Quando o amor à música não nos deixa desistir

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Diferente de tantos contos de fada ou histórias apelativas de sonhos realizados que o cinema já contou, raros são os que “chegam lá”: ao estrelato, fama, grana, topo. A maioria sucumbe e perde anos de dedicação e investimento pessoal porque, como já ensinava o AC-DC, it´s a long way to the top. Os artistas mais autênticos, porém, mesmo quando não vingam, jamais perdem a sua essência ou aquilo intangível mas que sabemos estar diante de sua presença, por tanta garra-verdade-beleza que presenciamos: aquilo chamado alma.

A cantora Ricki Randazzo não chegou lá, mas despeja toneladas de alma a cada palavra e verso em que mergulha; a cada melodia que oferece ao público com uma entrega e paixão que emociona até um tão distante sujeito sentado em uma cadeira de cinema. Ricki é apenas uma personagem, uma roqueira sessentona que toca com sua velha banda sempre no mesmo lugar, um bar decadente (ou será resistente?) em algum lugar dos Estados Unidos que não realizou o seu tão decantado american dream, mas um EUA que ainda é a terra ancestral e original do rock and roll. Ricki é o sinônimo exato da palavrinha tão dura que é pronunciada com tanto desprezo pelos escrotos ou insensíveis: looser, perdedora. Ela mora em um cubículo, não tem mais cartão de crédito, teve sua falência decretada pelo banco e rala todo dia como caixa de uma rede de produtos naturais que exige que ela sempre sorria mesmo ganhando um salário que lhe garante apenas a sobrevivência.

Ricki só não perdeu o amor que transborda dela em cada apresentação naquele pequeno bar, de reduzidos mas fiéis frequentadores que não a abandonaram. Só não perdeu o amor à música, mais precisamente ao rock que exala de cada olhar, gesto e do canto que sai de sua voz rouca tão bela e calorosa. Uma voz envolvente que é mais um milagre de interpretação da sempre notável Meryl Streep. Sim, é ela mesma quem canta e engole com sua performance tantas e tantas cantoras do mundo real que não tem uma centelha da paixão que Meryl coloca em cada sopro, grito e canção de sua Ricki.

Ricki-Meryl e sua banda, a The Flash, são a exata tradução do que é o rock mais verdadeiro possível, aquele que seus fiéis não abandonam nunca, aquele que é a razão de viver de cada membro veterano da banda, aquele que é a terapia que faz milhões de pessoas reais no mundo todo suportarem a dura rotina dos dias e horas de trabalho e da batalha que é se deslocar para o trabalho e voltar pra casa nas grandes cidades. E que banda o diretor Jonathan Demme reuniu para o filme, com destaque para outro músico com muito talento e entrega, aqui sim um cantor do mundo real, o veterano cantor-guitarrista-ex-galã dos anos 80, Ricki Springfield. E, ironia que até seja a razão de ser do nome da banda do filme, Springfield foi um astro meteórico do pop rock dos anos 80, de brilho efêmero: depois do estrondo de sua ascensão com a canção “Jessy Girl”, teve mais poucos bons momentos e praticamente desapareceu da cena mundial.

Ricki Springfield, que no filme chama-se Greg, só não perdeu a eletricidade e amor que exala a cada acorde e riff de sua guitarra, uma eletricidade amplificada no filme ao estar junto do amor tardio de sua vida, mas amor, pela cantora Ricki. Aqui a química entre Springfield e Streep, é ainda mais bela nesses dois veteranos que conseguem mostrar que o raro brilho no olhar diante de quem se ama não perde a intensidade com as décadas nas costas.

Sim, há ainda uma trama forte no filme, da mãe que deixou o marido e três filhos (uma menina e dois garotos) pelo sonho de triunfar com a música, e Ricki-Meryl, mesmo com o coração devastado, defende sua escolha de forma tocante no filme. Pelo menos o filme e, por que não?, a vida também, em algum momento lhe dará a chance de se redimir e resgatar um pouco da relação com os filhos que o rock a fez deixar para trás. Porque o rock e a música que são feitos da voz humana e instrumentos arrebatadores – no caso do rock, uma guitarra, um baixo, uma batera e às vezes um teclado e outros instrumentos – em algum momento darão a uma mãe ou pai ausente a chance de cantar e tocar para quem magoou profundamente.

Esqueça as críticas que detonaram o filme. Se você tem o rock na alma, irá curtir um show arrebatador do qual você só irá embora bem depois da última canção (são várias, de clássicos dos anos 80, de Tom Petty a Bruce Springsteen) oferecidas como um presente nostálgico por uma das maiores atrizes da história e seus parceiros veteranaços mas resistentes da banda The Flash. Meryl captou bem todo o espírito do rock que aprendeu com seu “modesto” preparador para esse papel: simplesmente um dos símbolos máximos da história do rock, o gigante dos solos inflamáveis e voz poderosa, Neil Young. Hey, hey, my my, rock and roll will never die!

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