O que o São Paulo e o futebol brasileiro perderam

Padrão

sp-osorio1Pouco tempo após o técnico Juan Carlos Osório deixar o São Paulo, sua partida só reforça o atraso, ignorância e soberba (sentimento de se achar melhor que os outros, fato que não é mais verdade há anos) dos homens que comandam ou repercutem o futebol brasileiro, seja na direção dos clubes, seja no posto de treinador, diretor, presidente ou jornalista e comentarista da mídia. O atraso ou a pouca paciência envolveram até outro elemento vital do futebol, o torcedor.

Muitos torcedores do São Paulo não viram problema algum no fim de breve ciclo do colombiano. “Ah, ele inventava muito, era um professor pardal”. Outros reclamaram da novela para ele decidir ir embora. Sim, Osório demorou a deixar o cargo por ser um raro treinador a passar por aqui que não faz teatro, que não faz cenas ou declarações hipócritas. Honesto, ético e humano como sempre se mostrou desde que chegou ao Morumbi, ele realmente viveu o drama de ter que decidir entre dois sonhos: dirigir um grande clube do futebol que já foi o melhor do mundo ou comandar uma seleção em uma Copa do Mundo, o sonho maior de qualquer treinador.

Inventor? Sim, Osório é, mas na melhor acepção da palavra sempre buscou buscar novas soluções e colocar jogadores para fazerem funções em que se dariam melhor do que a posição em que atuavam, sem grande brilho. Foi ele quem colocou Carlinhos livre como último homem de meio-campo, quase um atacante. Antes escalado sempre para a lateral esquerda para a qual não tinha mais a mínima condição física, foi só com Osório que Carlinhos encontrou seu lugar e ajudou, bastante, o São Paulo. Ah, lembremos que boa parte da mídia no mínimo debochou no início dessa alteração.

Osório ainda conseguiu o quase milagre de reconstruir o então buraco que a mentirosa diretoria tricolor lhe deu logo de cara no meio-campo: os dois volantes, Denílson e Souza, que vendeu. Era o começo da liquidação do elenco com a qual Osório não contava. Mas o colombiano observou, trabalhou, testou e logo colocou Breno e Tiago Mendes nessas posições e o São Paulo construiu uma rara dupla de volantes que tanto protegia a zaga quanto saía jogando bem. E foi Osório quem resgatou Breno, lhe deu forças e moral. E preciso falar do que ele fez com Pato???

O atraso, a ignorância e soberba que citei na abertura desse texto cabem direitinho nas primeiras atitudes de Doriva no comando do time. Primeiro não teve a mínima decência de valorizar o trabalho de Osório, ou simplesmente conversar com Milton Cruz sobre o que havia dado certo, para poder aproveitar. Logo de cara quis botar banca e falou que iria implantar as suas convicções de que com ele há sempre um time-base, o que atacou e implodiu de cara os vários testes e mudanças que o colombiano promovia. Testes e mudanças que deixaram a Doriva um time na semifinal da Copa do Brasil e na porta do G4 do Brasileirão.

O mínimo que Doriva deveria ter feito era primeiro avaliar e não já sair destruindo o trabalho de Osório. E outra bobagem e mais ignorância: como bem observou meu ex-aluno e uspiano Ricardo Vidigal, um dos jovens são-paulinos que conheço mais presentes no Morumbi e raro jovem que pensa o futebol de forma ampla, ele deveria ter tido a humildade e inteligência de perceber que não deveria tentar implantar suas convicções e estilo de jogo quando faltam só 8 partidas para o final do Brasileirão. Que treinador é capaz de alterar radicalmente uma equipe, elenco e forma de trabalho em tão pouco tempo?

Vamos então à estreia de Doriva, o fiasco e atuação medonha diante do enfraquecido Fluminense. De cara, o treinador sacou Breno da equipe titular e pior, afirmou que com ele Breno é zagueiro e não o volante mágico, poderoso, incrível que Osório descobriu. A imbecilidade é maior ainda ao sabermos (qualquer ser que entenda um pouquinho de futebol) que Breno é o melhor jogador de todo o elenco tricolor.

A estupidez de Doriva ataca até o que poderia ser uma vantagem histórica dele: foi atleta de mestre Telê Santana, justo o Telê que foi um dos treinadores que mais soube encontrar posições e funções mais eficazes para seus jogadores. Foi com Telê, por exemplo, que Cafu viveu sua melhor fase ao ser deslocado para ser o quarto homem de meio-campo e atacante-surpresa no início dos anos de glória do passado. Assim Cafu arrebentou no Brasileiro de 91, que colocou o São Paulo de volta na Libertadores depois de muitos anos (na época, só o campeão brasileiro era garantido na Liberta), no Paulista e Liberta de 92 e Mundial de 92, quando a lateral direita era de Vítor.

Doriva, como a esmagadora maioria dos treinadores brasileiros, e a maioria dos jornalistas e comentaristas picaretas da grande mídia (com raras exceções como uma ESPN Brasil, os independentes PVC e Juca, e o jornal Lance) já mostra o mesmo conservadorismo e apego a velhos modelos. Modelos há muito ultrapassados no futebol moderno dos melhores clubes e seleções do planeta. Tomara que aprenda com as derrotas que já viveu na estreia, e seguirão vindo enquanto não devolver Breno ao time e ao meio-campo ou resgatar algumas das ideias de Osório.

Quanto ao futebol brasileiro em geral, a mídia medíocre e boa parte de nossos treinadores adoraram atacar os números pouco convincentes do colombiano e não souberam valorizar os novos métodos e ideias de um treinador ousado. Um símbolo dessa burrice do apego aos números, em vez de se apegar ao bom futebol jogado? Um jornalista com muito espaço na rádio e TV, Marcondes Brito representa bem a burrice dos pragmáticos e avessos ao estrangeiro: “Eu acho que a passagem de Osório pelo Brasil deve ser aferida com dados, com números. Foram quatro meses de trabalho, 28 jogos, 12 vitórias, sete empates e nove derrotas, um aproveitamento de 51,1%.”

Prefiro ficar com outro jornalista, André Kfouri e suas seguidas defesas do colombiano:

“No plano teórico, parece óbvio que o ambiente do futebol de qualquer país só tem a ganhar ao receber treinadores estrangeiros. A exposição a novos métodos amplia a capacitação de profissionais, em uma relação benéfica para os dois lados. Especificamente em um país como o Brasil, em que o carrossel dos técnicos gira com os mesmos nomes trocando de lugar, às vezes, com horas de diferença entre a demissão e o novo emprego, o arejamento do mercado é ainda mais importante. Mas os obstáculos se manifestam, na prática, quando o recém-chegado é submetido ao mesmo rigor imediatista que ceifa trabalhos com pouco tempo de duração. Seguimos preocupados com o produto final, ignorando o processo. E quando surge uma voz que evoca outra metodologia e promete paciência, não cumpre, porque a questão principal nada tem a ver com paciência, mas com convicção”, escreveu André e pouco depois, já com a partida de Osório, definiu sua passagem: Eis seu legado: esforçar-se para ser compreendido, não trabalhar para proteger seu emprego, aplicar conceitos modernos a um ambiente atrasado, e, finalmente, dizer à cartolagem brasileira o que ela precisa ouvir.”

O futebol brasileiro segue apegado a treinadores e métodos arcaicos e a uma mídia em grande parte medíocre que segue fazendo o sonho dos alemães deste 7 a 1 sem fim. Uma mídia que aplaude até o fraco Dunga, só porque ganhamos fácil (nem tanto…) da… Venezuela.

Anúncios

Comente

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s