O samba guerreiro da vida

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Depois do arrebatador Intocáveis, a dupla de diretores franceses Eric Toledano e Olivier Nakache brilha de novo com Samba, explorando sem apelação outro grave drama humano, agora a imigração ilegal. Em mais uma monumental interpretação de Omar Sy – o mesmo protagonista de Intocáveis – podemos sentir na pele todo o medo, derrotas, esperança e coragem de lutar do imigrante senegalês Samba Cissé. Desde a espetacular cena-sequência de abertura, mergulhamos na tensão e segregação de ser um imigrante clandestino na França, mesmo já trabalhando há 10 anos no país.

Quais as armas de Samba para sobreviver na dura terra prometida europeia que buscou para fugir da miséria africana? Sua entrega para se relacionar com os outros e uma alegria contagiante, um jeito de ser e batalhar com um sorriso no canto do rosto que honra o nome de batismo que ganhou em homenagem ao povo brasileiro.

Além do iluminado Samba, o personagem de outro imigrante, Wilson, que se faz passar por brasileiro, presta outra homenagem aos brasileiros da classes mais baixas, que enfrentam qualquer trabalho pesado e sina sem lamentos, sem perder o bom humor. De quebra ele ainda exerce a velha arte brazuca de seduzir as mulheres enquanto dança. Mero estereótipo para alguns críticos, essa atitude de dançarino Don Juan é suavizada com leveza e graça, embalada com música brasileira pra levantar o astral do mais derrubado dos seres. Tome então Gilberto Gil e Jorge Bem na trilha sonora, como a deliciosa Take it easy my brother e sua sabedoria de bem lutar e viver.

Samba e seu companheiro de diversos bicos pelas camadas mais baixas da escala produtiva semeiam sabedoria de viver. Correm todo tipo de perigo – podem ser presos ou deportados a qualquer momento – mas não deixam de sacanear um ao outro, tirando sarro de suas dificuldades em trabalhos infernais e relacionamentos quase impossíveis com as raras mulheres francesas que se interessam por seus dramas e corações.

Mulheres como uma executiva machucada por um casamento arruinado e um trabalho exaustivo demais que a faz surtar e ser obrigada a se afastar. Aqui temos outra grande atuação, de um quase mito do cinema francês, a tão delicada quanto profunda Charlotte Gainsbourg, mestra do olhar e dos pequenos gestos reveladores.

Mulheres como as jovens, senhoras e velhinhas de uma ONG que procuram conseguir os documentos que os imigrantes precisam e, mais que isso, se dispõem a algo vital: escutar seus dramas-desabafos. O cinema é pródigo em temáticas como essa, de seres mais humanos que a média do típico homem moderno egoísta, mas as mulheres da ONG deste filme animam o coração dos que ainda acreditam em um mundo melhor. Acalantam nosso coração como se fossem as deliciosas e dançantes canções que embalam a confraternização das voluntárias com os imigrantes em uma festa inesquecível como um clássico de Bob Marley que faz o pessoal soltar o corpo e a alma na pista.

Quem ainda acredita que o cinema pode ser mais que mera fantasia escapista ou entretenimento não pode perder esse filme, que produz o mesmo efeito catártico dos pequenos dramas cotidianos tão bem explorados pelo cinema argentino: em uma cena rimos e flutuamos; na próxima os olhos ficam cheios e o coração apertado. Sonhamos e sorrimos com as esperanças e raça dos imigrantes e logo sentimos uma pontada lá dentro e nos revoltamos com suas quedas e perseguição de um mundo cada vez mais intolerante e xenofóbico.

Graças que há Samba, o homem e a música que tão bem o representa, assim como seu amigo de batalhas pelos serviços que nenhuma francês quer fazer, nas profundezas da separação do lixo às alturas arriscadas de limpar vidros em prédios altíssimos.

Graças que há quem tente protegê-los e reerguê-los contra a frieza do Estado e violência da intolerância.

Graças que o amor e a alegria, algumas vezes, podem mais que o preconceito e o ódio.


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