O moleque que nada com a água

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ogawa

No esporte e na vida, lutar, mesmo de forma incansável, muitas vezes não é suficiente para a vitória e evolução. Enquanto boa parte luta com a água a cada braçada (alguns até a espancam e esparramam jorros pra tudo quanto é lado), ele desliza, flui e avança tranquilo em alta velocidade (*).

Enquanto outros se matam para avançar, ele avança como um fenômeno da natureza. Silencioso, inabalável e determinado como o rio que corre até o mar.

– Incrível como o Ogawa não faz barulho ao nadar, digo ao treinador que comanda um treino à beira da piscina.

– Ele é um dos mais técnicos mesmo, responde.

Gabriel Ogawa foi um dos alunos mais distraídos e brincalhões que já tive. Um típico japonês porra louca que compensava tarefas de redação não feitas com tiradas perfeitas que mandava lá do fundão pra animar as aulas.

Sala de aula significa paredes. Prisão de horas e horas a cada manhã. Moleque doido com espírito de passarinho e peixe, era visível seu mal estar em ficar trancado ali tanto tempo. Acho que só não pirava pelo astral e presença de espírito e por não ter nada de outra prisão que atormenta adolescentes em anos de escola: a timidez e dificuldade de se expor e se comunicar.

Sabíamos que ele era um nadador mas não botávamos fé pela formação distante da “saradona” e por não ter muita altura.

O moleque, porém, era um campeão, e diziam que dava pau na molecada de sua idade na prova mais completa da natação, o medley (nunca soube se era mais forte nos 200 ou 400 metros).

Os anos se passaram, voltei ao clube onde na juventude eu treinara sonhando em ser campeão olímpico de atletismo e um dia o reencontrei nas alamedas do clube. O mesmo jeitão leve, divertido mas com uma pitada diferente que eu não sabia identificar o que era, nem o que significava.

O tempo passou mais um pouco e o diferente percebi ser o amadurecimento e a dedicação enorme à sua natação. Ele até saíra de sua casa, no distante bairro de Santana, para morar mais perto do seu clube, no apartamento de atletas. Mais um pouco e ele deixou o apê por não aguentar mais a infantilidade de alguns nadadores. Sim, o moleque seguia com aquele bom humor do passado, mas sabia que precisava de um lugar mais tranquilo para dormir e estar bem para os treinos e treinos dos dias seguintes.

A entrega às piscinas o fez ser convocado ano passado para a seleção brasileira no Mundial Adulto no Qatar e o garoto com empenho de homem feito é uma das promessas da natação brasileira hoje.

Foi nesse quadro que o vi nadar pela primeira vez, num simples treino.

Falando em simplicidade, Ogawa tem no currículo inúmeras conquistas dos tempos de categorias de formação, até os juvenis, juniores ou sub-18 (não sei como são divididas as categorias na natação), mas jamais demonstrou a mínima marra. A marra que toma muitos jovens nadadores, a maioria proveniente de classes mais favorecidas.

Lá vem então o japonês, chegando na lanchonete do clube para um rápido lanche. Lá vem ele com seu passo manso meio preguiçoso, tranquilão, e com aquele sorriso malandro de sempre e a mesma tirada sacana de sempre ao ver seu velho professor trabalhando no computador, “sai do Facebook”.

Mas lá vai ele também lembrar que o esporte não é tudo. Depois de ser sacaneado na universidade que não lhe deixava repor provas quando viajava para competir, ele vai recomeçar seu curso de games (sim, em curso superior!) em outra instituição.

Lá vai o japonês mais brasileiro que conheço, e talvez esse seja seu segredo além da técnica apurada nas raias: a simbiose entre a disciplina oriental e o astral inabalável de um brazuca legítimo que talvez signifique calma e frieza na pressão das competições.

Lá vai então o japonês mergulhar na piscina na hora do tiro leve como um passarinho brasileiro e focado como um Daniel San treinado pelo Senhor Myagi.

Vai pra cima, ziriguidun de olhos puxados e busca suas medalhas no duro tatame azul da natação adulta!

PS* – Claro que na hora dos tiros e da competição, ele deve espalhar água também pois as provas exigem também explosão, mas aposto que faz isso com um desperdício de energia menor que o da maioria.

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2 comentários sobre “O moleque que nada com a água

  1. Margarete maruyama ogawa

    Que bom saber que a educação recebida em casa e usada fora dela, mesmo que cheia de brincadeiras. Não sou muito boa com palavras, prefiro mais uma conversa , mas agradeço do fundo do meu coração estas palavras tão lindas ao meu menino. Os primeiros exemplos vem de casa, e os mestres nos vão ajudando nesta tarefa árdua que é formar um cidadão. Você e todos os seus colegas de profissão, tem um pouco de responsabilidade também na formação deste jovem homem. Abraços de uma mãe pra lá de coruja.

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