Rio 2016 – A poderosa escola mundial do esporte

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rio2016_esporte“Temos coisas muito mais urgentes que precisam de investimento e cuidado, como a educação e a saúde, e a farra de dinheiro da Olimpíada desvia esse dinheiro.” Uma das principais críticas à escolha do Brasil e do Rio para sediar o maior evento do planeta é tanto verdade como um falso julgamento. Verdade porque esse país só será justo e digno para todos quando nossa abandonada escola pública for transformada e melhorada, e quando a saúde pública cuidar mais rápido, e com mais equipamentos e médicos, da população mais carente. Quanto à Olimpíada tirar verbas da educação e saúde, quem garante que os bilhões investidos nos Jogos teriam esse destino? E quem disse, e esse deveria ser o ponto central da discussão, que o esporte não é também muito importante?

O esporte é uma das ferramentas mais poderosas para que as pessoas tenham uma saúde melhor, hoje e no futuro, ou seja, na vida toda. O esporte que além de formar corpos e mentes mais fortes, previne de inúmeras doenças como a diabetes, problemas cardíacos, pulmonares, da obesidade, transtornos psicológicos etc. O esporte que é aliado fundamental de qualquer pessoa para chegar com uma boa saúde na maturidade e velhice.

O esporte é também uma infinita escola de valores, vital para formar crianças, jovens e futuros adultos mais respeitosos, solidários e menos egoístas; mais competitivos e lutadores; mais ativos e preparados para a vida numa modalidade, profissão e no relacionamento com as outras pessoas.

Que outra atividade humana ensina tanto a sonhar e batalhar por isso, a ganhar e perder, a cair e levantar, a não desistir e tentar de novo?

O esporte pode, ser sim, tão importante quanto a saúde e a educação para melhorarmos esse país, para darmos mais oportunidades a quem mais precisa: a molecada de origem humilde. Aliás, as iniciativas mais completas que dão um futuro e vida melhor a esses humildes vêm das instituições que fazem um trabalho integrado do esporte com a educação e um acompanhamento médico, nutricional, fisioterápico e psicológico. Vêm das ONGS, projetos sociais e algumas poucas escolas que fazem bem esse trabalho.

Por isso tudo, mesmo que os Jogos do Rio tenham custado uma fábula e tenham cometido sérios crimes – como os milhares de pessoas arrancadas de suas casas e enviadas para habitações precárias muito longe de onde viviam, para a construção de obras viárias e arenas esportivas – os Jogos serão também uma poderosa fonte de inspiração para milhares de brasileiros humildes sonharem e lutarem por uma vida melhor.

Ah, “mas esses humildes não têm dinheiro para comprar os caros ingressos das arenas milionárias e assim são excluídos da festa”. Sim, a esmagadora maioria não assistirá nada ao vivo, mas a simples cobertura televisiva maciça já planta sementes poderosas. Sementes como as maravilhosas histórias de brasileiros vencedores (de ouro, prata ou bronze, eis aí outro lado bacana da Olimpíada: não premia e valoriza só os campeões) contadas há meses quase todos os dias na TV e, dádiva grande, na TV aberta, que todos possuem.

E milhares de humildes, sim, já tiveram contato com os olímpicos em clínicas e visitas às suas escolas e comunidades nos últimos anos. E outros milhares estão trabalhando nas arenas olímpicas ou na organização dos Jogos. Ontem mesmo percebi que as meninas que entregam parte da premiação aos medalhistas olímpicos parecem ser de origem humilde e precisam ver a alegria delas por participarem de momentos tão belos e valiosos.

Os Jogos são uma inspiração poderosa também para as crianças e jovens de classes sociais com boas condições. Esperamos que esses assimilem as belas histórias dos inúmeros personagens marcantes que toda Olimpíada produz, reflitam, melhorem em algumas atitudes e pensamentos, se tornem pessoas melhores e passem essa tocha para a frente.

Falando em tocha, esqueçamos um pouco os muitos que a carregaram apenas para aparecer e lembremos da simbologia de transmissão do fogo e luz sagrada – da iluminação e consciência da humanidade, e fraternidade.

Lembremos dos gregos antigos, e de sua sabedoria de não separarem o corpo da mente. Lembremos que os grandes filósofos antigos valorizavam tanto o pensamento, a reflexão e o debate como a atividade física.

Lembremos que o esporte como o conhecemos hoje, em sua origem, na Grécia antiga, era um instrumento de aperfeiçoamento e evolução, e também de confraternização e paz durante os Jogos Olímpicos que paravam as guerras.

Lembremos do choro e alegria de Gustavo Kuerten ao entrar no Maracanã com a tocha olímpica criada pelos gregos milhares de anos atrás.

Lembremos da alegria e simplicidade com que Vanderlei a carregou e acendeu a pira.

Lembremos que tanto Guga como Vanderlei fizeram o Brasil vibrar com suas façanhas e depois tiveram a grandeza de devolver ao esporte e ao país os institutos sociais que criaram em  Floripa e Campinas.

Lembremos que se temos dirigentes esportivos nefastos como o presidente do COB e seus aliados políticos, temos um número bem maior de atletas, treinadores, ex-atletas e treinadores que são também seres humanos maravilhosos e batalham para deixar o nosso povo sonhar e vencer.

Lembremos que é nos Jogos Olímpicos que esses homens e mulheres maravilhosas, do Brasil e mundo todo, têm a chance de se tornarem mais conhecidos, tamanha a exposição da mídia nacional e mundial. E assim podem ser conhecidos pelas crianças e jovens de todo o planeta.

Lembremos que os Jogos Olímpicos são, muito mais que um espetáculo (visão dos céticos, de muitas empresas e dos que odeiam ou ignoram o valor e poder do esporte) uma incomparável escola por uma cidade, país e  mundo melhor. Claro, o doping e os interesses comerciais demais em algumas modalidades, mancham o esporte, mas há muito mais beleza e o melhor o ser humano nos Jogos que o seu lado mais nefasto e corrupto.

Celebremos então os Jogos e seus artistas, guerreiros e mestres incríveis.

E tenham certeza que aqui e ali milhares de meninos e meninas brasileiras estão sendo motivados e inspirados a superarem incontáveis carências e obstáculos para ter uma vida melhor através do esporte.

Muito do melhor da humanidade estará no Rio nas próximas duas semanas. É hora de aproveitar isso, assistir, inspirar-se e lutar com a mesma gana dos olímpicos. Um desses exemplos é a menina síria que fugiu da guerra e superou um naufrágio nadando para salvar a sua vida e a de dezenas pessoas. E ela está aqui no Rio com a equipe dos Refugiados.

Aproveitemos então a talvez mais poderosa criação humana, sempre turbinada em cada Olimpíada: as boas histórias. Elas nos emocionam, nos fazem refletir, nos espelham e nos ajudam a seguir em frente ou além.

Não privem suas crianças da outra educação vital para qualquer menina ou menino: a fantástica fábrica de sonhos e cidadãos do esporte.

 

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Lugano – O regresso do herói mais humano

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lugano volta 2A imagem, mesmo distante, da arquibancada do Pacaembu, é nítida e poderosa. Quando ele perfila ao lado dos outros jogadores, sua camisa (para ele e nós, manto sagrado) parece ter o dobro da largura dos outros companheiros. A razão é física, emocional e anímica. O peito é realmente enorme, para conter uma caixa torácica ampla e, sobretudo, um coração e alma do tamanho da história do São Paulo e de seu amor, dedicação e gratidão pelo clube que o projetou no futebol mundial.

A dimensão da camisa branca tricolor amplia-se ainda mais nos olhos e peito do torcedor nesse emocionante matar a saudade de um dos raros heróis com quem pudemos nos reencontrar.

Fui ao Pacaembu sozinho ontem porque o reencontro com um herói deve acontecer desta forma. Há que se estar concentrado, interiorizado, esperando como um ritual de fé, quando o vemos de novo e sentimos tanto. Há que se esperar focados em nossa gratidão por alguém que nos fez vibrar, sonhar e vencer tanto.

Há que se ensinar aos que não têm heróis, que nesse cotidiano, país e mundo com tantos vilões, heróis como Lugano são necessários, fundamentais.

Há que se gritar o seu nome com tudo o que está em nossos pulmões porque esse guerreiro ajudou e inspirou muitos tricolores, uma década atrás, a lutar, resistir, sobreviver e vencer.

Em uma fase dura de minha vida, com o coração e a alma abatidos, Lugano foi um dos poucos que me deu ânimo, com seu exemplo de dura trajetória inicial no São Paulo, sua volta por cima e glória construída com uma garra descomunal. Se minha inesquecível turma da Pós em Jornalismo de 2005 e 2006 no interior paulista me dava o afeto e alegria vitais em fins de semana antológicos, era ele quem me inspirava a lutar e também ser um cara melhor.

E que luta! Nos gramados, ele sempre vestiu seu coração e foi lutar, desvestindo-se de qualquer precaução, medo ou economia de ânimo em cada lance.

Em cada lance a que se entregou de corpo e alma porque vestiu de verdade uma camisa que sentiu como manto, prêmio e pele.

Reencontrar Lugano é como ser reanimado, acordado e levantado por um guerreiro e líder histórico.

É nos permitir um pouco de esperança, sonho e muita batalha de novo. E como precisamos disso, nós, torcedores tricolores tão maltratados, traídos e sofridos nos últimos tantos anos de derrotas e decepções, muitas delas vergonhosas.

Reencontrar Lugano nos torna todos escoceses invadidos recebendo o brado e chamado desse William Wallace da bola. Um Coração Valente, envelhecido, sim, mas ainda, tomara, um libertador e faísca para contagiar seus novos companheiros a entenderem o que é se entregar de verdade a essa camisa, e isso passa pelo sentimento de perceber esta camisa e o futebol como algo muito maior que um mero compromisso profissional.

O leão voltou a rugir de novo ontem, pena que para um público tão pequeno, meros 7 mil são-paulinos, mas presumível pelos fracassos anteriores recentes.

Os que foram esperar o ídolo, herói e homem ontem, porém, puderam sorrir como não sorriam há muito tempo; com um sorriso meio feliz demais, meio maníaco partindo das veias, coração, pulmão, coração, de todo lugar de nosso corpo e alma que fica arrepiado, eletrizado e energizado quando vemos o mais guerreiro dos heróis entre nós de novo.

Sonhemos um pouco, meus amigos tricolores. O time, muito menos o elenco, não parecem permitir isso, mas pelo menos podemos ver de novo um jogador e líder que é um grito das profundezas a cada disputa de bola e cobrança verbal, do juiz e companheiros, que protagoniza.

Obrigado por estar de novo pertinho lutando, gritando e sonhando por nós.

Obrigado, também, por esse ser humano transparente e valoroso que você é, que voltamos a perceber a cada palavra, frase, olhar e gesto que vemos a cada entrevista na TV.

Obrigado por seguir sendo um herói não só da bola, mas da vida, do caráter, dos seus bons valores inegociáveis, o que é tão raro no pobre e mesquinho universo humano do futebol brasileiro.

Obrigado por ser o Diós mais humano que lutou, e voltou a lutar, por nós.

Sim, por nós, porque o futebol não é mera distração ou entretenimento, e o São Paulo não é uma mera paixão. Ambos são elementos importantes em nossas vidas e até ajudaram a formar quem somos. E que dádiva e beleza é ter em nossa formação esse jogador-homem que vale como uma matéria vital dada em anos de escola, uma matéria viva, poderosa e eterna chamada Diego Lugano!

lugano volta 1

Creed e Rocky. Nascidos para lutar. Juntos.

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creed2Homenagem é uma palavra tão bela quanto pouco praticada na avalanche da falta de tempo que sobra dos trabalhos ou estudos, e da ditadura do novo, que prevalece em nossa sociedade e mundo cada vez mais consumista e pautados pelas novidades. Graças, porém, que ainda resiste no cinema a arte de reverenciar o passado e aqueles que nos marcaram, emocionaram e/ou ensinaram. O filme Creed, Nascido para Lutar, não faz parte da série Rocky, mas é tão visceral e humano quanto os melhores, mais poéticos e realistas filmes da série, justamente o primeiro, Rocky, um Lutador, e o último, Rocky Balboa. Creed é obra do jovem cineasta negro Ryan Coogler, 30 anos, para homenagear a força que seu pai lhe deu para cursar cinema e a paixão de seu velho pela odisseia do lutador mais querido do cinema (não só…).

A história mostra a tentativa jovem Adonis Johnson de se tornar um boxeador para honrar o sobrenome do pai biológico que ele não conheceu, o lendário Apollo Creed, maior rival e depois amigo que Rocky Balboa teve. Anos de passagens por orfanatos e reformatórios moldam um garoto acostumado a brigar mas ele precisa de muito mais para vencer nos ringues. Precisa da mãe de coração (não a de sangue, também falecida), que o resgata do cárcere infantil, e também de um mestre para fazê-lo evoluir, técnica e mentalmente, com as luvas.

O mestre, obviamente, é Rocky Balboa, mas não será apenas Rocky o professor. O velho lutador simplório da Filadélfia – que perdeu quase tudo e vive de um modesto restaurante com o nome da amada ex-mulher, Adrian – precisará, mais que nunca, também aprender e se motivar com o jovem Adonis. Estabelece-se então mais uma bonita parceria do cinema que fala de boxe, com laços de família do coração que são criados por Rocky e o jovem que ainda precisa se provar para honrar o pai, o melhor pugilista da história no universo da série rockyana: Apollo Creed.

Emulando a força e beleza da ligação de pai e filha do treinador feito por Clint Eastwood com sua menina de ouro, mas sem as ironias e mau humor do treinador de Clint, Stallone- Rocky e o promissor Michael B. Jordan-Adonis vão construindo laços de afeto, respeito, confiança e amor que arrebatam quem assiste ao filme. Os laços são construídos aos poucos e daquela forma tão simples e humilde que compõe o cerne do pacato Rocky de sempre, um raro ex-astro e lenda eterna que manteve-se fiel ao seu caráter e jeito de ser de antes da fama.

A performance de Stallone-Rocky, que ao meu ver sempre foram a mesma pessoa, é tão cativante que o tão menosprezado (pela crítica) ator deve ganhar o Oscar de ator coadjuvante (já ganhou o Globo de Ouro). Stallone, que sempre fez Rocky com uma simbiose de brutalidade (no sentido de ser mais forte que hábil) no boxe e delicadeza de gestos e atitudes fora dele, faz com perfeição o mestre que extrai o melhor de seu pupilo não só na hora do pau das lutas. E está lá o mesmo chapeuzinho fora de moda, o andar balançando, a fala atrapalhada (pela paralisia facial de um lado que Stallone sempre teve). Essa fala e seus pensamentos, porém, que antes eram apenas ingenuidade e juventude, medo e vontade transformaram-se agora em música calma, quase uma oração.

A cada conversa com Adonis, o agora mestre Rocky – tão simples e realista como era seu falecido treinador, Mickey – oferece breves mas profundos sermões de vida real, batalhada, e não da religião. Palavras simples e impactantes. Pura sabedoria de quem saiu do nada, chegou ao topo e depois perdeu tudo – o título mundial, os entes queridos, o melhor amigo, o treinador quase pai – menos a integridade. Menos o saber o valor de cada luta e glória que enfrentou ou teve.

Sim, os críticos de má vontade ou os intelectuais céticos quanto ao valor ou poder do esporte debocharão das palavras de Rocky, chamarão de clichê ou autoajuda barata. Farão isso porque talvez não tenham sido meninos sonhadores ou românticos com ídolos a inspirá-los, jovens guerreiros e esperançosos ou adultos calejados por tantas batalhas perdidas, mas não todas. Para esses que ainda creem, que ainda se emocionam com o velho Rocky, o filme Creed envolve, toca, inspira e nos lembra do melhor e mais sincero de nós mesmos que um dia fomos. Um “melhor de nós” que um dia conhecemos na motivação profunda, mais que isso, inspiração, que as frases de Rocky e, claro, seus treinos malucos, rústicos, e a sua música contagiante nos davam. E ainda nos dão com esse maravilhoso Creed, um verdadeiro brinde de saudação e gratidão em homenagem a Rocky-Stallone oferecido por esse jovem diretor Ryan Coogler. E que lição linda Coogler nos dá, através de Adonis para um Rocky então muito machucado, reforçando o valor e laços de uma parceria de verdade: “Você luta, eu luto.” Que conselho vital e raro! nessa época em que o sistema estimula muito mais a luta, conduta e atitude pessoal, o cada um por si e quase ninguém por todos.

Não foi à toda que Stallone aceitou o convite para emprestar seu personagem ao filme. Imagino o que se passou em seu coração ao ler o roteiro de um filme feito em agradecimento a tudo o que ele sonhou, batalhou e venceu com Rocky. Talvez por isso sua atuação emula, segundo o maior crítico de cinema que conheço, Luiz Carlos Merten, do Estadão, simplesmente aquele que fez o Poderoso Chefão pós-enfarte. O velhinho, outro sábio e mestre, Merten, escreveu que “Marlon Brando encarna no garanhão italiano. Stallone está maravilhoso.”

Caramba: Brando? Não, meus amigos, ante a comparação de Merten, aposto que Stallone apenas diria que não representou nada, nem emulou o mito do cinema. Apenas deixou sua vida, que se confunde com a de Rocky, tomar as telas e nossos corações de lutadores.

Corações que volta e meia lembram de Rocky para não desanimar das pancadas e nocautes que a vida não cansa de dar.

Corações que, tocados por Creed, agora nos fazem lembrar dos mestres de nossas vidas, e que não vencemos sozinhos.

A vida não pode ser vencida com o embuste da mera autoajuda pessoal. Precisamos, demais, de quem nos treine, aprenda e lute com a gente.

Obrigado, Mestres.

Obrigado, Rocky-Stallone e Ryan Coogler.

 

Bra

Amigos de sangue

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amandaComeço esse texto aqui da escola onde a conhecemos. Onde ela fazia aquela cara feia pra gente (quando estava brava, o bicho pegava, eita personalidade forte!) ou onde dava aquele sorriso de cantinho de lábios enquanto dava aquela olhadinha marota, uma marca das Carneiro Valillo! Escrevo pertinho da sala onde ela dava tanto carinho e atenção pra gente, usando os olhos como uma extensão do coração e também como atenção enorme que oferecia tanto para esse seu professor durante as aulas como para seus colegas.

Escrevo de onde a gente aprendeu a dar risada dos seus “defeitos” (ficava pior que boi bravo de rodeio quando era contrariada ou tomava uma bronca!) e ser tocado por suas qualidades.

Qualidades que essa menina especial formada no Uirapuru e no Horizontes-Uirapuru não deixou de nos oferecer nem quando ela encerrou seu ciclo na escola. Porque tá aí uma menina que não deixou de semear amor pra gente mesmo com o tão cruel correr dos anos, verdadeira amnésia para a maioria. Tá aí uma raríssima menina, logo mulher, que soube, como poucas, usar com beleza uma simples rede social virtual como esse FB. Soube usar com palavras tão belas que podíamos sentir, de verdade, o seu bem querer. Um afeto poderoso que foi uma das forças que fez esse seu então meio maluco professor suportar o que eu chamo de “os anos duros”.

Nos anos em que mais precisei e, por uma benção ou incrível sexto sentido dela, quando eu estava no dia mais bad trip possível eis que eu recebia uma mensagem dela Mensagem coisa nenhuma, ela escrevia verdadeiras cartas e minha caixa virtual me lembrava a saudosa sensação de abrir o envelope e ler palavras escritas com tinta e sangue.

Sangue Amanda sempre teve demais, conseguia fazer palavras tecladas penetrarem em nossas veias e limparem todos nosso medos, dores e vazios como se ela fizesse uma transfusão de abraços, amparo e afeto verdadeiro mesmo por trás de uma tela fria de um computador.

Nos dias mais sombrios suas mensagens surgiam bombando feito uma onda inesperada e suas palavras azuis nos empurravam, levantavam e nos davam coragem de voltar a surfar a vida de novo.

Imagino quantas outras tantas ondas a Amanda soprou para outras pessoas. Imagino quantas amizades com amor ela semeou com sua capacidade revolucionária de dar calor e sentido a essa frieza das relações virtuais.

Imagino quantas pessoas ela ajudou a encorajar, a bater forte dentro do peito, a dar aquele sorriso gostoso de quando recebemos palavras de verdade, escritas com amor, e não apenas como rápidas tecladas.

Imagino quantas veias e artérias ela ajudou a correr forte de novo, purificando o sangue de nossas esperanças e nossas qualidades. Incrível como a Amandinha sempre nos fazia lembrar do melhor de nós mesmos.

Por tudo que ela nos deu está na hora de retribuirmos agora com as nossas veias. Com o fluxo vital de nossa amizade-amor. Está na hora de bombarmos o sangue de nossa gratidão em suas veias que um dia nos aliviaram e confortaram tanto.

Está na hora de todo o Horizontes e Uirapuru que foram tocados por ela se transformarem em uma única e vital corrente. Um único coração.

Por você, querida. Obrigado por tudo e temos certeza que, guerreira e valente como sempre foi, sairá dessa. Vai pra cima, Amandinha! E pode deixar que injetaremos muito combustível em seu coração de boxeadora! Vai e mete porrada nisso que a gente estará com você! Sempre!

PS – Sabadão de manhã estarei lá e convoco meus queridos ex-alunos e ex-alunas que a conheceram a fazer o mesmo: doar nosso sangue por ela e para outras pessoas que também precisam. O local onde devemos doar é o Centro de Hematologia de São Paulo. Av. Brigadeiro Luis Antonio, 2533 – Horário: 2a a 6a das 8:00 às 17:00hs e Sábados das 8:00 as 15:00hs. Chegando lá é só falar o nome dela: Amanda Carneiro Vallilo. Ah, a Amandinha pode receber qualquer tipo sanguíneo.

O que o São Paulo e o futebol brasileiro perderam

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sp-osorio1Pouco tempo após o técnico Juan Carlos Osório deixar o São Paulo, sua partida só reforça o atraso, ignorância e soberba (sentimento de se achar melhor que os outros, fato que não é mais verdade há anos) dos homens que comandam ou repercutem o futebol brasileiro, seja na direção dos clubes, seja no posto de treinador, diretor, presidente ou jornalista e comentarista da mídia. O atraso ou a pouca paciência envolveram até outro elemento vital do futebol, o torcedor.

Muitos torcedores do São Paulo não viram problema algum no fim de breve ciclo do colombiano. “Ah, ele inventava muito, era um professor pardal”. Outros reclamaram da novela para ele decidir ir embora. Sim, Osório demorou a deixar o cargo por ser um raro treinador a passar por aqui que não faz teatro, que não faz cenas ou declarações hipócritas. Honesto, ético e humano como sempre se mostrou desde que chegou ao Morumbi, ele realmente viveu o drama de ter que decidir entre dois sonhos: dirigir um grande clube do futebol que já foi o melhor do mundo ou comandar uma seleção em uma Copa do Mundo, o sonho maior de qualquer treinador.

Inventor? Sim, Osório é, mas na melhor acepção da palavra sempre buscou buscar novas soluções e colocar jogadores para fazerem funções em que se dariam melhor do que a posição em que atuavam, sem grande brilho. Foi ele quem colocou Carlinhos livre como último homem de meio-campo, quase um atacante. Antes escalado sempre para a lateral esquerda para a qual não tinha mais a mínima condição física, foi só com Osório que Carlinhos encontrou seu lugar e ajudou, bastante, o São Paulo. Ah, lembremos que boa parte da mídia no mínimo debochou no início dessa alteração.

Osório ainda conseguiu o quase milagre de reconstruir o então buraco que a mentirosa diretoria tricolor lhe deu logo de cara no meio-campo: os dois volantes, Denílson e Souza, que vendeu. Era o começo da liquidação do elenco com a qual Osório não contava. Mas o colombiano observou, trabalhou, testou e logo colocou Breno e Tiago Mendes nessas posições e o São Paulo construiu uma rara dupla de volantes que tanto protegia a zaga quanto saía jogando bem. E foi Osório quem resgatou Breno, lhe deu forças e moral. E preciso falar do que ele fez com Pato???

O atraso, a ignorância e soberba que citei na abertura desse texto cabem direitinho nas primeiras atitudes de Doriva no comando do time. Primeiro não teve a mínima decência de valorizar o trabalho de Osório, ou simplesmente conversar com Milton Cruz sobre o que havia dado certo, para poder aproveitar. Logo de cara quis botar banca e falou que iria implantar as suas convicções de que com ele há sempre um time-base, o que atacou e implodiu de cara os vários testes e mudanças que o colombiano promovia. Testes e mudanças que deixaram a Doriva um time na semifinal da Copa do Brasil e na porta do G4 do Brasileirão.

O mínimo que Doriva deveria ter feito era primeiro avaliar e não já sair destruindo o trabalho de Osório. E outra bobagem e mais ignorância: como bem observou meu ex-aluno e uspiano Ricardo Vidigal, um dos jovens são-paulinos que conheço mais presentes no Morumbi e raro jovem que pensa o futebol de forma ampla, ele deveria ter tido a humildade e inteligência de perceber que não deveria tentar implantar suas convicções e estilo de jogo quando faltam só 8 partidas para o final do Brasileirão. Que treinador é capaz de alterar radicalmente uma equipe, elenco e forma de trabalho em tão pouco tempo?

Vamos então à estreia de Doriva, o fiasco e atuação medonha diante do enfraquecido Fluminense. De cara, o treinador sacou Breno da equipe titular e pior, afirmou que com ele Breno é zagueiro e não o volante mágico, poderoso, incrível que Osório descobriu. A imbecilidade é maior ainda ao sabermos (qualquer ser que entenda um pouquinho de futebol) que Breno é o melhor jogador de todo o elenco tricolor.

A estupidez de Doriva ataca até o que poderia ser uma vantagem histórica dele: foi atleta de mestre Telê Santana, justo o Telê que foi um dos treinadores que mais soube encontrar posições e funções mais eficazes para seus jogadores. Foi com Telê, por exemplo, que Cafu viveu sua melhor fase ao ser deslocado para ser o quarto homem de meio-campo e atacante-surpresa no início dos anos de glória do passado. Assim Cafu arrebentou no Brasileiro de 91, que colocou o São Paulo de volta na Libertadores depois de muitos anos (na época, só o campeão brasileiro era garantido na Liberta), no Paulista e Liberta de 92 e Mundial de 92, quando a lateral direita era de Vítor.

Doriva, como a esmagadora maioria dos treinadores brasileiros, e a maioria dos jornalistas e comentaristas picaretas da grande mídia (com raras exceções como uma ESPN Brasil, os independentes PVC e Juca, e o jornal Lance) já mostra o mesmo conservadorismo e apego a velhos modelos. Modelos há muito ultrapassados no futebol moderno dos melhores clubes e seleções do planeta. Tomara que aprenda com as derrotas que já viveu na estreia, e seguirão vindo enquanto não devolver Breno ao time e ao meio-campo ou resgatar algumas das ideias de Osório.

Quanto ao futebol brasileiro em geral, a mídia medíocre e boa parte de nossos treinadores adoraram atacar os números pouco convincentes do colombiano e não souberam valorizar os novos métodos e ideias de um treinador ousado. Um símbolo dessa burrice do apego aos números, em vez de se apegar ao bom futebol jogado? Um jornalista com muito espaço na rádio e TV, Marcondes Brito representa bem a burrice dos pragmáticos e avessos ao estrangeiro: “Eu acho que a passagem de Osório pelo Brasil deve ser aferida com dados, com números. Foram quatro meses de trabalho, 28 jogos, 12 vitórias, sete empates e nove derrotas, um aproveitamento de 51,1%.”

Prefiro ficar com outro jornalista, André Kfouri e suas seguidas defesas do colombiano:

“No plano teórico, parece óbvio que o ambiente do futebol de qualquer país só tem a ganhar ao receber treinadores estrangeiros. A exposição a novos métodos amplia a capacitação de profissionais, em uma relação benéfica para os dois lados. Especificamente em um país como o Brasil, em que o carrossel dos técnicos gira com os mesmos nomes trocando de lugar, às vezes, com horas de diferença entre a demissão e o novo emprego, o arejamento do mercado é ainda mais importante. Mas os obstáculos se manifestam, na prática, quando o recém-chegado é submetido ao mesmo rigor imediatista que ceifa trabalhos com pouco tempo de duração. Seguimos preocupados com o produto final, ignorando o processo. E quando surge uma voz que evoca outra metodologia e promete paciência, não cumpre, porque a questão principal nada tem a ver com paciência, mas com convicção”, escreveu André e pouco depois, já com a partida de Osório, definiu sua passagem: Eis seu legado: esforçar-se para ser compreendido, não trabalhar para proteger seu emprego, aplicar conceitos modernos a um ambiente atrasado, e, finalmente, dizer à cartolagem brasileira o que ela precisa ouvir.”

O futebol brasileiro segue apegado a treinadores e métodos arcaicos e a uma mídia em grande parte medíocre que segue fazendo o sonho dos alemães deste 7 a 1 sem fim. Uma mídia que aplaude até o fraco Dunga, só porque ganhamos fácil (nem tanto…) da… Venezuela.

Quando o amor à música não nos deixa desistir

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cinema-ricki

Diferente de tantos contos de fada ou histórias apelativas de sonhos realizados que o cinema já contou, raros são os que “chegam lá”: ao estrelato, fama, grana, topo. A maioria sucumbe e perde anos de dedicação e investimento pessoal porque, como já ensinava o AC-DC, it´s a long way to the top. Os artistas mais autênticos, porém, mesmo quando não vingam, jamais perdem a sua essência ou aquilo intangível mas que sabemos estar diante de sua presença, por tanta garra-verdade-beleza que presenciamos: aquilo chamado alma.

A cantora Ricki Randazzo não chegou lá, mas despeja toneladas de alma a cada palavra e verso em que mergulha; a cada melodia que oferece ao público com uma entrega e paixão que emociona até um tão distante sujeito sentado em uma cadeira de cinema. Ricki é apenas uma personagem, uma roqueira sessentona que toca com sua velha banda sempre no mesmo lugar, um bar decadente (ou será resistente?) em algum lugar dos Estados Unidos que não realizou o seu tão decantado american dream, mas um EUA que ainda é a terra ancestral e original do rock and roll. Ricki é o sinônimo exato da palavrinha tão dura que é pronunciada com tanto desprezo pelos escrotos ou insensíveis: looser, perdedora. Ela mora em um cubículo, não tem mais cartão de crédito, teve sua falência decretada pelo banco e rala todo dia como caixa de uma rede de produtos naturais que exige que ela sempre sorria mesmo ganhando um salário que lhe garante apenas a sobrevivência.

Ricki só não perdeu o amor que transborda dela em cada apresentação naquele pequeno bar, de reduzidos mas fiéis frequentadores que não a abandonaram. Só não perdeu o amor à música, mais precisamente ao rock que exala de cada olhar, gesto e do canto que sai de sua voz rouca tão bela e calorosa. Uma voz envolvente que é mais um milagre de interpretação da sempre notável Meryl Streep. Sim, é ela mesma quem canta e engole com sua performance tantas e tantas cantoras do mundo real que não tem uma centelha da paixão que Meryl coloca em cada sopro, grito e canção de sua Ricki.

Ricki-Meryl e sua banda, a The Flash, são a exata tradução do que é o rock mais verdadeiro possível, aquele que seus fiéis não abandonam nunca, aquele que é a razão de viver de cada membro veterano da banda, aquele que é a terapia que faz milhões de pessoas reais no mundo todo suportarem a dura rotina dos dias e horas de trabalho e da batalha que é se deslocar para o trabalho e voltar pra casa nas grandes cidades. E que banda o diretor Jonathan Demme reuniu para o filme, com destaque para outro músico com muito talento e entrega, aqui sim um cantor do mundo real, o veterano cantor-guitarrista-ex-galã dos anos 80, Ricki Springfield. E, ironia que até seja a razão de ser do nome da banda do filme, Springfield foi um astro meteórico do pop rock dos anos 80, de brilho efêmero: depois do estrondo de sua ascensão com a canção “Jessy Girl”, teve mais poucos bons momentos e praticamente desapareceu da cena mundial.

Ricki Springfield, que no filme chama-se Greg, só não perdeu a eletricidade e amor que exala a cada acorde e riff de sua guitarra, uma eletricidade amplificada no filme ao estar junto do amor tardio de sua vida, mas amor, pela cantora Ricki. Aqui a química entre Springfield e Streep, é ainda mais bela nesses dois veteranos que conseguem mostrar que o raro brilho no olhar diante de quem se ama não perde a intensidade com as décadas nas costas.

Sim, há ainda uma trama forte no filme, da mãe que deixou o marido e três filhos (uma menina e dois garotos) pelo sonho de triunfar com a música, e Ricki-Meryl, mesmo com o coração devastado, defende sua escolha de forma tocante no filme. Pelo menos o filme e, por que não?, a vida também, em algum momento lhe dará a chance de se redimir e resgatar um pouco da relação com os filhos que o rock a fez deixar para trás. Porque o rock e a música que são feitos da voz humana e instrumentos arrebatadores – no caso do rock, uma guitarra, um baixo, uma batera e às vezes um teclado e outros instrumentos – em algum momento darão a uma mãe ou pai ausente a chance de cantar e tocar para quem magoou profundamente.

Esqueça as críticas que detonaram o filme. Se você tem o rock na alma, irá curtir um show arrebatador do qual você só irá embora bem depois da última canção (são várias, de clássicos dos anos 80, de Tom Petty a Bruce Springsteen) oferecidas como um presente nostálgico por uma das maiores atrizes da história e seus parceiros veteranaços mas resistentes da banda The Flash. Meryl captou bem todo o espírito do rock que aprendeu com seu “modesto” preparador para esse papel: simplesmente um dos símbolos máximos da história do rock, o gigante dos solos inflamáveis e voz poderosa, Neil Young. Hey, hey, my my, rock and roll will never die!

Os milagres de Rogério Ceni

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sp-rogerio contra ceara“Era apenas o time B do Ceará” disseram os céticos e os espíritos de porco. Esqueceram da pobreza técnica do futebol na maioria dos clubes – inclusive nos grandes e em todas as divisões – do país do 7 a 1 fora o baile e dó dos alemães. Portanto, era, sim, uma duríssima missão para o empobrecido, endividado, aflito e em crise São Paulo de 3 derrotas seguidas (duas delas vexatórias em pleno Morumbi para times na lanterna das série A e B) enfrentar o Ceará e 50 mil fanáticos torcedores na casa deles. Nesse nivelamento por baixo do futebol brasileiro, a eliminação tricolor era muito provável e acabaria provavelmente com o trabalho inovador mas sabotado desse ótimo treinador colombiano chamado Juan Carlos Osório. Rogério Ceni acabou com esse desastre provável.

O São Paulo seria eliminado sem ele. Como Rogério mudou a história?

Sendo Rogério. Sendo esse jogador monstruoso que sempre foi, daí sua tão justa alcunha e apelido de M1TO.

No começo do jogo um atacante cearense, em uma tão comum falha dos horríveis zagueiros tricolores, recebeu a bola livrinho, cara a cara com Rogério. Era só escolher o canto e marcar um gol que tornaria a tarefa tricolor um milagre (marcar três gols) ou simplesmente fuzilar que Rogério não teria chance.

O caso é que não era um goleiro qualquer ou sem história na frente do atacante Fabinho. Estivesse ali o reserva Renan e o gol aconteceria.

O caso é que diante de Rogério aquele gol enorme fica do tamanho do gol caixote das peladas de praia.

Fabinho levantou a cabeça e se viu diante de um muro azul do tamanho da muralha da China.

A tranquilidade e facilidade de se ver livrinho da silva na cara do goleiro virou respeito, medo, pânico.

O chute ou tapa fácil e certeiro virou um um pontapé tosco e sem força em cima de Rogério. Em cima do imã Rogério, que simplesmente desconcertou o rival com a dimensão de seu talento e história. O jogador desconhecido não pôde com o goleiro mitológico, raríssima lenda viva do esporte a atuar em alto nível aos 42 anos.

Pobre atacante, pobre Ceará. E pensar que poderiam ter feito história e eliminado o São Paulo cada vez mais parecido com um verso de seu hino (“as tuas glórias vêm do passado”).

Poderiam se Rogério não estivesse em campo. Se ele não tivesse atraído a bola como um hipnotizador e super-herói com super poderes.

Poderiam se caso houvesse um pênalti para o São Paulo, Rogério não estivesse em campo.

Alguém imagina os inseguros e sem chama Pato, Ganso ou um dos muitos perebas tricolores batendo aquele pênalti com o sangue frio, coragem e precisão de Rogério, com aquele tapa com força calculada no cantinho dos cantinhos, em um lance em que o goleiro rival ainda pulou no canto certo?

Pobre Ceará, porque Rogério estava em campo, e olha que ele estava machucado, com a virilha ainda não totalmente recuperada.

Virilha que o fez perder os últimos 3 importantes jogos do São Paulo. 3 derrotas. E o locutor da ESPN cometeu a bobagem de dizer que “por coincidência o Rogério não jogou nesses 3 jogos”. Coincidência coisa nenhuma! Sem Rogério o São Paulo fica infinitamente inferior, isso é claríssimo.

A “coincidência” acabou na noite de 4ª feira. Acabou na raça, alma e amor de quem, como ele mesmo afirmou depois do jogo, só foi a campo porque “precisava ir”.

Porque o Seu São Paulo precisava dele.

Porque mitos jogam e lutam no sacrifício, mesmo se são tão valentes que não acreditam estar se sacrificando.

Por isso foi tão bela e arrepiante a resposta de Rogério ao repórter que o entrevistou ao final de mais uma missão milagrosa de um dos maiores goleiros e artilheiros que o mundo conheceu:

– Jogou no sacrifício, Rogério?

– Não, é sempre um prazer jogar pelo São Paulo.

O samba guerreiro da vida

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samba

Depois do arrebatador Intocáveis, a dupla de diretores franceses Eric Toledano e Olivier Nakache brilha de novo com Samba, explorando sem apelação outro grave drama humano, agora a imigração ilegal. Em mais uma monumental interpretação de Omar Sy – o mesmo protagonista de Intocáveis – podemos sentir na pele todo o medo, derrotas, esperança e coragem de lutar do imigrante senegalês Samba Cissé. Desde a espetacular cena-sequência de abertura, mergulhamos na tensão e segregação de ser um imigrante clandestino na França, mesmo já trabalhando há 10 anos no país.

Quais as armas de Samba para sobreviver na dura terra prometida europeia que buscou para fugir da miséria africana? Sua entrega para se relacionar com os outros e uma alegria contagiante, um jeito de ser e batalhar com um sorriso no canto do rosto que honra o nome de batismo que ganhou em homenagem ao povo brasileiro.

Além do iluminado Samba, o personagem de outro imigrante, Wilson, que se faz passar por brasileiro, presta outra homenagem aos brasileiros da classes mais baixas, que enfrentam qualquer trabalho pesado e sina sem lamentos, sem perder o bom humor. De quebra ele ainda exerce a velha arte brazuca de seduzir as mulheres enquanto dança. Mero estereótipo para alguns críticos, essa atitude de dançarino Don Juan é suavizada com leveza e graça, embalada com música brasileira pra levantar o astral do mais derrubado dos seres. Tome então Gilberto Gil e Jorge Bem na trilha sonora, como a deliciosa Take it easy my brother e sua sabedoria de bem lutar e viver.

Samba e seu companheiro de diversos bicos pelas camadas mais baixas da escala produtiva semeiam sabedoria de viver. Correm todo tipo de perigo – podem ser presos ou deportados a qualquer momento – mas não deixam de sacanear um ao outro, tirando sarro de suas dificuldades em trabalhos infernais e relacionamentos quase impossíveis com as raras mulheres francesas que se interessam por seus dramas e corações.

Mulheres como uma executiva machucada por um casamento arruinado e um trabalho exaustivo demais que a faz surtar e ser obrigada a se afastar. Aqui temos outra grande atuação, de um quase mito do cinema francês, a tão delicada quanto profunda Charlotte Gainsbourg, mestra do olhar e dos pequenos gestos reveladores.

Mulheres como as jovens, senhoras e velhinhas de uma ONG que procuram conseguir os documentos que os imigrantes precisam e, mais que isso, se dispõem a algo vital: escutar seus dramas-desabafos. O cinema é pródigo em temáticas como essa, de seres mais humanos que a média do típico homem moderno egoísta, mas as mulheres da ONG deste filme animam o coração dos que ainda acreditam em um mundo melhor. Acalantam nosso coração como se fossem as deliciosas e dançantes canções que embalam a confraternização das voluntárias com os imigrantes em uma festa inesquecível como um clássico de Bob Marley que faz o pessoal soltar o corpo e a alma na pista.

Quem ainda acredita que o cinema pode ser mais que mera fantasia escapista ou entretenimento não pode perder esse filme, que produz o mesmo efeito catártico dos pequenos dramas cotidianos tão bem explorados pelo cinema argentino: em uma cena rimos e flutuamos; na próxima os olhos ficam cheios e o coração apertado. Sonhamos e sorrimos com as esperanças e raça dos imigrantes e logo sentimos uma pontada lá dentro e nos revoltamos com suas quedas e perseguição de um mundo cada vez mais intolerante e xenofóbico.

Graças que há Samba, o homem e a música que tão bem o representa, assim como seu amigo de batalhas pelos serviços que nenhuma francês quer fazer, nas profundezas da separação do lixo às alturas arriscadas de limpar vidros em prédios altíssimos.

Graças que há quem tente protegê-los e reerguê-los contra a frieza do Estado e violência da intolerância.

Graças que o amor e a alegria, algumas vezes, podem mais que o preconceito e o ódio.


11/4/2001 – 8/4/2015

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capitu3

A amiga mais fiel e presente que tive na vida. A amiga vital dos piores anos de minha vida, os dez anos sozinho, triste, cabeça baixa, ânimo no chão. O anjo que veio ao mundo justo no primeiro dos anos mais duros. O anjo que ficava horas comigo em um raro refúgio que tinha em São Paulo, a Praça. Mesmo quando eu ia pro banco da praça, ela ficava sentadinha na minha frente enquanto eu fazia exercícios. Exercícios que eu precisava sempre dar uma parada porque ela começava a botar sua patinha em mim e tentar me lamber. Quando eu sentava, mais pra baixo que a canção dos Beatles na voz de Eddie Vedder (You´ve got to hide your love away), ela entendia e ficava paradinha, sentada também, quietinha feito um totem, feito o anjo que era. Quietinha e sem a impaciência típica da maioria dos cachorros, pois se eu virasse a noite sentado ali ela iria permanecer ao meu lado, uma Hachi brasileira em forma de dálmata e fêmea.

Ao meu lado ela ficou também anos e anos deitada na poltrona em frente à televisão, a televisão a que assisti na esmagadora maioria de finais de semana desses dez anos.

capitu cabecinha

Nunca houve uma Capitu como ela, nem a doce e valente personagem de novela feita por Giovana Antonelli que lhe emprestou o nome, muito menos a musa dissimulada de Machado.

Já tive amigas incríveis humanas, daquelas de emocionar a gente com gestos, palavras e simples olhares de entendimento e acolhimento, mas o tempo é implacável na vida dos seres humanos. Os rumos diferentes afastam e as relações mais bonitas e profundas perdem-se nas brumas do tempo. Viraram passado e saudade infelizmente. Diferente foi minha parceira inseparável, companheira do peito, versão em quatro patas e de alma feminina dos brothers de peito que têm os surfistas.

Capitu sempre esteve lá, na verdade aqui dentro, em cada dia dos seus 14 anos quase justos.

A cachorra mais carinhosa que já tive, que podia também ficar horas paradinha recebendo um carinho, de pé, sentada ou deitada ao meu lado.

A cachorra que, infelizmente, foi a que levou a vida mais dura. A diabetes a pegou na metade da vida e logo levou sua visão. Uma meia engolida (a bichinha adorava pegar na boca tudo quanto é par) quase a matou nessa época mas, valente, venceu a grave infecção e a cirurgia e ficou boa. Antes disso uma pequena falha de movimento nas patas traseiras levaram embora também sua alegria e capacidade de correr ao meu lado. O pior veio há cerca de um ano e meio, quando a coluna a atacou. No começo a acupuntura a colocou de pé de novo, mas há cerca de um ano Capitu não conseguia mais levantar sozinha, as patas traseiras não respondiam mais.

A valentia e garra extraordinária a faziam andar devagarzinho depois de levantá-la mas havia ainda um tumor na mama e o que a incomodava demais a partir de então: ela, que sempre se lambia para ficar mais limpa feito gato, não teve remédio senão fazer suas necessidades deitada mesmo quando eu não conseguia acudir a tempo. Sim, a limpeza diária era extenuante mas aquela carinha feliz tranquila depois, já limpa e deitadinha, valiam todo o esforço diário do seu amigo. Mas aí o tumor cresceu demais nesse último mês, até que abriu esta semana e a doença se espalhou, levando o resto dos movimentos e a respiração.

Só quem já teve uma amiga ou amigo assim sabe o que é ter que se despedir da alma mais pura que conheceu na vida (sim, eles têm alma para a gente).

O vazio agora é enorme, agravado por Capitu ser a última de uma família que esteve comigo e com minha família nas últimas três décadas. Neta da lendária Duda, e filha de Babalu, foi-se a última das meninas que cuidaram de mim e estiveram sempre ao meu lado como minha mãe. Sim, a comparação não é descabida: só os cães talvez tenham um amor tão puro e incondicional como o da maioria das mães.

14 anos, puta merda, como ficar sem o amparo-coração-carinho-amor da minha melhor amiga?

O único consolo é saber que fiz tudo que podia e doei o tempo que tinha e não tinha para cuidar da menina de minha vida com o mesmo amor e cuidado que ela me transmitia.

Descanse em paz, querida, e agora pelos menos talvez você encontre lá em cima a fantástica avó que você não conheceu, a tão companheira e doce como você, a lendária Duda.

Cuida da baixinha, por favor, Duda.

Adeus, Capitu, obrigado por me mostrar e passar o seu amor do tamanho da vida.

O moleque que nada com a água

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ogawa

No esporte e na vida, lutar, mesmo de forma incansável, muitas vezes não é suficiente para a vitória e evolução. Enquanto boa parte luta com a água a cada braçada (alguns até a espancam e esparramam jorros pra tudo quanto é lado), ele desliza, flui e avança tranquilo em alta velocidade (*).

Enquanto outros se matam para avançar, ele avança como um fenômeno da natureza. Silencioso, inabalável e determinado como o rio que corre até o mar.

– Incrível como o Ogawa não faz barulho ao nadar, digo ao treinador que comanda um treino à beira da piscina.

– Ele é um dos mais técnicos mesmo, responde.

Gabriel Ogawa foi um dos alunos mais distraídos e brincalhões que já tive. Um típico japonês porra louca que compensava tarefas de redação não feitas com tiradas perfeitas que mandava lá do fundão pra animar as aulas.

Sala de aula significa paredes. Prisão de horas e horas a cada manhã. Moleque doido com espírito de passarinho e peixe, era visível seu mal estar em ficar trancado ali tanto tempo. Acho que só não pirava pelo astral e presença de espírito e por não ter nada de outra prisão que atormenta adolescentes em anos de escola: a timidez e dificuldade de se expor e se comunicar.

Sabíamos que ele era um nadador mas não botávamos fé pela formação distante da “saradona” e por não ter muita altura.

O moleque, porém, era um campeão, e diziam que dava pau na molecada de sua idade na prova mais completa da natação, o medley (nunca soube se era mais forte nos 200 ou 400 metros).

Os anos se passaram, voltei ao clube onde na juventude eu treinara sonhando em ser campeão olímpico de atletismo e um dia o reencontrei nas alamedas do clube. O mesmo jeitão leve, divertido mas com uma pitada diferente que eu não sabia identificar o que era, nem o que significava.

O tempo passou mais um pouco e o diferente percebi ser o amadurecimento e a dedicação enorme à sua natação. Ele até saíra de sua casa, no distante bairro de Santana, para morar mais perto do seu clube, no apartamento de atletas. Mais um pouco e ele deixou o apê por não aguentar mais a infantilidade de alguns nadadores. Sim, o moleque seguia com aquele bom humor do passado, mas sabia que precisava de um lugar mais tranquilo para dormir e estar bem para os treinos e treinos dos dias seguintes.

A entrega às piscinas o fez ser convocado ano passado para a seleção brasileira no Mundial Adulto no Qatar e o garoto com empenho de homem feito é uma das promessas da natação brasileira hoje.

Foi nesse quadro que o vi nadar pela primeira vez, num simples treino.

Falando em simplicidade, Ogawa tem no currículo inúmeras conquistas dos tempos de categorias de formação, até os juvenis, juniores ou sub-18 (não sei como são divididas as categorias na natação), mas jamais demonstrou a mínima marra. A marra que toma muitos jovens nadadores, a maioria proveniente de classes mais favorecidas.

Lá vem então o japonês, chegando na lanchonete do clube para um rápido lanche. Lá vem ele com seu passo manso meio preguiçoso, tranquilão, e com aquele sorriso malandro de sempre e a mesma tirada sacana de sempre ao ver seu velho professor trabalhando no computador, “sai do Facebook”.

Mas lá vai ele também lembrar que o esporte não é tudo. Depois de ser sacaneado na universidade que não lhe deixava repor provas quando viajava para competir, ele vai recomeçar seu curso de games (sim, em curso superior!) em outra instituição.

Lá vai o japonês mais brasileiro que conheço, e talvez esse seja seu segredo além da técnica apurada nas raias: a simbiose entre a disciplina oriental e o astral inabalável de um brazuca legítimo que talvez signifique calma e frieza na pressão das competições.

Lá vai então o japonês mergulhar na piscina na hora do tiro leve como um passarinho brasileiro e focado como um Daniel San treinado pelo Senhor Myagi.

Vai pra cima, ziriguidun de olhos puxados e busca suas medalhas no duro tatame azul da natação adulta!

PS* – Claro que na hora dos tiros e da competição, ele deve espalhar água também pois as provas exigem também explosão, mas aposto que faz isso com um desperdício de energia menor que o da maioria.