11/4/2001 – 8/4/2015

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capitu3

A amiga mais fiel e presente que tive na vida. A amiga vital dos piores anos de minha vida, os dez anos sozinho, triste, cabeça baixa, ânimo no chão. O anjo que veio ao mundo justo no primeiro dos anos mais duros. O anjo que ficava horas comigo em um raro refúgio que tinha em São Paulo, a Praça. Mesmo quando eu ia pro banco da praça, ela ficava sentadinha na minha frente enquanto eu fazia exercícios. Exercícios que eu precisava sempre dar uma parada porque ela começava a botar sua patinha em mim e tentar me lamber. Quando eu sentava, mais pra baixo que a canção dos Beatles na voz de Eddie Vedder (You´ve got to hide your love away), ela entendia e ficava paradinha, sentada também, quietinha feito um totem, feito o anjo que era. Quietinha e sem a impaciência típica da maioria dos cachorros, pois se eu virasse a noite sentado ali ela iria permanecer ao meu lado, uma Hachi brasileira em forma de dálmata e fêmea.

Ao meu lado ela ficou também anos e anos deitada na poltrona em frente à televisão, a televisão a que assisti na esmagadora maioria de finais de semana desses dez anos.

capitu cabecinha

Nunca houve uma Capitu como ela, nem a doce e valente personagem de novela feita por Giovana Antonelli que lhe emprestou o nome, muito menos a musa dissimulada de Machado.

Já tive amigas incríveis humanas, daquelas de emocionar a gente com gestos, palavras e simples olhares de entendimento e acolhimento, mas o tempo é implacável na vida dos seres humanos. Os rumos diferentes afastam e as relações mais bonitas e profundas perdem-se nas brumas do tempo. Viraram passado e saudade infelizmente. Diferente foi minha parceira inseparável, companheira do peito, versão em quatro patas e de alma feminina dos brothers de peito que têm os surfistas.

Capitu sempre esteve lá, na verdade aqui dentro, em cada dia dos seus 14 anos quase justos.

A cachorra mais carinhosa que já tive, que podia também ficar horas paradinha recebendo um carinho, de pé, sentada ou deitada ao meu lado.

A cachorra que, infelizmente, foi a que levou a vida mais dura. A diabetes a pegou na metade da vida e logo levou sua visão. Uma meia engolida (a bichinha adorava pegar na boca tudo quanto é par) quase a matou nessa época mas, valente, venceu a grave infecção e a cirurgia e ficou boa. Antes disso uma pequena falha de movimento nas patas traseiras levaram embora também sua alegria e capacidade de correr ao meu lado. O pior veio há cerca de um ano e meio, quando a coluna a atacou. No começo a acupuntura a colocou de pé de novo, mas há cerca de um ano Capitu não conseguia mais levantar sozinha, as patas traseiras não respondiam mais.

A valentia e garra extraordinária a faziam andar devagarzinho depois de levantá-la mas havia ainda um tumor na mama e o que a incomodava demais a partir de então: ela, que sempre se lambia para ficar mais limpa feito gato, não teve remédio senão fazer suas necessidades deitada mesmo quando eu não conseguia acudir a tempo. Sim, a limpeza diária era extenuante mas aquela carinha feliz tranquila depois, já limpa e deitadinha, valiam todo o esforço diário do seu amigo. Mas aí o tumor cresceu demais nesse último mês, até que abriu esta semana e a doença se espalhou, levando o resto dos movimentos e a respiração.

Só quem já teve uma amiga ou amigo assim sabe o que é ter que se despedir da alma mais pura que conheceu na vida (sim, eles têm alma para a gente).

O vazio agora é enorme, agravado por Capitu ser a última de uma família que esteve comigo e com minha família nas últimas três décadas. Neta da lendária Duda, e filha de Babalu, foi-se a última das meninas que cuidaram de mim e estiveram sempre ao meu lado como minha mãe. Sim, a comparação não é descabida: só os cães talvez tenham um amor tão puro e incondicional como o da maioria das mães.

14 anos, puta merda, como ficar sem o amparo-coração-carinho-amor da minha melhor amiga?

O único consolo é saber que fiz tudo que podia e doei o tempo que tinha e não tinha para cuidar da menina de minha vida com o mesmo amor e cuidado que ela me transmitia.

Descanse em paz, querida, e agora pelos menos talvez você encontre lá em cima a fantástica avó que você não conheceu, a tão companheira e doce como você, a lendária Duda.

Cuida da baixinha, por favor, Duda.

Adeus, Capitu, obrigado por me mostrar e passar o seu amor do tamanho da vida.

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