m surrounded by some kids at play
I can feel their laughter

Foi bom ter ver, também, cara.
Puta abraço, irmão.

O raro ator que nos educou como um mestre

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A maioria dos atores e atrizes apenas nos entretém. Sim, muitos nos emocionam e alguns interpretam personagens com tanta verdade e sensibilidade que até nos fazem refletir sobre a realidade e os mais nobres ou nefastos valores. São raros, porém, aqueles que mergulham em sua arte com tanta força que acabam parecendo gente real, nos dando aulas inesquecíveis de vida, nos inspirando a viver melhor e até a sermos pessoas melhores. Robin Willians foi um desses raros atores a tornar-se um mestre não só das telas mas da vida fora da sala escura mágica.

Meu primeiro contato com suas aulas muito maiores que “apenas cinema” vieram em Bom Dia, Vietnam. Como um DJ de rádio com comentários, sacadas e jeito de narrar divertidíssimos, em plena Saigon brutalizada pela matança entre americanos e vietnamitas, ele nos mostrou que mesmo em plena guerra sempre estúpida e violentíssima, alguns seres humanos são tão ricos que conseguem transmitir coisas belas e valiosas para atenuar a selvageria e aquele “o horror, o horror” que já discutia Joseph Conrad no clássico livro Coração das Trevas. Sim, coisas belas como a batalha do bom humor iluminado set lists mágicos desse DJ para fazer os soldados esquecerem um pouco o mal a cada situação e combate que viviam. E como foi grande Robin ao esconder a dor, ou transcendê-la, rindo enquanto seu coração sofria, apenas para fazer os soldados e civis viajarem e esquecerem do horror em poucos mais vitais momentos. Robin foi nesse filme aquela voz-ombro amigo a nos fazer sorrir um pouco, e acreditar um pouco que uma hora aquela brutalidade ia terminar.

Depois do DJ conheci o talvez mais vital professor já criado na história do cinema, o John Keating de Sociedade dos Poetas Mortos. Mais vital porque nenhum outro foi mais revolucionário que o professor que fez seus alunos rasgarem teorias de literatura castradoras do livre pensamento e imaginação. Nenhum outro mostrou tanto a importância do livre-arbítrio, do livre viver gozando a vida (carpe diem!!!).

Nenhum outro mostrou tanto como devemos abandonar nossos pré-conceitos, preconceitos e comodismo para poder interpretar, pensar e agir por nós mesmos. Quem pode esquecer a cena em que ele sobe em cima da mesa naquela escola tradicional e arcaica dos anos 50 simplesmente para fazer seus alunos perceberem o valor de tomar uma outra perspectiva da poesia e da vida?

Quem pode esquecer outra cena, em que ele faz os alunos, levados para fora da sala da aula, descobrirem seus próprios passos e caminhada?

Jamais esqueci e desde que comecei a dar aulas tentei passar, de alguma forma, um pouco das lições do mestre John Keating, um mestre tão real e valioso pra mim quanto os educadores, raros…, do “mundo real”.

John Keats-Robin foi um dos meus mestres reais (sim!) de vida, um eterno Capitão de verdade, muito melhor, mais líder e valioso que tantos falsos capitães dos esportes, líderes e professores-conteudistas que impedem seus companheiros, comandados e alunos de realmente aprender, evoluir e ensinar.

E como esquecer de outro personagem vital para nossa (falta de) humanidade, o psicólogo de Gênio Indomável, que mostrou ao jovem prodígio problemático vivido por Matt Damon que ele só se tornaria um homem decente se aprendesse a amar o outro e não apenas a si mesmo? Mais que isso, Robin nos mostrou, com seu psicólogo, que mesmo um homem arrasado e traumatizado como ele pela perda da esposa amada, ainda era capaz de servir como um guia para os jovens, tamanha era a sua fé e vontade de ajudar os outros. Lembro uma vez em que, em plena sala de aula, um aluno meu percebeu toda minha tristeza e dor e disse que meus olhos estavam negros e escuros como a tempestade que se adivinhava no céu. Graças a Deus, e talvez um pouco a Robin e seu psicólogo, que aprendi a esconder minhas dores, pois os alunos merecem ganhar apenas o alento, força e atenção afetuosa. Merecem ter e ver apenas doses vitais de luz, jamais as trevas, jamais o abismo.

Obrigado por tudo, mestre, mas jamais lhe direi adeus. Não direi porque suas lições são imortais como seu sorriso escondendo a dor e tentando sublimar a dor e vazio dos outros como seu outro personagem (mais que isso, mais que isso!) inesquecível, o médico de Patch Adams. O médico que inspirou tantos doutores da alegria do mundo real, no mundo todo. Doutores que foram tocados por seu personagem, pela maestria, beleza e coração de um ator e homem que semeou os mais nobres valores, sentimentos e ações em sua carreira do tamanho da vida dos homens extraordinários.

Carpe diem, Capitão, carpe diem!

 

O homem do fundo da vida

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senna e cao

20 anos sem ele e quanta falta que ainda nos faz. A saudade, não só do piloto e gênio das pistas mas, sobretudo, do homem. Do ser humano nascido em berço de ouro que não deixava de olhar em volta dele, dos que nasceram sem quase nada. A palavra, talvez exata e símbolo de tudo que ele fez e representou é simples e vital: profundo. Dissequemos então como essa palavrinha, na verdade seu próprio modo de ser e viver, marcou sua vida e a de tantos nós, no Brasil e mundo todo.

“Acelera, Ayrton!” poderia ser apenas o grito entusiasmado de Galvão Bueno e todos seus admiradores, mas era a senha para nós também acelerarmos, em nossas vidas. Para pisarmos fundo com mais garra, arrojo, coragem; para assumirmos os tão necessários riscos, que podem nos levar longe. Longe como nossos sonhos mais sinceros. Para acelerarmos “sem puxar o bico”, frear ou reduzir a marcha. Acelerar e ultrapassar limites e concorrentes; e lutar exatamente como o clichê, “como se não houvesse amanhã”.

Por outro lado, Senna era e inspirava também o oposto desse pé na tábua sem medo. Bastava ver seu rosto fora de um cockpit e capacete para percebermos sua serenidade e algo iluminado que vinha de seus olhos e nos acalmava ou simplesmente nos fazia parar e prestar atenção. Aqui o Ayrton que reduzia a velocidade até parar totalmente também nos inspirava a fazer o mesmo. A dar um tempo. A sentir de forma menos passional mas super amorosa. A pensar, refletir e esternar isso como ele fazia em seus depoimentos poderosos. Pensamentos tão intensos – carregados de valores, exemplos e lições – que mexiam com a gente como mantras. Por isso suas falas eram muito mais belas, verdadeiras e eficientes que qualquer autor picareta de autoajuda.

Nessas falas, declaradas para realmente conversar com quem o admirava e para tentar transmitir algo importante com naturalidade, Senna tocava aquela palavrinha mágica, bela e tão necessária que disparou esse texto: o “profundo”.

Incrível como suas palavras vinham das cavernas mais autênticas e sentidas de seu coração e mente e nos tocavam com a mesma força de suas ultrapassagens espetaculares.

Incrível como o ídolo – espécie em geral distante e em outro plano, como um super-herói – em Senna se tornava próximo e humano quando diante de uma câmera de TV fora das corridas.

Incrível como um herói podia nos mirar com aquele olhar oceânico, falar com aquele tom de voz tão calmo quanto sábio e dizer coisas tão importantes para nosso dia-a-dia e vida.

Incrível como ele nos motivava a seguir seus conselhos, exemplos e sugestões de caminhos.

Incrível como um profissional de algo tão distante, para a maioria dos brasileiros, como a Fórmula 1, podia se aproximar e cativar milhões que simplesmente não tinham carro e muitos jamais teriam. Só mesmo algo mais forte que seu talento, trabalho e genialidade para fazer isso com este povo.

Só mesmo essa aura profunda, quase mística, e ao mesmo tempo tão humana e próxima da gente.

Talvez um pouco por isso, por essa capacidade de “escavar” os sentimentos e pensamentos que Senna me transmitiu, que eu goste e cobre tanto essa palavra nos estudos, atitudes e textos dos meus alunos e jovens com quem convivo. Por isso que quando eles se jogam de mente e coração nas redações eu elogio suas palavras “profundas” e as valorizo muito mais que um português irretocável. Elogio a beleza e superação de terem ido longe dentro de si e na análise do mundo para construírem redações iluminadas.

Continuem então, queridos alunos de ontem e hoje, velhos amigos, familiares e raros leitores de textos longos como esse, a pisarem fundo seguindo o exemplo de capacidade, empenho, fé e garra de Senna.

Continuem a explorar o valor de serem profundos em uma época cada vez mais superficial, apressada (nada a ver com a velocidade de Senna), efêmera e vazia na reflexão e convivência. Procurem, como Senna, as palavras e gestos que realmente podem estabelecer uma conexão com os outros, e olhe que nem falei da preocupação social que ele tinha e que gerou, após sua morte, o Instituto Ayrton Senna, simplesmente a ONG que atende mais crianças em todo o Brasil com um programa belíssimo de educação complementada com arte e esporte.

Pisem fundo não apenas nas corridas de suas vidas, mas colaborem também com essa enorme equipe tão fragilizada e cheia de carências chamada Brasil. Procurem não apenas se espelhar em bons modelos, mas inspirar os outros, e olha que tem muitos precisando dessa força e chama.

Podemos ser o motor de pequenas e enormes revoluções positivas como foi o Ayrton Senna, como bem definiu Galvão, do Brasil!!!!!

O amigo em extinção

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foto-abraco

Por onde eles andarão? Ainda existirão? Espécie de amigo cada vez mais rara, aquele tipo que adorava reunir os grupos de amigos, parece hoje tão rara quanto as espécies animais exibidas no chatíssimo Globo Repórter. Onde andarão os “agregadores de afetos”, esses seres coletivos da belíssima expressão-definição lavrada pelo jornalista mineiro Humberto Werneck?

Ainda resiste essa espécie que gosta de reunir os amigos reais em sua casa, em tempos de baladas dominadas por estranhos e “amigos” virtuais, tão diferentes das festas nas casas dos amigos e dos parceiros que se reuniam para conversar à soleira da porta ou beira da calçada dos amigos?

Ainda existem aqueles tipos que, ao menor sinal de uma dor no coração do amigo ou amiga do peito, aparecem na hora exata para dar uma força e injetar um pouco de esperança, uma força muito maior do que meras mensagens privadas nas redes sociais?

Pena que sujeitos como o poeta Donizete Galvão, personagem da crônica Um artista do convívio, do Werneck (Estadão, 2/2/14), andam cada vez mais sumidos. Até os telefonemas e o valor afetuoso e terapêutico da voz humana amiga praticamente desapareceram em tempos de torpedos.

Torpedos contra a conversa, o convívio e a arte de regar amizades.

Werneck se despede do poeta-amigo recém-falecido dizendo que “já não poderei dizer a ele o quanto lhe fiquei devendo pela suave insistência com que bateu à minha porta, num instante em que o sofrimento ameaçava fazer de mim um ser inóspito”.

E nós, será que agradecemos aos amigos à moda antiga que também não deixaram que nossos buracos, dores e vazios nos sufocassem?

Experimente a beleza do gesto e palavras de gratidão em vez de teclar mensagens sinceras mas frias e passageiras.

Só o abraço, e os olhos e voz que abraçam, deixam marcas profundas.

Só as velhas festinhas e reuniões com os amigos fazem o mesmo.

Pena que a celebração do amor das grandes amizades cai exponencialmente depois do fim da escola.

É a vida, cada um segue seu rumo, cria sua família, blá blá blá.

Cada Donizete Galvão, cada artista do convívio que desaparece é insubstituível.

Lembremos, portanto, de reunir os amigos.

Chega de meros jantarzinhos para um, dois casais.

Bom mesmo são os churrascões, as festinhas, os encontros da velha turma.

Os encontros, meus amigos, os encontros.

Dizem que sou um saudosista, mas só tenho saudade é dos amigos e amigas que construíram boa parte de meu coração e sonhos. Como disse o poeta Galvão em uma velha entrevista, “persigo alguma permanência em um espaço em que tudo se dissolve”.

A permanência dos velhos parceiros e parceiras que são parte da gente. Parte do que um dia significou essa canção pra gente, meus queridos velhos e novos amigos:

 


Um pouquinho de liberdade, por favor

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isa essa
“Talvez ser exatamente o que se é seja o mais ficcional dos modos de existir”, disse o escritor Carlos Brito de Mello, explicando que é praticamente impossível sermos nós mesmos, pois a maioria age em função de seus deveres e direitos; e que muitos seguem os padrões dos grupos a que pertencem.
Impossível ser o que você é na essência? Não para os espíritos livres, que preservam o coração selvagem, no sentido de indomável, de não deixar que o sistema os aprisionem.

Algumas simples escolhas podem nos manter livres até mesmo quando precisamos gastar dinheiro para comer. Um ótimo exemplo é ir na feira, em vez de repor as frutas e legumes que acabaram indo ao mercado.

Livre dos excessos de produtos dos mercados, dos preços mais altos, dos psicoconsumistas, das disposições venenosas das mercadorias, obrigando-nos a passar por produtores tentadores no caminho do que realmente precisamos.

Livre das filas e das perguntinhas irritantes, obrigadas que são a fazer, das caixas.

Livre do modo de vida cada vez mais industrializado, plastificado.

Na feira, naquele gostoso espetáculo teatral e musical dos feirantes tentando conquistar nossa atenção, posso passear livre com o céu lá em cima, andar na rua procurando coisas saudáveis. Mais que isso, ganho do velho senhor uma receita para fazer salada de abóbora ou doce da menina laranja com côco.

Ninguém te dá receita no mercado. Vendem revistas ou livros de receitas nas gôndolas em que esperamos os infelizes que fazem compras do mês (parece do ano).

Ninguém te oferece uma conversa ou sorriso sincero no mercado.

No mercado e cada vez mais nessas sociedades hiper competitivas e consumistas em que vivemos, falta liberdade para sermos nós mesmos, sem as nuvens da pressão, nos eventos mais corriqueiros ou “comezinhos”, como diria minha vó.

Falta também o valioso e vital tempo para nós mesmos. O tempo para não se fazer nada (mas esse nada estimula a mente como nenhuma outra coisa e desperta as ideias mais criativas e reflexões mais elaboradas).

Falta um tempinho para passear na feira em vez de ir nesses shoppings alimentícios ou, pior, encomendar tudo pelo delivery e não colocar a cara pra fora da casa-escritório ou do escritório-casa que cada vez mais lhe tira horas de seu lar.

Falta a liberdade que os trabalhos abusivos em um emprego só tiram de seus escravos disfarçados de empregados.

Graças a Deus viajo a semana entre duas escolas, entre Sampa e Santos, e meus freelas jornalísticos. Tenho a liberdade de fazer o horário que mais se adapta a minha alma madrugadora de surfista: acordar cedinho, pegar firme em geral umas cinco horas nas manhãs, almoçar com calma e ir desacelerando nas tardes com mais algumas horinhas de trampos, que peneiro também pelos começos de noite e domingos.

Os vários trampos me impedem talvez de rendimentos mais altos, mas me rendem tempo de viver.

Tempo de nadar, surfar, passear com minha cachorra, tomar um café na padaria, ler jornal, no papel, sentado, “de boa” como diria o velho amigo Lobão.

O peito preenchido de água do mar e da piscina, junto da raridade de amar os meus trabalhos, me faz ter tempo para procurar conhecer, por exemplo, meus alunos e alunas. Me traz leveza na mente para saber que os estudantes não aprenderão com aulas maçantes, lousas cheias, teorias e exercícios em demasia.
Aprenderão só com a beleza e o choque, de grandes textos, canções, seriados e reportagens em vídeo. Com os exemplos sobre o melhor e pior do ser humano. No meio disso, procuro embutir as técnicas de escrita e burilar o estilo da molecada, além de estimulá-los ao incomparável viajar com a mente que é ler.

O mais saboroso desse trabalho, que na verdade pra mim é encontro, é a atenção deles e delas. É o presente como o comentário dos moleques que dizem que curtem as aulas ou a menina que em plena aula diz que o texto que lemos é lindo, numa aula sobre metáforas. O texto – que comparava o amor a um cachorro vira-latas machucado pela vida, mas que, guerreiro, não deixa de procurar o amor – é obra de uma querida ex-aluna e madrinha de meu casamento, a Bia Barbosa.

A valente Bia, que foi fazer faculdade seguindo seus sonhos, de cinema.

Volto à menina que se encantou com o texto da Bia. Chama-se Isabela, vai prestar Medicina e tenho certeza, pela delicadeza e afeto de seu olhar e palavras, que será uma médica humana e atenciosa com seus pacientes. E não será só doutora, pois Isa sempre quis ser escritora, e se entrega com paixão e curiosidade às palavras.

Palavras que formam frases que parecem versos. Frases-versos que ela dá de presente, como as que colocarei a seguir, obra dela enquanto fazia a última redação do ano, sobre o tema heróis de verdade/heróis fabricados pela mídia. Isa disse que lembrou de seu velho professor ao escrever que “Beleza atrai, sem dúvida, mas conteúdo conquista, caráter encanta e inteligência convence”. Quanta honra, doutora!

O que tudo isso tem a ver com as dificuldade de sermos nós mesmos, com que iniciei esse post?

Quando a gente faz o que ama, e tem tempo para as atividades libertadoras que amamos, conseguimos perceber as pessoas maravilhosas ao nosso redor e estimulá-las, além de aprendermos com elas.

Pobres dos professores que não sorriem, não se encantam e aprendem com seus alunos e alunas e, pior, não percebem algumas faces tristes precisando de atenção e talvez, sugestões de caminhos.

Pobres dos moleques e moças que não têm professores-parceiros de vida, parceiros de um projeto comum maior: de aprender não apenas uma matéria, mas o que essa matéria pode lhes abrir a mente e o coração para a vida.

Sorte que tenho uma esmagadora maioria de alunos e alunas que sabem que nossas aulas são sessions, são ondas que surfamos juntos.

Juntos e livres, sendo não apenas professores e alunos, mas nós mesmos.

Livres para aprendermos e vivermos da melhor e mais bela forma possível.

PS – O rolê pela feira rendeu uma insossa salada de abóbora que fiz para a patroa, mas pelo menos ela se alegrou com a iniciativa. Preciso voltar na feira, pois esqueci, certeza, alguns dos ingredientes que o velho senhor da barraquinha me ensinou. E, se o prato ficou sem sabor, pelo menos fez um bem danado para nossas saúdes. Porque foi feito e buscado por amor à saúde da minha gordinha hehe

Rascunhos da vida

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Em plena era digital, em que algumas crianças nascem digitando em celulares, tablets, PCs e outros aparelhos, pelo menos ainda é possível, por outro lado, sentar-se em um canto sossegado com um papel e caneta. Melhor que isso, ainda se pode fazer algo muito mais rápido e natural com esses velhos instrumentos – tela virgem e tinta viva, ambos objetos físicos, quentes – ligados umbilicalmente ao cérebro e coração.

Algo como escrever a mão.

E a arte de escrever ainda propicia algo tão instintivo, único e nosso como o esboço ou rascunho; verdadeira arte de criação livre.

O esboço é um riscar de fósforo que clareia nossas ideias e sentimentos, sonhos ou reflexões sobre a realidade.

Mas quem risca fósforos hoje além dos artistas e românticos em tempos em que até um fogão é aceso automaticamente, e quase tudo é ligado ou acendido com um simples botão ou toque do dedo?

Pelo menos o fogão ainda nos dá a beleza da chama. Talvez por isso esse velho romântico aqui prefira esquentar a água e o leite nele, em vez do antipático e fechado sobre si mesmo microondas. Sempre admirei a beleza da fervura, de um momento quase mágico em que vemos as primeiras bolhas (poupem-me da ciência e alguma explicação estraga prazeres…). E tem graça fazer brigadeiro no micro em vez do afetuoso carinho da colher de pau navegando-misturando e deixando no ponto o leite condensado com o chocolate?

De volta das divagações de cozinha, volto ao tema do rascunho e do fósforo para revelar outra espécie que ainda é guardiã da arte antiga do papel-caneta: o estudante. Sim, muitos deles já migraram também para as frias e robóticas teclas, mas ainda precisam em muitas escolas escrever a mão. Tá, muitos por obrigação, mas existem também os jovens sábios que percebem o magnetismo e a naturalidade do ato ancestral. Percebem o valor e a verdade de suas caligrafias pessoais, incomparáveis, inimitáveis, exclusivas como não são nenhuma peça de roupa ou propaganda mentirosa.

Percebem que do coração e mente para o papel, a tinta da caneta, ou grafite do lápis ou lapiseira, são sangue e neurônios transferindo-se à velocidade da luz e da emoção para o papel.

Percebem a beleza das letras que juntam-se em palavras, frases, parágrafos e textos com a sua marca.

Percebem ainda o valor de esboçar e rasurar; recomeçar, reescrever, ir lutando com as palavras ou deixar que elas jorrem sem freios como o que há de mais verdadeiro dentro de cada um.

Mãos a obra então, moçada, peguem seus pincéis e escrevam da forma que só vocês podem escrever, surfem nas telas quase infinitas de papéis que permitem a escrita – e também o desenho – de uma forma muito mais suave e calorosa como as telas sensíveis ainda não conseguiram reproduzir.

Tenham seu caderninho, diário, cadernão, pasta de folhas, o que for, mas escrevam, esbocem, rascunhem o que seus corações e mentes gritam. Não deixem de esboçar e registrar os dias e anos ainda mágicos de quem vive a explosão da adolescência. A chama da juventude e suas incontáveis paixões sem freios, intensas como a primeira vez de tantas coisas.

Como canta há décadas o Deep Purple, burn, baby, burn, queimem suas tintas no papel, criem suas canções mais intensas.

As máscaras verdadeiras

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Usar uma máscara não é apenas uma fuga do que somos e um fingimento do que não somos. É também a fantasia boa, ou a inspiração que nos leva além.

A poetisa Hilda Hilst defendia o valor de nos mascarar, de nos imaginar outros seres, cenas ou elementos da ficção ou mergulhar nessas cenas e vidas inventadas. Inspirados dessa forma temos uma iluminação e podemos nos ultrapassar, até evoluir.

Um livro, um personagem; um filme, uma cena; um poema, um verso; até uma novela etc. Quais são as inspirações que fizeram com que você ficasse tão tocado que imaginou-se parte delas ou motivado por elas? Quais as referências ficcionais que você vestiu como se fossem marcas suas e essas marcas te ajudaram a viver melhor, ou pelo menos sonhar em fazer ou alcançar algo parecido?

Já fui

um jovem pobre rebelde revoltado contra a desigualdade e opressão dos mais ricos, que fugia da realidade com os livros, mas depois lutava contra ela,

uma dupla de ladrões de bancos bom vivant que não feriam ninguém e roubavam pelo prazer de desfalcar os poderosos, além de se mostrarem para a inesquecível ali macgraw e ainda darem uma volta de cavalo ou de bicicleta com ela enquanto tocava aquela canção maravilhosa

um lutador de boxe a quem ninguém dava nada e contra tudo, chegou ao topo, mas sem esquecer de quem o ajudou a chegar lá,

um pai de vários filhos sem esposa se virando com muito coração e surfe na veia para cuidar de sua família,

um vendedor de sucos e sanduíches naturais de tiradas e vocabulário hilário, mas genuinamente praiano e hippie fora do tempo que vivia dentro de um trailer na praia

meninos, homens e velhos que pontuavam suas vidas através das alegrias e tristezas infinitas que o futebol pode proporcionar

um lutador mais do que decadente e todo arrebentado pela vida e pelos ringues que, contra tudo e todos e contra sua saúde em frangalhos, decide voltar ao ringue encarando até o risco de não sair mais dali, mas feliz porque aquele era o seu lugar, “porque pelo menos aqui dentro eu sei quem está batendo em mim”

um homem de clube de bairro falido (tanto ele como o clube) que fará tudo para salvar a agremiação (com esportes, música, atendimento social e celebração de amizades) da especulação imobiliária e gananciosos que desejam demolir tudo para fazer um supermercado no local (o “progresso” diriam os homens-máquinas frios de fazer dinheiro enquanto destroem histórias, pessoas e comunidades).

um professor de literatura desafiando a prisão de mentes e espíritos dos métodos dirigidos e interpretações impostas de muitos livros didáticos e motivando seus alunos a criarem livremente

uma cachorra que enfrenta a desgraça da seca e da fome no nordeste miserável apenas porque está junto daqueles que ama

o menino com a curiosidade do tamanho do mundo, que enxerga em cada coisinha daqueles campões gerais, o mundo

o mais apaixonado e solitário dos super-heróis que só não morre por ser impedido de regressar à amada porque recebeu a dádiva de surfar por toda a galáxia

o homem bom comum que não aguenta a pressão do sistema e dos homens maus e fica verde de raiva e, quando regressa ao estado de homem de novo, precisa pegar a estrada e procurar algo bom em outro lugar enquanto toca aquele mais belo e triste piano da história das séries de tv

dois homens comuns perdidos no tempo e sendo jogados no olho do furacão de acontecimentos marcantes da história da humanidade

um detetive bonachão, meio preguiçoso mas hábil decifrando casos e curtindo a vida no Havaí

um velho ex-jogador de futebol lembrando de velhas histórias dos anos mais românticos e belos do futebol com seus amigos de bar, mas que no final amaldiçoa uma história, e talvez o hábito de relembrar dizendo aquela tão dura, triste e real “que puta história triste!”

um moleque que ama até as tripas o rock and roll e faz dele a sua vida trabalhando para uma revista de rock e vivendo, muito, durante as reportagens

o melhor pai do mundo, que mente para o filho a todo momento e fantasia para que seu bambino não perceba o horror da guerra e dos que se dizem serem humanos

os burros e aparentemente malvados (não na essência) mas seres que acreditam no outro com uma ingenuidade tocante – o coiote, o tom e o frajola, pobres vítimas dos verdadeiros vilões, aquela ema insuportavelmente sorridente, aquele ratinho cínico perverso e aquele passarinho sádico

o marido que enfrenta a descida da mulher no inferno do álcool sem jamais pensar em deixá-la de verdade porque é exatamente igual aos versos daquela canção de arrebentar e porque quer proteger as filhas não da mãe, mas da doença dela

o moleque que não tem condições físicas de se tornar um corredor, mas que encara tudo pelo amor à mãe, o ser mais sagrado desse mundo, e vê o Ser maior enquanto corre com a alma para buscar um milagre e salvá-la

o filho ingrato que briga e desdenha do pai por não acreditar em suas histórias fantasiosas de pescador, mas um dia percebe toda a grandeza e verdade do pai

o menino que, diante do mar pela primeira vez, pede ajuda ao pai para olhar

o cachorro meio lobo que ama a liberdade de correr pela floresta e também o homem que cuidou dele e lhe deu a maior riqueza que podemos dar, o afeto

o cachorro que esperou por seu dono anos e anos mesmo depois dele não voltar mais do trabalho

o bicho papão que se derrete todo pelo carinho de uma doce e simpática pequenina

a menina que não aceita as maldades e injustiças do mundo e dos homens e questiona sem parar o que os adultos jamais conseguem responder

o jovem apaixonado por uma moça simples que um dia a deixa por suas ambições pessoais, mas que o destino mágico lhe coloca de novo no caminho, para que tente ser o pai e marido que sua ambição não deixou ser

o pai que mesmo sem condições mentais dá à filha o maior amor do mundo

cara que vê na rua aquela que sabe que é (e foi) a mulher de sua vida mas, em vez de falar com ela, deixa ela passar para que ele não estrague a vida dela, e de repente toca aquela canção que destroça tudo dos loucos de manchester

um velho rabugento intolerante que vai aprender o poder da amizade com amor com quem menos esperava, os imigrantes asiáticos que ele não tolerava e chamava, independente de onde tinham nascido, de “chinas”, e vai se sacrificar por eles na mais bela cena de altruísmo da história do cinema

um velho treinador solitário e afastado da filha que um dia encontra em uma lutadora de boxe a sua filha da vida

e muito mais, e dando uma rápida pensada nos personagens que lembrei, me impressiono como incorporei bastante algumas das características, pessoais e coletivas, de vários deles

e de todas elas, talvez o que mais bata fundo em mim é a do treinador que faz de tudo para ajudar sua pupila a alcançar o potencial que vê nela e ainda estabelece uma relação pura de mestre e discípula que se tornam o pai e filha, não de sangue mas que a vida lhes deu

talvez esteja falando um monte de besteiras e eu seja apenas o reflexo do que meus valentes pais professores, tão românticos, apaixonados e idealistas quanto lutadores me ensinaram e legaram

mas talvez eu seja também um pouquinho também as emoções, sentimentos e valores de cada ficção que citei aqui (e outras e outras mais)

E vocês, quem são os personagens e histórias que lhes cativaram tanto que se tornaram parte de seus corações e lhes ajudaram a ir mais longe?

E tem algum louco ou maluca aqui que chegou ao final desse texto e ainda vai tentar matar o nome de alguns desses muitos filmes e alguns livros, novelas e desenhos que citei?